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sábado, 17 de novembro de 2018

ANTÓNIO RAMOS ROSA - Faro, 17 de Outubro de 1924 – Lisboa, 23 de Setembro de 2013 – Se Recordando a memória e os bons momentos de convívio com o amigo e grande poeta português


Jorge Trabulo Marques - Jornalista, investigador e foto-jornalista

ANTÓNIO RAMOS ROSA  EM MEMÓRIA DE UM GRANDE POETA DA LÍNGUA PORTUGUESA - QUE HOJE COMPLETARIA 94 ANOS - DEU-ME A HONRA E O PRAZER DE SER SEU AMIGO Com cerca de 100 livros publicados - António Ramos Rosa - Ao Bom Amigo e Poeta da Intima e transcendente Claridade - 17 de Novembro de 1924 – 23 de Setembro de 2013





O teu fulgor soa alto sobre o pulso do silêncio
És uma palavra, uma única palavra
ardentíssima no centro do espaço.
É por ti que não cedo sobre as sombras
e cresço para devolver a água do bosque
do teu nome de fogo e de veludo.
Fora do íman da névoa, em grandes blocos de ar,
estendes a tua dança incandescente
e as tuas veias vibram entreabrindo a noite.
Leve e musical no teu barco redondo,
crias a ordem livre das constelações
e, gracioso veleiro, adormeces nas ondas
do teu peito de estrelas cintilantes.

António Ramos Rosa
In DEZASSETE POEMAS 1992



Aqui é um lugar neutro o lugar nu. O lugar livre
O lugar incandescente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
E por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá" 

 - António Ramos Rosa








INSITUÁVEL LUGAR
Um oblíquo solo
adormecido iluminado

Confiança na lentidão para um desvio
e uma aliança no intacto
Canais inextricáveis
em todos os sentidos Nenhum
centro mas
estigmas eflúvios sussurros
sombras de animais furtivos
o bafo germinal o negro
do interdito corpo

Insituável lugar cintilações
de um jogo Como
iniciar a espiral para além do magma?
Desenrola-se sobre os resíduos sob o vento
uma espécie de
animal ou fábula ou deus pequeno
Sombras resvalam o Amarelo
Contém o negro As veias traçam
o contorno de uma palavras de pedra
Nenhuma semelhança a folhagem opaca
Um caminho nocturno principia
para a presença talvez de uma figura
Conivência de sangue com o ar
quando nasce uma folha um sol
quando o deslumbramento da ferida
fogos minúsculos no mármore ascendem
tenazes ténues moléculas
ao longo de uma língua de sombra e verde
um clamor se eleva  no limiar
de uma profunda câmara
de frescura
a linguagem confunde-se com a nascente
e clara boca abre-se ao esquecimento

 ANTÓNIO RAMOS ROSA – IN DINÂMICA SUBTIL - 1984


Recebeu-me, muitas vezes, em sua casa, a título pessoal ou por razões profissionais para a Rádio Comercial - Proporcionou-me agradáveis e inesquecíveis  momentos  de convívio  e até no café onde costumava ir. Tornámo-nos  amigos e visita praticamente familiar. Datilografei-lhes e passei-lhes alguns dos seus poemas para o meu  computador - ele não o usava, nem gostava dessa palavra mas havia outras que, ouvindo-as pronunciar, podiam ser o ponto de partida para um lindo poema -  sim, confiou-me alguns manuscritos (com uma letra quase indecifrável) para os transcrever, numa altura em que, por razões de saúde, ele tinha alguma dificuldade em escrever ou em batê-los à máquina - Outros vertidos directamente para o papel, que ía escrevendo, à medida que  brotando da sua mente









Escreveu expressamente meia dúzia de poemas para um livro com fotografias de nossa autoria, com textos de Lídia Jorge, Oliveira Marques e José Andrade - A editora, a quem entregamos o espólio não tendo cumprido com os prazos, foi-lhe retirado, pelo que o livro não chegou ainda a ser editado. Ofereceu-nos vários dos seus lindos desenhos, um dos quais com a nossa imagem. Dedicou-nos um lindo poema a uma das nossas fotografias, que registamos no Monte dos Tambores e outro também às aventuras que fizemos pelos Mares do Golfo da Guine, tal como também a sua grande amiga e companheira de todos os momentos, Agripina Costa Marques, a quem expressamos o nosso sincero pesar  

Já o homenageámos, nalgumas das tradicionais celebrações nos Templos do Sol,  o genial poeta - Simples, destituído de vaidade, como, aliás, são assim os grandes génios - Também ele o era na mais bela e original expressão poética - Sem dúvida, um dos maiores do nosso tempo. Por isso mesmo, a sua morte será apenas corporal, já que as suas palavras continuarão  intemporais, como um dos mais belos Templos do Sol da Poesia Portuguesa






A Festa do Silêncio
Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde


 TRANSCENDENTAL COINCIDÊNCIA  - Prestámos-lhe singular homenagem nos tempos do Sol, na celebração do Equinócio do Outono de 22 de Setembro, véspera de sua morte , 





Recordámo-lo, no primeiro dia de Outono, num local que nos é muito querido - véspera da sua morte - com a leitura de belos poemas, - Muito perto onde se situa a Pedra dos Poetas, onde também já o havíamos homenageado  - Aqui fica pois o registo da Festa do Silêncio - Com poemas lidos por José António Maurício Lebreiro, António Lourenço e José Andrade  - Momentos luminoso que  jamais esqueceremos  - Tantos os meus amigos como o   autor destas linhas, de quem com ele teve o grato prazer de conviver - Sim, a nossa singela homenagem, quase premonitório de quem estava em vias de deixar o Outono da vida e partir rumo à eternidade da Luz - Sentimo-nos triste e já com um misto de saudade pela sua partida mas ao mesmo tempo a certeza e a consolação de que o teremos sempre presente nos seus lindos versos. A Agripina Costa Marques, sua amiga e companheira de todas as horas, um abraço fraterno do nosso sincero pesar.





OUTRAS POSTAGENS DEDICADAS AO POETA NESTE SITE 
23 DE SETEBRO – 2013  - MORREU O POETA DA FESTA DO SILÊNCIO QUE SE FEZ FELICIDADE DO AR E DA LUZ  
22 de Setembro 2013 - Festa do Silêncio" e Escrevo-te com o fogo e a água" de  António Ramos Rosa - A singela homenagem a um grande poeta  http://www.vida-e-tempos.com/2013/09/equinocio-do-outono-2013-festejado-hoje.html
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17 DE Outubro de 2010  -ANTÓNIO RAMOS ROSA, POETA DO SOL E DA FACILIDADE DO AR, PARABÉNS ! 86 JÁ CANTAM! VENHA O SÉCULO E MAIS VERSOS antónio ramos rosa, poeta do sol e da facilidade do ar, parabéns




ANTÓNIO RAMOS ROSA  - Destacado poeta e crítico português nascido em Faro em 1924. Foi militante do MUD (Movimento de União Democrática) e conheceu a prisão política. Trabalhou como tradutor e professor, tendo sido um dos directores de revistas literárias como Árvore e Cassiopeia. O seu primeiro livro de poesia, O Grito Claro, foi publicado em 1958. A sua obra poética ultrapassa os cinquenta títulos. É ainda autor de ensaios, entre os quais se salienta A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979-1980). Em 1988 foi distinguido com o Prémio Pessoa. Faleceu em setembro de 2013. https://www.wook.pt/autor/antonio-ramos-rosa/4108

António Ramos Rosa estudou em Faro, não tendo acabado o ensino secundário por questões de saúde[1]. Em 1958 publica no jornal «A Voz de Loulé» o poema "Os dias, sem matéria". No mesmo ano sai o seu primeiro livro «O Grito Claro», n.º 1 da colecção de poesia «A Palavra», editada em Faro e dirigida pelo seu amigo e também poeta Casimiro de Brito. Ainda nesse ano inicia a publicação da revista «Cadernos do Meio-Dia», que em 1960 encerra a edição por ordem da polícia política. https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Ramos_Rosa