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sábado, 16 de novembro de 2019

Perdido no Golfo da Guiné - 27º dia. Passei uma noite muito chuvosa! Quase sempre acordado!..para tirar água...Estou molhado, todo alagado!..

27ª dia no Golfo da Guiné numa piroga  -  Assei o tubarão com álcool... Deitei-lhe um bocado de álcool e realmente o processo resultou em pleno. Foi pena não me ter lembrado há mais tempo.. 

Algures no Golfo da Guiné, 16 de Novembro de 1975 - Há 44 anos 


A minha cozinha


27º Dia - No mar nunca se podem fazer cálculos seguros!....Quem manda é o mar! ...É o vento!...São as correntes!...Essas forças é que determinam... Nada se pode fazer contra elas... A menos que se disponha de uma boa embarcação. .Caso contrário, é-se o que as correntes e os ventos quiserem e determinarem
Diário de Bordo - Assei o tubarão com álcool...Foi com um bocado de álcool. Deitei-lhe um bocado de álcool e realmente o processo resultou em pleno. Foi pena não me ter lembrado há mais tempo..


-É já manhã do 27º dia. Passei uma noite muito chuvosa! Quase sempre acordado!..para tirar água...Estou molhado, todo alagado!....Esta manhã está serena. O mar calmo. O céu praticamente descoberto. ...Já tive aqui a visita do perigoso tubarão que investiu logo contra a minha canoa! Dei-lhe uma machinada! e foi-se embora!...
Os ataques de perigosos tubarões gigantes, era uma constante  - O registo de um deles.



Diário de Bordo - Entretanto, já chegaram os martelos...Vejo aqui dois tubarões martelo e fiquei mais descansado. Para dar uma ideia do que o tubarão martelo, para já eu não tenho muito que dizer deles...Mas parecem autênticos jacarés! O aspeto deles é de autênticos jacarés pré-históricos!...Com um cabo de martelo na cabeça. No entanto, não parecem ser os mais perigosos! Pelo menos não têm investido....Andam aqui às voltas da canoa, nunca investiram contra a canoa. Os escuros é que realmente são mais perigosos!...


Vi,  a sudeste, contornos, muito ao longe!...Bastante afastados, a largas milhas daqui...Aliás, estou a ver novamente contornos de terra!...Mas eu penso que não devo estar muito longe. Porque, efetivamente, têm havido uma série de trovoadas e ventos dominantes a arrastarem-me para norte e nordeste....Tenho aqui água doce (das chuvas), Já não tenho é comida....Vou tentar pescar para comer qualquer coisa.

Devem ser aí umas 8 horas da manhã do 27º dia. Há uma calmaria absoluta!...Não há vento. O mar mantém-se sereno!...Praticamente sem ondulação nenhuma. O céu descoberto...Entretanto,  começa a sentir-se calor...Não sei até quando durará isto....
Diário de Bordo 3-Hoje apenas vi dois tubarões martelo...Realmente, tenho dificuldades em pescar. Há aqui uma espécie de peixes, a que eu chamo parasitas!...Estão aqui debaixo da canoa....Sempre à coca das conchazitas que nascem (no bojo e nos costados da canoa) e de qualquer coisa que ali nasça... Mal deito o anzol, vão logo comer a isca e não há maneira  de lá ficarem no anzol... Claro que o anzol é grande demais para eles. E comem-me a isca de uma maneira incrível!
A LEMBRANÇA DOS ALIMENTOS (DAS CONSERVAS) QUE ATIREI BORDA FORA NAQUELA NOITE  TEMPESTUOSA (A PRIMEIRA) EM QUE FUI ATINGIDO POR UM VIOLENTO TORNADO, ERA AGORA A OBSESSIVA –  LEMBRANÇA DOS ALIMENTOS (DAS CONSERVAS) QUE ATIREI BORDO FORA

A 1ª noite do imenso pesadeo
Com a canoa alagada, devido a uma vaga que  a galgara, e, receando que se voltasse ou fosse ao fundo, alijei-me de muitas das minhas coisas – Umas por precipitação, outras arrastadas pela fúria da onda. Sim, estava agora à deriva sobre  um imenso lago. Pesava sobre mim e por toda a superfície do mar, que se estendia a perder vista, uma grande calmaria – Por algumas horas o mar era um imenso tapete sem uma ruga – Todavia, sem nada no estômago, a minha mente fervilhava de pensamentos...Se bem que, tal como mar, sob uma  grande serenidade.

Diário de Bordo 4 -

Âncora flutuante
Ah!... Quando me lembro que atirei a comida ao mar por precipitação. cocos, comida que agora me faz tanta falta!... fico realmente ... revoltado,  contra mim!... Não há dúvida nenhuma,  que,  uma pessoa , no mar nunca se deve precipitar...Deve manter sempre a serenidade... Pode vir a trovoada que vier!...O tornado que vier!.. As dificuldades que surgirem!...Nós, as pessoas que naufragarem, que  se sentirem em tais circunstâncias,  nunca se devem descontrolar!... Nunca se devem precipitar.... Por isso mesmo eu agora  tenho fome....Porque, naquela altura, em que surgiu a tempestade, eu precipitei-me um bocado....E também não esperava  demorar tanto tempo..

No mar nunca se podem fazer cálculos seguros!...É impossível fazer cálculos seguros!...Quem manda é o mar!... É o vento!...São as correntes!...Essas forças é que determinam... Nada se pode fazer contra elas... A menos que se disponha de uma boa embarcação.... e um perfeito domínio da mesma. Caso contrário... é-se o que as correntes quiserem e os ventos quiserem e determinarem...

 O que mais me aborrece neste  momento....não é o isolamento!....Não é a solidão!...Não é este silêncio  absoluto.... que se respira em torno de mim... É pensar que, apesar de tudo, apesar de todas as contrariedades, eu podia fazer uma viagem mais agradável....se não me tivesse despojado de certas coisas que trazia...Inexplicavelmente!... Essa é a maior contrariedade...Digamos, o  maior aborrecimento que sinto neste momento...Não é a solidão!...Não, não é o isolamento que sinto em volta de mim... Nem as trovoadas que de noite me sacudiram!... Os relâmpagos que me cegavam ou o troar do ribombar do trovão, que me parecia fazer cair o negro e pesado tecto sobre mim!... Nem as chuvadas fortes! Nem o estar molhado!...Completamente num pingão!...Isso apesar de tudo não me impressionou tanto!... O que mais me desola neste momento ...é pensar  que apesar de tudo,  eu podia agora viver mais agradavelmente!...Um pouco melhor....Se  não me tivesse precipitado!...
 PARECE-LHE UM GRANDE  VELEIRO, NÃO É? - MAS É A MESMA AO LADO


Diário de Bordo 5 - Até agora o mar tem estado calmo...Começa a estar ligeiramente agitado!...Começa a sentir-se uma ligeira brisa também....Vou aproveitar para pôr  a vela, visto também já ter a impressão de ver lá longe, a nordeste, contornos de terra...Se assim for não estarei muito longe! E sou capaz de lá chegar hoje...Vou portanto fazer tudo por tudo para que isso aconteça.


Diário de Bordo 6 -Estou velejando com bastante dificuldade....Devem ser aí 3 de tarde...Há pouco tive a impressão de ter visto terra....Afinal de contas não vejo nada... e continuo a navegar com bastante dificuldade, devido haver bastante calema....Estou cheio de fome...Está um calor de matar!...É mesmo um calor bastante forte!...Sinto-me muito cansado.

Diário de Bordo 7 - Fim de tarde do 27ª dia. Pode dizer-se que já se pôs o sol. Pode dizer-se, que, em resumo, o dia esteve magnífico! Esteve uma manhã esplêndida!... E uma tarde também. De sol!... Houve calmaria. Depois o mar encrespou-se!...Agora não corre muito vento mas o mar está com bastante calema, o que não permitiu  que eu pudesse navegar muito tempo com a vela. E também por desequilibrar muito a canoa....Que tombaleia bastante...De qualquer modo pode dizer-se que o dia esteve bonito...
Como não tenho alimentos, já me utilizei do tubarão.... Acabei agora de comer um bife de tubarão... que consegui assar com um bocadinho de álcool....Estou satisfeito!...Tenho água das chuvas,  água doce.
Não vejo qualquer contorno de terra mas tenho um pressentimento que amanhã por todo o dia, devo aproximar-me... Aliás, já não deve tardar muito..
Diário de Bordo - Assei o tubarão com álcool...Foi com um bocado de álcool. Deitei-lhe um bocado de álcool e realmente o processo resultou em pleno. Foi pena não me ter lembrado há mais tempo....É capaz de chover esta noite...Não sei... Mas como está bastante vento pode não chover....Há formações de nuvens em todo o horizonte. Mas o céu a sul está limpo...De qualquer maneira, cá estaremos para o que der e vier.
Diário de Bordo 8 - Um pormenor curioso nesta tarde: li um bocado... Estive a ouvir música, deitado sobre o fundo da canoa, já que é a posição que melhor se pode ter,  que a  de pé...Eu estou muitas vezes  de pé mas é necessário um equilíbrio muito grande para não se cair ao mar...Pois a canoa balanceia  bastante...Está sempre a balancear... E é preciso cuidado.
Todas as noites vêm aqui a dormir à popa e à proa da canoa, duas aves, às vezes três, mas parece-me que são as mesmas...Uma branca e outra é preta.


Jornalista Martha de La Cal - Em memória de um dos exemplos mais notáveis da Imprensa Estrangeira em Portugal

Jorge Trabulo Marques - Jornalista



Martha De La Cal, a correspondente estrangeira mais antiga em Portugal, deixou-nos, vai para 9 anos: tenho muito gosto e boas razões para recordar a sua memória: tive o prazer de conviver com ela e com o seu marido  num passeio fluvial no Rio Tejo a  bordo do “Castro Júnior” para mostrar um novo olhar sobre a defesa de um dos mais importantes ecossistemas selvagens da Europa, com largada do cais do Parque das Nações, num dos típicos barcos amigos do ambiente para visitar as belezas naturais das margens do rio, nomeadamente os pinguins e outras aves migradoras, passeio   que eu organizei, com a imprensa estrangeira e outras personalidades, a pedido da gerência de empresa Transtroia, com a qual estabelecera relações amigas, dado  se tratar de um empresário, nascido em Trancoso, próximo do meu concelho.

Mas, antes disso, já a tinha contatado para participar numa visita aos  Templos do Sol, na celebração  do solstício  do Verão, em Junho de 2008,  com um passeio no período da manhã ao núcleo das gravuras dos Pisco e à Ervamoira  http://www.vida-e-tempos.com/2008/06/na-rota-dos-templos-do-sol-imprensa.html  Não pude participar  por razões de saúde, prometendo-me, no entanto,  que teria muito gosto em ali se deslocar, ao local, logo que lhe fosse possível  - Tal oportunidade não chegaria a concretizar-se, pois deixar-nos ia, para sempre, três anos depois.

UMA VIDA DEDICADA AO JORNALISMO – COM FRONTALIDADE E CORAGEM

"Natural dos Estados Unidos, Martha de La Cal era correspondente da revista "Time" em Portugal há mais de 40 anos: "Dos jornalistas estrangeiros que cobriram a revolução, era a única que ainda permanecia no país, do qual publicou muitos artigos, sobre as mais variadas questões. Considerada “uma referência para os jornalistas estrangeiros que vinham para Portugal, que podiam recorrer a ela sempre que tinham uma dúvida ou mesmo se tivessem algum problema pessoal", já que era psicóloga de formação, afirma o jornalista.

“Marta De La Cal "serviu como mãe de sucessivas vagas de jornalistas que vinham para Portugal", sustenta o jornalista norte-americano.
No currículo da jornalista como correspondente em Portugal fica a cobertura do 25 de Abril de 1974. "Dos jornalistas estrangeiros que cobriram a revolução, era a única que ainda permanecia no país", recorda Sandy Sloop.
O jornalista confessa que Marta vai "deixar muitas saudades": "Era uma pessoa muito viva, sempre no centro da festa https://expresso.pt/sociedade/morreu-martha-de-la-cal-a-correspondente-estrangeira-mais-antiga-em-portugal=f626089

Marta de La Cal: De Portugal para a Time
 Público  -4 de Janeiro de 2011, (…) “A mais antiga correspondente estrangeira em Portugal, a trabalhar para a revista Time, contou ao PÚBLICO como foi a sua passagem pela história recente de Portugal e como encara o presente de um país que também já considera seu, no ano em que foi eleita membro honorário da Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.
Apesar da pronúncia denunciar muito claramente a sua anglofonia. Marta de La Cal veio para Portugal sem querer, "como turista", com o marido. "Viemos em 1967...ou seria 66? Já não me lembro". E ficou: "Ainda estive cinco anos em Espanha, mas preferi Portugal. Os portugueses são uma gente simpática e pacífica".
Recusa-se a dizer a idade. A sua idade é mais ou menos a da história que já testemunhou, desde os tempos da menina do Colégio Americano em Cuba, que decidiu começar a escrever para o Times of Havana. "O editor era um soldado fidelista". Às tantas Cuba tinha de ficar para trás: "Escrevi umas coisas que o Fidel Castro não gostou. Então vim para Espanha". Ao país então dominado pelo franquismo poucas referências faz. Mesmo porque logo decidiu trocar a ditadura de Franco pela de Salazar.
ReproduzComeçou então a escrever para a McGraw-Hill World News. "Eles queriam uma jornalista. Mas o que eu lhes propus e tinha mesmo vontade de fazer era escrever um livro sobre Cuba". Não se mostraram interessados. Marta de La Cal tinha mesmo de ser jornalista. Mesmo porque havia coincidências que a empurravam sempre nesse caminho: "O correspondente deles em Portugal tinha morrido umas semanas antes e eles estavam mesmo desesperados".
A melhor parte estava para vir. Nos tempos da revolução de 1974 Marta de La Cal confessa que se divertiu muito. "No dia 25 de Abril andámos a perseguir os tanques na entrada em Lisboa. Os capitães eram muito simpáticos". E lembra como, nos dias a seguir, Otelo Saraiva de Carvalho, chegava de helicóptero à Fundação Calouste Gulbenkian, onde decorriam as conferências de imprensa, em pose de herói: "Era tão divertido", lembra entre gargalhadas, acrescentando que os correspondentes estrangeiros na altura eram mais do que os 40 que hoje estão em Portugal: "Até chegámos a fazer um jogo de futebol com o Conselho da Revolução. O Vasco Lourenço corria muito".

“Em 1972, tornou-se correspondente da "Time" em Portugal, onde viveu até à sua morte. Uma das suas filhas, Justine Collis, recordou à Lusa o que a mãe pensava dos jornalistas portugueses: "São muito generosos, estão sempre dispostos a ajudar"Excerto de .https://www.publico.pt/2011/01/14/portugal/noticia/marta-de-la-cal-de-portugal-para-a-time-1475345

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

PERDIDO NO MAR - Não tenho água potável... e, todavia, tanta água à minha volta!...Tanto espaço, tanta liberdade e tanto azul a inundar-me os olhos!.


 Algures no Golfo da Guiné, 15 de Novembro de 1975 - Há 44 anos - 26 dias a sobreviver no mar dos tornados, das calmarias e dos tubarões - Mas ainda tinha pela frente até aportar a antiga Ilha de Fernando pó, atual Biko  -

Jorge Trabulo Marques - Jornalista, investigador e navegador solitário


Sem água potável e sem comida!... Às  desoras  da noite eu ouvia a voz do vento a chamar-me e  sem cessar! Sem cessar!... E a mandar-me esperar!... Esperar!... Esperar!... Naquele turbulento e escuro mar!... Sozinho no seio das trevas mais fundas da escuríssima e medonha noite!... Á flor das vagas, a coberto dos infinitos céus!... Abandonado de todo o Mundo menos sem a Luz da Fé e da Esperança de Deus. 

Sê Integro, pacifico e verdadeiro – Mas não conivente com as injustiças … E, se não puderes seguir o exemplo e os passos daquele que se deixou matar  em nome da sua palavra, ao menos constrói o teu altar em lugar abençoado e escolhido por ti – Sê paciente mas não resignado e  não te importes de levar com persistente tenacidade a cruz que terás de levar até ao fim da tua vida. Pois este mundo é apenas uma mera passagem veloz e fugaz

PERDIDO NO MAR - Não tenho água potável... e, todavia, tanta água à minha volta!...Tanto espaço, tanta liberdade e tanto azul a inundar-me os olhos!...Tanta coisa em excesso e tanta coisa em falta!... – Que suplício!... Que tormento mais duro, meu Deus!... Até quando?!....
A pouca água do mar
que bebo aos golinhos de vez em quando,
em vez de matar-me a sede,
ainda mais agrava o meu mal-estar
e torna muito penosa, demasiado penosa,
talvez mesmo impossível, a minha sobrevivência!...
Mesmo assim, não me sinto desanimado!...
E vou lutando com os precários meios que disponho
e conforme posso... Mas já não chove há uns dias!...

Pela primeira vez na minha vida masquei
uma lasquinha de madeira como um chiclete!...
Arranquei-a da borda da canoa...
Tinha a garganta tão queimada e a boca
já tão ressequida e os meus lábios tão secos,
que a sede se me tornava já um suplício insuportável!...
E, com o sol tão intenso, até parecia que o desespero
começava a tomar conta de mim!...
Com a sua frescura, consegui aliviar
um pouco o meu tormento!...- Mas é cruel!
É terrível a sede!... – E nenhuma nuvem no céu!!..
Até este ar quente já me sufoca!...
Tenho que voltar a beber mais uns golinhos de água do mar...
A ver se aguento...

Oxalá venha uma grande chuvada!...
Mas geralmente surge quando menos se deseja
e quase sempre antecedida de fortes ventanias
e agitação das águas!... – É assim o tempo
nesta região do oceano!... – Podres calmarias...
que até parecem eternidades por tão prolongadas e mortas!...
Logo seguidas de grandes tempestades que, de tão rápidas
e enfurecidas, parecem destruir tudo à sua à sua passagem....

Não tenho água potável... e, todavia, tanta água à minha volta!...
Tanto espaço, tanta liberdade e tanto azul a inundar-me os olhos!...
Tanta coisa em excesso e tanta coisa em falta!... – Que suplício!...
Que tormento mais duro, meu Deus!... Até quando
?!.

Excerto do poema SÓ A VOZ DO MAR.. 
 
Peregrino da Luz, da Terra e dos Mares



Algures no Golfo da Guiné, 15 de Novembro de 1975







Diário de Bordo  - 1  É manhã do 26ª dia que viajo numa canoa. Passei uma noite quase sempre acordado. Havia ameaças por todo o lado. Travejou mas na canoa não choveu. Eu precisava que chovesse.




Esta manhã ainda se apresenta bastante cinzenta, com nuvens espessas no horizonte. O mar muito cavado, com bastante carneirada! Muito agitado!...Continuo sem ver quaisquer contornos de terra...Não tenho comida e não tenho água senão do mar.



Entretanto, vou ver se pesco mais qualquer coisa.... Não tenho outro recurso senão pescar. Quanto ao facto de beber água salgada, sinceramente, já há quatro dias que o faço e  o estômago já não está lá muito bem!...Sinto dores  de cabeça. Tenho assim umas certas perturbações... Efetivamente, pode beber-se água do mar mas durante um determinado período de tempo.



Diário de Bordo  - 2  São 10 horas da manhã. O mar apresenta-se bastante azul mas muito cavado! Com vagas bastante fortes!... Está com aspeto bonito, as vagas muito azuis e brilhantes, mas está ao mesmo tempo perigoso, na medida em que provoca na minha canoa movimentos desencontrados... E, por vezes, chega a galgar o próprio interior da canoa.



(imagem fotográfica da popa da canoa e do caixote de plástico, onde pude guardar a máquina fotográfica e um gravador, com o qual fiz o registo do meu diário - as partes arrancadas, foram utilizadas para construção de um remo improvisado - Na imagem de cima, registada com uma das mãos, estou bebendo golos de água salgada)



Diário de Bordo Desde ontem que deixei de ver os tubarões, os meus fiéis companheiros, digamos, assim, tubarões martelo. E a verdade é que hoje já tive aqui a visita de um tubarão dos escuros!, que é o voraz que costuma atacar a canoa e que andou aqui às voltas. Um tubarão muito grande! Um tubarão gigante!...Realmente, não sei porque é que os outros deixaram de aparecer...Espero não vir a ter problemas com estes.

Não posso colocar qualquer vela neste momento, é demasiado perigoso!...É preferível deixar a canoa andar à deriva, apesar, de, enfim, ser muito arriscado...De qualquer maneira prefiro ir assim, até porque não tenho perfeito domínio da minha canoa, visto não ter leme e o remo principal.


Já choveu aqui na zona, próximo!...Aqui apenas chegaram umas pequenas gotículas... Trovejou mas nem sempre quando troveja chove em toda a parte do mar.... O mar está fortemente agitado!, devido às trovoadas que se desencadearam  noutras   partes...Noutros lugares.... Não consigo ver qualquer sinal de terra. Deixei  completamente de ver a Ilha de Fernando Pó (Bioko)...Farto-me de mirar  o horizonte para noroeste, mas não há qualquer sinal.

 Não tenho comida. Água também não tenho. Estou a beber água do mar. Sinto-me um bocado fraco...Vou suportando, com um bocado de paciência até ver... Já estive à pesca mas não pesquei nada...Continuo aqui com o tubarão... Já ontem aproveitei um bocado dele mas hoje já tem um aspeto um bocado deteriorado...Vamos lá a ver...Vou conservá-lo de qualquer maneira. Pois, se não pescar outra coisa, vou aproveitá-lo...Fome é que não hei-de passar... Enfim, alguma hei-de passar mas guardo-o até ver....


A canoa continua a meter água da parte da carlinga...Não sei porquê... Continua a meter cada vez mais água; isso preocupa-me imenso, porque, realmente, não sei até que ponto  se pode manter ou agravar.



 Diário de Bordo  - 3 São 3 ou 4 horas da tarde. Direi que o mar continua muito agitado, bastante mesmo agitado!...É quase difícil equilibrar-me na canoa... As trovoadas ameaçam de todos os lados!... Devem estar muito próximas... Devo ser atingido, dentro de pouco tempo por alguma trovoada...Ainda não vi terra... Tenho fome. Sede também,  porque ainda não choveu... Deve chover daqui a pouco, com certeza.... A situação é bastante incerta!... O mar bastante agitado e difícil. A canoa continua a meter água!... Realmente, é preciso ter uma moral e uma confiança muito grande! Para conseguir levar a bom termo a minha empresa....Os tubarões martelo já apareceram! Vi dois ou três.



 Aliás, eu esta tarde coloquei um bocado a vela mas tive que a tirar porque era impossível continuar a velejar!... A canoa ameaçava virar-se a todo o momento.... Eu não tenho leme ( nem remo adequado) e tive que deixar-me andar de novo à deriva! À mercê das vagas e daquilo que elas quiserem fazer de mim.



Diário de Bordo  - 4 Devem ser cerca das 5 horas da tarde do 26º dia. Finalmente, surgiu uma chuvada!...Não direi uma trovoada, embora o mar esteja bastante agitado mas não houve muito vento...Choveu bastante!...Consegui arranjar aí uns seis ou sete litros de água!...Portanto estou satisfeito!...Já tenho água doce...Aliás, tinha aqui uns produtos químicos que me foram oferecidos  pelo Sr. Dr. Epifâneo da Franca, em São Tomé, os quais adicionei para fazer água doce. A água das chuvas é água destilada, é água pobre. Consegui, portanto, arranjar água doce!... Estou mais satisfeito, porque com água potável é possível sobreviver  durante mais tempo...Muitos dias!...Quer dizer, sem água não é possível sobreviver muito tempo. Sem comida é que se pode sobreviver mais dias....Portanto, eu tendo água posso sobreviver à vontade, aliás, eu vou pescar...Ainda tenho o tubarão, o qual vou comer cru; não tenho outra hipótese...



O fim de tarde está brusco, o mar está muito cinzento. Está agitado, com certeza. Cheio de carneirada (de lembrar que o sol, nestas regiões equatoriais, nasce e põe-se à mesma hora - às 05.30;17.30) A trovoada já passou. Aliás, apareceram duas chuvadas, uma vinda do sul, outra vinda do norte. Os ventos dominantes continuam a sentir-se para nordeste, o que facilita bastante...Estas trovoadas agitam bastante o mar, pois dão mais velocidade à canoa...Espero que não esteja já muito afastado...Aliás, não sei porque é que, depois de ter visto Fernando Pó, esteja a demorar tanto tempo em relação ao que demorei desde lá de baixo (da Ilha de Ano Bom, onde fui largado). Já estou mais satisfeito, estou mais otimista!..Vamos ver como é que vou passar a noite...



Agora não desejo a chuva...Enfim, quero passar uma noite agradável... Está molinhando ainda mas isso há-de passar . Porque, o mar, aqui,  quando vem uma trovoada, fica muito agitado, mas um bocado depois já está calmo...



Ainda não há qualquer vislumbre  de vestígio de terra !... Mas... eu não devo estar  longe, com certeza....Estou animado, sinto-me mais satisfeito!... Há bocado, estava  um bocado aborrecido porque não tinha água!... Estava a beber água do mar, água salgada, claro. Também não tenho comida. A comida que disponho é só do tubarão (já estragado) mas lá me hei-de remediar...



Continuo a ver aqui debaixo da canoa, uma barracuda. As barracudas também são perigosas!.... (Barracuda).Os tais tubarões martelo, desopilaram; não sei para onde é que foram...Portanto, é tudo por agora.

  
Diário de Bordo  - 5 Aliás, poderei dizer que a canoa está toda molhada, encharcada mas o que me continua a preocupar é a entrada da água pela carlinga (o buraco onde assenta o mastro), visto os pregos terem atingido o fundo. Portanto, a madeira foi apodrecendo e a água continua a entrar. Mas espero que aguente até chegar a terra.

 Mar sonoro

"Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim.
A tua beleza aumenta quando estamos sós
E tão fundo intimamente a tua voz
Segue o mais secreto bailar do meu sonho.
Que momentos há em que eu suponho
Seres um milagre criado só para mim."

Sophia de Mello Breyner Andresen
   

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Algures no Golfo da Guiné, 14 de Novembro de 1975 - 25º dia. Estou cheio de sede e de fome. Não tenho praticamente água. A água que disponho, aí meio litro, é quase toda do mar. (...) Tomei há pouco uns comprimidos, umas vitaminas, por isso tenho o estômago a saber a comprimidos...É bastante chato... (..) Quanto à costa de África, tenho tido apenas ilusões, ilusões!... Ilusões de terra!...

Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Investigador e navegador solitário - Esta minha experiência marítima tenho estado a editá-la noutro meu site, em Odisseias Nos Mares, porém, para os leitores de Templos do Sol, que a desconheçam, aproveito par aqui editar algumas postagens - Ocorreu há 44 anos -  Hoje completaria 25 dias a bordo de uma piroga de S. Tomé, mas ainda tinha pela frente mais 13 longos e tormentosos dias, até aportar numa remota baía da Ilha de Bioko, ex-Fernando Pó, onde começaria outro tormento numa sinistra prisão por ter sido tomado como espião.


Diário de Bordo  - 1 Diário de Bordo - É manhã do dia 25 que viajo na minha canoa...De noite não dormi muito. Pois estive quase sempre acordado...O mar esteve bastante agitado, aliás, continua com uma ondulação muito forte e um vento dominante de sul-norte.. 

Eu acredito que agora vá ter a terra, uma vez que voltei a sentir os ventos dominantes... Aquela fase das trovoadas, dá-me a impressão que já deve estar ultrapassada...Não sei, mas deve de ter sido a fase de lua-cheia; o quarto-crescente é que me deu esses trabalhos todos. Por isso, vou pôr já imediatamente a vela a ver se adianto mais um bocado. Porque, realmente, a canoa assim já se desloca muito bem. Ela durante a noite deve ter sido muito arrastada...Vê-se que há muita calema!... Esta calema arrasta-a também . Arrasta-a, exatamente, com as correntes.




Diário de Bordo 1 - Olhando para o horizonte, não descortino ainda a terra, nem vejo a Ilha de Fernando Pó. Não vejo absolutamente quaisquer vestígios de terra. Mas tenho um pressentimento de que não devo estar  muito longe, até porque, o andamento que tem estado a ter, devido à força das vagas, é possível que não esteja muito longe de terra... Estou preocupado um bocadinho, porque a canoa continua a meter água pela carlinga, pois os pregos (onde encaixava a vara do mastro) atingiram o fundo. Por outro lado, notam-se algumas fraturas e podem realmente de um momento para o outro provocar roturas maiores...oxalá que não. Que isso não me aconteça... 

Diário de Bordo  - 2  Já é quase  meio-dia. Estou já a velejar com a vela grande. O mar tem estado ligeiramente ondulado. Corre uma certa brisa mas ainda é bastante fraca...Sinto-me muito cansado, cheio de sede, tenho pouca água e pouca comida!... A água que tenho, a maior parte é  água salgada, (misturada com a das chuvas) pois entretanto não choveu... e eu estou sem água.

Está um calor de morrer !.. Transpiro por todos os poros.... Está realmente bastante calor. Bastante!... Apetecia-me agora um banho de água fresca , mas tal não é possível neste mar.

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Na imagem ao lado, o meu baú (um caixote do lixo onde guardava o gravador, com que registava o meu diário de bordo) e  o remo improvisado, com um pau e alguns pedaços arrancados à pequena cobertura dos bordos, que tivera de construir devido à perda do remo da canoa, que o  tornado da primeira noite me  havia levado 


Diário de Bordo  - 3  São neste momento, cerca das duas da tarde do 25º dia. Estou cheio de sede e de fome. Não tenho praticamente água. A água que disponho, aí meio litro, é quase toda do mar. Os recursos alimentares estão reduzidos a 50 gramas de farinha, se tanto!... Enfim... Quanto às perspetivas da terra, não sei!... Vejo agora a água do mar mais clarinha...Está uma brisa agradável. O céu está praticamente descoberto, é o que posso adiantar neste momento.

Aliás, posso dizer que de manhã velejei algumas horas, depois surgiu muito calor. Entretanto, tirei a vela, porque o vento desandou. Deitei-me um bocado na canoa a descansar  para evitar o calor.... Agora voltou a fazer um bocadinho  de fresco e voltei a colocar a vela. E, realmente, a canoa está a dar um andamento bastante agradável.

Diário de Bordo  -  São neste momento, aí uma duas e meia ou três da tarde. Tenho cá um pressentimento que a cor da água , um azul muito clarinho! já demonstra eu não estar num mar de muitas profundidades. Dá a impressão que não devo estar muito afastado de terra. Só vejo nuvens no horizonte, mas a água está realmente de um azul muito claro. Pode dar a entender que esteja próximo...Veremos... 

Diário de Bordo  - 5  Devem ser quatro horas da tarde. Continuo a velejar com uma certa dificuldade, pois o remo (improvisado) não me ajuda nada. Um pormenor curioso! é que as correntes se alteraram. Agora apresentam-se para noroeste e não para norte.

Visto estar cheio de sede, tomei há pouco uns comprimidos, umas vitaminas, por isso tenho o estômago a saber a comprimidos...É bastante chato... Enfim, vai-se aguentando... Pode ser que não seja por muito tempo... Tenho  aqui  ainda o tubarão...O outro já o deitei fora. E se não prestar vou pescar, com certeza, pois é a única solução que tenho.






Diário de Bordo  - 6  Há pouco disse que as correntes corriam para noroeste, mas não; é para nordeste. Portanto, têm um sentido completamente diferente. Antes, corriam para Norte, agora correm nitidamente para nordeste, o que dificulta, não só o domínio da canoa, como também porque vou levar mais tempo - (Sim, porque a canoa ia adernada num dos bordos)

Diário de Bordo  - 7  É já noite do 25º dia. A tarde manteve-se com bastante sol! O mar com alguma calema e com vento relativamente forte mas permitiu a colocação da vela. Velejei um bocado. É claro, com muitas dificuldades, visto não ter o leme (que lhe havia adaptado), mas sim um remo improvisado.

Já se me acabou a comida. Tenho dois nacos de chouriço que guardo religiosamente  para as iscas, para pescar. Água não disponho senão de água do mar, pois hoje não choveu. Acabo agora de comer um bocado de tubarão que consegui cozer com muita ginástica à custa de uma vela. O tubarão que tenho vou guardá-lo e vou ver se pesco  outro.

O mar neste momento está bastante agitado, está com uma ondulação bastante forte. O vento não é muito mas o mar está bastante forte. O céu não se apresenta totalmente encoberto mas há formações de nuvens a norte, formações de trovoada...Espero que não venham ao meu encontro, visto, nesta altura, o vento ser preponderante  do sul para norte...Há outras formações para outro lado, mas espero no entanto que não me atinjam... De qualquer maneira, já desejo um bocado de água das chuvas, visto já não a possuir.


O luar!... Temos quase a lua-cheia!... Mas tenuemente, pois está encoberta por  algumas nuvens...Mais uma noite que passo, com dificuldades, mas, enfim...Quanto à costa de África, não consegui vislumbrar nada. Tenho tido apenas ilusões, ilusões!... Ilusões de terra!... A água, vejo-a mais transparente mas isso é da claridade do luar... Apenas ilusões e mais nada!... Não devo estar longe, com certeza!...Estou a demorar mas tempo de Fernando Pó para a Nigéria  - e aqui tão perto da costa africana - que do Príncipe para Fernando Pó - sim, quando avistei estas ilhas
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Sinto neste momento necessidade de beber água do mar; embora seja muito desagradável e não mata totalmente a sede... Verifica-se agora uma certa fraqueza em mim... Espero fazer face a estas dificuldades.
Bebendo água do mar

Ó MAR ALTO SEM TER FUNDO - VIVER BEM PERTO DO CÉU E ANDAR BEM LONGE DO MUNDO - Zeca Afonso