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terça-feira, 10 de junho de 2008

HOMENAGEM AO POETA FERNANDO ASSIS PACHECO - APÓS A CELEBRAÇÃO DO SOLSTÍCIO 2005 E 2006














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COMO FOI QUE FERNANDO ASSIS PACHECO SE DESLOCOU AO LUGAR DOS TAMBORES

Foi em Outubro de 1995. Estava-se em plena polémica das gravuras. Encontrei-o a meio da tarde desse dia, em Foz Côa, e já de regresso do Vale do Côa, para onde fora destacado, em reportagem, pela revista Visão. Embora visivelmente cansado da jornada, saudou-me com um ar de muita satisfação e alegria, parecendo não dar por perdido o esforço da sua missão, cujo contentamento acentuou ainda mais quando me perguntou se eu era daqui. Respondi-lhe que era natural de uma aldeia que também tinha bonitas gravuras, no seu termo, as da Quinta da Barca, junto ao Côa, e uma fragas muito curiosas, nas proximidades, que gostaria que visitasse.





SÓ UMA DAS PEDRAS ERA CONHECIDA - A PEDRA DA CABELEIRA - QUE ELE VISITOU - MAS LONGE DE SE SABER QUE ERA ATRAVESSADA PELO SOL NO EQUINÓCIO.


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.E foi então que, acendendo amavelmente ao meu convite, surgiu a oportunidade de se deslocar, com o repórter fotográfico, José Oliveira, até à Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora, bem como a outros locais da área, que o deixariam verdadeiramente encantado, tendo mesmo prometido ali voltar! – E longe ainda de se saber que existiam os tais fenómenos solares, que, mais tarde, eu pessoalmente haveria de descobrir E muito menos de se imaginar que esta seria a sua despedida para sempre?



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JÁ SE HAVIA POSTO O SOL QUANDO DALI SAÍAMOS - e também já estava a fazer-se demasiado tarde para a longa viagem que tinham pela frente, até Lisboa. Ao vê-lo tão feliz , quando descíamos do alto do Castro do Curral da Pedra, onde se avista uma panorâmica, de raro alcance e beleza, e ao passarmos junto a uma pedra que parecia quase um pequeno altar, disse-lhe: Olha, Fernando! Já que vais tão contente, sobe para aquela pedra e agradece ali aos deuses que aqui foram adorados, pelos antigos povos; agradece-lhe a tua vinda aqui! E assim fez, irradiando uma enorme alegria, abrindo espontaneamente os braços aos céus, num largo e expressivo sorriso, voltando-se em várias posições para com os quadrantes da Terra e repetindo umas palavrinhas que, em jeito de evocação, eu lhe dissera. A última das quais foi com a mão esquerda estendida ao longo do corpo e a direita apontando para onde se havia posto o sol! – Hoje quando revejo essa imagem só penso numa coisa: que aquela direcção para onde ele então apontava, só poderia estar já a indicar-lhe o caminho da eternidade!... O caminho dos deuses! Como não tinha película na máquina, pedi um rolo emprestado ao José Oliveira. Ele foi ainda mais generoso, registou o momento e deu-me o negativo.




A MORTE UM MÊS DEPOIS - Um mês depois, e justamente quando dali regressava a casa, ao ligar o rádio, qual não é o meu espanto e a minha tristeza quando ouço a notícia da sua morte, que o surpreendeu com uma mão cheia de livros à saída da livraria Bucholz, em Lisboa.

Foi a 30 de Novembro, aos 58 anos .No dia seguinte dirigi-me à mesma pedra e, com ajuda de um pequeno cinzel, fixei, dentro de um pequeno triângulo, as iniciais do seu nome, como singela homenagem à sua memória. Depois disso, já por lá passei muitas vezes, e, sempre que por ali passo, não deixo de o imaginar lá, com a mesma postura e expressando aquele seu largo sorriso aberto, que, aliás, lhe era tão familiar e que os seus entes queridos e muitos amigos, dificilmente esquecerão.
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Imagem de José Oliveira -Fotógrafo da Visão - a Fernando Assis Pacheco


.Olá Fernando! ainda te vejo
Ali a sorrir e abrir os teus braços!

Sempre que por ali passo, não deixo de me lembrar de ti
e de olhar o centro da mesma pedra, o pequeno altar granítico
que emerge quase ao rés-vés com o distante horizonte a poente,
num dos pontos mais destacados do vasto planalto rochoso,
sulcado de morros e giestas! - E, ao deter-me junto a ele,
ao circunvagar tudo à minha volta, dificilmente
perco a oportunidade de contemplar
os mesmos espaços que tu abraçaste
num sorriso e num abraço, tão largo,
tão amplo e aberto, que dir-se-ia
quereres ao mesmo tempo respirar
aqueles puros ares e abraçares todo o Universo!...

Lembras-te, ó Fernando, como tudo aconteceu,
antes de te convidar a ires à minha aldeia? .... Encontrei-te
em Foz Côa! Acabavas de chegar do Vale Sagrado,
de mais um trabalho jornalístico – Fisicamente,
dizias que vinhas um bocado arrasado. Tinhas razão:
o Outono já ia avançado. O tempo ainda aquecia;
já não era o sol moreno e abrasivo do Verão,
mesmo assim, aquele dia de Outubro de 95, havia sido bem quente: “A vila
é bonitinha. O clima da região atira nesta época do ano para os trinta
graus à sombra.” Recordo o pormenor da tua reportagem
para a Revista Visão – Aquele que viria a ser
o teu último trabalho!
De facto, contornar aquelas ladeiras, dar um salto
à Quinta da Barca, fazer uma descida pelos trilhos
da íngreme Canada do Inferno,
visitar os diferentes núcleos de gravuras
ao fundo do rio, mesmo indo de jipe nalguns percursos,
descendo e subindo, com um calor daqueles,
é muito cansativo. A visita compensa mas é desgastante.
No entanto, a alegria que transparecia no teu rosto,
ocultava o teu cansaço.

.Pois, mal saías de uma aventura, não hesitaste
em meter-te noutra - Sinal
de que tinha valido a pena
aquelas tuas descidas
ao fundo do Côa, ao mais longínquo
fundo dos tempos?

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।(…)


Na verdade, sempre que por ali vagueio,
por aqueles ermos lugares da minha aldeia,
não deixo de me lembrar de ti,
como se estivesse
ainda a ver-te abrir os braços aos céus,
coroados por aquele teu largo sorriso,
que te era tão pessoal, tão genuíno e tão teu!

Olhando à volta, ainda lá vejo recortado
o teu vulto, como que projectado
na linha do sol posto,
recortado com um perfil humano
por todo o espaço!

Vejo-te ainda com uma das mãos,
estendida ao longo do corpo
e, com a outra, apontada ao crepúsculo
com aquele olhar compenetrado,
como se quisesses descortinar
o que haveria para lá da mancha doirada
e rosácea, que se estendia acima do horizonte,
ao longo da extensa cordilheira dos montes,
e no sentido de sul para norte,
muito para lá do vale e da sinuosa linha,
onde o sol, momentos antes, se havia despedido
daquele nostálgico fim de tarde outonal.
Ao qual tu agora te rendias, plantado
no centro daquela pedra,
num gesto tão aberto, num esgar
tão vigoroso e arrebatado!…
- Oh ímpetos incontrolados da alma!
Oh misteriosos delírios de luz!
Oh trágicos prenúncios, inesperados símbolos da vida! –
Não era quereres respirar a pureza daqueles largos ares
ou sentires a emoção da plenitude da sua beleza
- oh misteriosas alturas! - mas tocares,
bem de perto, com o teu peito, o teu coração
e as tuas mãos, os místicos confins do Cosmos,
as maravilhas, os enigmas do Infinito!

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Como se já intuísses ou adivinhasses
através dos teus versos proféticos
- ó poeta do “OS ÚLTIMOS DESEJOS”,
cujo repto há muito havias lançado -
que o verdadeiro caminho que te esperava,
Era “ voar como os Anjos”
Seguires em frente, a poente - além
do vasto e esmorecido horizonte…



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E, talvez, tomasse então a via
onde o sol se havia escondido,
instantes antes, suave,
nostálgico, chamejante e triste….
Naquela direcção, entre os quatro pontos,
onde estendeste a mão e mais te fixaste,…
E que ali se abria, escancarava,
tão amplamente e tão misteriosa,
ao teu olhar rendido e emocionado,
como se, de facto, aquela via
fosse a grande estrada, premonitório,
que, ali, já previamente, traçavas
a caminho da indecifrável eternidade!


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António Lourenço, Presidente da junta de Freguesia de Chãs,
recordando Fernando Assís Pacheco e declarando a homenagem extensiva
a todos os poetas mortos.




Maria do Rosário Pinto Ruella Ramos - mulher do falecido poeta e os seus dois filhos:João Ruella Ramos Assis Pacheco; Rosa Ruella Ramos Assis Pacheco - num convívio com a população local, que teve lugar após a
celebração do solstício e a cerimónia de homenagem a Fernando Assis Pacheco.

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Lusa -A Festa do Solstício de Verão - o dia mais longo do ano para o Hemisfério Norte - constou de um cerimonial que integrou música, poesia e a evocação de sacrifícios e rituais celtas

Os festejos aconteceram ao pôr-do-sol, no local onde existe um antigo altar de pedra e um megálito [construção granítica] com três metros de diâmetro.
Os participantes - incluindo o actor e músico João Canto e Castro que se associou ao evento - tiveram oportunidade de testemunhar a passagem dos raios solares sobre o eixo da Pedra do Solstício.

"Estamos aqui a comemorar o Verão tal qual como ele foi comemorado há milénios, com a presença de druidas vestidos com túnicas brancas, trazendo o seu bordão e transportando cordeiros ao ombro", disse Jorge Trabulo Marques, da comissão promotora dos festejos.

Há hora prevista - cerca das 20:45 - Jorge Trabulo Marques, jornalista e investigador que tem estudado o fenómeno, pediu silêncio à ruidosa assistência.

"É um momento de recolhimento e de meditação", disse Jorge Trabulo Marques, minutos antes de ter soado o rufar dos tambores e de João Canto e Castro ter tocado em viola de arco, uma área de Sebastião Bach, acompanhado por Jorge Carvalho (pandeireta) e Gonçalo Barata (acordeão).

O momento do solstício foi vivido com muito entusiasmo por parte dos presentes, a maioria habitantes da freguesia de Chãs, Vila Nova de Foz Côa.

Olívia Domingues, de 78 anos, residente na aldeia, esteve atenta a todos os pormenores dos festejos e no final disse à Agência Lusa que tinha "gostado muito".
"Vi riscos vermelhos e amarelos na pedra, parecia um guarda-chuva", descreveu após assistir ao momento em que os raios solares incidiram sobre o eixo do gigantesco pedregulho.

"Nunca tinha visto, sou daqui mas foi a primeira vez que aqui vim, porque me disseram que isto era muito bonito", concluiu.

João Canto e Castro também se mostrou satisfeito por ter participado na celebração do Solstício do Verão.

"Estou encantado com isto. Nunca tinha visto uma coisa tão bonita. Estou admirado com a beleza do local", disse.

"Isto é uma coisa fantástica, merece ser vista por todos", acrescentou o actor e músico, sublinhando que no próximo ano espera regressar ao local, que se situa a cerca de um quilómetro da localidade de Chãs.


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"Espero voltar e trazer uns amigos para não perderem este magnífico acontecimento", disse à Agência Lusa.
Por seu lado, o presidente da Junta de Freguesia de Chãs, António Pimentel, afirmou que pela primeira vez a autarquia se envolveu nos festejos do Solstício do Verão, melhorando os caminhos de ligação ao local onde se encontra a Pedra do Sol ou Pedra do Solstício.
O autarca referiu que tendo em conta a importância do sítio dos Tambores - onde também existe uma outra pedra conhecida por Cabeleira de Nossa Senhora onde no dia 21 de Março foi festejado o Equinócio da Primavera - vai interceder junto do Parque Arqueológico do Vale do Côa para que aquele local seja "devidamente estudado e integrado nos roteiros turísticos desta região"

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