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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ARY DOS SANTOS POETA CASTRADO NÃO! – ANTES , O HOMOSSEXUAL ARREBENTÃO.“NÃO PRECISAS DE PÔR O MICROFONE NO GRAVADOR, AÍ O TENS...”

(de Luis de Raziel - Desoculto Noturno)




Poeta castrado não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
-Leia o resto em.
Ary dos Santos - Biografia, Poemas e Fotografias.
Nasceu a 7 de Dezembro de 1937- Sagitário. Boi na astrologia chinesa. Regido pelo elemento fogo.
Paixão. Criatividade. Inovação. Impulsividade. Originalidade e extroversão. Algumas das facetas que caracterizam o signo Boi. - Julgo que. em José Carlos Ary dos Santos, essas qualidades, até o excediam. Faleceu a 18 de Janeiro de 1984. Dois anos antes, recebeu-me em sua casa. Ou melhor, acompanhou-me a sua casa.

UM GRANDE POETA - FILHO DA ALTA BURGUESIA MAS QUE SE PASSOU PARA O COMUNISMO - NÃO PERDEU PORÉM O GOSTO PELAS BOAS BEBIDAS, O TABACO E A LUXÚRIA QUE ASSUMIA ATÉ AO ESCÂNDALO E À PROVOCAÇÃO.

No dia em que se completavam 27 anos sobre a sua morte, lembrei-me de lhe dedicar uma postagem neste blogue. Porém, depois de começar a escrever, hesitei. E ainda hoje não sei se deveria contar o episódio. Mas vou fazê-lo. É também uma maneira de revelar uma outra faceta da sua personalidade, como poeta e homossexual.

A sua obra é realmente muito vasta e mais teria sido ainda se a morte o não o tivesse levado tão cedo. Os biógrafos apontam-no como autor de mais de seiscentos poemas para canções. "Ary dos Santos fez no meio muitos amigos. Gravou, ele próprio, textos ou poemas de e com muitos outros autores e intérpretes e ainda um duplo álbum contendo O Sermão de Santo António aos Peixes do Padre António Vieira.” "À data da sua morte tinha em preparação um livro de poemas intitulado As Palavras das Cantigas, onde era seu propósito reunir os melhores poemas dos últimos quinze anos, e um outro intitulado Estrada da Luz - Rua da Saudade, que pretendia fosse uma autobiografia romanceada".

Na opinião de Rita Correia Ribeiro, Ary dos Santos foi um dos mais talentosos poetas da sua geração. Conhecido do grande público como autor de poemas para canções, contribuiu sobremaneira para a renovação da música ligeira portuguesa. A sua actividade estendeu-se também à área teatral

A actividade política influenciou decisivamente a sua vida e obra. Conhecido pela sua linguagem irreverente e ágil, Ary dos Santos considerava ser a poesia a maneira que tinha de falar com o povo porque "ser poeta é escolher as palavras que o povo merece"

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Oriundo de uma família burguesa, mas dir-se-ia que foi um filho burguês renegado: pois, em 1969, muito antes da revolução dos cravos, decide abraçar os ideais comunistas, filiando-se no PCP, aliás, também Cunhal e muitos outros filhos da burguesia, o fizeram, em tempos de repressão e perseguição, em vez de se orientarem pela vida fácil, que lhes permitiria o estatuto familiar.

Ary dos Santos, chegou a afirmar que, a sua adesão ao PCP, marcaria decisivamente a sua vida. Não tenho a menor dúvida. Ele fora um verdadeiro poeta militante – talvez até mais – no sentido prático e interventivo – de que José Gomes Ferreira, que deu justamente esse nome a um dos seus livros – Outro grande poeta que me deu o prazer de me receber em sua casa, na altura em que completara os seus 80 anos.

Ele era, de facto, um poeta multifacetado: um grande criativo e um extraordinário comunicador: os poemas ditos por ele, agigantavam-se. Cada palavra ou era a voz do fogo e da contestação ou tinha o sabor dos frutos, os cheiros do campo e da maresia ou a soava a liberdade e à volúpia do amor. Criava e era compositor. Duas das suas canções ficariam célebres através dos festivais da RTP. Em 1969, por Simone de Oliveira, em “"Desfolhada

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E, mais tarde, em 1973, Tourada, por Fernando Tordo. Ambas as canções foram vencedoras do referido festival e torná-lo-iam conhecido do grande público.


ARY DOS SANTOS NÃO CHEGOU A SER PRESO – MANTEVE UMA LIGAÇÃO CLANDESTINA COM O PCP – MAS ENCONTROU ALGUMAS RESISTÊNCIAS NO SEIO DO PARTIDO, DEPOIS DA REVOLUÇÃO E SOFREU COM ISSO: POR VIA DA SUA HOMOSSEXUALIDADE ASSUMIDA.

O 25 de Abril de 1974, derrubou a ditadura fascista, mas não mudou completamente as mentalidades. Nomeadamente no que respeita a certos tabus e preconceitos com a homossexualidade. Mesmo hoje ainda há muito quem veja os homossexuais como párias e os deseje ver na fogueira. E, então, imagine-se o que não era ainda na década de setenta e oitenta?...Começavam abrir-se os primeiros bares gays no Príncipe Real e a assistirem-se aos primeiros espectáculos de travesti. Mas muito longe ainda dos tempos de se falar em casamentos gays. Os homossexuais começavam a assumir-se mas tudo era ainda quase a nível de guetos.

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Ary dos Santos (cantado também por Amália) ele e Mário Cesariny ou Raul de Carvalho, foram os poetas que não hesitaram em assumir publicamente e nas suas obras a sua orientação sexual - Entrevistei-os a ambos e foi amigo do autor da "Pena Capital"

Cesariny, a que já me referi(OS POETAS NÃO MORREM... MÁRIO CESARINY - É UM DELE....... ) e que havia tido problemas em Londres e em Paris, antes do 25 de Abril, contra os "bons costumes", estava já mais que imunizado face às mentalidades arrogantes e hipócritas. No tocante a Ary dos Santos, creio que, sobre as suas tendências sexuais, apenas corriam rumores . Mas, depois, com a alvorada da revolução, foi a voz de um autêntico libertário, assumir por inteiro a sua personalidade. E há quem diga que, se não” é hoje o símbolo gay que a sua personalidade teria permitido que fosse, mas pertence-lhe a coragem de ter sido um dos poucos homossexuais portugueses que se assumiram publicamente”, naquele período em que, a democracia, principiava a dar os seus primeiros passos.

Não tenho a menor dúvida, que, Ary dos Santos, de algum modo, também conheceu na pele o escárnio do seu desassombro, que ainda era tomado como provocatório e escandalizador. Até pelas mentes mais ortodoxas do seu partido. Confessou-me essa mágoa em sua casa. Aparentemente parecia um calmeirão, uma figura algo grotesca, mas era possuidor de uma grande sensibilidade. Apercebia-se de tudo. Tais mentalidades feriram-no bastante. Destruiu-se depois com o álcool.

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A ENTREVISTA QUE ESTEVE QUASE PARA NÃO SER FEITA, DEVIDO A COMPULSÃO SEXUAL – RELATO DE UM EPISÓDIO QUE NÃO DESEJARIA REVELAR MAS FAÇO-O: NÃO PARA DENEGRIR A SUA IMAGEM MAS PARA CLARIFICAR UM POUCO MAIS O SEU PAPEL COMO HOMOSSEXUAL E PARA O HOMENAGEAR

Ary dos Santos não era bicha: gostava da relação homossexual mas de assumir o papel activo. Foi o que tentou fazer comigo, em sua casa, quando me levou no mesmo táxi para me conceder uma entrevista. Sabia da sua inclinação mas longe de imaginar que ele era compulsivo. Por fim, lá se acalmou.Talvez à semelhança da Grécia Antiga também não concebia ideia de que a«A homossexualidade não é normal» de que a orientação sexual é algo aberrante.

Morava na Costa do Castelo, na Rua da Saudade. Naquela altura (sob outro pseudónimo e não na qualidade de Luís de Raziell), o meu trabalho profissional exigia-me que andasse de gravador na mão...A conversa começou no João Sebastião Bar: propriedade da Vera - brasileira casada com o locutor de rádio, Fernando Correia: Pedi-lhe umas palavras... mas ele achou mais adequado conversarmos em sua casa.

E lá tive que o esperar até que o bar encerrou. Fomos no mesmo táxi... Eram para aí umas quatro da manhã. Depois de entrar, mandou-me sentar a uma mesa, quase ao nível do banco, no centro da sala.. Logo a seguir, apareceu com uma garrafa de vodka, deitou umas pedras de gelo, e, após encher um dos copos, que já havia sobre a mesa, disse-me: "Beba!...Este é do puro, é do bom!... Foi oferta de um camarada... Veio directamente da Rússia....Fique à sua vontade." Mas eu mal molhei os lábios; foi bebida que nunca apreciei.

Cinco minutos depois, quando eu esperava que se sentasse ao meu lado, para conversarmos, aparece ele de roupão(vermelho e de seda - estilo chinês), e, ao aproximar-se de mim(ele de pé eu eu sentado), abre subitamente o roupão, desabotoado e sem cinto, que unia à frente com as duas mãos, afasta-as, como se preparasse para me agarrar e sai-se com esta, no seu conhecido vozeirão: não precisas de pôr o microfone no gravador, tens aqui este!!.. Agarra-te a ele e chupa-mo já sua puta!!!...

Claro que lhe pedi para me deixar sair imediatamente de sua casa, tendo-me dirigido para a porta. Mas logo a seguir pediu-me desculpa e lá se acalmou. “Então assente-se lá que eu já volto”. Foi-se vestir e depois a entrevista decorreu normalmente. Foi longa, muito interessante e até me declamou alguns dos seus poemas. Ficamos amigos. Por isso, hoje recordo essa noite num misto de saudade e algo de caricato.

NÃO FOI O ÚNICO CASO – COM A GUIDA SCARLLATY AINDA FOI PIOR

Mas, antes de contar o episódio, convirá fazer aqui esta breve resenha: estive em casa de inúmeras figuras públicas: desde Franco Nogueira- antigo ministro dos negócios estrangeiros no governo de Salazar (falou-me sobre Timor: era favorável à anexação pela indonésia); Amália Rodrigues (na terceira visita tive que fugir, pois arrependeu-se da entrevista e queria apanhar-me o gravador - nunca a divulguei mas ainda a tenho no meu arquivo) Adelino da Palma Carlos (adorei a sua biblioteca - vasta mas ele sabia onde podia procurar cada um dos seus inúmeros livros) Cupertino de Miranda (ofereceu-me um livro autografado: que famosos quadros tinha logo à entrada!) CORINA FREIRE (pouco antes de morrer) Jorge Amado e sua mulher Zélia Gattaino Hotel Altis; Monsenhor Moreira das Neves; Fernando Namora e Vergílio Ferreira (ambos várias vezes); a tão amável Dorita de Castel'Branco, já na sua luta contra o câncer; Natália Correia, em sua casa e no Botequim; Fernanda de Castro (a mãe coragem, tantos anos de sofrimento sem se poder levantar); Carlos Botelho(oh, os seus cães como não paravam de ladrar, nas duas vezes que me recebeu) e o ex-Presidente Francisco da Costa Gomes, que também morava naquela zona e que naquele dia tinha a casa toda coberta de jornais e panos por causa da pintura nas paredes; na véspera, quase 40 de febre! ; David Mourão-Ferreira em vários locais - que saudades de um grande poeta e de uma figura fascinante da nossa cultura!; - António Ramos Rosa, muitas vezes e até me ditou poemas, numa altura em que não os podia escrever - Sim, entre tantas outras personalidades. Falei demoradamente com José de Azeredo Perdigão à frente da sua enorme secretária, na Fundação Gulbenkian - quando me recebeu estavam previstos dez minutos. Mas acabou por ser quase uma hora.


De todos guardo as melhores impressões e conservo ainda registos sonoros: Claro, cada um no seu género. Também entrevistei a fina flor do crime nas cadeias e cá fora.Em Palmas de Gran Canaria , entrei no quartel da Legião e, entre variadíssimas figuras daquele arquipélago espanhol, gravei as confidências de um etarra (que me conheceu numa das mais modestas pensões onde me hospedei e onde ele também se instalou, após se ter escapado de uma das cadeias de alta segurança, em Espanha), tendo-me narrado como ele e mais dois militantes da ETA haviam assassinado um general, jogando à roleta russa, depois de lhe vendarem os olhos.

Houve, no entanto, quem chegasse a trancar-me à porta.... Era a última coisa que menos esperava. Ossos de ofício.. Foi o que me fez o arquitecto, Carlos Alberto Ferreira, nos finais dos anos setenta, quando fazia o papel de Guida Scarllaty, nos seus shows de travesti, no Scarllaty Club, Rua de São Marçal, ao Príncipe Real, em Lisboa.

Após ter assistido ao espectáculo, dirigi-me ao seu camarim par lhe pedir umas declarações. Respondeu-me que me daria uma entrevista, com muito gosto e sugeriu-me que fosse, na tarde, do dia seguinte, a sua casa, visto estar muito cansado.
Mal entrei, fechou a porta e disse-me para esperar: “Tenho de ir à casa de banho. Pode sentar-se e esperar um bocadinho, que eu já venho.” – Uns instantes depois aparece completamente nu e atira-se a mim de pau feito... Repeli-o e pedi-lhe que me abrisse a porta. Mas não foi fácil... Não logrou os seus intentos. Queria à viva força curtir a sua. Mas não era a minha. Obviamente que me desloquei a sua casa não para ter com ele qualquer relacionamento desse género Ou haverá alguém que aceite submeter-se a imposições e a caprichos que sejam contra a sua vontade?

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Marcou realmente uma época. Foi um pioneiro nos espectáculos das noites loucas nos bares gays e a personagem que representou " A Rainha da Noite". E, nesse aspecto conquistou também a minha admiração. pelo seu invulgar talento artístico. Não guardo qualquer ressentimento ou frustração pela sua atitude. Claro que me surpreendeu e me deixou bastante incomodado. Ambos éramos adultos e maiores. Ele tentou a sua chance. Trabalho é trabalho. Talvez com outras visitas, que o admiravam - e tinha uma grande corte - aceitassem a submissão, mas comigo não resultou.

MAIS TARDE FOI PARA O BRASIL E O ANO PASSADO VOLTOU À SUA CIDADE E AOS ESPECTÁCULOS.

O jornal i falou do seu regresso e recordou o seu passado do travesti mais conhecido da noite lisboeta, que já não actuava há 20 anos. – "Trocou muitas vezes de cidade, de amigos, de amores e de profissão. Só nunca abandonou a personagem que o tornou famoso no fim dos anos 70 em Lisboa e que marcou um antes e um depois no travestismo artístico português: Guida Scarllaty, mulher faustosa e brejeira, caprichosa e burlesca, tímida e desbocada. Na sexta-feira passada regressou, depois de 20 anos adormecida, e estreou--se no palco da discoteca Mister Gay, no Monte da Caparica, perto de Almada. O show chama-se "Virgens à Portuguesa" – Veja o resto em.. Guida Scarllaty: A rainha da noite está de volta


SAUDADO POR AMIGOS E ADMIRADORES – QUE ATÉ NA INTERNET LHE PRESTARAM TRIBUTO

“A Revolução dos Cravos, no 25 de Abril de 1974, um tempo complicado na vida política, social e costumes de Portugal, que culminou com o chamado 'Verão quente' de 1975. “Vivia-se uma época muito complicada, estranha mesmo, com uma inesperada sensação de liberdade, mas com um domínio esquerdista que chegou assustar. De qualquer modo vivia-se a liberdade no seu auge, o primeiro-ministro Pinheiro de Azevedo mandava as pessoas à merda, e os cabos milicianos do COPCOM entravam no Scarllaty Clube de G3 ao ombro. Havia membros do Concelho da Revolução que eram clientes assíduos (Vitor Alves e Compª.), nos espectáculos, ao fim da noite embebedavam-se lá pelas quinhentas, e acabavam na pista a fazer mariquices imitando os travestis!”... (Sic. Livro de Manuela Gonzaga) – Excerto de. TRIBUTO A GUIDA SCARLLATY: A Revolução no Espectáculo


ASSEDIADO POR UM SACERDOTE – QUANDO ERA AINDA MENOR

Não vou relatar aqui os pormenores do episódio, porque, esse, sim, ainda hoje me causa algum repúdio. Mas foi o primeiro passo para eu perder completamente a crença na igreja católica. Já tinha então pouca, pois cedo descobri outra religião, mas esse episódio, embora não se consumasse, deixou-me muito frustrado. Foi muito chocante para mim, longe da minha aldeia e acabou por ser uma viragem completa na minha orientação religiosa. Tive um tio padre (que não cheguei a conhecer, mas guardo o seu missal em latim, assinado por ele e como uma relíquia, editado, em Paris, em papel de seda e lomba dourada) e tenho muito respeito pela igreja católica, pela sua instituição, conheço e já conheci excelentes sacerdotes, dignos da sua missão e sei que, em todas as profissões, há sempre ovelhas ranhosas.Além de indigno, com a sua atitude, atravessou-se na minha vida, quando era ainda rapaz : chocou-me e abalou a minha fé.
.COMO ME TORNEI ADEPTO DE UMA DAS MAIS VELHAS TRADIÇÕES WICCANAS, QUE EXISTIAM NO MUNDO RURAL (hoje já não existem) E FUI MARÇANO EM LISBOA, AOS DOZE ANOS – ONDE DORMI NA RUA, EM PLENO INVERNO E FUI ASSEDIADO POR MARGINAIS
Falar do meu passado, de marçano em Lisboa, dos 12 aos 13 anos, era o mesmo que começar a escrever um livro que talvez nunca mais tivesse fim.. Passei por episódios...que ainda agora, quando me lembro deles, sim, estão de tal maneira ainda tão presentes, que não deixam de me toldar os olhos de lágrimas...Mas antes, de expor um deles, vou situar o leitor, um pouco no tempo, na região e no meio familiar.

Sou natural de uma aldeia do Alto Douro, distrito da Guarda. Os meus pais eram analfabetos e pessoas do campo: viviam com dificuldades e não podiam pôr-me a estudar..A minha mãe teve quatro filhos (eu era do meio) e tinha que fazer tudo: as lides da casa e trabalhar na lavoura. O meu pai, nasceu e foi criado até à idade militar, numa quinta situada na margem direita do Côa. Só viu a cidade quando foi à tropa. Quando casou, ia às feiras a vender e a comprar machos, vacas e cavalos, percorrendo dezenas de quilómetros a pé, com ciganos, com quem fazia sociedade. Mas o negócio era fraco. Além disso, ainda tinha que lavrar e cavar a terra. Hoje só sou eu vivo e o meu irmão mais novo.

Fui expulso do seminário saleziano de Mogofores, ao fim de dois meses por ter respondido ao confessor, quando ele me perguntou o que é que eu achava de Satanás: é o Belzebu da Brilhante Estrela da Manhã! O Príncipe Luciferino das Trevas! Não penso bem nem mal e disse-lhe que eu já o havia adorado, no terreiro de uma quinta abandonada(no Vale Cheiroso ou Vale Cheínho) eu e outros garotos, com umas mulheres da minha aldeia e de outras localidades vizinhas, quando ali se reuniam, em certas noites. Cada uma levava o seu catraio. E que até nos havíamos divertido muito..

Então puxou para ali a conversa, que só quase uma hora depois é que me mandou ir rezar uns quantos padre-nossos... Olhou-me com os olhos esbugalhados e com indisfarçável frieza... O rosto dele ficou mais rosado que uma romã ou um tomate...Pareceu-me que fui logo excomungado. Até porque eles também já andavam de ponta comigo por causa de uma bebedeira de medronhos, num passeio pelas redondezas.Pela sua reacção fisionómica, vi logo que me iam mandar embora.. Na altura ainda havia muito por onde escolher... Hoje, aquele seminário já encerrou e outros estão às moscas...No dia seguinte enviaram uma carta ao meu pai para me ir buscar.

E, de facto, o dito confessor, até tinha alguma razão: e até o padre da minha aldeia, andava desconfiado da minha crença, pois foi com alguma renitência que aceitou a minha admissão no seminário. Eu só queria estudar. Desde que fora iniciado em criança, num culto que se me afigurou, desde logo, mais misterioso, libertário e sedutor, sim, embora educado no catolicismo, nunca mais me senti intrinsecamente católico. - O culto era feito no máximo segredo. Sob um rígido pacto de silêncio. Mas havia quem desconfiasse. Saímos de casa sem os nossos pais saberem: deixávamos a porta encerrada e regressávamos antes deles se levantarem Um dia o meu pai levantou-se mais cedo e, ao entrar, encarando comigo, perguntou-me onde eu tinha andado para chegar àquelas horas: a jogar o tirolirio, respondi-lhe. Foi buscar a cilha da albarda e deu-me uma grande tareia. Mesmo assim, não deixei de as acompanhar, sempre que me avisavam: "Olha, logo à meia-noite estou lá à vossa porta, não faltes!" - Veja mais pormenores em: HALLOWEEN - MAIS FOLIA QUE MEMÓRIA 

Tais incursões nocturnas, incutiram em mim a curiosidade pelo desconhecido, o não ter medo da noite (mesmo sozinho no alto mar) e gosto pela aventura - Não tenho a menor dúvida que, se não fosse essa iniciação precoce, dificilmente teria partido três vezes, solitário, ao encontro do vasto oceano, enfrentando toda sorte de ameaças e de perigos - em pirogas primitivas: numa das quais, 38 dias.
Mas também não sou o anti-cristão. E, por vezes, vascilo... Até gosto da imagem bíblica de Jesus Cristo, envergando os seus turbantes, com ar de infinita bondade e de sabedoria e de o imitar, com algumas das minhas túnicas: foi um espírito evoluído no seu tempo, um pacifista, cuja doutrina tem sido sucessivamente pervertida. Deploro é vê-lo crucificado: - bem basta a que já temos de transportar no dia a dia...

Expulso do seminário, então o único recurso, que os meus pais tiveram, para eu não ter de ficar no campo, foi o de me mandarem para Lisboa, para empregado numa mercearia de um conterrâneo. Um mês depois de lá estar, dispensou-me, alegando que não precisava de mim. Não foi difícil arranjar trabalho noutra mercearia: davam-me dormida e comida e o único dinheiro que recebia era o das magras gorjetas das compras que tinha de levar a casa dos clientes, subindo, de caixote às costas, pelas íngremes escadas de serviço. Até por meio quilo de açúcar...lá tinha de ir o escravo.
TÃO DIFERENTE ESTA LISBOA DO TEMPO EM QUE EU SUBIA A CALÇADA DE SANTANA, COM O CAIXOTE ÀS COSTAS...

Porém, não tardou que voltasse andar à deriva e a pernoitar nos jardins: o patrão despediu-me por eu não roubar no peso da balança, e, não tendo onde dormir, fui deitar-me debaixo de um arbusto, no Campo de Santana... E era Inverno... Às tantas, fui surpreendido por um adulto (julgo que por um marginal)que, ao ver-me, aproxima-se e puxa-me desabridamente pelo braço... .Ao repeli-lo, ele diz-me. Menino!... Menino!... Deve estar com frio...Eu não te faço mal nenhum!... Sai daí e vem sentar-te no banco ao pé de mim... Ele cheirava muito mal...e a álcool... Pois também devia dormir na rua..Até me ia enjoando com o seu bafo, dado me ter puxado para junto das calças dele...Desatei a fugir...Conheço bem os predadores e as suas estratégias...Na noite seguinte, para me proteger desses encontros, fui-me deitar no terraço de um prédio, ali para os lados do Hospital de Oncologia.Subi pela escada de serviço. Quando acordei, sobressaltado, pois receava ser visto, conforme ia a levantar-me, assim caí... Estava enregelado! - entorpecido como uma pedra!... E a verdade é que só adormeci quase ao romper da manhã... Mas que longas eram aquelas horas em que eu ouvia bater num sino ali perto., não sei de que torre..E também já não me lembro do prédio. Mas sempre que por ali passo, não me esqueço daquela noite longa e enregelada...Hoje fico-me por aqui.

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