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domingo, 11 de março de 2012

“O REGRESSO À LUZ "POEMAS DE CASIMIRO DE BRITO" COM QUE CELEBRÁMOS A PRIMAVERA, LEMBRANDO O SUNAMI QUE ENLUTOU O POVO JAPONÊS.AGORA ESTA É SUA PÁGINA

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Por ocasião da Festa da Primavera, lemos-lhe alguns dos seus versos, com que nos associámos à dor e ao luto que ensombrou o povo japonês. E que assinalámos numa postagem publicada neste blogue - em EQUINÓCIO DA PRIMAVERA 2011 MOMENTOS DE REFLEXÃO

Encontramo-lo, recentemente, na FNAC do Chiado, durante o lançamento da revista "ENTRE 3) . Como não dispúnhamos do contacto para lhe darmos conhecimento da nossa iniciativa, aproveitámos agora para lho comunicarmos pessoalmente.

Já viu o blogue e já nos. agradeceu " por esta notícia tão agradável.Vou mandá-la aos meus amigos japoneses".


.Na verdade, ao relermos os seus versos, inspirados na cultura nipónica, mais convencidos nos deixou que a sua poesia, toda ela é constituída por verdadeiras pepitas de oiro, como que singularmente modeladas e trabalhadas pela natureza -

Os seus versos, não são meras cogitações ou abstracções, mas estados de alma da mais pura poesia - Daí que, desta vez, pensássemos editar uma postagem inteiramente dedicada ao poeta que não se conforma em ser apenas um dos inspirados pelas musas, deseja ardentemente o seu regresso à luz, ao estado da mais absoluta luminosidade e transparência!
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REGRESSO À LUZ


Eu não sei se a luz na infância
é uma casa ou uma coisa. Um brinquedo
ou um lugar onde se acolhem
as primeiras sementes do exílio. Sei
que minha filha
se senta nela, nessa luz
menina. São sentinela
uma da outra. E regresso à luz
que foi minha,
gentil
e se partiu. Regresso
à luz branca do mar
à luz macia dos poços da noite
ao fogo efémero que afagou
as fendas do corpo. Saltam
peixes, precipitam-se no ar
com suas bocas sedentas
de luz — a minha também. Apodrecem
restos de ouvidos
que me ouvem cantar. E já não sei
brincando com a filha
se a luz é memória
ou domicílio

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Os raios solares atravessam o semi-arco da pequena gruta (4,5m ) de comprimento por 70 cm de altura, ao nascer do sol nos Equinócios da Primavera e do Outono - Ocasiões em que ali se celebram, com música celta e rituais druidas, o princípio dessas duas estações do ano – Mas também o do Verão, na Pedra do Solstício. O alinhamento solar pode ser visto de véspera e ainda no dia seguinte - foi o caso deste registo. Só a partir daí é que começa a notar-se o desvio do seu eixo.
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CASIMIRO DE BRITO - O POETA E FILOSÓFICO ALGARVIO QUE TEM O CORAÇÃO NO MAR QUE SE ESTENDE PARA LÁ DO PROMONTÓRIO DE SAGRES E OS OLHOS POSTOS NA LUZ DO SOL NASCENTE - AFINAL, NA SUA TERRA E NO MUNDO - ELE É, , NA VERDADEIRA CONCEPÇÃO DO TERMO - O CIDADÃO SEM FRONTEIRAS!

"Por dentro da palavra correm os rios de uma poética que foi, cada vez mais, procurando o essencial. Casimiro de Brito, autor de Poemas da Solidão Imperfeita (primeiro livro, 1957), faz um percurso que o aproxima da filosofia oriental (Poemas Orientais, 1963, já disso são testemunho). O encontro do escritor nascido no Algarve (Loulé, 1938) com o mundo da "cultura orientalista" intensifica-se entretanto em obras como Na Via do Mestre (2000). Traduzido em várias línguas, dedicou-se também à tradução de poesia japonesa. Poeta, ficcionista e ensaísta, passou pela Poesia-61 mas conquistou uma voz própria" - InEntrevista - Poetas Visitados - Casimiro de Brito .

AUTOR DE UMA VASTA OBRA! - ATRAVÉS DA QUAL SE REAFECTE E PRESENTE-SE QUE TEM UMA MISSÃO
A CUMPRIR!


"As civilizações foram atrofiando o homem que entretanto se afastou do primitivo das manifestações primordiais.O homem não tem importância nenhuma, o bichinho que nós somos é uma parte mínima do conjunto das coisas que existem no universo. Tem particularidades e uma delas, terrível, luminosa, é a capacidade de criar deuses e leis. (...) os poetas devem ter obsessão de que transportam em si o mundo. Não é uma coisa boa nem má, são eles que possuem o dom da palavra".Palavras Casimiro de Brito – Wikipédia, numa entrevista dada a Maria Augusta Silva, editada no livro Poetas Visitados, da qual tomamos a liberdade de transcrever alguns excertos, uma vez que permitirá ao leitor - se não conhece a sua obra - poder conhecer melhor o pensamento do autor

"O poeta transforma a escuta que faz do mundo em certos momentos centrais em palavras que o resumem, sabendo porém que nunca conseguirá esse resumo pela mais simples das razões: a transformação permanente do mundo. E essa é a principal fonte de inspiração, a passagem do tempo, o problema da morte. Mas também o domínio da madrugada, metafórica ou não. Numa destas madrugadas pensava eu que..
Madrugada, o seu momento transcendental?
Há um momento da madrugada em que acordo e me sinto por vezes num aquém, num primitivo.
É quando escreve não é? Um despertar mágico?
Um momento em que não me sinto ainda racionalizado, equilibrado. Um momento da pureza em que me encontro ainda na fase de apreensão da realidade como se ela fosse uma nuvem. Passo o que julgo saber para o papel, e luz apagada se alguém dorme comigo, coisas que depois desenvolvo ou apago. Faço isto há mais de 40 anos.".CASIMIRO DE BRITO - Entrevista de Maria Augusta Silva.
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O ÚNICO POETA PORTUGUÊS, CUJA OBRA É INSPIRADA NOS ANTIGOS POETAS DA CULTURA JAPONESA - PARA ALÉM DA QUE TRADUZIU PARA A NOSSA LÍNGUA

Casimiro de Brito . Poeta, romancista, contista e ensaísta.
Nasceu no Algarve, em 1938, onde estudou (depois em Londres) e viveu até 1968. Depois de uns anos na Alemanha passou a viver em Lisboa. Teve várias profissões mas actualmente dedica-se exclusivamente à literatura - Mais pormenores : a Casimiro de Brito Ou em:.Casimiro de Brito – Wikipédia.


."Em criança, o poeta passava vários dias na casa dos avós, na serra do Algarve, que "não eram letrados, mas possuíam uma biblioteca oral fascinante". Havia o hábito de se juntarem à noite, na hora da ceia, à lareira e as histórias iam-se contando, sendo partilhadas por todos. Esse hábito da infância cravou-se-lhe na memória, determinando-lhe uma orientação poética contaminada pelo mundo e pela presença das coisas, fortemente enraizada na concretude e sensorialidade do mundo" - In Casimiro de Brito - Agulha - Revista de Cultura
Temas das guerras e o flagelo do nuclear não passaram despercebidos na poesia de Casimiro de Brito:Jardins de Guerra (1966) Vietname - Em Nome da Liberdade (1967) , entre outros.E .. Nagasaki e Hiroxima, através de: “exemplar espectáculo/ onde somos a bala e o corpo baleado e/ lavoura do crime e o crime/ com raiva gritado” - In “Vietname: outra maneira”, de Casimiro de Brito -

Ou em: As emissoras difundem/a mensagem de Natal/do Presidente da Cruelândia:/- Inventámos um novo míssil/capaz de destruir/em pleno silêncio/o ventre da mais pequena/semente/ da terra. - Excerto de Poema de Natal, de Casimiro de Brito..

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Ao lado - fotografia obtida a curta distância da explosão, no atol da Mororoa, no Pacífico, por António Lima de Paiva e cuja colecção de slides me foram oferecidos - Lembrar as martirizadas cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, mais de que condenar uma barbaridade, é reflectir sobre a morte, a precariedade da vida







Casimiro de Brito considera que a morte "é a questão principal" da sua vida. E da sua obra A morte existe, o ser tem essa condenação embora vá sempre continuando de outra maneira. Mas chega uma idade em que deixa de haver projecção no futuro e começamos então a despojar-nos para a morte é isso: saber que cada momento é o último e cada coisa que se faça tem de fazer-se com intensidade. Isso é o cerne da minha vida e da minha poesia."

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Fernando Santiago Mendes de Assis Pacheco (Coimbra, 1 de Fevereiro de 1937Lisboa, 30 de Novembro de 1995) foi um jornalista, crítico , tradutor e escritor português..
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Olá Fernando!
Ainda te vejo ali a sorrir e abrir os teus braços!
Sempre que por ali passo, não deixo de me lembrar de ti
e de olhar o centro da mesma pedra, o pequeno altar granítico
que emerge quase ao rés-vés com o distante horizonte a poente,
num dos pontos mais destacados do vasto planalto rochoso,
sulcado de morros e giestas! - E, ao deter-me junto a ele,
ao circunvagar tudo à minha volta, dificilmente
perco a oportunidade de contemplar
os mesmos espaços que tu abraçaste
num sorriso e num abraço, tão largo,
tão amplo e aberto, que dir-se-ia
quereres ao mesmo tempo respirar
aqueles puros ares e abraçares todo o Universo!...
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Fernando Assis Pacheco - Ele esteve lá! - No Monte dos Tambores - lugar dos Templos do Sol - Fotos de Pedro Oliveira - cujo original, o rolo com os negativos - me foi gentilmente oferecido após o registo.

Ele subiu àquela pedra e até ergueu os braços, em Outubro de 1995 - um mês antes da sua morte - Agora aquela é a Pedra dos Poetas - Todos os anos, no solstício, evocamos poetas que já partiram - Aquele local tem raízes históricas muito antigas do nosso passado e justifica que aqueles que mais se distinguiram nas letras, artes e poesia - ali sejam lembrados, Não é um local de morte mas de luz. Além de que, como diz o poeta Casimiro de Brito:
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A contemplação da morte salva os homens,

dizia Epicuro. Ainda não sei
o que fazer, vou contemplando
os campos em volta, os vinhedos, os
moinhos e trago-te minha amiga
um ramo de orégãos — coisa melhor não tiveram os deuses
quando deuses houve. Orégãos
e cristais coloridos
nestas mãos que detêm o segredo
do ar bravio. Com elas te acaricio
antes que a terra me ofereça
outros tesouros. Cair assim
é uma espécie de flutuação que salva
quem não espera salvação nenhuma.
Quando os corpos se amam
eleva-se um templo invisível
onde a fúria se instala —
nem só de vinho
se embriaga um homem.
MAS A VIDA É ALGO QUE, LOGO AO NASCER, FICA COMO QUE GRAVADA E PROGRAMADA, TALVEZ ALGURES POR ALGUNS DOS MAIS LONGÍNQUOS ASTROS QUE AINDA MANTÊM A CHAMA DO FOGO PRIMITIVO
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Digamos, a vida é tal qual uma escada; conhece-se o primeiro degrau, mas não se sabe em que degrau acaba - E é, também, tal qual o eco do trovão, que, quando se ouve, já decorreu a explosão: porque, só instantes depois das nuvens provocarem a descarga eléctrica, do choque haver provocado a faísca ou o relâmpago, é que se ouve o estrondo, o sinistro ribombo atroando os ares.
O mesmo se passa com o fenómeno da vida - Antes de aos olhos humanos, vulgares, aparecer materializada, ela já estava há muito concebida e formada . E os seus calendário são os próprios astros, como não podia deixar de ser. E os mais fidedignos serão, pois, os corpos celestes longínquos, onde a explosão inicial, continuará a estender-se, a perpetuar-se; ainda não parou nem arrefeceu. É pois nesses astros e nessa matéria totalmente incandescente, digamos, que ainda mantém a chama do fogo primordial do Universo, que, porventura, ela estará inscrita e onde ainda poderá ser lida
Foto de cima é de minha autoria - as seguintes, foram extraídas da Internet -In ANDORINHAS...Muito triste.
QUEM DIZ QUE OS ANIMAIS NÃO SENTEM A MORTE - OU MESMO NÃO A PREVÊEM - PORÉM, OS ÚNICOS SERES QUE VERDADEIRAMENTE A CANTAM E A CELEBRAM, SÃO OS POETAS - NÃO HÁ POETA QUE NÃO SE INSPIRE NOS MISTÉRIOS DA VIDA E DA MORTE





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SOLIDARIEDADE E O SENTIMENTO DAS ANDORINHAS - VIU A SUA COMPANHEIRA ATROPELADA E VOOU A SOCORRÊ-LA... - AS IMAGENS, PORÉM, MAIS DE QUE AS PALAVRAS, FALAM POR ELAS - JÁ CORRERAM O MUNDO .... E DEIXARAM PERPLEXAS MUITAS CONSCIÊNCIAS, HABITUADAS A VER AS AVES E OS ANIMAIS, COMO SE ELAS, ELES (E NÓS) NÃO FIZÉSSEMOS PARTE DO MESMO TODO.






Oh! as graciosas e frágeis andorinhas de uma figa!...Mas que solidárias e sentimentais, elas são!... Mal se lhes assoma o frenesim e a febre do regresso a casa, oh quem é que as consegue calar!... Volteiam incansáveis!... Onde houver um cabo eléctrico ou fio de telefone, estendido a atravessar uma avenida ou uma rua, já não querem saber das varandas ou para onde escorrem as águas nos beirais! ... Lá estão elas a rabichar a cauda, a sacudir caprichosamente as asas, agitar o papo e a debitar nota sobre nota!... A estribilhar as mais inesperadas sonoridades!...
São as viúvas alegres: as minúsculas carmelitas vestidas de negro e branco, com o seu traje conventual, que nos anunciam a chegada da Primavera e que, uns meses depois, se despedem, mal as folhas começam amarelar e a desprenderem-se com as primeiras chuvas outonais
Fazem-no, com um tal corropio e chilreares, no seu inevitável ir e voltar, que caracteriza o seu eterno fadário, que é algo que altera por completo o silêncio ou a pacatez dos ares e do casario nas pequenas aldeias. Nesses dias de despedida, produzem mais pautas no raiar de uma manhã ou na última meia hora dum fim da tarde, de que o mais famoso compositor em anos e anos de intensa e profícua criatividade!.. Nos últimos dias de missão cumprida, cantam e tornam os voos ainda mais ágeis!... Engrossam os bandos e duplicam-nos com as revoadas dos ainda inexperientes filhotes; criaram-os e agora, libertas do peso de os alimentarem, dão mostras de se sentirem ainda mais felizes, leves e bem acompanhadas!... .Cobrem em manchas de negro os ares, com as suas asas pretas e quase voláteis!... Mas depois dispersam e segue cada bando o seu destino...São as pequenas grandes rainhas do azul da terra e dos mares! . As inconfundíveis andorinhas, que já se espalharam pelos céus e estão a dirigir-se de regresso à sua terra original, à Mãe-África!.. Lá para as calendas da África do Sul!.
Frágeis e vulneráveis, vão empreender longas viagens, migrar por milhares e milhas, dias e dias seguidos a fio, sem parar e, sem todavia disporem dos meios de navegação e de orientação dos humanos. São tal qual como os melhores poetas, orientam-se pelo instinto (podem correr o risco de morrerem cansadas, atropeladas e esfomeadas pelo caminho, ou alvo de inesperados, predadores que as devorem) seguem imperturbáveis o seu destino, nada as pode suster, não se enganam nem fazem de troca tintas nem mudam de camisola.
É a corrida da alegria transformada em sublimes estrofes!... É a mais pura e inspirada poesia dos grandes poetas, é outra musicalidade! -
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43
Fiquemos sentados um pouco mais
nesta pedra ao alto
da falésia; sentados pois não podemos
ser pedra sob a luz que do céu
perfumada cai
como se fosse um vinho macerado
pelo vento. A tua mão
sem palavras sem pensamentos
acaricia-me o joelho
sob a luz que do céu
fatigada
cai..
Mas não lhe perguntem pela verdade suprema das coisas - Essa não lha poderá dar, porque essa é ainda grande interrogação que o domina.


51
Quando me perguntam pela verdade
suprema ou apenas se conheço
a origem do pó
sento-me a teu lado
como se eu fosse uma folha branca
e fico à espera que tu entres
silenciosamente
na minha morada
como as águas entravam e os ventos
no painel de mica
que o poeta Wang Wei deixava
à porta da sua cabana.







.Auto-retrato de "O peregrino da Luz" - de uma vasta colecção, registada desde meados dos anos oitenta, num continuo peregrinar da cidade para a aldeia e desta ao desgostoso retorno à grande floresta de cimento armado - tão diferente dos caminhos de terra batida e atalhados, quebradas e penhascos, dos ermos lugares que., já em tempos muito recuados, foram idolatradas e venerados..
A vida é algo que, aparentemente, tem o lado visível e o invisível: o visível é a realidade que acontece ou que se depara perante os nossos olhos - o tal eco do trovão. E o lado invisível é aquele que cabe aos poetas antecipá-lo: decifrar o que ainda se mantém no segredo dos deuses (eu diria, domínio dos astros) . Ora, tal mérito cabe precisamente aos poetas iluminados; pois só eles poderão superar a deficiente visão do homem vulgar - A faculdade de serem instintivos e visionários, os verdadeiros percursores das maiores descobertas da humanidade.

Pois é difícil encontrar um grande cientista que não possua a sua "pancada" poética ou a sua dose de "loucura saudável".Ou então que não tenha sido influenciado pela leitura dos grandes poetas instintivos e visionários. É tudo uma questão de se saber ler ou interpretar as grandes obras de poesia - E os cientistas sabem-no fazer. Mas também as obras dos grandes pintores, músicos e escultores (Miguel Ângelo, outro dos extraordinários exemplos) Até, porque, o mais importante do que ficou declarado nos versos, é o que é possível subentender -
Senão veja-se também o caso de Nostradamus - Ele não era um poeta?!... - Não foi através da poesia que nos deixou as suas profecias?!.. Códigos que nem toda a gente sabe decifrar, obviamente. Mas a mensagem está lá toda por entre linhas e metáforas - E prevista para muitos séculos e milénios! - E até mesmo as quadras do travador .BANDARRA – SAPATEIRO, POETA E PROFETA DA VILA DE TRANCOSO têm o seu lado místico e profético, mesmo tendo sido ele um humilde sapateiro.
Para já não falar da ironia iluminada do poeta António Aleixo, cauteleiro e pastor de rebanhos, cantor popular de feira em Considerado um dos poetas populares algarvios de maior relevo - O improvisador, por excelência, sempre com a palavra na ponta da língua e a quadra pronta a disparar. Também ele teve vida dura e madrasta. " No emaranhado de uma vida cheia de pobreza, mudanças de emprego, emigração, tragédias familiares e doenças na sua figura de homem humilde e simples, havia o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, guarda de polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como emigrante foi exercido em França." E, embora não tendo a sabedoria dos livros, o que ele não via por trás das máscaras!.
"Eu não tenho vistas largas/ Nem grande sabedoria/Mas dão-me as horas amargas/ Lições de Filosofia. (...) /Não sou esperto nem bruto / Nem bem nem mal educado; /Sou simplesmente o produto/ Do meio em que fui criado ---- Quem me vê dirá: não presta, /nem mesmo quando lhe fale,/porque ninguém traz na testa/ o selo de quanto vale. ---- Muito contra o meu desejo, /sem lhe querer dizer porquê, /finjo sempre que não vejo/ quem finge que me não vê"

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A poesia não se faz com a leitura dos livros: é como os sabores e os cheiros do vinho generoso mais fino, que, depois das uvas amadurecidas, colhidas, espremidas e fermentadas, produzem os néctares mais preciosos! - O amor puro nasce, jorra e brota, como fonte de água cristalina - Por vezes de forma tão intensa, que não bastam as páginas dos livros: há que o esculpir ou pintar na superfície de graníticas pedras!
Não basta empinar calhamaços e depois desatar a fazer grandes lucubrações ou retóricas intelectuais de vazia ou oca consistência- A perorar com a voz distorcida dos papagaios. - Quem não conhece o sofrimento na vida, dificilmente pode ser um grande poeta. ."Quem quer passar além do Bojador, tem que passar além da dor
Têm que primeiro sentir a dor do "parto" como a mãe que gere o seu filho no ventre materno. Não é possível conceber um grande poeta, que legue obra à posteridade, digna de nome, sem ter sofrido, por esta ou por aquela razão ou motivo.
Veja-se o exemplo magistral da obra de Luís de Camões - Nunca ele poderia ter escrito os Os Lusíadas , se não andasse lá pelas índias, se não atravessasse grandes oceanos - e até vivesse a tragédia do naufrágio (eu também já a vivi, e sei o que é - NAUFRÁGIO NA NOITE EQUATORIAL), dificilmente teria sido o poeta que foi - e continua a ser. Fernando Pessoa autor da Mensagem , ainda em criança, ficaria órfão do pai, tendo partido aos seis anos para África do Sul, onde foi educado, em virtude do casamento de sua mãe
Ele que conheceria o drama da orfandade e também a vastidão do mar: pois também ele se deleitou e reflectiu sobres os mistérios do grande oceano, na sua viagem entre o Cabo e Lisboa.Também ele sabe que "Toda a gente é interessante se a gente souber ver toda a gente./Que obra-prima para um pintor possível em cada cara que existe!" - Ele lá sabia bem porquê: porque "O arco de Triunfo da minha imaginação/Assenta de um lado sobre Deus e do outro/Sobre o quotidiano, sobre o mesquinho(segundo se julga,/Sobre a faina de todas as horas, as sensações de todos os momentos/E as rápidas intenções que morrem antes do gesto.
Sendo assim, há que proceder ou saber ler o que escrevem os bons poetas - pois, na sua poesia, mistura-se um pouco de tudo: do sofrimento pessoal, do que sentem, do sofrimento alheio, do que se apercebem à sua volta (do mundo que os rodeia) ou do que imaginam nesse mundo para o futuro.
Mas não dizem tudo o que pensam: se assim fosse, teriam sido ficcionistas - São parcos nas palavras, porque, o pensamento, mais das vezes, é mais rápido do que o tempo em que o produzem ao papel - e também porque, só desse modo as palavras se tornam poéticas e sedutoras, têm a sua carga mágica, sem conspurcações ou afectações: pois as muitas palavras, pelo seu próprio peso, também se podem baralhar e atropelar umas às outras e gerar mais confusão de que transmitir a lúcida mensagem poética a que se propõem.
Ou seja, mais das vezes o importante não é o que foi dito num poema, mas o que é possível subentender. É por isso que os poetas geniais têm o dom de saberem escolher as palavras. Ou antes, são as palavras que vêm ao seu encontro, atraídas como que pela sedução da sua arte e mestria, mas sobretudo fruto da sua rara sensibilidade e o muito sofrimento. Só eles dominam verdadeiramente a força de cada palavra que empregam - algumas até podem feri-los, magoá-los - Lembro-me, por exemplo, dos diálogos no convívio que mantive com o poeta António Ramos Rosa, em sua casa e até quando saía à rua e o acompanhava a uma tasca ou café, ali próximo da Rua António Maria Barbosa do Bocage, onde morava - nome de outro poeta singular da poesia portuguesa. Agora, encontra-se num lar,e , com o passar dos anos, a resistência vai sendo ainda mais fraca. E já não tem grande disposição para receber até os melhores amigos.
Se me ouvia pronunciar certas palavras, lá da minha aldeia, ele anotava-as e sabia que dali podia nascer um poema - às vezes até era naquele instante. Numa fase em que ele andava adoentado e tinha dificuldade em escrever, ditou-me vários poemas, que passei ali à sua frente ao papel - Levava o rascunho para minha casa e depois trazia-lho já dactilografado. Outras vezes, pelo contrário, termos havia (e não eram palavrões corriqueiros) que deixá-lo-iam imediatamente incomodado: e uma dessas palavras, era a palavra "computador". Pareceu-me extremamente refractário ao seu uso. Não gostava nada que lhe falasse dessas novas tecnologias. Ele continuava (e creio que ainda o faz) a gostar de pegar na caneta ou a debitar sua criatividade poética directamente para a página branca ou posta na velha máquina de escrever.






Um prazer e uma saudade ter sido amigo destas personalidades da nossa literatura: .Vergílio Ferreira ; Oliveira Marques; Mário Cesariny - E, naturalmente, de.António Ramos Rosa

Na verdade, contrariamente aos profetas, os POETAS, com letra maiúscula, não precisam de testar os seus dons proféticos ou adivinhatórios arrastando multidões - Eles têm o condão, o raro privilégio de serem também profetas_ - Parece-nos ser o caso de Casimiro de Brito -
Ele próprio o reconhece, com modéstia, numa entrevista, muito interessante (acessível na Internet) que concedeu a Maria Augusta Silva -
"Na sua arte poética, os contrários são também abordados com sabedoria e engenho ...
"Interpreto a vida. Digo-a com as palavras de que disponho. O poeta é um homem que transporta o peso dos outros homens mas também o peso do mundo. Será um dom? Não sei. Mas é, sem dúvida, uma chaga a palavra que o poeta transporta.

Uma chaga? E a beleza da poesia?

Uma chaga luminosa.

Aí temos o poeta a sentir-se Messias?
Não há nenhum messianismo. Os profetas aparecem antes dos poetas. A palavra poética, no entanto, está mais próxima da realidade do que a os profetas. Sendo embora visionários ( a expressão é de Rimbaud) são menos visionários de que os profetas
Não podem deixar de lidar com a realidade mesmo que a transfigurem?

Se querem ser a voz da sua tribo (o meu conceito de tribo ultrapassa o humano), os poetas deve ter a obsessão de que transportam em si o mundo. Não é uma coisa boa nem má, são eles que possuem o dom da palavra.

Exclusivo dos poetas?

A palavra poética é a palavra original. A poesia esteve sempre na origem da língua. A transformação de qualquer língua passa pela maneira, por vezes aparentemente louca, como os poetas tratam a linguagem. Não, não é um exclusivo os poetas que assinam poemas."

Creio que falei apenas com ele uma vez, nos anos 80, para lhe pedir uma declaração para a Rádio Comercial, onde era jornalista. Agora, há dias, também foi fugazmente. Não posso pronunciar-me, em termos muito concretos, sobre a sua personalidade, pois mal falei com ele. Em todo o caso, a impressão que tinha dele, que era de uma pessoa, sem vaidade, natural e desprendida, não se alterou. Ou melhor, reforçou-se ainda mais. Foram breves instantes: ele estava acompanhado da esposa e da filha, e vi que tinham pressa. Foi apenas o tempo de lhe transmitir a nossa iniciativa, na celebração da Primavera e de lhe pedir o seu e-mail. Mas surpreendeu-me, ainda mais agradavelmente (daí ter partido para este texto) quando lhe disse que gostaria de o fotografar e ele não se importou: é que há vedetas que, embora adorem que falem delas e de aparecer nas Tvs e jornais, fazem-se sempre muito caros. Não me pareceu ser o caso de Casimiro de Brito. Para além da leitura que faço da sua obra, deu para ver que é um dos tais raros espíritos clarividentes e multifacetados, mas simples e sem ostentatória vaidade. - Poeta, romancista, contista e ensaísta. E a sua Pátria é o Mundo.

.O poema

Poemas, sim, mas de fogo
devorador. Redondos como punhos
diante do perigo. Barcos decididos
na tempestade. Cruéis. Mas de uma
crueldade pura: a do nascimento,
a do sono, a da morte.

Poemas, sim, mas rebeldes.
Inteiros como se de água, e,
como ela, abertos à geometria
de todos os corpos. Inteiros
apesar do barro e da ternura
do seu perfil de astros.

Poemas, sim, mas de sangue.
Que esses poemas brotem
do oculto. Que libertem o seu pus
na praça pública. Altos, vibrantes
como um sismo, um exorcismo
ou a morte de um filho.

Casimiro de Brito - O poema

"Com a poesia o que pretende dizer às pessoas?"
"Dizer-lhe que a mudança é natural; que somos um ser para a morte mas que casa momento é uma passagem cheia de pequenas iluminações nas quais existe o primordial. A maioria preocupa-se com o fim da viagem e não com o momento que passa.

(...) A divisão do mundo é uma coisa da mente humana, uma mente perversa, capaz das maiores obras de arte, contudo perversa. A língua em que escrevo é importante, e como é bela, mas essa coisa de pátria é quase irrelevante.
A filosofia oriental de que se tem aproximado leva-o a olhar a morte com serenidade?
Os orientais não colocam o homem no centro do Universo. Os orientais que me interessam, pelo menos. O homem é pouco humilde, um ser orgulhoso que procura o poder como maneira de se viver, mas esse não é o único caminho. E não é, de certeza, o meu caminho
(...) Há no ser humano a tendência para um certo tipo de harmonia construída que o afasta do primitivo. Os meus poemas de Na Via do Mestre são um diálogo com Lao Zi a partir do Tao te King, um texto que considero dos mais relevantes de todos os tempos, a part de alguns livros da Bíblia, de alguns sonetos de Camões, de algum Bashô, de algum Shakespeare, Homero, Vergílio." - In CASIMIRO DE BRITO - Entrevista de Maria Augusta Silva.
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6
Entro no teu corpo árvore
felina
como quem visita um templo
vegetal uma ilha impregnada
pelas especiarias mais raras
do sol e do mar. Ascendo em bocas
que bebem a minha seiva em dunas
que me lavam e queimam
humildes. Armas tão frágeis
as que temos: o mel a saliva o
sémen. Caminho
na luz obscura
com as mãos vazias
de quem nasce de novo.
Ele também é um verdadeiro filósofo da vida E, alguns dos seus versos fazem-me lembrar o voo das andorinhas, poemas que, por sua vez, me transportam à minha amada aldeia e ao passado distante da minha infância e adolescência: porque são anunciadores de uma espécie de Primavera, tal como é celebrada pelo país do sol nascente, a fonte suprema da sua inspiração, algo que traz consigo o rasto das flores das amendoeiras, os sons e os voos hilariantes e rasantes das andorinhas, nos seus alegres chilreios, nas suas caprichosas evoluções e no subtil ou frenético bater das suas asas à volta dos beirais, nas varandas ou nos alpendres das casas, mas sobretudo a claridade das risonhas manhãs da minha infância e adolescência, que não voltam mais...
...a nostalgia que reacende e rescende das cores e dos perfumes das malvas e das rosas nas sacadas ou em vasos junto às portas, fragrâncias que logo se dissipam no garrido das suas matizes, mal recebem os alvores solares do dia que se levanta o os orvalhos se evaporam e se tornam mais voláteis, tal como os nevoeiros, que, pousados sobre os montes das encostas da outra margem do vale, ou que se ergueram lá do fundo da ribeira pelos fraguedos dos Tambores e Quebradas, mal os primeiros raios despontam, os fazem fumegar, esbatem-se e se desvanecem, não tardam a desaparecer para de novo mostrarem a rude ou serena quietude dos seus perfis, o ressurgir das íngremes ladeiras xistosas cobertas por olivais, vinhas, figueiras e amendoais, a caminho das Trecadas, da Quinta do Monte, Ervamoira e Quinta da Barca, no Côa...
Sim, poemas esses, que, mesmo sendo concebidos pelo seu autor, com o pensamento bem ao sul - e tão longe!... - parecem trazer do fundo da memória, as paisagens e os frutos da minha aldeia (não fosse ali a terra quente, um clima parecido ao algarvio, lá onde o mediterrâneo beija as costas da sua província natal) algo que ressoa a distâncias, no tempo e no espaço, de horizontes, que, embora ainda me sendo bem familiares, parecem cada vez mais distantes, da contemplação dos meus olhos, daquele que fora o olhar da descoberta e da inocência!... De facto, os montes e os caminhos ainda são os mesmos, mas a aldeia está quase deserta, muita coisa mudou, resta a boa poesia, o poema que depois de criado, faz ressoar (não só a quem os escreve, mas também a quem os lê) os ecos de uma profunda empatia e lembrança, de uma sentida saudade....


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Fotos do autor deste blogue -
Exceptuando as imagens (mas assinaladas ) extraídas da Internet - além de alguns vídeos


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17
Meus pensamentos são nómadas
e vagarosos
como a água que vem da montanha
e não sabe nada
do coração dos homens. O meu, por exemplo,
tem a leveza do vento
e corre para casa como se fosse
um cão que precede
os passos do dono.
19
Já que não posso mudar o mundo
deixa-me sacudir a areia
das tuas sandálias.
24
Agora escrevo, já estou
cansado. Melhor seria
continuar a olhar para as pessoas
na rua. Ou para o mar.
Ver quem vive
e só depois
cantar.


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OS GRANDES POETAS - ALÉM DE INSPIRADOS - SÃO AINDA MAIS LIVRES DE QUE AS ANDORINHAS - SÓ ELES COMPREENDEM A LINGUAGEM DA TERRA E DO ESPAÇOS - SÃO AVES RARAS! - AVES EMIGRADORAS DO PARAÍSO QUE MAIS DAS VEZES SE SENTEM COMO QUE PERDIDOS NO REINO MATERIAL E EGOÍSTA DOS HOMENS VULGARES
Só mesmo o coração e a sensibilidade dos grandes poetas poderão compreender, como ninguém, o chilrear das andorinhas e a sua liberdade!.- Tal como o traduzem também estes belos versos de Rosa Lobato Faria: Vimos chegar as andorinhas/ conjugarem-se as estrelas/impacientarem-se os ventos/ Agora/ esperemos o Verão ".Vimos chegar as andorinhas...
Elas não voam, flutuam, brincam connosco, é o voo etéreo das almas, que partiram em viagem para o outro mundo mas cujas vozes do seu espírito, transmigrado, vestido de luto e de negro, cantam e partilham a comunhão da mesma festa da Primavera, é, enfim, a doçura que esvoaça pelos ares e que permite apaziguar as penas e as tristezas dos tristes mortais, que ainda por cá vão vagueando, na sua passagem terrena e efémera..
"Casimiro de Brito começou a publicar cedo. Aos dezoito anos saiu o seu primeiro livro de poesia, Poemas da Solidão Imperfeita (1957), obra que um dos críticos mais importantes da época, João Gaspar Simões, considerou "extraordinária". O sentido crítico que nele existe, fortemente entranhado, fê-lo suspeitar imediatamente do acolhimento favorável. Conhece, por essa altura, o poeta António Ramos Rosa, numa ligação de amizade que mantém ainda hoje." casimiro de brito - Agulha - Revista de Cultura
"Um antigo provérbio japonês defende que os poemas apenas se deixam encontrar por quem os merece. Aos vinte anos, quando seguia o curso English by Radio, da BBC, o jovem Casimiro de Brito é seleccionado para passar uma temporada de aperfeiçoamento da língua num colégio em Londres. Na capital britânica, partilhou um quarto com um professor de Estudos Orientais — um acaso que viria a marcá-lo decisivamente. Aí, contactou pela primeira vez com a poesia chinesa e japonesa, deixando-se permear pela condensação e pela beleza enigmática do haiku (Cantinho, 2006: 1). Numa entrevista a Andreia Faria, Brito explica o significado dessa revelação para a sua vida de escritor:

[...] conheci uma poética que hoje considero a mais bela de todos os tempos (comparável só as nossas cantigas de amigo); entrei num campo de trabalho como eu gosto, a longo prazo, para sempre; entrei na vida (física, mental, sensível) de um ser celestial, a minha amiga japonesa, enfim, coisas bonitas que mudaram o meu caminho. Nunca mais deixei de respirar essa poesia e, sobretudo, nunca mais deixei de pensar (e de fazer) que é preciso conhecer mais do que a nossa tradição poética (Faria, 2006: 3).
Efectivamente, quase cinquenta anos e quarenta livros depois, Brito continua fiel às musas orientais, em particular às japonesas. Ao longo do seu trabalho de escritor, cultivou o haiku, elaborou homenagens a autores do sol nascente (Brito, 1985: 184), e acalenta ainda o projecto de recolher 1500 poemas traduzidos numa obra intitulada Livro dos Haiku. - In . Do fragmento à pedra filosofal - Casimiro de Brito
Esse contacto e conhecimento, iluminou-lhe a mente, e, ao beber água da sua fonte, ganhou novas energias e novos saberes, que modelou ao talento e ao génio, que já possuía no ventre materno e quando nasceu, depois, num truz, disparou, sem hesitar, num improvisado foguetão em direcção às estrelas, foi lá acima, percorreu galáxias e luas, deu uma infinidade de voltas, e voltou à Terra, no regresso à luz que já o inspirava e o iluminava, logo na hora do nascimento, antes mesmo de titubear as primeiras palavras e dar os primeiros passos.
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17
Meus pensamentos são nómadas
e vagarosos
como a água que vem da montanha
e não sabe nada
do coração dos homens. O meu, por exemplo,
tem a leveza do vento
e corre para casa como se fosse
um cão que precede
os passos do dono.



Diz Casimiro de Brito que "o acaso é sábio e não há pedra nem poder nem duração que apague os golpes rápidos do seu braço. O acaso é cruel mas não tem estilo." - Sim, e essa sensibilidade e essa inteligência advêm da forma como cada homem sente e vê o mundo à sua volta. Depois tudo acontece como produto de mera coincidência ou prodigioso fruto de magia..



O problema não é

meter o mundo no poema; alimentá-lo

de luz, planetas, vegetação. Nem

tão-pouco

enriquecê-lo, ornamentá-lo

com palavras delicadas, abertas

ao amor e à morte, ao sol, ao vício,

aos corpos nus dos amantes —


o problema é torná-lo habitável, indispensável

a quem seja mais pobre, a quem esteja

mais só

do que as palavras

acompanhadas

no poema.
In Conto do Adolescente





A ALEGRIA DOS PÉS NA TERRA MOLHADA

Quando as palavras se deixam possuir
como se fossem raízes e ossos leves que trepam
à montanha
ouço a infância, o som do berlinde, a flauta
do anjo anunciador da chuva
e a formiga da mãe a enxotar-me
para a escola onde aprendi
a ler no quadro da janela
as metamorfoses do céu. A poesia escreve-se
copiando os mestres, imitando mal
as fontes naturais: as patas
da água
descendo pela serra; a melopeia silenciosa
do azeite; a boca do vento
nas telhas da velha casa
do monte; a chama interior
dos cavalos
e dos cães da família: de manhã
pela mão do avô
eu partia de visita às árvores
e aos pássaros — esta é uma cerejeira, aquela,
a dona nogueira, olha
um picanço! a que parece muito cansada
é a figueira, Vamos comer um? O avô
pegava nele como se fosse um animalzinho
acabado de nascer, um pássaro com pétalas e já morto
na boca sedenta e logo
saciada. Um figo é uma
dádiva do sol e da terra e da nossa
.humilde fome, e tudo são figos, ah não comas,
não comas nunca nada
sem fome. Ouço —
aprendi nesses dias a ouvir
o melhor da infância: água
na língua
quando a morte é gémea e se
aproxima..
Livro das Quedas (ars moriente)
inédito em livro



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A PAZ


Se eu te pedisse a paz, o que me darias
pequeno insecto da memória de quem sou
ninho e alimento? Se eu te pedisse a paz,
a pedra do silêncio cobrindo-me de pó,
a voz limpa dos frutos, o que me darias
respiração pausada de outro corpo
sob o meu corpo?
Perdoa-me ser tão só, e falar-te ainda
do meu exílio. Perdoa-me se não te peço
a paz. Apenas pergunto: o que me darias
em troca se ta pedisse? O sol? A sabedoria?
Um cavalo de olhos verdes? Um campo de batalha
para nele gravar o teu nome junto ao meu?
Ou apenas uma faca de fogo, intranquila,
no centro do coração?
Nada te peço, nada. Visito, simplesmente,
o teu corpo de cinza. Falo de mim,
entrego-te o meu destino. E a morte vivo
só de perguntar-te: o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?


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As gaivotas da manhã acordaram-me. O canto

é delas ou foi recolhido


nas águas? Um raio de sol
atravessa o quarto e trepa hesitante
pela cama; deita-se connosco
como se fosse um gato. Estendo a árvore
flexível do corpo
e penso como é bom esquecer-me da idade
e dos outros e do mundo
que felizmente se esquece muitas vezes
de mim. Não sei de que lado estou se
me deitei
à direita ou à esquerda
da minha amiga. Agrada-me
o rumor dela
quando se aconchega ao meu corpo
sem ter ouvido ainda o piar das gaivotas
nem as patas perfumadas do sol
a nosso lado.
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In Na Vila do Mestre -2000



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241

Quando me aproximo do mar
tudo me parece aceitável.
As ondas são folhas que vão
a caminho da perfeição.
Perfeito é pois quem do tempo
tem a longa paciência —
também a tenho quando escuto
a nervura mágica de tudo,
um tudo feito de sombras
que amaciam a pedra luminosa
que todas as coisas são.
Saltando de estação para estação
como se o caminho se fizesse,
sereno, entre o mar e o céu.
As ondas que vejo cair
também as sinto nas areias de mim
como se tudo, na barca deste mundo,
fosse mar e luz.
Por isso a minha vida é intensa
e velha como a paciência
que não cessa de se renovar
no sangue da pedra, e das aves.



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24

Ouço o odor das rosas para além

da ardência branca, a das palavras;

signos de um par, num labirinto

de sons, perfumes, feridas, cicatrizes

da outra vida, do éter e do sexo

que todas as coisas encerram: assim é a sede

da nascente. Não me esqueço de nada, nem das guerras

nem dos paraísos. Arrasta-me

enquanto me escondo sob as lágrimas

que não chorei, eu o irmão

de uma mulher sedenta do meu corpo

em busca do êxtase. Queria deitar-me

à sombra das tuas figueiras.


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32
A paixão amorosa é uma amizade (uma conciliação a dois) levada até à loucura. É mais do que viver o instante sem porém deixar de gozar e de sofrer cada nuance do instante. Amor é o desejo que me causa a tua beleza total, sempre movendo-se, e que respeito. Quero dizer: se a mulher que amo já não me ama com igual intensidade devo partir porque na minha concepção amor é o que se vive entre iguais, ao mesmo tempo, ainda que lhes seja imposta uma separação. Se me dizes que o amor é irreal e fantasmagórico e que tens medo ao mesmo tempo que te abres, tudo bem; se te fechas também estará bem pois o amor é um pássaro, ou devia ser, só preso à sua liberdade. Por isso estou sempre a dizer-te adeus, e tu a mim.


Foto à memória do Telmo - Natural de Orgal, Castelo Melhor - que (sem qualquer experiência artística) desempenhou, de forma surpreendente(chocante) o papel de Sérgio, no filme O Fantasma.

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33
Caminho no chão
da minha amada, nas nuvens
da boca selada


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35
Um mistério que nunca saberei decifrar: as asas quebradas ainda voam. A voz rouca ainda canta. O sexo cansado ainda se levanta. E que dizer de mulheres que nunca saberei decifrar? Abrem as suas bocas e dizem, Cai, regressa ao teu lugar. Jamais deixarei de cantar.

.Extraídos de -Breve Antologia Pessoal - Casimiro de Brito .


Jorge Trabulo Marques -Jornalista e investigador

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