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sábado, 30 de março de 2013

Caminhada douro acima: última etapa – Estação de Almendra-Barca D’Alva, em manhã de Sábado de Aleluia, pela ressurreição de uma linha morta que poderá dar nova vida a uma região maravilhosa mas esquecida







Realizou-se o terceiro passeio pedonal promovido pela Associação Foz Côa Friends, com vista a pugnar pela reativação do troço Pocinho-Barca D’Alva –  A semana decorrera fria e chuvosa. Sexta-feira proporcionara alguma abertas, que até foram aproveitadas por alguns membros desta associação para ensaiar novos passeios para novos desafios, por veredas do Vale do Côa,  mas pairava alguma incerteza sobre  como  iria portar-se o  Sábado de Aleluia – Felizmente, portou-se muito bem. 


Excedendo todas as expectativas. Antes das nove da manhã,  dois autocarros da Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa, largavam os audazes caminheiros na velha Estação da CP de Almendra, depois de se haverem  reunido, cedinho, já bem dispostos,  alegres e prazenteiros,  na Praça do Município, uns vindos de longe, outros de mais perto, mas com o pensamento comum numas horas de descoberta e de agradável convívio por uma boa causa.




SÁBADO PASCAL  A FAZER JUZ À MITOLOGIA PAGÃ E CRISTÃ


 O tempo tem andado variado. Dizem os especialistas que “este é dos meses de Março mais chuvosos e frios dos últimos 40 anos. Mas, o Sábado de Aleluia, fez jus ao significado pascal. . Proporcionou excelentes abertas, tanto de manhã, como de tarde. Entre Março e Abril varia o tempo e também varia o  calendário da Páscoa. Que  ocorre no primeiro domingo depois da lua-cheia que se segue ao Equinócio da Primavera e que pode cair entre 21 de março e 24 de abril – Este ano o Sábado de Aleluia calhou no dia 30. Ainda bem.  Pois, foram as férias da Páscoa,  mais o cheiro primaveril, que levaram os organizadores da Foz Côa Friends a escolher esta data.




CUMPRIU-SE MAIS UMA BELA JORNADA DE LUTA, FALTA ALGORA CUMPRIR-SE DOS GOVERNATES A SUA PALAVRA 

Se a vontade dos governantes estivesse sintonizada com a vontade das autarquias e populações da região – mas também de todos aqueles que  amam as belezas deste rio -  não havia necessidade de se promoverem jornadas de luta – O mau é que, o Terreiro do Paço, fica demasiado longe do Alto Douro. Promessas para a reabertura da linha que um dia ligou o Porto  a Salamanca, não têm faltado –  Até o atual Presidente da República, Cavaco Silva, ele que lhe deu a estocada de morte, em 1988, chegou a manifestar o seu apoio e empenho pela sua reativação, na campanha eleitoral  – Mas, antes dele, também   Durão Barroso, fizera idêntica promessa, em 2004. No Governo de José Sócrates, voltou a falar-se da sua reabertura, pela voz da ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima


Em Janeiro de 2007, escrevia o DN que “A construção do Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa poderá ser o impulso que faltava para que os comboios voltem a circular no troço da linha férrea do Douro, entre o Pocinho e Barca de Alva. A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, defendeu,  em Vila Nova de Foz Côa, a "activação da linha exclusivamente para fins turísticos". (...) "A reabertura à circulação daquele troço de 28 Km, encerrado desde 1988, é defendida há algum tempo, sobretudo por autarcas e outros agentes locais. Opinam que, uma vez que do lado espanhol existe vontade de reactivar a linha entre La Fuente de San Estebam, próximo de Salamanca, e a estação de Barca de Alva, o Governo português deveria promover o mesmo do lado de cá da fronteira. Entendem que se abriria uma porta de entrada ao apetecido turismo castelhano para os vales do Douro e Côa, ambos detentores do estatuto de Património da Humanidade. Linha do Douro permanece abandonada, para tristeza de autarcas e agentes da região Empresários interessados Não admira, portanto, que autarcas como os de Vila Nova de Foz Côa e de Figueira de Castelo Rodrigo tivessem ficado duplamente satisfeitos”- Excerto extraído de Eventual reabertura Pocinho-Barca de Alva 

TAMANHO ABANDONO E DESAMPARO, ANTE TANTO PRODÍGIO E TANTA BELEZA – ATÉ QUANDO ESTA INCÚRIA E ESTE DESPREZO?!

O Douro “Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza” – Escreveu Torga. – Precisamente, por isso, é uma dor de alma ver,  a cada passo, tanto silêncio e tanto abandono, numa via férrea, cortada a pá e a picareta, com hercúleo  esforço, rasgada em abruptas veredas de xisto ou assente em muros que mais parecem emergir do fundo da  margem do rio de que da própria vertente.

Talvez, por esse facto, uma panorâmica que devia ser apreciada, com paragens constantes, a cada instante, até parecia que toda a gente estava a participar numa maratona, que o importante era chegar o mais depressa possível ao termo da via, passar testemunho e toca andar, tal era a pressa evidenciada desde o momento da partida. E, a bem dizer, até havia algum fundamento nessa predisposição. Pois, quem é que, de coração escancarado e olhar sensível ao estado de degradação em que a linha se apresenta, podia deixar de sentir, a par da beleza envolvente, um misto de angústia e de tristeza, impossível de superar o lado rústico, dramático e belo que ao mesmo tempo se lhes estampava?!...






Sim, não era dos tais passeios, em que o ver coisas bonitas ou feias, ultrapassar este ou aquele obstáculo, com maior ou menor grau de dificuldade no acidentado do percurso,  faz parte do roteiro e é um teste à audácia, à resistência, à pericia   e ao espírito de aventura dos participantes. Pelo contrário, ali, já toda a gente sabia (ou calculava) que ia  deparar-se com derrocadas, umas mais recentes, outras de há mais tempo, caminhar sobre as travessas apodrecidas – e até escorregadias, devido às chuvas dos dias anteriores, tendo havido quem escorregasse –  e com fracas possibilidades de escapadelas de trilhos ao longo das margens dos carris, ou por serem demasiado estreitos e semeados de pedras, capazes de fazerem rolar quem as pisasse ou por  estarem infestados por vegetação silvestre, consequência  de mais de duas décadas de esquecimento e de abandono – 


Mas não só: atravessar túneis, que são agora o esconderijo predileto de morcegos,  onde o ambiente é escuro e claustrofóbico, sendo mais a tentação de passar adiante e não parar, pois não se sabe se há um perigo oculto que espreite por cima ou dos lados, pronto a desabar  – Pelo menos, foi o cenário com que todos depararam, à saída de um extenso túnel, aliás, o


único, neste percurso. Onde era hábito ficar de serviço um funcionário da CP   para alertar o maquinista se devia ou não abrandar ou suspender a marcha do comboio. Esta a versão que ouvimos de um dos filhos, de quem ali chegou a trabalhar.  De resto, a mesma vigilância era feita por toda a linha, daí a razão dos pequenos edifícios, que foram erguidos de onde em onde  e que agora estão completamente esventrados e envolvidos por mato e silvas – Mostrando o mesmo aspeto, para não destoar,  em que se encontram as velhas estações.  


 CENÁRIO IDÍLICO, DEPOIS DA TRAVESSIA DE  UMA PONTE DE CORTAR A RESPIRAÇÃO,  –   AGUARDAVA-NOS  PARAGEM RETEMPERADORA DE SUMARENTAS LARANJAS E DE UMA PAISAGEM DE ENCHER OS OLHOS, EMOCIONAR O CORAÇÃO, VERDADEIRAMENTE INESQUECÍVEL



Passeios pedonais são frequentes na linha desativada do Douro, mas, com esta índole, com estes objetivos, são únicos. Nada foi  deixado ao acaso. Até quando era necessário atravessar uma ponte, com as passadeiras laterais, reduzidas a umas estreitas vigas de ferro enferrujado e ponteado de parafusos para dificultar ainda mais a passagem, provocando um vertiginoso vazio com os varões exteriores de apoio.  Mas lá estava o Zé Pilério e o Zeca Ribeiro, Veríssimo e também alguns dos caminheiros mais afoitos a fazerem artes circenses de malabarismo, prontos a darem uma mão amiga aos mais timoratos. Ponte altíssima, com a Ribeira de Aguiar, correndo lá em baixo, sob as suas potentes estruturas férreas,   convidando mais a olhar em frente,   de que para os lados ou para o volumoso caudal, que ali ia desaguar e juntar-se às águas do  Douro que também transbordava.


Confesso que, tendo optado pela faixa da esquerda, a mais desguarnecida, me senti, não direi atrapalhado, mas algo turvado e muito cauteloso – Eu que escalei o Pico cão grande em são tomé - clique o linke e veja, considerado uma das agulhas mais difíceis no seu género, não deixei de pensar, todavia, como vão longe já esses dias da minha juventude em demadas solitárias por vastos mares do Golfo da Guiné e em escaladas de paredes verticais . Foi, sem dúvida, o momento, mais arrojado desta nossa jornada. Ainda bem que, atravessada a ponte, nos esperava o tónico vitamínico de uns belos caixotes de laranjas. E também o que o Douro tem de mais majestoso, amplo  e singular, nesta fase do seu percurso: - onde se nos deparou um pouco de tudo


Tanto numa margem como na outra. Vinhas, pomares e olivais. E a paisagem agreste, revestida por um verde tenro. Instalações, do lado de lá, que denotam continuar vivas e pujantes. E, do lado de cá, na margem esquerda, as instalações de uma quinta, que foram magníficas e que agora estão em ruinas, em completo estado de abandono. 



Várias casas de xisto e granito, ali sobranceiras ao rio, num lugar deveras aprazível, dir-se-ia  privilegiado, erguidas ao cimo de uma suave colina, ladeada por duas linhas de água, que escorrem lá dos altos  e ao fundo de   belíssimos e xadrezados montes de olivais, que noutros tempos, regurgitavam de vida, com danças e cantares no seu vasto terreiro, antecedendo a ceia ou depois da mesma ou então festejando o fim da apanha da azeitona e  que agora são a imagem de um tempo de abundância e de riqueza, que parece perdido no tempo, não voltar mais a repetir-se. 

E é triste pensar-se no que foi e no abandono em que aquelas portas, varandas e janelas nos transmitem. Onde não faltava o tradicional forno do pão e os corrais do gado muar e caprino. Tanta riqueza desprezada, oh Deus! - Claro, consequência também do encerramento da linha. Por arrasto, foi a perda do comboio e muita vida que finou - Mas será que o homem não é merecedor de ser prendado com tais prodígios da natureza?!... Claro que sim. Basta que os governantes não esqueçam os seus deveres para com o genuíno povo e as suas verdadeiras raízes.



 Confesso que se apoderou de mim um sentimento de tristeza que jamais me largou pelo resto do dia. O meu pai nasceu na Quinta da Santa Maria,  agora  conhecida por Ervamoira, situada na margem esquerda do Côa.  Ainda lá dormi algumas vezes em criança. Ao ver as casas abandonadas desta quinta, não deixei de pensar naquelas casas de xisto onde viveram os meus avós paternos e noutras, cujas instalações deixaram de ter qualquer utilidade. Sim, exste lá o museu do sítio. Mas o que é isso, comparado com a vida que ali já existiu?!.. 




O resto do percurso fez-se praticamente sem história e foi rápido. Mal se contornaram uns montes, eis que se nos apresentava aos olhos o vasto cenário de Barca d’Alva. Na margem direita, as altas arribas do Douro, como sentinelas de várias colinas, a curiosidade de, no topo de uma delas, se nos deparar a Quinta  da Batoca, do poeta Guerra Junqueiro, rodeada de belos olivais – Mais à frente, alguns amendoais que denotavam estado de abandono. Viemos a saber que foram dos tais “projetos” que, depois de sacados os subsídios, ficaram à espera da poda do dia de São Nunca. Sorte diferente, e para melhor, tiveram os laranjais – E ali o fruto é mesmo de primeiríssima qualidade.  Não fosse aquele microclima tão benfazejo.


–Da margem esquerda, e à nossa frente (neste caso, à nossa direita, visto caminhamos de jusante para montante, ali estavam também uns belíssimos olivais junto ao rio, muito bem tratados, no termo dos quais, surgia a típica ponte dos arcos, Sarmento Rodrigues, mandada construir pelo “Estado Novo”, ligando o distrito da Guarda com o de Bragança.  E, naturalmente, o pequeno aglomerado de Barca D’Alva, que, no tempo em que o comboio por ali passava, era a grande porta aberta que, em Portugal, se abria, a Espanha e ao resto da Europa. 


Agora é mais uma aldeia, em progressivo envelhecimento,  esquecida e sem perspetivas  de futuro, tal como, de resto, está atualmente todo o país. É um facto que, os cruzeiros do Douro, que ali aportam para encaminharem os turistas de autocarro até Salamanca, sempre quebram alguma rotina ao pacato burgo, no entanto, nada que possa ser comparado   aos tempos em que  os caminhos de ferro transportavam  passageiros e produtos. E todas as instalções - e são muitas - funcionavam, espellhavam progresso e vida. E agora o que são: não há palavras para transmitir tamanho desprezo! - Choca ver tanta insensatez!


A este propósito, convirá recordar ainda as afirmações de Isabel Pires de Lima "Não me parece que haja condições para uma reativação da linha pela CP nos moldes tradicionais, mas faz todo o sentido que seja reativada para fins turísticos",


E também do autarca de Figueira de Castelo Rodrigo, António Edmundo, tendo afirmado ao JN que preferia a reativação da linha férrea até Barca de Alva como complemento à via fluvial, do que ter uma via rápida a ligar a vila ao rio Douro



Por seu turno, também Associação de Municípios de Trás-os-Montes e Alto Douro, defende "a remodelação de toda a linha ferroviária do Douro até Barca d'Alba". Escusado será referir que, depois que o  comboio deixou de parar na estação de Barca d'Alva em 1987, a  vandalização do edifício da estação  - que dispunha de  cafetaria, restaurante, posto alfandegário e da Guarda Fiscal  - tem sido contínua,  espelhando o que de mais irresponsável e desprezível, certas mentes, nutrem pelos bens públicos - Do lado de Espanha, a Renfe, conquanto tenha encerrado o troço até Salamanca, tem procurado preservar a linha e as estações.


UM PIQUINIQUE A CONDIZER COM O ESFORÇO DA CAMINHADA – PENA QUE O LOCAL NÃO TIVESSE A VIDA DE OUTROS TEMPOS

Terminada a jornada pedonal, toca de ir às merendas, molhar as garantas, estreitar ainda mais os laços de convívio. Cada um levou o seu farnel. Uns nos sacos que transportavam a tiracolo, tal foi o meu caso, outros tendo aproveitado o transporte que foi colocado propositadamente para o efeito. Mas ali a palavra de ordem era juntar farnéis e toca de atacar. Nuns casos, a carrinha a servir de mesa, noutros o muro de um dos cais da velha estação. Ninguém ficou com fome – Pelo menos, comida e variada não faltou. E também boa pinga para quem a apreciasse. 

Depois, ainda houve tempo para ir até aos cafés da aldeia. Partilhar o convívio com as pessoas ali nadas e criadas  - e até com velhos amigos. E continuar ouvir as magníficas exibições do acordeão de Reinaldo Monteiro – O homem, que, com o Veríssimo, ao longo do trajeto que percorremos, ao mesmo tempo que seguiam na testa do "pelotão" de caminheiros, servindo de batedores do terreno, iam enchendo as mãos de espargos – De resto, não só ele. Houve  quem colhesse flores e também quem trouxesse os filhos às cavalitas. Sem dúvida, mais de que um passeio, uma bela jornada de luta. Quem fez fotografias - e muitos foram - já tem muito para recordar. Oxalá sirva de reflexão a quem tem obrigação de pensar que, o Portugal profundo, precisa de ser escutado e não desprezado. 

















UM PALAVRA  DE LOUVOR À EQUIPA QUE NOS ACOMPANHOU  DE PRONTO SOCORROS DOS BOMBEIROS VOLUNTÁRIOS DE V.NOVA DE FOZ CÔA

Felizmente, não foi necessária a intervenção do pronto-socorro. Salvo umas tropeçadelas, mas sem contudo terem causado problemas físicos ou dificuldades de progressão, o passeio correu às mil maravilhas. No entanto, fora do nosso grupo, houve quem precisasse de ser socorrido. Foi o caso de uma mulher espanhola, que, tendo tropeçado na antiga ponte do Águeda,  sofreu um grande golpe na testa. O facto terá passado despercebido à maioria dos nossos companheiros do passeio, visto ter ocorrido à hora em que se acervam dos farnéis, e também porque foi bastante afastado do local onde almoçavam – Mas estava lá a nossa reportagem e pôde registar o episódio. Ficamos sem saber quem os contactou. Do que fomos testemunho, é que eles chegavam ali a correr com as caixas na mão e que, a dita mulher, pese o seu azar , teve a pronta assistência de que necessitava. Além disso, a ambulância ainda a levou para o hospital de Figueira de Castelo Rodrigo – Faz bem e não olhes a quem- Este o lema que norteia os soldados da paz, que, uma vez mais, foi tão manifestamente dedicado, altruista  e voluntarioso.

 Jorge Trabulo Marques

Comissão da Carteira Profissional de Jornalista

 Nº 680.Jornalista profissional

quarta-feira, 20 de março de 2013

Equinócio da Primavera celebrado hoje, com um nascer de sol radioso, no Calendário Pré-histórico da Pedra da Cabeleira, Monte dos Tambores- Mancheia - Chãs - Foz Côa - com poemas de Sophia Mello Brayner, Fernando Pessoa e António Ramos Rosa








 Levantamo-nos às seis da manhã, pois queríamos estar no local a tempo e  horas. E a primeira coisa que fizemos, foi abrir a janela e ver o tempo. O Sol ainda não tinha nascido mas o céu estava limpo e azul. Sinal de que podíamos ter a certeza de que ia valer a pena o nosso esforço. De que a pequena gruta, em semi-arco, da Pedra da Cabeleira de Nossa Senhora, situada no maciço dos Tambores-Mancheia, ia ser iluminada de uma ponta a outra e no sentido nascente poente. Abrindo-se no seu frontispício, em leque, e, com uma tal inclinação que parece desafiar as leis da própria gravidade, coroada por uma radiosa estrela, como se estivesse a descer magnificamente do céus à terra e não fosse esta a hora da sua ascensão dos horizontes aos céus.


E foi o que vimos, uma vez mais - durante a  breve cerimónia mística que teve lugar  aos pés do altar sacrificial do referido templo solar,  entre as 07.00 e as 07.30 horas.  De forma simples e espontânea. Mas valeu a pena.  Já lá levamos grupos de dança, já ali realizámos eventos belíssimos. Já ali estiveram algumas centenas de pessoas. Não foi o caso. Mas houve celebração. E com o mesmo renovado entusiasmo de sempre. Pois são dos tais momentos, que, conquanto possam  fazer cerrar os olhos humanos pelo seu intenso foco, dificilmente os cansam  pela energia e brilho transmitido do encanto do seu  auspicioso esplendor






De véspera chuva, frio e céu cinzento, muito escuro - Aspecto bastante desmotivador para quem pensasse saudar a Primavera, em comunhão com a natureza. Pois difícil era de  prever (salvo os técnicos da meteorologia) que na manhã de hoje, primeiro dia da estação  das flores, nos esboçasse um sorriso tão amorosamente primaveril. Mas aconteceu - manhã límpida e brilhante. Sem uma névoa a cobrir os  céus. Sobretudo ao raiar da manhã. Para quem se deslocou à Pedra da Cabeleira, no Monte dos Tambores-Mancheia, acertou. A surpresa  não podia ser mais esplendorosa - Éramos poucos - mas houve quem viesse de Lisboa, caso de Paula Ferreira e, até, quem ali chegasse quase sobre a hora, vindos da  Galiza, Manuel Luís Múnes Diz, que já havia estado na Pedra do Sol, no Solstício do Verão e o seu amigo, o psicólogo João Carlos Miguéis. 

Ficaram radiantes. E, obviamente,  também nós pela sua tão amável empatia e  comunicabilidade.  Prometeram voltar na celebração do Solstício do Verão e com mais amigos - O património celta  faz parte da herança cultural galega e estes dois nuestros hermanos, veem nos templos do sol, em Chãs, e também noutros vestígios históricos, nomeadamente os castrejos, uma relação ancestral antiquíssima  e estreita com um passado comum aos antigos povos que se fixaram nestas zonas da península Ibérica   Daí o seu entusiasmo e o desejo de verem recuperada e intensificada esta relação cultural. 








Quem também não faltou, foi um dos nossos mais ativos e fiéis colaboradores da comissão das celebrações, o nosso amigo Sr. António Lourenço, que leu os poemas de pendor primaveril de  Sophia de Mello Brayner,Primavera na nossa poesia : e Quando à noite desfolho e trinco as rosasAlberto Caeiro Quando Vier a Primavera - (heterônimo de Fernando Pessoa, bem como consideremos o Jardim  de António Ramos Rosa - Cuja leitura decorreu, justamente, durante os escassos momentos em  que o astro-solar ali derramou a sua luz através de tão espantoso portal.


UM GESTO SINGULAR







Terminada a celebração, os nossos amigos galegos visitaram a pedra dos poetas, o castro do Curral da Pedra e a Pedra do Sol -  Na Pedra dos Poetas,  ergueram os braços e recordaram versos de  Rosalía de Castro –  - Esta pedra é também conhecida por Pedra Fernando Assis Pacheco –, em homenagem ao jornalista e poeta português, com origem na Galiza. E passou a ter o seu nome por  ter-se dado esta circunstância: um mês antes da sua morte, levantou ali os braços, rendido à beleza do lugar, depois de ter ido efetuar uma reportagem para a revista Visão, sobre as gravuras paleolíticas do Côa. 

Por esse facto, todos os anos, por altura do solstício do Verão, constituiu ponto obrigatório de romagem para evocar esta ou aquela figura das letras e artes, cuja obra se integre no espírito do lugar. Contamos que esta iniciativa  possa também estender-se  a figuras do país irmão, nomeadamente as que  mais se identifiquem  com a ancestralidade e as raízes desta região














Uma vez mais aproveitamos para agradecer aos proprietários do sítio e área adjacente, Teresa Duarte Marques e Fernando José Baltazar, a sua compreensão por continuarem a reconhecer a importância destas celebrações