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segunda-feira, 23 de setembro de 2013

António Ramos Rosa – faleceu hoje mas perdurará nos Templos do Sol da Cultura Portuguesa – Homenageámo-lo, ontem, na celebração do equinócio – Afinal, às portas do Outono da Vida

(Postagem recuperada do site Desoculto Noturno)


O poeta  António Ramos Rosa –  Prémio Pessoa 1988, considerado uma das maiores figuras da poesia portuguesa do século XX, morreu hoje aos 88 anos. O funeral do poeta realiza-se na quarta-feira para o cemitério dos Prazeres, em Lisboa.




(Excerto da cerimónia evocativa)




António Ramos Rosa, faleceu hoje mas os seus versos continuarão vivos. Homenageámo-lo ontem, na celebração do equinócio do Outono, com a leitura de dois seus belos poemas - Embora pressentindo que a sua saúde não deveria andar lá muito bem, pois foi a impressão que nos deixou quando o visitamos da última vez na Residência Mantero - Longe, no entanto, de imaginarmos  que o seu coração se apagava lentamente e estava às portas da morte – Aqui fica pois a nossa   homenagem, sincera e amiga  – Com o excerto do vídeo que registamos.




Recebeu-me, muitas vezes, em sua casa, a título pessoal ou por razões profissionais para a Rádio Comercial - Proporcionou-me agradáveis e inesquecíveis  momentos  de convívio  e até no café onde costumava ir. Tornámo-nos  amigos e visita praticamente familiar. Datilografei-lhes e passei-lhes alguns dos seus poemas para o meu  computador - ele não o usava, nem gostava dessa palavra mas havia outras que, ouvindo-as pronunciar, podiam ser o ponto de partida para um lindo poema -  sim, confiou-me alguns manuscritos (com uma letra quase indecifrável) para os transcrever, numa altura em que, por razões de saúde, ele tinha alguma dificuldade em escrever ou em batê-los à máquina - Outros vertidos directamente para o papel, que ía escrevendo, à medida que  brotando da sua mente






Escreveu expressamente meia dúzia de poemas para um livro com fotografias de minha autoria, com textos de Lídia Jorge, Oliveira Marques e José Andrade - A editora, a quem entreguei o espólio não tendo cumprido com os prazos, foi-lhe retirado, pelo que o livro não chegou ainda a ser editado. Ofereceu-me vários dos seus lindos desenhos, um dos quais que me dedicou, bem como um lindo poema a uma das minhas fotografias, que registei no Monte dos Tambores e outro também às aventuras que fiz pelos Mares do Golfo da Guine, tal como também a sua grande amiga e companheira de todos os momentos, Agripina Costa Marques, a quem expressei também  o meu sincero pesar  

Já o homenageámos, numa das anteriores celebrações do Equinócio,  ontem voltámo-nos a lembrarmo-nos do  bom amigo - O genial poeta - Simples, destituído de vaidade, como, aliás, são assim os grandes génios - Também ele o era na mais bela e original expressão poética - Sem dúvida, um dos maiores do nosso tempo. Por isso mesmo, a sua morte será apenas corporal, já que as suas palavras continuarão  intemporais, como um dos mais belos Templos do Sol da Poesia Portuguesa


(todas as imagens são  do autor deste site)


A Festa do Silêncio
Escuto na palavra a festa do silêncio. 
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se. 
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas. 
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas. 
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma. 

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia, 
o ar prolonga. A brancura é o caminho. 
Surpresa e não surpresa: a simples respiração. 
Relações, variações, nada mais. Nada se cria. 
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça. 

Nada é inacessível no silêncio ou no poema. 
É aqui a abóbada transparente, o vento principia. 
No centro do dia há uma fonte de água clara. 
Se digo árvore a árvore em mim respira. 
Vivo na delícia nua da inocência aberta. 

António Ramos Rosa, in "Volante Verde




Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te 
Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
Vejo o rosto escuro da terra em confins indolentes.
Estou perto e estou longe num planeta imenso e verde.
O que procuro é um coração pequeno, um animal
perfeito e suave. Um fruto repousado,
uma forma que não nasceu, um torso ensanguentado,
uma pergunta que não ouvi no inanimado,
um arabesco talvez de mágica leveza.
Quem ignora o sulco entre a sombra e a espuma?
Apaga-se um planeta, acende-se uma árvore.
As colinas inclinam-se na embriaguez dos barcos.
O vento abriu-me os olhos, vi a folhagem do céu,
o grande sopro imóvel da primavera efémera.

António  Ramos Rosa

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