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sábado, 4 de outubro de 2014

Santo Tirso, a Escola Agrícola e os têxteis – “É melhor que tudo acabe, os chineses vão tomar conta de tudo” - Desabafos de um velho operário ao recordar as antigas fábricas que encerraram e deram lugar aos bazares chineses – Mas também há quem lhe teça os maiores elogios. - Registos de um jornalista e antigo aluno, que ali volta para o tradicional almoço de convívio do 5 de Outubro

(veja a reportagem do almoço-convívio dos antigos alunos da Escola Agrícola, editada no post do dia 8 deste mês)

 
Foto de convivio 5-10-2013

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista e antigo aluno da Escola Agrícola, de Santo Tirso




A cidade de Santo Tirso, tem o nome de um santo, talvez devesse ter o nome do Ave (bom, já existe a Vila das Aves), nome atribuído a um rio bem mais antigo de que todos os santos da era cristã e que faz desta cidade um maravilhoso presépio. Com os seus verdes frescos que se espraiam nas suas margens e se erguem pelas colinas envolventes, até ao Monte do Santuário de Nª Srª de Assunção, sobranceiro à cidade, coberto por um espesso manto de pinheiros e de  seculares carvalhos, na colina do qual se encontra localizada uma imponente basílica,  projecto  do arquitecto italiano Korrod e  de cujo miradouro   se desfruta uma  paisagem natural de extraordinária beleza

Sem dúvida, a capital  do Ave,  é a cidade dos múltiplos verdes, que particamente nunca se desnuda  de  verdura, em qualquer altura do ano, mas há estações  em que os seus tons mais lembram aguarelas dos pintores de paleta ao ar livre – 

 

 

 


 
É agora, por esta altura, com os dias outonais a  decrescerem  e o acentuado amarelecimento das latadas e das árvores de folha caduca, que  esses tons nostálgicos mais se destacam na paisagem, - Por issso, talvez não seja por mero acaso, que,  todos os anos, os antigos alunos da Escola Agrícola Conde S. Bento, ali se dirigem para o seu tradicional almoço de convívio anual, do 5 de Outubro  – Como deixou de ser feriado, antecipa-se ou adia-se para o domingo seguinte. Desta vez, veio mesmo a propósito, amanhã é domingo. Embora residindo em Lisboa, também conto lá estar. 

Têxtil Café” – No coração da cidade para convier, recordar e promover os têxteis 

O Têxtil Café, fica  na Rua Sousa Trepa, que é mais uma praça  de que uma rua, situando-se num dos pontos mais bonitos, centrais   e floridos da cidade de Santo Tirso. 

Este espaço temático  tem apenas um ano de existência mas já deu provas de maturidade e de bons projetos.  Além de dispor de  um retiro ajardinado nas traseiras,  onde fizemos a entrevista,  distribui-se pelo hall da entrada e de uma sala que ostenta um velho tear. É intenção da gerência transformá-lo como que  num museu etnográfico de visitas, servindo ao tempo  de convívio e de lazer e permitindo contar  a história dos têxteis de Santo Tirso e do vale do Ave. Pois, como é do conhecimento público, embora já não tendo as antigas fábricas,  há que recordar esse passado riquíssimo da indústria têxtil.

É  justamente o que ali pretende  concretizar o gerente do Têxtil Café, com a exposição permanente de fotografias e antigos artefactos,  promovendo vários eventos e iniciativas, relacionadas com as mais recentes novidades da moda, na área das confeções, dando a possibilidade às empresas de ali exporem  e anunciarem os seus últimos modelos ou coleções – Pois está confiante de que, apesar da crise que, atualmente, atravessam os vários sectores de atividade, existem empresas muito competitivas, considerando estarem  reunidas as condições para que  a industria têxtil nesta zona volte a recuperar.



Completou no passado dia 27 de Setembro  o seu 1º aniversário, alegremente festejado  com  a casa cheia de muitos clientes e amigos – Aliás, logo desde a  primeira vez, quem o frequente, ao sentir a simpatia e o agradável acolhimento, acaba  por ali voltar e  tornar-se em mais um tertuliano e amigo. Pois, como diz o seu gerente, no Facebook, “A vida é feita de momentos , e pessoas que fazem desses momentos especiais”



 
Ora, foi  justamente esta a impressão que tivemos,  quando nos apercebemos da sua existência, por altura da Festa das Rosas, na Escola Agrícola, na qualidade de antigo aluno, mas também como jornalista observador e atento, ao fazermos um giro pela cidade, não querendo deixar  de conhecer o que nos pareceu, logo à entrada,  a avaliar pelo espaço e decoração, mesas, cadeiras, balcão, manequins, e até o facto das paredes não terem sido cobertas e ostentarem  o granito de outros tempos, sim,  desde logo, termos ficado  convictos de estarmos  em presença de um sítio diferente, bastante mais atrativo e original que os  dos vulgares bares e cafés – Parabéns  à gerência de Moreira, com os desejos sinceros dos maiores êxitos e felicidades.

 ANTIGAS FÁBRICAS DE TÊXTÉIS - NÃO RESISTIRAM À GLOBALIZAÇÃO LIBERAL

Reformados  tirsenses, num agradável momento de convívio e de descontração, sentados num banco do jardim da Praça Conde S. Bento, localizada na parte mais alta da urbe, recordaram  ao jornalista as vidas de outros tempos. - Sempre que nos é possível, voltar a Santo Tirso, é como que regressar a uma cidade que nos é muito amada e muito querida.


Como antigo, aluno da Escola Agrícola Conde S. Bento, há recordações inolvidáveis, e indo lá é ainda avivar  mais a memória, folheando quadros marcantes para o resto da minha vida. Visitando as instalações e os campos agrícolas de um antigo mosteiro, que mais tarde seria transformado numa instituição de ensino, mas também não deixando de subir à cidade, ir visitar  um dos seus  mais emblemáticos parques e continuar a caminhada pela rua principal para admirar, talvez um dos mais belos jardins de Portugal -  




Ao passar  pela Praça Conde S. Bento,  não resisti de conversar  com alguns simpáticos anciães, naturais desta terra,  registando em vídeo os desabafos e as recordações de outros tempos, antes do enceramento das fábricas de têxteis, mas também as agruras de um período em que se trabalhava de sol a sol, de salários de miséria, levando a que alguns tivessem de emigrar para França, onde já se respeitavam horários e se ganhava mais. Pois, segundo me confessou um destes simpáticos e comunicativos homens, se não tivesse emigrado, teria morrido à fome. Contudo, agora também não olham para o futuro com otimismo, Um deles vai ao ponto de desabafar, dizendo:, “é melhor que tudo acabe, as fábricas estão todas fechadas, os chineses vão tomar conta de tudo

Drama de operário da extinta fábrica Teles – “Aos 50 anos,  não sou velho!” 

 
Natural de Santo Tirso, antigo operário da Fábrica Teles -  de fiação e tecidos, que chegou a ser a  maior empregadora da região, com algumas centenas de operários, encerrou na década de noventa, tal como muitas outras neste concelho e noutros pontos do país. A sua experiência não lhe serve de nada – Apresentou-se numa fábrica alemã existente no concelho de Famalicão, gostaram do seu desempenho mas alegaram que não o empregavam derivado à idade. Casado, ele e a sua mulher, ambos desempregados. Apesar disso, não vê o país muito degradado e não tem nada contra as lojas dos chineses mas reconhece que, “se os governantes apostassem mais no nosso país,  havia mais atividade. Só que, “hoje em dia, não se importam pelas nossas coisas. Nós, os portugueses, temos ideias mas só que ninguém aposta em nós, porque nós somos pequeninos” - remata.


 Antiga fábrica  de tecelagem Malhado – Triste imagem de um país abandonado – Quem nos acode? - Se não fosse o risco de desabamento - e essa situação parece  frequente - talvez valesse a pena deixar que os aristas murais ali dessem vazão à sua liberdade - Em vez de ficar, como a Fábrica Teles, uma "Nave Cultural", poderia passar a chamar-se de" Nave Fantasmal"

O que, até ao principio da década de 90 era um local de trabalho e de vida, é agora um esqueleto de ruinas, um espaço fantasmal, aproveitado pelos pintores de rua ou de circunstância, desiludidos ou namorados que ali querem deixar o seu testemunho nas paredes por entre o ar sombrio que as povoa –  As suas ruinas situam-se junto à antiga estação da CP e na margem direita do rio Ave. Quem vá ali apanhar o comboio ou saia desta estação, passa obrigatoriamente ao lado e é difícil que não relance o olhar para aqueles estranhos escombros. Foi o que me sucedeu ao regressar de uma peregrinação de saudade à Escola Agrícola de Santo Tirso, por ocasião da Festa das Rosas, para ali recordar um tempo que já lá vai há muitos anos mas que não esquece – Nomeadamente quando, Santo Tirso, era realmente um centro de grande atividade febril . Hoje, a cidade tem mais casario, é verdade, a criação de um passeio pedonal e ciclovia, ao longo de 1,4 quilómetros da margem direita veio permitir excelentes momentos de lazer físico e contemplativo, porém, em muitos lares há, com certeza, desemprego, fome ou muitas privações. Diz-se que cidade fez as pazes com o rio mas dificilmente  é capaz de sarar as sequelas deixadas em milhares de famílias onde reina o desemprego, a descrença, a incerteza e a miséria.

Era conhecida pela Fábrica do Malhado e chegou a laborar com mais de duas centenas de operários mas aconteceu-lhe o mesmo que à Fábrica de Fiação e de Tecidos Teles, encerrou portas – O primeiro golpe veio do leste da europa com a deslocalização das fábricas, que ali se instalavam na mira de mão-de-obra barata – Depois, com a abertura ao mercado chinês e a expansão do liberalismo selvagem e globalização económica, veio a estocada afinal. 

 
As fábricas das principais marcas, desde o vestuário aos eletrodomésticos, transferiram-se para aquele país asiático e Índia – Quer em Portugal, quer no resto da Europa, à exceção da Alemanha, que soube defender a sua industria pesada e aproveitar-se do Euro a seu favor, o desemprego não mais parou de galopar.. Tanto mais que, a par da deslocalização das fábricas,  a grande maioria dos produtos que as mesmas passaram a produzir nem sequer são vendidos por europeus mas através de milhares de lojas orientais. 


Criada uma geração de novos ricos e milionários chineses, como se não bastasse esse duro golpe, ainda por cima são esses senhores que vêm tomar conta do património do Estado, agudizando ainda mais a situação de trabalho precário e a crise económica e social – Face a esta afronta, quem nos acode?... Onde estão os governantes que, em vez de se envolverem em esquemas corruptos,  defendam o seu povo?... Em parte alguma. Quem ascende ao poder é quem controla os media e elege os seus servidores, manipulando e desinformado a opinião pública…. Até quando esta afronta?!....Será que já nem sequer haverá ânimo para a indignação ou prefere-se o suicídio, a morte lenta e o deixa andar?!...

FÁBRICA TELES – TRANSFORMADA EM “NAVE CULTURAL”

Nem tudo está perdido – Enquanto a antiga fábrica do Malhado, mais lembra um esqueleto fantasmal de que propriamente um enorme armazém,  que, antes de ser encerrado dava emprego a  mais de meio milhar de empregos, já a antiga fábrica Teles, aquela que foi das maiores fábricas do Norte, passou a ter nova utilidade, graças a um projeto de reabilitação, dividido em três fases “

A primeira começou em 2008, com a entrada em funcionamento da Incubadora de Santo Tirso, que acolhe actualmente 12 pequenas empresas de base tecnológica", seguiram-se depois as outras duas fases, já concluídas, destinadas  a diversas atividades culturais: concertos, exposições, eventos sociais e técnico-científicos, bem como  a alojar o Centro Interpretativo da Indústria Têxtil.


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