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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Dia primeiro de 2015 – É inverno, estralejam foguetes na grande cidade, enquanto outros apertam o cinto ou dormem ao relento – Os campos do Portugal profundo, cobrem-se de gelo e de nevoeiro, como fantasmas . Todavia, é para lá que nesta solitária noite voa o meu pensamento












Sou nado e criado numa aldeia e de um tempo em que a ceia era iluminada à luz da candeia. De um tempo em que havia uma dúzia de rebanhos de ovelhas e agora só há dois e não tarda a não ficar nenhum.  De um tempo em que quase não havia palmo de terra que não fosse cultivado -  pois onde não chegava o arado, cavava a enxada. Caro que a vida era dura mas havia gente, a aldeia estava povoada e, atualmente, não está. Corre mesmo o risco de vir a ficar numa simples quinta ou talvez nem isso. 



 
Nesta noite havia uma enorme fogueira acesa no adro da igreja, ardendo no melhor tronco roubado de amendoeira ou de oliveira.  Agora a minha aldeia, já tem eletricidade e água canalizada. O que não tem é já quase ninguém. A maior parte das pessoas são idosas e estão no lar. Mas o panorama não é só na minha aldeia, é em muitas aldeias de Portugal. Sim, é um país que envelhece, mal governado e vilipendiado, hipotecado ao euro alemão

 
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.  (três gerações que já pouco se veem: o avô, o filho emigrante e a neta)



Sim, este é o primeiro dia do ano – Quando chegou a meia-noite, estralejaram foguetes pela cidade. Ouviu-se um bruaá lá fora e um bater de panelas ou tachos à janela. Certamente de pessoas que não passam privações ou que pretendem esquecer as agruras vividas e atordoar-se do futuro incerto que as espera.


Como não sou prisioneiro das televisões e prefiro o aconchego silencioso da minha modesta e fria mansarda de águas furtadas (não é muito confortável mas os cobertores dão um grande jeito, vão remediando) foi-me então fácil imaginar que havia muito quem festejasse o  momento – Sejam felizes para todo o Ano. Pois é bom ser feliz e desejar felicidade a amigos e a desconhecidos – O que não é bom é esta cruel e indesmentível realidade de que, por detrás deste ruido festivo, há um imenso silencio de pessoas desempregadas, num país à deriva, cada vez mais em mãos estrangeiras e de milhares de famílias  que não sabem como fazer face ao dia a dia e dar sustento aos filhos

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