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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Poema de Orlando Marçal - Vem aí a poesia da floração da amendoeira de 20 de Fevereiro 8 de Março - Tempo do habitual espetáculo florido na chamada terra quente: Foz Côa, Meda, Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta e Figueira de Castelo Rodrigo - Há belos panoramas para contemplar e recheado programa de eventos para admirar. -Tempo que antecede o anúncio da Primavera e dar a voz aos poetas

"Floriu no meu pomar essa linda amendoeira,
plantada por meus pais há duas dúzias d'anos,
ao pé da qual verti a lagrima primeira
de vida amargurada em tristes desenganos..."

Orlando Marçal - Mais à frente o poema completo - Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista

 
É a festa da amendoeira em Flor, com as encostas, as mais ingremes ladeiras, canadas e vales da chamada terra quente, como que engrinaldadas por uma brancura alva, imaculada  ou rosácea. Foz Côa, Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta, Figueira de Castelo Rodrigo, e algumas aldeias do concelho de Meda, digamos que as margens do Côa e Douro Superior, das  suas ribeiras e ribeiros, vão oferecer-se,   como drávida sublime, vestidas por inúmeras amendoeiras floridas, recheadas de um perfume inebriante.

Em termos de eventos locais, do município fozcoense, é a chegada da tradicional quinzena da amendoeira, que vai decorrer de 20 de Fevereiro a 8 de Março, com vários espetáculos musicais, exposições, culminando com o desfile etnográfico..





 






Embora a desertificação esteja a deixar muitas zonas despedidas, onde dificilmente até cresce o mato, mesmo assim ainda há magníficas panorâmicas para admirar . E, pelos vistos, Foz Côa, tem razões justas para saudar estes quinze dias festivos. Já que, à semelhança dos anos anteriores, não deixarão de confluir alguns milhares de visitantes. Tanto assim que é já a imprensa, mais cotada internacionalmente,   a considerá-lo um destino turístico cultural e paisagístico de excelência

 A VOZ A UM POETA DE FOZ CÔA – QUE TAMBÉM CANTOU  A NATUREZA

Sim, por isso mesmo, nestas coisas, sobretudo quando a Natureza  se reveste de flores, dado o caudal de emoções, das inagens e dos sentimentos  que, geralmente, a natureza em festa infunde aos espíritos, mais sensíveis, não há como dar voz aos poetas . Já  aqui o fizemos, com Manuel Daniel, e outros autores, agora  vamos dar a vez ao poeta Orlando Marçal, nado e criado em Foz Côa, que, pelo que nos é dado saber, cedo se revelou (com vários livros de poesia, romance e contos) mas que cedo também  partiu para a eternidade.

“Nessa manhã olímpica e radiosa,
com o sol iluminado os altos montes,
firmei enlevo divinos, insontes,
mais belos que a epopeia gloriosa!

Cantava em mim, qual arpa misteriosa
a natureza em flor: e a voz das fontes,
fendendo a vastidão  dos horizontes,
erguida  a melopeia harmoniosa.

Exceto de “A Mocidade” de Orlando Marçal

UMA REVELÇÃO MUITO SAUDADA NO SEU TEMPO


Muito saudado pela crítica, mesmo até estrangeira, com rasgados elogios e referências em quase toda a imprensa, e, em Portugal, nomeadamente, por figuras ilustres do seu tempo, como seja Teófilo Braga, que disse: -«Como o meu silencio poderia parecer qualquer indiferença, do velho para o rapaz, não quero que tal sombra lhe passe pelo espírito. Quebro o silêncio para dizer, que li com encanto o seu livro. Gosto muito daquele género, desde que li os Poemas em prosa do Beaudelaire. Parabéns.

Fialho de Almeida: “que interessantemente li e pelo qual muito  felicito o autor. É um escritor que chega e quem me apresso a saudar"

De Abel Botelho: - "é por muitos títulos primoroso. Não é uma tentativa mas uma afirmação. Vê-se que está concebido e escrito com alma – a única maneira de eternizar a obra de arte na memória dos homens. Dá-me sempre um quente e íntimo prazer a aparição de promissoras primícias, como esta, na sáfara aridez da nossa  produção intelectual."

SOMBRA MARAVILHOSA

Floriu no meu pomar essa linda amendoeira,
plantada por meus pais há duas dúzias d'anos,
ao pé da qual verti a lagrima primeira
de vida amargurada em tristes desenganos...

Fica ao fundo do orto, à sombra dum lilás,
que desabrocha agora em pétalas radiosas,
onde já desfiei nos tempos de rapaz
meus segredos cantantes, como qu'esparsas rosas.

Uma viçosa planta de verde engalanada,
onde, li fina flor de imaculados linhos,
 quero sentir, febril, haustos de namorada,
envolto em sol doirado e musica de ninhos.

E´ meu altar sagrado, um níveo bem-me-quer,
estrela d'alva e gula em pedregosos trilhos,
onde ei-de acalentar lindos sonhos, mulher,
acarinhando em luz nossos pequenos filhos.

Soluços derramados por ilusão e dor
fui depô-los bem perto, esfolhando-os pelo ar;
 ha-de aí reflorir nosso profundo amor,
quando vieres, enfim, iluminar meu lar.

Filhas, quando as tiver, eí-de bordar pra elas
o que outrora, feliz, arrancava à minh'alma,
sob a paz da paisagem e o fulgor das estrelas,
cheio de graça e fé, d'encantadora calma.

Ei-de cantar meus simples versos peregrinos,
 a reacender dar-orna e de terna saudade,
ensinando enlevado a esses florões divinos
tudo quanto criei na minha mocidade.

Nossos filhos ditosos! outros lírios em flor,
a aquecer a existência como um sol d'alvorada,
 prenderão com mais febre o imorredouro amor
que sinto em nosso peito, oh mulher adorada!

Filhos! lindos miosostia d'olor inebriante,
gotas puras d'orvalho a sanar uma ferida,
arminho doce e bom em caricia constante,
orgulho cordial vibrando em nossa vida ;

alva luz do luar, belos contos de fada,
frescos e  botões em flor do nosso beijo o fruto…
 não demores teu passo, oh mulher encantada,
de 'corpo altivo e nobre e tranças cor de luto.

Tua alma imaculada, como aurora de neve,
em seus transportes castos de paixão e candura,
 espelha-se em meu intimo, a tremer, ao de leve
em ósculos d'amor da meiguice mais pura.

Que tristeza não houve em desditosas eras
 de sofrimento amargo e de lutas magoadas,
 hoje na dentro de nós risonhas primaveras,
recendentes de brilho e rosas perfumadas.

Outrora, à ténue mancha desta planta em flor,
 esforçava o olhar por descobrir a senda,
onde havia nascer o teu divino amor,
de santa de balada ou rainha de lenda.

Vestidinha de branco indo para um noivado,
Semelha aconselhar adoração, constância,
tanto aceita por nós esse tronco sagrado,
nívea pomba da pz, farol da minha infância.

Estrela salvadora e confidente irmã,
bem-dita sejas sempre, oh arvore florida,
que vou saudar alegre, ao romper da manhã,
sombra do meu vergel, sonho da minha vida!

1906

De seguida ainda um breve excerto das muitas referências que fizeram à sua obra


Por exemplo, a revista A Cidade, escreveu o seguinte :-Sob uma arvore verde da Avenida, no terrasse do bar, sob o calor de 32,6.0, tomando uma li monada, o meu amigo Leandro, perguntara-me: -Já lês te Marçal, Orlando Marçal, o artista do Iluminuras?
Eu já havia lido Marçal, em páginas admiráveis, nos jornais lusos e brasileiras. Respondi.
Já. É um belo temperamento de emotivo e esteta. 

-O livro Asas, continuou o meu amigo á quietude verde das árvores sob a soalheira tremenda, é um encanto. Marçal não é apenas o esteta, o estilista, o sonoro: é o psicólogo. As suas páginas vivem, as suas personagens vibram, andam, choram, palpitam. 

Leandro estava entusiasmado. Quási uma hora levou-me a falar de Marçal. No outro dia mão carinhosa me oferecia exactamenle o Asas, do jovem escritor luso. Abri-o. No pórtico apenas isto: Tout homme qui écrit un livre, c’est  live,  c’est  lui - Victor Hugo, Agradou-me tal frase, que o livro, diga-se, não desmentiu. O escritor é o livro. Sente-se uma alma de inquieto desejo de perfeição, de mocidade quente, de beleza. O livro é todo cheio de sentimentos bons, de ideias nobres, de alegrias, de esplendor, Agrada. Torna-se querido, de quem o lê, como uma pessoa que a gente por conhecer-lhe a bondade, mais a estima depois disso.

…Li-o numa tarde; li-o e gostei. Não sei porque, minha alma deixou-se fixar na paisagem espiritual da-Pagina Coimbrã-tarde de melancolia violácea, de tons cinza de há doloridos arpejos de amarguradas saudades. É uma página de recordação, de adeus à terra trovadoresca, terra de boémia livre nas noites de guitarradas lânguidas, terra de estudo e de poesia. E' falando a uma tricana que dele a vida separa, que diz: “-Tenho pena, oh! que pena imensa, inenarrável e eterna de ler ido acordar cm teu peito o eco adormecido de uma ventura iminente… e um sentimento nos prendeu, como raiz de arvore frondosa, perenemente vicejante, a enlear-se ao coração da terra. E sobre a nossa vida, como sobre a pedra calada dum sepulcro, ficará a pairar o claro raio desta ilusão e em nossa alma pousará sempre, ruflante e carinhoso, o reflexo desta saudade” - E segue na sua roxa peregrinação de tristeza, na sua dolente romagem de exortação. Lembra-se depois de urna grácil  e estonteante madona italiana-cuore e mente-a contezinha de Sammito. Lembra-a e sente espasmos longos de tédio, grilos de exaltação, no fremer das saudades pungentes...

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