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quinta-feira, 9 de abril de 2015

Diário de William Beckford em Portugal e Espanha – Do milionário escritor inglês que admirava o “absurdo rabicho” do 6º Marquês de Marialva e 8º Conde de Cantanhede, quando este ainda era o D. Pedrinho, em 1787 - “Já lhe senti a doçura dos lábios.” - Fixou-se em Portugal por via do escândalo homossexual com o adolescente William Courtenay (9º Conde de Devon).

 Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Este estudo deu-nos várias horas de trabalho - Nomeadamente, na atenta e demorada análise dos excertos que tomámos a liberdade de selecionar  do Diário de  William Beckford em Portugal e Espanha - Livro editado pela BNP  que recomendámos. Que mais não seja para ver até onde vai o requinte literário da hipocrisia  e das  palacianas e parasitas farsas dos costumes portugueses naquele período - De um autor referido num poema de  Lord Byron, Se porventura retirar alguns excertos, não se esqueça de citar a fonte.

William Thomas Beckford (01 de outubro de 1760 - 2 de Maio 1844), mais conhecido como William Beckford. aristocrata inglês, romancista, colecionador e crítico de arte, perseguido nos últimos anos da sua vida devido à sua homossexualidade com um menor, é  das tais personagens que escreveu polémicos episódios da sua vida pessoal em forma de diário e publicou livros de viagem, do mais fino recorte literário, e da qual muito se especulou, custa a crer que ainda ninguém se lembrasse de produzir um filme, nomeadamente dos períodos que passou em Portugal – Mas que manancial mais  vasto e prolixo! –  Há argumentos para todos os gostos-"O Padre Duarte chupava o dedo a um canto (...) e o velho marquês inspirado  por um adágio patético, pôs-se a deslizar , repentinamente , pela sala, numa espécie de passo de dança",,,,Beckford esteve em Portugal por três vezes:  1787 e 1789; 1793 e 1795 e entre 1798 a 1799.   

Não é nosso desejo traçarmos aqui  o perfil ou os devaneios sexuais do famoso  William Beckford  - Essa é uma  questão  demasiado intrigante e complexa, que nos ultrapassa, sobre uma personalidade, tão multifacetada e controversa, cuja análise não é fácil de fazer.

Contudo, uma interrogação  se nos colocou, depois de lermos atentamente a descrição dos  episódios do seu diário, relacionados com a sua estadia  em Portugal e em Espanha - sim,  confrontando, alguns aspectos da sua anterior  e "obsessiva paixão", em torno do  pequeno  William Courtenay (9º Conde de Devon), com a que viria a manifestar  a  um miúdo português de 13 anos –  referências que são  quase uma constante nas páginas do mesmo diário - obviamente que não deixaríamos de colocar  esta pergunta:

Terão sido razões de ordem sexual, doentia  e perversa, acaso impulsos de natureza pedófila ,    o principal motivo que levaria, William Beckford a fixar-se por várias vezes em Portugal? – E cujos costumes, asperamente, tantas vezes critica.   Não me surpreenderia se, os entendidos em matéria de psicologia sexual, chegassem a essa conclusão. Nós ficámos com essa ideia - Pelo menos, no que respeita ao período expresso no seu diário de 30 de Maio de 1787 a 1 de Dezembro. Naturalmente que as paisagens de Sintra o afeiçoaram, em todo o caso, há demasiada mordacidade  nas suas observações, quer sobre pessoas quer sobre costumes - É muito veneno para quem - salvo  o embaixador inglês - o cumula de tantas atenções, desde a casa real, nobreza e clero - Além da dita raia miúda que chegou a encará-lo como um enviado de Santo António - Resta saber se foi pelo facto de se fazer rodear de crianças (no que certas taras são exímias) ou por se revelar  um profundo devoto - Alias, a família chegou a temer  que pudesse vir a trocar  o protestantismo pela fé católica  - Mas nunca se confirmou - Pois, muito do seu comportamento, não passava de alguma teatralidade palaciana ou de coreografia literária para os seus diários.
Enquanto, por seu turno, o Marquês de Marialva - cego de ambições e honrarias temporais - garantia fielmente todo o apoio ao milionário e aristocrata inglês (ao que parece  para lhe impor em casamento a filha Henriqueta  de 15 anos), afinal, a  maior obsessão  de Beckford,  a par do seu gosto pelos   principescos banquetes, sim, das  lautas e gordas almoçaradas e jantaradas em que regularmente participava,  era porfiadamente nos atrativos do filho, o menor D. Pedro, que chegaria a mimosear de "querido Pedrinho: - inicialmente descrito    como o  Pedro de Marialva, um adolescente não de todo deselegante, mas desfigurado por um absurdo rabicho”  Ao qual  se foi afeiçoando, praticamente substituindo-se aos carinhos do  pai

Sim, enquanto o marquês alimentava outra obsessão, da forma mais servil e cega: "Recebi outra carta do marquês de Marialva escrita em português, a carta mais amistosa e afectuosa que li. Começa a ser mais que suspeita a minha impressão de que ele me destina D. Henriqueta, a filha mais velha,  e que se sente lisonjeada de se sobrepor à Rainha, oferecendo-me honras e distinções que podem concorrer para o meu estabelecimento em Portugal. Santo António veio oportunamente em meu auxílio e é a grande máquina da peça em que eu virei a ter a honra de representar o meu papel, se estiver disposto a isso. Realmente, chegou a acreditar que estou em vésperas de grandes acontecimentos. Um novo cenário se está a revelar aos meus olhos, como um novo céu e uma nova terra. As beatas dizem que nada é de mais para um carácter tão exemplar  como o meu e que sua majestade deve encorajar um tão brilhante modelo de devoção como uma chuva de oiro e diamantes e de títulos." (...) Segunda-feira, 18 de Junho - 

Sábado, 30 de Junho "Quanto mais conheço o marquês, mais razões tenho para gostar dele(..) Chega  a esquecer, inclusivamente, os deveres do seu cargo. Esta tarde, em vez de acompanhar, Sua Majestade ao convento (...) saiu na carruagem comigo."

Não era que, um tal comportamento de afetos, de cariz paternal ou platónico, ao filho do Marquês (a segunda figura mais poderosa do reino) lhe ficasse mal, bem pelo contrário, se  não estivessem, porventura, subjacentes outros intuitos obscuros. Carinhos,  que, de resto,  até  se justificavam, atendendo à rigidez de  uma educação, que ele mesmo reconhecera de castradora – Mas é bem verdade que, em muitos casos, por detrás de um afeto, há  um desejo perverso. E, almas puras, talvez só as da ingenuidade dos adolescentes, enquanto o vício e a maldade humana, não a conspurca.

".Pedro estava pálido e abatido. Fica perturbado quando me ouve cantar"  “D. Pedro gosta de mim! Já lhe senti a doçura dos lábios. Os seus queridos olhos já me confessaram o segredo do seu coração. Depois de jantar senti-me num tal estado de excitação e impaciência que não pude estar quieto. Andei de um lado para o outro da casa. 

 “Oh, como seria bom poder estender-me no areal, à hora do luar, e confessar todas as minhas fraquezas e desregradas fantasias a um lânguido, amoroso, jovem, reclinado à minha beira, e arrastado a um suave delírio pela vaga luminosidade da Lua e indeciso murmúrio das águas. Ai de mim, estarei eu condenado a passar a minha mocidade sem tornar a sentir nunca mais, receoso e deslumbrado, estas sensações ao mesmo tempo delicadas e infantis"

 "Apesar da sua passividade, não posso deixar de gostar dele. O pai trata-o muito asperamente, subjugando o pouco de energia que nele há com palavras duras e olhares severos. O pobre pequeno, creio-o bem, sente mais simpatia por mim do que por qualquer outro ser humano, à excepção de D. Henriqueta. Não tem amigos, não tem companheiros, não tem oportunidade alguma de se distrair, excepto quando vem a minha casa Se ele ousasse, pudesse ele subjugar a timidez que o domina, estou convencido de que se lançaria nos meus braços” 
"D. Pedro mais triste de que nunca. Bebeu Bergonha até mais não, mas creio que, mesmo que tivesse bebido brande, não estaria mais animado. O grão-prior procurou rir-se da sua silenciosa tristeza mas sem resultado. Por mim também estava melancólico de mais para o secundar nas suas bem-humoradas intenções, e deixei D.Pedro sozinho a uma janela, durante uma hora, sem interromper a sua meditação."

 ÓRFÃO MILIONÁRIO

William Beckford, que, aos 10 anos, herda a maior fortuna de Inglaterra, avaliada na época em cerca de um milhão de libras, incluindo propriedades e plantações de açúcar e de escravos, era filho único e órfão de Alderman William Beckford (um dos homens mais ricos de Inglaterra, por duas vezes eleito  o mayor de Londres), acabaria, no entanto,  por ser criado e educado por uma mãe de temperamento autoritário e conservador,  que lhe facultaria tudo quanto era  possível esperar de uma família rica e aristocrática e de tenra idade: aulas de piano de Mozart, bem como ensinamentos de pintura e de arquitetura pelos melhores mestres e a aprendizagem de várias línguas, a que,  na fase de adulto, acrescentaria o português e o espanhol.

Porém, como se compreenderá, mais importante que a riqueza é a harmonia, os afetos do ambiente familiar, os quais, pelos vistos, Beckford ,não os logrou ter. Por esse facto,  o tornariam num adolescente crescido para o resto da vida, com paixões assolapadas por crianças e rapazes.  – Tendo sido acusado, aos 18 anos, no envolvimento  homossexual (a palavra pedofilia, nessa altura ainda não era conhecida) com William "Kitty" Courtenay, (1768 -1835), também ele filho único do oitavo conde de Devon , 2º Visconde Courtenay e sua esposa Frances Clack.  William Courtenay, 9th Earl of Devon -

Enamorado pelos encantos do  então menino de 10 anos, que, mais tarde lograria o título de 9º Conde de Devon - O adolescente efeminado e formoso, que, os seus conterrâneos, classificariam como o menino mais bonito da Inglaterra, dotes físicos que não escapariam  à lubricidade de um jovem, que lhe levava mais oito anos de idade, já  maior- Escândalo esse, que, anos mais tarde, levaria a família a mandá-lo para as suas plantações na Jamaica, tendo-se, porém, quedado por Lisboa. 

 EXPULSO DA FAMÍLIA - ARRIBA EM LISBOA
 
Fez-se ao largo no dia 15 de Março, e o primeiro porto em que tocou foi o de Lisboa, nove dias depois. Tendo passado a maior parte do tempo enjoado, recusou-se a ir mais longe, e ali ficou oito meses. A sua demora podia ter sido muito breve, e nesse caso teríamos sido privados do Diário. Robert Walpole, o ministro inglês, conhecedor da sua reputação, recusou-se a recebe-lo ou a apresentá-lo à Rainha de Portugal, D. Maria I. E este acto excluía-o, automaticamente, das funções oficiais e da sociedade inglesa”  - diz Boyd Alexander na introdução do “Diário de William Bekford em Portugal e em Espanha”, que acrescenta:

Mas os acontecimentos tornaram um aspecto inaudito. Como quer que seja, Beckford viu-se apresentado ao favorito da Rainha, Diogo, o «jovem» marquês de Marialva, estribeiro-mor, mais velho do que ele vinte e um anos >. Marialva ficou-lhe logo profundamente dedicado, e tornaram-se inseparáveis. Isto colocou Beckford em pé de igualdade com metade dos homens da alta-sociedade de Lisboa, que, pela sua maior parte, eram todos parentes uns dos outros e formavam um circulo fechado. Assim, foi grande o número de amigos e parentes de Marialva que visitou Beckford e que tomou partido pelo seu caso invulgar, assunto de todas as conversas na cidade. Havia a acrescentar o prestígio da sua óptima mesa, do seu bom gosto, da sua imensa fortuna e do seu animado e exótico convívio. Marialva revolveu tudo para conseguir apresentá-lo à Rainha. 

Tal como reconhece, ainda Body Alexander,  Beckford, embora algumas vezes mostrasse tendências amorosas para com mulheres, não era homem para casar com D. Henriqueta Interessava-o muitíssimo mais D. Pedro, irmão dela, então de treze anos de idade. O Diário abre com o seu primeiro encontro com o casal e, através dele, é-nos possível acompanhar a tragédia desta amizade. Independentemente das suas tendências inatas, Beckford gostava de contribuir para a formação do espírito e do gosto dos rapazes.

DE PERSEGUIDO SEXUAL A AGENTE PROVOCADOR

Muitas têm sido as especulações acerca da estadia de Beckford, em Portugal –. Diz João Gaspar Simões, tradutor do diário, que “Eram o mais fantasiosas as conjecturas que corriam acerca da estada entre nós do aristocrata de Fonihill: Teôfilo Braga, no seu volume sobre Bocage, alude à hipótese, que, aliás, se lhe afigura inverosímil; de Beckford ter pretendido casar com uma filha bastarda do marquês de Marialva. Mas já se lhe afigura mais plausível aquela que fez de Beckford uma espécie de agente provocador enviado a Portugal pela Inglaterra."

É natural que assim sucedesse – que a sua estadia fosse diversamente interpretada -  Num tempo em que, das janelas das casas de capital, se lançava toda a sorte de detritos à rua (a que, aliás faz referência no seu diário), não nos parece que fosse aspeto muito atrativo e lisonjeiro para as exigências da hipersensibilidade de um aristocrata e milionário inglês - Que  cultivava o gosto pela jardinagem, por colecionar e escrevinhar, e, logo, fixar-se num país  em que,  “a nobreza, não era muito rica; embora tivesse grandes patrimónios, os seus rendimentos eram pequenos.(..). Num país onde não há corridas de cavalos, casas de jogo autorizadas ou amantes dispendiosas, um fidalgo pode viver, esplendidamente, com um moderado rendimento ... Nem sequer poderá despertar a inveja do pobre, com as suas orgias nocturnas ou com as suas carruagens douradas. Despende o seu tempo entre os deveres de palaciano e os passatempos das reuniões particulares. As Belas-Artes.; são quase inteiramente desdenhadas pela nobreza do País” Diz  Murphy, citado por Byd Alexander, ainda nas notas introdutórias  do Diário de William Beckford,

Vá lá, que, sendo ele um amante dos jardins e de plantação de árvores, optou por viver num belo palácio na zona de Sintra.  

WILLIAM BECKFOR  - UM NOME MUITO CITADO

 “O  nome de Beckford de tal modo anda associado à história dos costumes portugueses do século XVIII que não há autor nosso que se não abone nas observações das suas cartas , para traçar o quadro da vida lisboeta no tempo da senhora D. Maria I”  - Diz ainda João Gaspar Simões  em notas do prefácio do tradutor do Diário de William Beckford em Portugal e em Espanha, editado pela BNP, em 2009


(…) É este volume que contém, praticamente, todo o material que, os eruditos portugueses vêm utilizando nas citações que fazem da curiosíssima obra. Corresponde a primeira carta de A Corte a 30 de Maio de 1787 e as duas últimas, respectivamente, a 28 de Novembro e a 1 de Dezembro, e é neste período de pouco mais de seis meses que se situa a primeira estada do famoso aristocrata em terras de Portugal.

MENTIROSO E PERVERTIDO - DIZ GASPAR SIMÕES

É deste modo, nada elogioso, que, o conhecido crítico literário, JGS, define o carácter de Willian Beckfor: “Dois episódios impressionam o leitor do Diário, reforçando o ponto de vista em que alguns autores ingleses, de resto, abundam - verbi gratia, Rose Macaulay, no seu livro They went to Portugal - , isto é, que Beckford não tinha pejo em mentir, desde que a mentira pudesse concorrer para de qualquer modo fazer realçar os coturnos em que se exibia a sua personalidade «sem escrúpulos, perversa, fátua; mentirosa, corruptora da juventude», etc. De facto, tendo descrito, nos seus Sketches, com data de 8 de Novembro, um jantar em sua própria casa, em que figurava o poeta Bocage, prova-se que Elmano Sadina se encontrava, nessa altura, em Goa” 

(…) "Voltou Beckford mais duas vezes ao nosso país. A segunda, em Novembro de 1 793, tendo ficado, entre nós, aproximadamente dois anos, e a terceira, em Outubro de 1798, permanecendo até julho do ano seguinte. Mas as cartas que reuniu nos Sketches, todas datadas de 1787 e J 788, só contêm, em princípio, material respeitante à primeira visita. Aliás, da segunda vez que esteve em Portugal limitou-se a redigir um breve diário, durante uma excursão que realizou aos Mosteiros da Batalha e de Alcobaça. Quarenta anos mais tarde, publicou-o sob o titulo de Recollections of an Excursion to the Monasteries of Alcobaça and Batalha. Quando da terceira visita, não consta que tenha escrito seja o que for".

QUEM ERA D. PEDRO OU  SEU  "QUERIDO PEDRINHO" -


E quem era esse tão querido D. Pedro, então de 13 anos de idade?... Era, nem mais nem menos, que "Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho o 6º Marquês de Marialva, 8º Conde de Cantanhede, o último Marialva a habitar o Palácio de Seteais.Filho de D. Diogo Vito de Menezes Coutinho, 5.º Marquês de Marialva, entrou para o exército como cadete em Outubro de 1786.Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho – Wikipédia .



EXCERTOS DO DIÁRIO - COM CITAÇÕES AO AO SEU AMADO PEDRO

Lisboa, 25 de Maio de 1877 (…)O marquês tem a mania dos relógios, das pendulas e dos despertadores. Quatro ou cinco estavam a tocar e tinham um som deplorável. Deixei-os a fazer barulho, pois eram precisamente seis horas da tarde, e segui o meu venerável guia, descendo e subindo meia dúzia de escadas e percorrendo vários terraços até chegar a um grande salão forrado de damasco vermelho, todo esgarçado. Nesta dependência encontrei D. Pedro de Marialva, um adolescente não de todo deselegante, mas desfigurado por um absurdo rabicho. Recebeu-me com muita deferência, objecto que eu era da particular predilecção de seu pai

Terça-feira, 29 de Maio  (…).Lancei os olhos ao despenhadeiro sobre a mais lisa praia que imaginar se pode. As ondas, embaladas por uma fresca brisa, quebravam, mansamente, na areia. Oh, como seria bom poder estender-me no areal, à hora do luar, e confessar todas as minhas fraquezas e desregradas fantasias a um lânguido, amoroso, jovem, reclinado à minha beira, e arrastado a um suave delírio pela vaga luminosidade da Lua e indeciso murmúrio das águas. Ai de mim, estarei eu condenado a passar a minha mocidade sem tornar a sentir nunca mais, receoso e deslumbrado, estas sensações ao mesmo tempo delicadas e infantis

(…)Depois do jantar, sentei-me ao piano e toquei quase sem interrupção. Mascarenhas, que é doido por música, ficou todo o tempo a ouvir-me sentado ao lado do meu instrumento (…) Mascarenhas parecia alheio a tudo, Acciaoli estava sem disposição para se divertir e D. Pedro, debruçado sobre a minha cadeira,  tinha a respiração ofegante, soluçando de vez em quando. O filho do Marialva principiou a ter consciência do mundo desde que começou a privar comigo. Quando o conheci era tolo e inexpressivo rapaz.

Quinta-feira, 31 de Maio (…) O abade deteve-nos no regresso para me entregar uma carta afectuosíssima do marquês de Marialva. (…) O marquês escreve-me no seu francês - a sua última carta é bastante tolerável, quer como estilo, quer como gramático. Como é que irá acabar esta correspondência, esta viva amizade tão subitamente concedida e tão rapidamente transformada em perfeição? D. Pedro não apareceu na varanda. O pobre pequeno é educado o mais possível dentro de casa e estritamente. Vive num espaço acanhado e obrigam- no a trabalhos forçados, com uma média de oito a nove lições por dia Em vez de o encorajarem a remar no rio, a jogar o cricket ou a correr no jardim com as crianças da sua idade, passa a vida engaiolado com um rebanho de desdentadas amas e de inválidos capelães, todos a trabalhar para o mesmo fim, que é apoucar-lhe o espírito com ameaças e orações.

Domingo,3 de Junho  -(…) . Conseguimos abrir caminho entre montões de imundície até à grande escadaria e íamos caindo sobre uma monstruosa porca e a sua numerosa prole, que se escapou debaixo dos pés de Mr. Horne, soltando dolorosos grunhidos. Esta algazarra anunciou a nossa chegada Logo apareceram o prior, D. Pedro e um rancho de saracoteantes e ramelosos criados e capelães. Todas as nobres famílias portuguesas vivem infestadas por catervas destes feios dependentes. Odeio-os, e sempre que os vejo fico mal disposto. Não há maneira de nos vermos livres deles - para onde quer que vamos, eles nos seguem, rindo, quando nós rimos, e nada de engraçado se pode dizer sem que alguma centena de dentes sujos se arreganhem e· nos vejamos empestados do fedor a alho. 

Terça-feira, 5 de Junho  - (…)Pouco depois de eu regressar do meu passeio chegaram o grão-prior e seu sobrinho para jantarem comigo. D. Pedro entretém-se muito com os meus livros e as minhas pedras preciosas e mostra uma grande sensibilidade para a música Cantámos, tocámos e distraímo-nos vendo gravuras alternadamente. A noite aproximou-se, sem que nós déssemos por isso. Acompanhei o tio e o sobrinho a sua casa na minha carruagem e despedimo-nos com muita saudade.

 Sábado, 8 de Setembro  (…)Bezerra passou a manhã comigo discorrendo acerca da amizade que eu tinha inspirado ao Marialva, e os benefícios que, se eu quisesse, dai poderia vir a tirar. Quando estávamos sentados no sofá, em franca conversa, entrou  o marquês, logo seguido de D. Pedro e do grão-prior. D. Pedro parecia embaraçado, como se tivesse pensado muitas vezes em mim desde que nos separámos. 

(…). Como a tarde se pôs mais suave e agradável, fomos vaguear para a quinta até escurecer. A água murmurava em volta das raízes dos limoeiros. Nem uma folha bulia, a mais profunda serenidade reinava nas matas. D. Pedro e eu, de dia para dia mais presos um ao outro, corríamos de mãos dadas ao longo das alamedas, pulando e saltando como corças, agarrados aos azareiros, cujas flores nos caíam por cima da cabeça. Não há criança de treze anos que goste tanto de correr e saltar como eu. As minhas pernas e os meus braços são flexíveis e elásticos como os de um garoto. Posso fazer deles o que quiser sem me magoar.

Domingo, 9 de  Setembro: Convento de Cortiça (…) Tivemos um gordo jantar, mas a sobremesa foi real: grandes cestos da melhor fruta. O abade, depois do repasto, parecia animado pelo espírito de contradição. Eu sentia-me contrariado e inquieto. D. Pedro prestou-me pequenas atenções . Apetecia-me chorar. Que infeliz, que aflito eu me sentia, de um lado para o outro, a arrastar os pés. Todas as esperanças que ontem tinha alimentado se esvaneceram

(..)O abade parecia animado, depois do jantar, de espírito de contradição e não consentiu que o marquês ou Luís de Miranda soubessem mais a respeito de D. João V e da sua corte que da do faraó do Egipto. D. Pedro e eu desaparecemos no meio da discussão a que os frades começavam ajuntar-se, e trepámos por cima de umas rochas musgosas para uma pequena rotunda coberta de alfazema Aí nos sentámos, embalados pelo murmúrio· das ondas distantes, que investiam de encontro a uma encosta a pique
.
Terça-feira, 9 de Outubro -A minha excursão a cavalo esta manhã foi curta. Fomos apenas até meio caminho de Colares. Parei em casa do marquês, muito apressado, como sempre. Quando eu, ao pôr do Sol, estava na varanda, uma velha irlandesa, que vive com a marquesa de Marialva e que mantém um pequeno negócio de contrabando sob os seus auspícios, veio, sorrateiramente, até junto de mim. Queria que eu lhe comprasse um pedaço de linho irlandês muito barato, etc. Através dela soube da desolação e do desapontamento de toda a família por causa da minha súbita partida e que, particularmente, D. Pedro tinha tomado a minha despedida tão a peito que dizia não poder tornar a ver a minha casa depois de eu a abandonar.

Terça-feira. 27 de Setembro(…). No  caminho detive-me para recolher Verdeil, que eu tinha deixado, ao passar, em casa do marquês. D. Pedro veio logo a correr, mal ouviu a minha carruagem. A doença da irmã tem-no obrigado a estar em casa, mas, como ela já vai melhor, espero vê-lo retomar a sua liberdade.

Segunda-feira, 22 de Outubro (…) Os meus sonos foram interrompidos e agitados. A minha alegria de ontem era grande de mais para poder ser duradoura Tive medo de uma mudança. Passei por casa do marquês, no meu passeio habitual, com o coração apertado. Receava que D. Pedro se tivesse também fatigado muito ontem à noite. Tremia, e, quando prevejo quaisquer acontecimentos que porventura possam ameaçar as nossas relações, sinto frio no coração. É certo que estou muito entusiasmado com ele e que começo a ser cego diante das suas imperfeições. Não sei como hei-de viver sem D. Pedro. 

Conversando hoje com Verdeil, fiz quanto pude para lhe arrancar qualquer concordância com a minha permanência em Portugal, mas debalde. (...) O meu coração estremeceu. Pensei que D. Pedro estivesse no outro extremo do salão a ver as minhas gravuras. Entrei. D. Pedro não estava. Percorreu-me um calafrio de desapontamento e senti-me incapaz 398 de abraçar o grão-prior com aquela cordialidade que me merece a sua afeição por mim. 

À mesa, o abade disse-me que D. Pedro tinha sido obrigado a acompanhar à Pena a mãe e a camareira-mor, mas que ele lamentava, sinceramente, não ter vindo visitar-me, e dissera a toda agente lá em casa que fora ontem a jornada mais feliz da sua vida, que todo o dia se tinha passado muito agradavelmente, mas que ob momento de que ele mais gostara fora aquele em que andara a passear, de cá para lá, com o seu amigo mais querido.

Devo confessar que esta informação me encheu de alegria e que me senti vitorioso. A ideia de que a minha afeição era assim tão ternamente correspondida emocionou-me tanto que nem pude comer. Verdeil teve a bondade de preparar uma reunião para amanhã, de modo que eu e D. Pedro estejamos toda a manhã juntos 400. Amanhã! Amanhã! D. Pedro gosta de mim! Já lhe senti a doçura dos lábios. Os seus queridos olhos já me confessaram o segredo do seu coração. Depois de jantar senti-me num tal estado de excitação e impaciência que não pude estar quieto. Andei de um lado para o outro da casa. 

Terça-feira, dia 23 de Outubro (…)O sol acordou-me cedo. Estive uma hora a revolver-me, de um lado para o outro. Mal me levantei, apareceu o grão-prior - sem D. Pedro. Disse-me muitas coisas a respeito de dores de cabeça e lassidões e contou-me que o pequeno, que ontem trepou até à Pena a pé, não podia mexer-se hoje pela manhã e que estava cheio de mimos à sua volta (…) . O tempo está a mudar; nuvens de chuva ocultam o Sol. Quero lá saber. Vou meter-me na carruagem com o grão-prior, e pelo menos terei a satisfação de falar do querido Pedrinho.

Quarta-feira, 24 de Outubro. (…) Em casa do marquês, onde eu parei, no meu regresso a casa, encontrei todos à mesa. D. Pedro, na presença do seu favorito, vigia todos os meus olhares. Corou algumas vezes. Nos seus olhos indescritivelmente ternos havia uma espécie de nebulosa suavidade. Arranjei coragem para pedir ao marquês que o deixasse acompanhar-nos, a mim e ao tio, à Peninha, amanhã, se o dia estiver bonito e sem nuvens. Depois estive algum tempo com o meu amigo, até ele ser obrigado a ir para o palácio. Voltei para casa, para jantar. O grão-prior em breve me seguiu e sentou-se connosco à mesa. Eu esperava D. Pedro, e quando a porta se abriu e seu tio apareceu sozinho, senti um tal frio no coração que não pude comer. Passei a tarde melancólico e agitado. (…)

Quinta-feira, 25 de Outubro(…) Depois do pequeno-almoço saí na sege para recolher o grão-prior e D. Pedro, de acordo com o que tinha ficado combinado ontem. Encontrei-os a pé na estrada, que vinham ao nosso encontro. Pareceu-me que D. Pedro tinha um ar abatido, mas julguei ter-me enganado. No entanto, fosse como fosse, o nosso projecto de passar o dia juntos caíra por terra. A Rainha ia nesta tarde merendar ao pavilhão do marquês, e o meu pobre amiguinho era obrigado a esperar por ela até às três horas e não podia jantar comigo, nem nós teríamos tempo de ir até à Peninha. 

(…) D. Pedro e eu trepámos por entre as moitas e apanhámos bagas de arbustos, neste venturoso clima, quase tão grandes como as ameixas e reluzentes como vermelhão. Havia uma tal serenidade hoje no ar e uma tão afável suavidade nos raios do Sol que eu julguei que todas as almas sentiriam paz e contentamentos, inclusivamente a minha Ai de mim, uma negra nuvem de recordações me ensombrou! Para vergonha minha, no entanto, ainda que se diga que eu sou insensível aos encantos da paisagem que tinha diante dos olhos, senti-me desgostoso comigo próprio, com o meu companheiro e com tudo o mais que existe na terra e nos céus. É de crer que eu não estivesse, depois, com disposição para divagar pelo meio dos pinhais ou para saborear o gosto das bagas de arbustos que D. Pedro comia com avidez.

Passei, apressadamente, pela quinta, saltei para cima do meu cavalo e galopei por ali fora, deixando que D. Pedro se desembaraçasse como pudesse. Foi a sua resignada indiferença que me encheu de indignação - em vez de lutar contra a estúpida obrigação de ter de aturar a Rainha aquela tarde, ou de mostrar qualquer sombra de desapontamento, limitou-se a fazer urna pequena alusão ao facto de a sua presença ser necessária, e submeteu-se, com a estúpida mansidão de um carneiro, pronto a aceitar a Pastagem para onde o levam. Detesto do fundo da alma um tão passivo carácter, e vou tentar, pelo menos, arrancar, pela raiz, a minha afeição por D. Pedro. 

Segunda-feira, 29 de Outubro (…)O conde, depois da ceia, andou a saracotear-se ao luar pelos terraços, onde eles jogavam a cabra-cega e se divertiam como crianças. A varanda é coberta pela copa de altas árvores. Devia ter sido uma espécie de conto de fadas para os Hornes. Como de costume, lá fui a casa do marquês, cujas feições se iluminaram no momento em que eu entrei. D. Pedro apareceu, de certo modo envergonhado da sua frieza, e ali ficou - como um escravo - junto ao sofá, onde seu pai e eu nos sentávamos. Tratei-o com um poucochinho de amabilidade e pareceu-me vê-lo reanimar-se. Quando eu parti, segurou-me no estribo. 

Quarta-feira, 31 de Outubro – (…). D. Pedro, quando eu passava a cavalo Sintra, veio atrás de mim. Senti-me melancólico e opresso. Havia nas suas maneiras mais franqueza do que eu esperava 

Quinta-feira, 1 de Novembro – (…). Fomos no carrinho à quinta do marquês, que fica a cerca de um quarto de milha da sua casa de campo, e aparecemos de improviso a D. Henriqueta e a um rebanho de criadas que com ela tinha vindo merendar numa aconchegada clareira, entre loureiros e limoeiros. D. Henriqueta estava muito bem disposta e nas suas sete quintas. D. Pedro foi-me colher ramos de arbustos: Apesar da sua passividade, não posso deixar de gostar dele. O pai trata-o muito asperamente, subjugando o pouco de energia que nele há com palavras duras e olhares severos. O pobre pequeno, creio-o bem, sente mais simpatia por mim do que por qualquer outro ser humano, à excepção de D. Henriqueta Não tem amigos, não tem companheiros, não tem oportunidade alguma de se distrair, excepto quando vem a minha casa Se ele ousasse, pudesse ele subjugar a timidez que o domina, estou convencido de que se lançaria nos meus braços.

Segunda-feira, 2 de Novembro (…). Depois do jantar, a família foi tratar dos sacos e das bagagens. D. Pedro e eu começámos a andaª muito amigos, um atrás do outro. Acompanhei o marquês na sua sege.

Segunda-feira, 23 de Novembro (…)Depois de jantar fomos para o seu palácio. A marquesa estava sentada no meio de uma roda de criadas e criados, os quais, à semelhança do coro numa tragédia grega, pareciam compartilhar os sentimentos dos seus amos e lamentar a minha partida D. Pedro saiu dos aposentos da irmã e abraçou-me com as lágrimas nos olhos. Eu estava comovido e foi a custo que me refreei, para não romper a chorar. 

Sábado, 24 de Novembro – (…) D. Pedro, percebendo, talvez, que eu me estava a interessar muito pelo primo, depois de eu o repreender por ele dar pulos tão atrevidos, suplicou-me que o levasse ao Teatro do Salitre, onde havia um camarote guardado para nós, às ordens do marquês. Ora aconteceu que este camarote ficava exactamente defronte de outro, onde escavam instalados Walpole e a sua gente. O teatro, excepcionalmente, estava à cunha, em virtude de lá se encontrarem, em toda a pompa, Sua Majestade e a pequena infanta D. Carlota, tão travessa e brincalhona como Duarte. O príncipe do Brasil e O. João, durante todo o espectáculo, só abriam a boca para bocejar.

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