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quarta-feira, 27 de maio de 2015

Manuel Alegre: Bairro Ocidental – poemas de um Portugal que é hoje uma freguesia da Europa e que apelam à sua libertação "Apetece pegar no poema / E disparar. "

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista - MANUEL ALEGRE: O POETA DA NOSSA LIBERDADE E DOS TEMPOS DE DESASTRE


Portugal do império colonial, que já foi, exaltado por Camões pelo rasgo aventureiro dos seus feitos, mas também o das mágoas, misérias e desterros das suas gentes,  afinal, o Portugal nos dias que passam, o que é?...Como defini-lo?  Aprisionado que está pela  chamada lei dos mercados, que em  vez de promoverem o bem coletivo, cega e obsessivamente  engrossam os cofres dos mais ricos e poderosos, sim, este é o Portugal tiranizado dos dias de hoje,  reduzido à condição  de um simples bairro – É para onde nos conduzem os tempos da austeridade e da corda na garanta do desemprego, dos baixos salários e da precariedade laboral.  

Na hora grave que passa, impõe-se libertar o país das garras do liberalismo selvagem  - E, como? ... Por mais bem intencionados que sejam  os discursos políticos, por mais radical ou progressista que seja o sentido das revoluções, só através do espírito  messiânico  da arte - do talento ou do génio de  escritores, músicos e poetas -  que toquem e despertem, verdadeiramente,  a alma de um Povo, é possível encontrar novos caminhos de liberdade, de justiça social e de evasão.

Manuel Alegre, insatisfeito com a situação que Portugal atravessa, transformou-a em belos poemas: belos na sua componente estética e lúdica  mas não destituídos de ironia e de alarme,  reunidos num livro a que deu o título - "Bairro ocidental", apresentado, ontem ao fim da tarde,   na Livraria LeYa Buchholz, pelo professor de Literatura Portuguesa, crítico e ensaísta António Carlos Cortez, tendo contado com a presença de Mário Soares, Jorge Sampaio e outras figuras históricas do partido Socialista, além de muitas pessoas que admiram a obra do poeta ou a sua atividade política.


RESGATE - Há qualquer coisa aqui   de que não gosto....  - CASSANDRA E A TROIKA  - Então Cassandra pareceu na rua...

Todos os grandes poetas são o barómetro da vida, da terra, do país e do mundo em que vivem - Como profetas e visionários que são, têm o dom de antever os desastres iminentes do seu tempo e, do mesmo modo, exaltar ou temperar o ânimo  das horas de declínio ou crepusculares e de trevas da sua pátria. Porque, só eles, participantes ativos na grande aventura coletiva, imbuídos de uma renovada consciência social, são capazes de, sob as ruínas e o caos, com a ironia  e ou a lírica  dos  seus versos, edificaram  uma nova sociedade.

Manuel Alegre é um desses poetas: poeta completo, na verdadeira aceção do termo. Ele não é dos que verseja ou faz quadras pelo simples prazer de juntar uns quantos versos e os fazer rimar – A sua poesia é muito sofrida, sentida e vivida – É ao mesmo tempo um apelo ao pensamento e ao sentimento. De libertação e de ousadia. Passado, presente e futuro. De feitos e adversidades, de perturbações, mágoas e alegrias.  

 Quem a percorrer, encontrará de tudo. É como que o retrato dos dias que se vão vivendo. Uma espécie de meteorologia emocional e social. Nos seus versos há variadíssimos motivos de inspiração, que, tanto  impelem ao desassossego, como  à mais inesperada emoção - Vasta temática em que o seu autor  é ao mesmo tempo o observador e o ativo interveniente: reflexo de um viajante na sua pátria, mesmo quando a ditadura o força a exilar-se em terras de Argélia, mesmo lá longe, sente-a de perto, está no seu posto, qual sentinela vigilante. 

Manuel Alegre, o  poeta mas também o ficcionista e o politico para o qual a palavra, tanto pode ser um hino de amor como o Canto às Armas, o combate pela liberdade e pela justiça social.

Ele sabe, com certeza,  que, Portugal, conquanto não esteja sob o açaime da  mordaça ditatorial do salazarismo, está em vias de já nem sequer  ser um pais soberano mas um simples bairro a ocidente da Europa da Srª Ângela Merkel, governada pelo liberalismo mais desumano e despudorado, sob o garrote de impiedosos FMIs e troikanos. 

Tal como declarou, em entrevista à jornalista da Antena 1 Susana Barros, após a apresentação do  “Bairro Ocidental” “Este livro nasceu desse sentimento de perturbação, de mágoa e ao mesmo tempo de rebeldia. Eu não me resigno que o meu país seja apenas um bairro ocidental”, disse .. Lamentando que que a crise e os acontecimentos subsequentes tenham transformado o país numa espécie de bairro ocidental.Manuel Alegre afirma que Portugal é hoje uma freguesia da Europa

ARTE DE PONTARIA 
Invadiram os séculos que estão dentro de nós
invadiram a língua o canto o ritmo
antes fossem exércitos fardados
antes as botas de um invasor visível
não estes missionários da nossa fé
com os seus mercados sobre os nossos ombros
e os seus discursos de sílabas pontiagudas
para gente de espinha de curvar.
Quando eles falam o céu fica cinzento
E há um rasto de cinza e desamparo.
Apetece pegar no poema
E disparar.

Manuel Alegre nasceu em 1936 e estudou na Faculdade de Direito de Coimbra, onde participou activamente nas lutas académicas. Cumpriu o serviço militar  na guerra colonial em Angola. Nessa altura, foi preso pela polícia política (PIDE) por se revoltar contra a guerra. Após o regresso exilou-se no norte de África, em Argel, onde desenvolveu actividades contra o regime de Salazar. Em 1974 regressou definitivamente a Portugal, demonstrando, nos vários cargos governamentais que tem desempenhado ao longo dos anos, uma  intervenção fiel aos ideais da Liberdade.


 A sua poesia foi e é um hino à Liberdade e, talvez seja por isso que é lembrada por muitos resistentes que lutaram contra a ditadura. É considerado o poeta mais cantado pelos músicos portugueses, designadamente Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Luís Cília, Manuel Freire, António Portugal, José Niza, António Bernardino, Alain Oulman, Amália Rodrigues, Janita Salomé e João Braga”. Cantar a Liberdade - Manuel Alegre -





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