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sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Escritor Paulo Castilho – “O sonho português” é mais "suave e civilizado". Pouco tem a ver com o sucesso e a prosperidade através do trabalho como o american dream(..) os portugueses são um povo bastante festivo. Basta ver como mesmo no auge da crise a noite de Lisboa é, para muitos, motivo de orgulho” – Diz o autor acerca do seu último livro, que tem "a política apenas em pano de fundo" em que há capítulos, como: A falecida, Nudez, Bons casamentos, Discursos de Salazar, Namoradinhos, Ovelha Negra

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista

O mais recente livro de Paulo Castilho, tem por título, "O Sonho Português". Tem 450 páginas e muitas histórias,  que vão de Abril a Novembro, de um certo ano, que até podia ser do ano passado como há mais anos e porventura em próximas décadas, que assumem quase o caráter diarístico e se leem com muito agrado e sem despegar. Há ironia e humor, enredo, denúncia e  mistério – Foi o próprio autor, pessoa que muito estimo e admiro, que teve a gentileza de mo enviar pelo correio. 


Ler os livros do escritor Paulo Castilho,  não é  somente o convite à boa leitura: - do  ficar a conhecer   mas também a aliciante sugestão, autêntica viagem  à arte de saber escrever com sutil ironia e fina sensibilidade, um apelo à inteligência. – O talento de fazer refletir e sorrir - Isto porque, "quanto mais sérios forem os temas" - diz o escritor - "mais gosto tenho em abordá-los com humor", embora reconhecendo  que "não temos essa tradição"  

 Sim, é uma leitura que não maça o leitor e nem o deixa confuso ou  tão pouco visa oferecer-lhe qualquer tipo de mensagem moralista, essa é uma ilação que fica à  interpretação de cada consciência; comportam, isso sim,  um fundo da vida real –  De quem observa com olhos de ver e de reter e gosta de transformar as suas  observações em ficção e de as dar a ler – Mas não de mundos distantes ou paralelos ao nosso: mas de coisas e realidades bem terrenas – Muitas das quais bem portuguesas  -  E um desses exemplos, é o caso do seu último livro “O Sonho Português” –  Que é justamente o assunto que hoje vou abordar neste meu site –   E com redobrado prazer. Pois, tal como já tive oportunidade de aqui referir, Paulo Castilho, tem raízes paternas em Vila Nova de Foz Coa, cidade a que pertence a minha aldeia. 

O meu pai nasceu em Vila Nova de Foz Coa, tal como o irmão António e a mãe Cândida de Jesus Margarido, Castilho por casamento. Trata-se de uma família de Foz Coa que depois, por circunstâncias da vida, acabou por se fixar em outros pontos do país, nomeadamente Matosinhos e Porto, onde o meu avô, ligado ao Vinho do Porto, exercia a sua atividade profissional. "  (…) embora nascido em Matosinhos, me posso considerar foscoense honorário."


 "O SONHO PORTUGUÊS" -  COM "A POLÍTICA  APENAS EM MÚSICA DE FUNDO "

O  escritor -  em entrevista ao JL – confessou  que, O Sonho Português,   "não é um livro sobre política, nem propriamente sobre o momento atual português. Essa temática funciona como uma espécie de música de fundo que está sempre a tocar e que de vez em quando fica  um pouco mais alta. Na realidade, há várias linhas narrativas, cada uma delas com a sua história. – No entanto,  a dado passou, sempre foi dizendo que  é o seu  “ micro policial” Neste livro “ há um mistério  que só muitas páginas depois será resolvido. Hoje já não leio tantos policiais, mas quando era jovem devorava -os. E durante algum tempo achei que seria engraçado escrever uma história policial. Ai está o meu micro policial. 
E então de que fala? – Bom, antes de passar a palavra ao escritor,  eis o que diz do livro e do autor, o Açoriano Oriental, numa  interessante análise: 


Com a esposa
22/06/2015 (...) "O Sonho Português, é um Secretário de Estado no governo do tempo ficcional actual, pertence a um clã degenerado dos arredores de Lisboa, de sobrenome Mendes, e sonha em várias frentes, como muitos da sua geração – ser promovido a Ministro, e receber uma herança de um tio velho, literalmente podre de rico, a morrer no Alentejo, à beira do odiado Alqueva, que aqui também simboliza um novo Portugal sem imaginação e a enterrar por três dinheiros a sua própria beleza e história, latifundiário e proprietário, vamos lá, não de tudo, mas de muito na nossa capital. Rigorosamente mais ninguém, para além desta cómica “família” de sanguessugas — a morar numa chamada Vivenda Pérola, brevemente a ser herdada pelos que dela já se haviam apropriado — na sua visão e entendimento das coisas, não sonha seja com o que for, a não ser sobreviver sem fome, beber um copo a mais, deitar-se numa cama com alguém, lembrando ou não o seu nome na manhã seguinte, atravessar a rua, suponho ainda, sem ser atropelado.


(…) Paulo Castilho é um diplomata experiente e vivido, mas é como romancista que desde sempre o reconheço, desde que, ainda imigrado, li o seu Fora de Horas, de fundo americano, e que no ano da sua publicação arrecadaria alguns dos prémios mais prestigiados no nosso país. Como cidadão sei muito bem o que penso da minha terra natal, da sua estrutura sócio-económica desde há séculos inquinada a favor de uns e condenando todos os outros à estafada luta diária, das suas pretensões de sucesso instantâneo imitando ideologias e experimentalismos económicos, em que as novas classes que se apoderaram do Estado simplesmente querem substituir a velha aristocracia a qualquer custo, como sabemos e sentimos na pele, a nossa História mero detalhe, para eles desconhecida e irrelevante


Paulo Castilho - (Web)
É um romance cheio de ironia subtil. O único personagem com substância humana, com passado, e sobretudo com uma ideia clara das suas origens e de quem é ou foi e ao que veio na vida, é o velho Leonardo, que na sua abastada solidão alentejana vive rodeado de algumas mulheres serventes e de má língua, o mítico padre amigo não perdendo nunca uma refeição à sua mesa, nem o conselho ou o mexerico seguinte. Creio que estamos aqui ante uma paródia não só de como um autor vê e entende o seu país nestes dias de corrosão social absoluta, mas da própria literatura que o antecede – um velho latifundiário lusitano é tão virtuoso ou condenável como o licenciado ou a licenciada a sobreviver de esquemas, e necessariamente a redefinir as regras da ética que orientam a sua existência. Num país que tem um primeiro-ministro atrás de grades e o povo trabalhador a pagar os roubos de banqueiros riquíssimos, um romance como este é esse jogo de espelhos, ante o qual melhor seria ninguém olhar-se.


Sonho Português está escrito como que em forma de diário, o tempo é o presente, e as entradas estão datadas de 19 de Abril a 16 de Novembro. A família Mendes é constituída por sobrinhos e sobrinhas, e seus filhos e filhas, os restantes são esposas ou namorados e namoradas destes. Residem quase todos na Vivenda Pérola, uma vez mais, numa zona chique e satélite da capital, todos numa existência, no entanto, da mão para a boca, aposentados e a contar o pouco que lhes resta na carteira, mas sempre com a noção de aristocracia anónima e irreconhecida. Tem vários narradores, que nos falam em discurso direto e indireto – são as histórias de amores e desamores, a procura da sobrevivência na capital, e acima de tudo o início da expectativa que será a morte do tio alentejano, subestimado na sua inteligência e vontades mais íntimas quanto ao estado das suas riquezas e o destino dos seus putativos herdeiro"



Adicionar legenda
(….)Todos os nossos vícios estão aqui expressos e vividos, toda a nossa descrença na vida colectiva ou nacional, a hipocrisia generalizada marcando todas as palavras ditas, todas acções tomadas, fazendo do inexistente “sonho português” uma caricatura cómica, a safadeza de uns e outros como uma espécie de hino nacional, cuja dramatização é comédia pura, como nos palcos da dramaturgia romana das suas feiras, em que o escravo virava patrão esperto, e o patrão bobo da corte. Por entre tudo e todos, vamos acompanhando os dias e as noites destes imaginados seres sem esperança ou futuro, a não ser a fortuna cobiçada do moribundo alentejano. Visitamos Lisboa nos seus recantos mais sujos e habitados pela crescente marginalidade nas suas ruas, acompanhamos estes homens e mulheres que saltitam de restaurante em restaurante, de quarto em quarto, de cama em cama. Nem sequer os sexo parece trazer qualquer alívio, êxtase, e muito menos redenção destas vidas em limbo, é tudo uma rotina de chatice e desconfiança.  


(...) O Sonho Português tem uma estrutura que também se assemelha a um policial, mas não é. Na verdade, o leitor é cativado nestas páginas por todos os pormenores das vidas quotidianas destes personagens, pela linguagem limpa dos seus narradores e na qual a metáfora contida leva-nos a repensar o que já sabíamos ou reconhecemos da realidade que serve de referencial ao autor,Onde a terra se acaba - Açoriano Oriental

“ONDE A TERRA SE ACABA”

 Junho 19 - 2015 Título de outra  interessante e detalhada análise  de autoria de Vamberto Freitas, que, com a devida vénia, aqui reproduzimos  um breve excerto:

Paulo Castilho (Web)
(...) “Sonho Português tem uma estrutura que também se assemelha a um policial, mas não é. Na verdade, o leitor é cativado nestas páginas por todos os pormenores das vidas quotidianas destes personagens, pela linguagem limpa dos seus narradores e na qual a metáfora contida leva-nos a repensar o que já sabíamos ou reconhecemos da realidade que serve de referencial ao autor, o desfecho do romance quase de interesse secundário, mas mesmo assim cheio de surpresas, lógicas mas de todo inesperadas. Duas outras qualidades que caracterizam a narrativa – o humor constante, que faz do leitor um cúmplice de certos personagens, alguns conscientes da sua insignificância e vida sem saída, outros perfeitamente sabedores da insinceridade das suas acções ou motivações perante a riqueza que não lhes pertence, ou que lhes pode fugir. A sátira política tem uma longa tradição na nossa literatura, mas nunca nos cansa o riso nervoso e o conforto de sabermos que pouco ou nada mudou entre nós, nenhum leitor se safa de olhar o tal reflexo que preferíamos ser uma ilusão e não o auto-retrato que só a arte nos devolve – sem acusação ou sentença. É como se Eça estivesse entre nós, olhando-nos de soslaio e pensando novas páginas do seu imenso livro que era, é, Portugal. – Excerto de  Onde a terra se acaba


O SONHO PORTUGUÊS" - LANÇADO POR ALTURA DA PRIMAVERA


Em Junho passado,  e a poucos dias do meu retorno à maravilhosa Ilha de São Tomé, onde vivi os  12 anos  mais verdes da minha vida, tanto pela idade, como pela verdura da paisagem, deparei no alto da manchete da primeira página e ao lado da  fotografia do escritor Paulo Castilho” estas palavras: “Novo Romance, entre o sonho e a realidade" – Chamada de atenção para uma entrevista ao autor, por Luis Ricardo Duarte e a critica de  Miguel Real” , que, numa  apuradíssima análise ao livro "O Sonho Português" diz que "a sua escrita ostenta um explicito realismo descritivo do quotidiano envolvido por laivos de subjetividade do narrador ou da personagem que assume esse estatuto"

Obviamente, que  não podia deixar de comprar o jornal – Só que, os dias passados naquela ilha, fizeram-me como que esquecer a vida lusa -  O jornal, esse ainda o tenho comigo, justamente com o propósito de aqui transcrever algumas passagens da entrevista, visto a achar igualmente interessantíssima.

Paulo Castilho - Sonhos, heranças e quimeras

(...) Quem sai aos seus não degenera e Paulo Castilho seguiu a tradição familiar. Filho do diplomata e ensaísta Guilherme de Castilho, fez das relações internacionais a sua profissão. Nascido em 1944, licenciou-se em direito e assumiu a carreira diplomática em Washington, Londres, Suécia e Irlanda, tendo sido ainda diretor geral das Comunidades Europeias. Como a mãe, a escritora Marta de Lima, cedo tomou o gosto pela escrita, embora só tenha publicado o primeiro livro, O Outro Lado do Espelho, em 1984, a que se seguiram Fora de Horas, Sinais Exteriores, Parte incerta, Por Outras Palavras, Letra e Música e Domínio Público. Uma obra já distinguida com vários galardões, incluindo o Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, Prémio Pen Clube, Prémio Eça de Queiroz e Prémio Fernando Namora. 


O Sonho Português espelha bem o seu percurso de vida, já que descreve com precisão os intricados meandros de uma família bem portuguesa, ao mesmo tempo que revela uma distância que lhe permite relativizar tudo e brincar com as personagens. Presa nos sonhos, nas heranças e nas quimeras, a família Mendes vive suspensa da execução testamentária do patriarca. Ambiciona um futuro risonho, sem estar muito preocupada com o trabalho que dá conquistá-lo. 


Jornal de Letras: De que é feito o sonho português? Como diz uma das personagens deste romance é muito diferente do americano? 


Paulo Castilho: É mais difícil de definir, de facto. Para essa personagem, o Joãozinho, o sonho português é mais "suave e civilizado". Pouco tem a ver com o sucesso e a prosperidade através do trabalho como o american dream. Serão os apartamentos de bom nível, os condomínios fechados, férias no Índico, na Táílândía, Carnaval no Rio, Jeep tração às quatro rodas, time-share no Algarve, lagosta todos os dias, jantar no Avilez, plasma 46 polegadas, iPad ou iPhone, como ele diz? A personagem em causa é bastante séria, não sei se se pode confiar nela. 


Paulo Castilho - Para a família Mendes, o sonho português parece ser uma herança.

Pois, o contrário do sonho americano, outra vez. Something for nothing, como dizem os ingleses, alguma coisa sem termos de pagar por ela. Em qualquer dos casos, talvez se possa dizer que os portugueses são um povo bastante festivo. Basta ver como mesmo no auge da crise a noite de Lisboa é, para muitos, motivo de orgulho. 


Jornal de Letras - Diz isso com um certo sorriso ...

Paulo Castilho - Quanto mais sérios forem os temas, mais gosto tenho em abordá-los com humor. Sei que não temos essa tradição, mas se estiver atento à realidade anglo-saxónica, valoriza-se muito o facto de um livro ser funny. E funny não quer dizer que é para rir, ligeiro ou anedótico. Significa que o tema é abordado a partir de uma determinada perspetiva, que o autor assume uma certa distância, que chega inclusivamente a brincar com a sua história e personagens. É uma atitude irónica que também eu procuro. Trabalhar pouco e festejar muito. Seria um bom retrato dos portugueses? Eu poria a questão de outra forma: tendo vivido muitos anos no estrangeiro, em particular em países anglo-saxónicos ou escandinavos, é difícil não ver a diferença. Na Suécia, por exemplo, a forte presença do protestantismo faz com que a atitude perante a vida seja completamente distinta. Para um sueco, a sua missão na vida é trabalhar. O resto é acessório, algo que se conquista trabalhando e cumprindo o seu dever. A nossa postura pouco tem a ver com esta: achamos que devemos aproveitar a vida o mais possível. Sabemos que temos de trabalhar e de nos sustentar, mas tudo parece virado ao contrário. 

(...) Jornal de Letras - Apesar de ter vivido muitos anos  no estrangeiro, escreve quase sempre em Portugal. Interessa-lhe essa suavidade portuguesa de encarar a vida?
 Paulo Castilho - Não sei. Escrevemos sempre sobre o que conhecemos melhor. Nunca me passaria pela cabeça lançar-me num romance com personagens suecas ou inglesas, que são as realidades que eu conheço melhor. Apesar de tudo, é mais fácil metermo-nos na cabeça da  gente da nossa cultura. Além disso, o que falamos também está relacionado com os nossos interesses e gostos pessoais. E nestes meus últimos livros tenho abordado multo a sociedade portuguesa e o momento que estamos a viver. 


Jornal de Letras - Dentro desse Interesse, como se impôs. Ideia do sonho português?

Paulo Castilho - Com a crise  que atravessamos. Vivemos numa época de grande falta de esperança e expectavas. Estamos num momento difícil, tanto por tudo aquilo que se vê, como por tudo o que nos escapa no horizonte. Tem sido anos de dificuldades económicas que agravam a situação que já não era extraordinária. Um país que não era rico foi atirado  para uma situação ainda mais difícil e problemática. O livro pretende repetir os efeitos deste contexto. em particular a desagregação da sociedade


Jornal de Letras - Em que sentido?

Paulo Castilho - As pessoas sentem que não há um rumo, o que faz com que a sociedade, no seu todo. esteja a perder coesão. A ideia de que é preciso defender Portugal foi abalada. Este governo também Jogou muito com as divisões entre os portugueses: jovens contra velhos. Pensionistas contra trabalhadores, sindicalistas contra utentes. Se juntarmos a estes fatores a desagregação da classe média está encontrada a justificação para a fragmentação. 


Jornal de Letras - A zanga que sente uma personagem  é também a sua?

Paulo Castilho - A amargura e o exagero são dele. Já vêm de outros  livros mas neste constantemente a ser contrariado pelos interlocutores mais jovem, que acham que não é bem assim, que está a exagerar. E este  não é, porém, um livro sobre política, nem propriamente sobre o momento atual português. Essa temática funciona como uma espécie de música de fundo que está sempre a tocar e quede vez em quando fica  um pouco mais alta. Na realidade, há várias linhas narrativas, cada uma delas com a sua história.


 Jornal de Letras - Linhas que se cruzam, como no livro anterior, em torno de unia família.

Paulo Castilho - Sim, nesse sentido os livros são muito semelhantes entre si. Aliás, apercebi-me há pouco tempo que os meus últimos quatro têm uma marca diferente. Até Parte Incerta são mais do foro interior das personagens, psicológicos, enquanto a partir de Por Outras Palavras são mais virados para o social, o  estado do país.

Jornal de Letras - Por outras Palavras é de 2000,   


Irmãos Castilho
Paulo Castilho - Foi a altura em que aderimos ao euro, Esse livro é menos crítico, apesar cede tudo. Aborda muito o 25 de Abril, através das memórias do Falcão e do Filipe, que aparece pela primeira vez como trabalhador de uma editora e encarregue da compilação do arquivo do Falcão. Mas já existia essa preocupação, que se acentuou a partir de 2009 


Jornal de Letras - Porquê?

 Paulo Castilho - Foi quando regressei definitivamente  a Portugal. No estrangeiro estamos um pouco escudados, sobretudo sen- A sendo-se diplomata. Vivemos integrados num no pais em que trabalhamos, ligados à comunidade portuguesa mas a viver os problemas locais. E isso desloca- nos da nossa realidade.


Jornal de Letras - Sendo um escritor estrangeirado. Estranhou o país quando voltou?

Paulo Castilho - É quase inevitável. Não se vive no estrangeiro em vão. Contactamos com outras qualidades, outros defeitos. E quando se regressa tem-se uma atitude mais crítica. Às vezes sabe-se de antemão que algumas ideias 'não vão resultar e no entanto vemos que elas avançam. Mas mesmo quando trabalhei em Portugal, nos anos 80, estava sempre entre Lisboa e Bruxelas. Foram anos muito absorventes e nem sei como consegui escrever os livros que escrevi, de facto mais virados para dentro. Em Fora de Horas convoquei as experiências do passado, da América que conheci bastante bem na minha juventude, Agora, o processo e outro. Vivo este momento, que é uma realidade extremamente interessante. Passam-se coisas importantíssimas e as situações extremas são apelativas para quem escreve ficção. Hoje, para mim, isso é muito mais estimulante do que discorrer sobre o que se passa na ninha cabeça. 


Jornal de Letras - No centro de O Sonho Português está tuna casa. E o elemento estável numa família com tantas mutações?

Paulo Castilho -  A sua importância tem mudado muito, em comparação com outros tempos. Os edifícios modernos ou têm um grande despojamento ou são menos definitivos. As casas são decoradas com móveis do Ikea, que duram meia dúzia de anos e depois deita-se tudo fora. Para a minha geração, a casa era qualquer coisa de extremamente importante, o espaço onde tudo se passava. É o que acontece também nesta narrativa.


Jornal de Letras - É o elemento que une todas as personagens?

Paulo Castilho - Por um motivo de necessidade. Como não têm fortuna ou outro sustento, estão ali. Também nesse aspeto a sociedade mudou muito, as coisas já não se passam tanto assim. Durante algum tempo era frequente encontrar famílias que tinham tido grandes fortunas mas que, com o tempo, as foram perdendo. Em alguns casos, nada mais restava do que o casarão onde todos podiam viver com um certo estilo, embora decadente. Não havia dinheiro mas havia salões grandes e paredes majestosas. Foi um fenómeno que encontrei várias vezes na minha vida, que também corresponde a uma certa noção de família. Ao contrário de muitos países europeus, em Portugal os jovens saiam muito tarde de casa. 


Na exposição do centenário nascimento de Guilherme Castilho
Jornal de Letras - Esses grandes salões, neste livro, dão a ideia de que o sonho  português também se faz de muitas aparências.

Paulo Castilho - De facto, é verdade: somos um país em que as aparências são muito importantes. Até há expressões que dão conta dessa tendência: "para inglês ver", por exemplo. Os estrangeiros têm muita dificuldade em perceber Portugal em parte por causa das aparências, que contrastam com outra inclinação nossa: sermos modestos e não ostentarmos riqueza. 


Jornal de Letras - O romance abre com um corpo no meio do lago. Que aviso quis dar ao leitor?

Paulo Castilho - Nenhum em Particular: apenas que há um mistério que só muitas páginas depois será resolvido. Hoje já não leio tantos policiais, mas quando era jovem devorava -os. E durante algum tempo achei que seria engraçado escrever uma história policial. Ai está o meu micro policial. 


Jornal de Letras - Nunca tentou escrever um?

Paulo Castilho - Não. Acho que o mais próximo que terei é este capítulo introdutório, um mistério que não chega a ser  mistério, apenas é o pronúncio de uma tragédia. Sinto que não tenho outra vocação.


Jornal de Letras - A sua vocação está no retrato mais realista?

Paulo Castilho - Desde o romance de estreia. E como me sinto mais à vontade. Quando comecei a escrever pareceu-me a abordagem mais honesta: assumir o ponto de vista de uma pessoa, que não sabe tudo. E como escrevo na primeira pessoa de várias personagens, obriga-me a um esforço de linguagem e de diferenciação. Neste livro tentei que cada personagem tivesse a sua linguagem própria. Há uma que tem frases muito compridas, com expressões pitorescas, outra que é mais ácida, maldisposta e negativa, que se expressa em frases muito curtas, quase sempre com observações desprimorosas sobre o que está à sua volta. 


Jornal de Letras - Isso é pensado desde  o início?

Paulo Castilho - Vem com a escrita. Normalmente crio um ponto de partida e depois as personagens vão surgindo. Tenho uma ideia do que quero fazer e onde quero chegar e até um esboço na minha cabeça. Às vezes, acontece-me introduzir uma nova personagem depois de ter começado o livro, mas as principias estão no arranque. O engraçado é que quando começamos a escrever e a delinear a personagem a liberdade é total, ela pode ser aquilo que quisermos." - JL - 10 a 23 de Junho 2015



 DO LIVRO - Excertos

III - O Sonho Português


Paulo Castilho - Na inauguração da exposição de seu pai
29 de Abril, segunda-feira. Torres Infante de Sagres, Alameda dos Oceanos, duas da tarde. Ao telefone: somos o casal Oliveira. Voz irritante e aquela maneira de se apresentar, devem ser siameses. À entrada do apartamento, reincidiu: casal Oliveira.

Donde vem esta gente? O projecto inicial era só aceitarmos casas especiais. Para pessoas especiais, como é evidente. Mas agora com a crise qualquer galinheiro serve e muito gratos se alguém lhe pegar. O Oliveira marido era um criaturo alto, magro, pouco cabelo, não teria mais de 35 anos. A Oliveira mulher puxava para o roliço, sorria muito e gostava de falar. Apliquei-lhes o teste Bebé Vasconcelos: sabem quem esteve esmo para vir morar para este prédio? A Bebé Vasconcelos, conhecem  com certeza? Não - respondeu a mulher – já ouvimos  falar. É uma das respostas típicas. Insisti: claro, toda a gente a conhece. Gosto sempre de avançar com o teste Bebé Vasconcelos, sobretudo se as pessoas forem, como o casal Oliveira , do género chateador. O teste é praticamente científico, permite situar as pessoas, perceber se são ou não dos nossos. Foi Sebastião que mo ensinou quando entrei para a imobiliária•



Se as pessoas falharem, o teste serve ainda para as inferiorizar e pôr no sítio. Como é que alguém pode não conhecer a Bebé Vasconcelos?

Seguiu-se uma volta pela casa e o paleio do costume: cinco assoalhadas, acabamentos seis estrelas, tudo impecável, nunca antes habitado, cozinha state of the art, cinco casas de banho, jacuzzi, sauna, banheira de repuxo tipo Spa, soalho madeiras exóticas, caixilharias alumínio ionizado, vidros duplos. E olhem-me para esta vista da ponte Vasco da Gama.


XXIII - Discursos do Salazar
10 de Agosto, sábado. Normalmente a tradutora mandaria o trabalho por mail, mas havia alguns originais para devolver e, de qualquer maneira, queria falar comigo para explicar o que tinha feito. Apareceu ontem no Tombo e sentou-se à minha frente satisfeita, entusiasmada mesmo, com o seu trabalho. É  uma mulher dos seus trinta e cinco anos, magra, morena, com a expressão arregaça as mangas, mais interessante do que bonita, feições miudinhas, boca firme, olhos a verem tudo, cabelo escuro muito curto, deu-me ideia de uma pessoa que vai direita aos assuntos. Começou por dizer que tinha ficado absolutamente fascinada com a personagem do Artur. Os escritos e mesmo os  emails mostravam uma pessoa que sabia utilizar  a língua alemã com eficácia e economia. E havia ainda um outro aspeto  curioso: a ironia (difícil de traduzir) era o lado mais evidente da personalidade do autor, pelo menos da personalidade  que se revelava naqueles textos, mas, ao mesmo tempo, notava-se um tom muito afirmativo e determinado quando se tratava de alcançar os seus objectivos. A tradutora achava que ironia e grande determinação eram traços de carácter talvez contraditórios, mas que raramente se encontravam na mesma  pessoa. Há ainda um outro aspecto que dá uma certa dimensão ao Artur, que é o lado neurótico da sua personalidade e a maneira como exprime as frustrações da vida. Perante as contrariedades reage de forma extrema, diz com muita facilidade que a vida não vale a pena, que detesta a sorte que lhe calhou, que vai desistir de tudo e por aí fora. Reage quase como uma criança, com bastante imaturidade, há um desejo permanente de gratificação imediata, acompanhado de uma constante revolta quanto à situação familiar. Diz que o pai é rico, mas não o ama como a um filho - ao menos um pouco de estima, diz ele a certa altura; noutra passagem deseja que o pai exprima um sentimento qualquer, mesmo que não seja sincero.




 

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