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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

O El Nino e o trágico vendaval em Lisboa do século XVI – Virá aí outro?!... À semelhança do que despedaçou 30 navios no Tejo? – De uma armada que ia participar na lendária batalha Naval de Lepanto, a convite de Pio V para combater o avanço dos turcos – Vinte anos depois do grande sismo de 1531 e a dois séculos do terramoto de 1775 – O que virá a seguir: o vendaval ou tremor de terra?

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista




Lisboa foi palco  de  pelo menos três trágicos acontecimentos, de fenómenos naturais – uma enormíssima tempestade em 1572 e dois fortes abalos sísmicos,  em 1532 e 1775 - , que, além da tragédia provocada, em termos de vitimas e danos materiais,  haveriam de ter uma profunda repercussão na história da cidade e do país.

O terramoto de 1 de Novembro de 1775 provocou uma profunda alteração na consciência europeia, quer no plano cientifico relativo à Natureza, quer no plano ético, teológico e filosófico, no tocante à origem e à natureza do Mal e do sofrimento” – escreve Vasco Graça Moura, em nota prévia, com que antecede os versos de Voltaire, sobre “o desastre de Lisboa” – Referindo que “toda a consciência europeia vibrou e especulou sobre a  terrível desgraça, recorrendo aos mais variados instrumentos, da poesia à ficção, do ensaio e do comentário religioso ou laico à descrição de índole mais ou menos jornalística e à tentativa de explicação filosófica ou científica."

A REPETIREM-SE OS FENÓMENOS: SERÁ PRIMEIRO O DO TEMPORAL OU O SISMO?

Os terramotos são  fenómenos  imprevisíveis, senão mesmo impossíveis de prever,  tal como se fazem as  previsões meteorológicas,  pese as avançadas investigações sobre sismologia. Poucos dias antes de ocorrerem, podem manifestar-se no comportamento de aves, animais e até serem pressentidos por certas pessoas, por algumas sensibilidades  – E há estudos que falam de tais observações. Mas o adivinhar não está ao alcance dos vulgares mortais e, por isso mesmo, tais fenómenos continuam a provocar   justificado receio e temor  - Mormente nas zonas abrangidas pelas chamadas fraturas tectónicas – E, como é do conhecimento geral, Lisboa está situada numa dessas zonas criticas.

A  violenta tempestade que assolou o Tejo e a capital, no dia 13 de Setembro de 1572, poderá vir a repetir-se com idêntica intensidade e provocar estragos incalculáveis. Os especialistas advertem que o fenómeno climático El Nino,  no próximo ano, poderá provocar  graves danos nas áreas costeiras – Frisando que será  “o terceiro fenômeno global de descoloração ou branqueamento da história, e zonas como a Grande Barreira de Corais da Austrália serão duramente afetadas.. Cientistas advertem sobre danos que El Niño pode causar a ...

Se se consultar a Internet, parece não se encontrar nenhuma referência ao violento temporal, que assolou Lisboa, com tremendos estragos navais, no Reinado de D. Sebastião, vinte anos depois do grande sismo de 1531 e dois séculos  antes do terramoto de 1775 – Pelos vistos, para não se espalhar a noticia de que Portugal ficava sem aramada ou então terá sido o  desastre de Alkibir, mas, sobretudo, aquele trágico terramoto, que acabaria por ofuscar o dito vendaval: razão pela qual tem passado despercebido, até nas próprias narrativas históricas. Todavia, não o foi numa das páginas do “Novo Almanack De Lembranças Luso Brasileiro, de 1892 , de que sou possuidor – Eis o que é descrito:

“Um temporal em Lisboa - Estava no porto de Lisboa, pronta para sair, uma armada composta por 30 navios artilhados e guarnecidos, que o nosso rei  D. Sebastião, havia arranjado, com grande sacrifício,  a convite de Pio V, para entrar numa liga contra os turcos. Pois no sábado, 13 de Setembro de 1572,  ao dar a meia-noite, começou a soprar o vento sul  com tal violência, que as ondas em rolos subiram acima dos edifícios , fazendo voar os telhados de muitas casas, e arrancando árvores, de que resultaram muitas desgraças. Dos 30 navios  da esquadra que estavam no Tejo nenhum escapou. Quebradas as amarras, começaram a chocar uns contra os outros, despedaçando-se , indo os seus fragmentos espalhar-se pelas praias do Corpo Santo, Caes da Rainha,    Caes da Pedra  e Alfândega. Foi uma noite de luto, e quando pela manhã raiava  o dia é que se fez ideia dos destroços

A BATALHA FOI VENCIDA  - DIZ-SE, GRAÇAS À SRª DO ROSÁRIO  – MAS SEM A PARTICIPAÇÃO PORTUGUESA – NEM UMA LINHA.

Na descrição do citado Almanack, de 1892, deve haver algum lapso na data  – pois deve ter sido em Setembro de 1571 e não em Setembro de 1572, ou seja, altura em que, realmente,  o  Papa Pio V reuniu uma esquadra de duzentas e oito galés e seis galeaças (enormes navios a remos com quarenta e quatro canhões), das marinhas da República de Veneza, Reino de Espanha, Cavaleiros de Malta e dos Estados Papais, sob o comando de João da Áustria, formando a então chamada Liga Santa.

Esta frota enfrentou duzentas e trinta galés turcas ao largo de Lepanto, na Grécia, a 7 de Outubro de 1571 – Sendo Portugal, um país com uma tão famosa história naval, a sua ausência só se explica, devido ao trágico atrás descrito.

Diz-se ainda que “o combate durou somente três horas. Foram destruídas ou capturadas cento e noventa galés turcas, enquanto os cristãos perderam apenas doze navios. Lepanto foi o fim da ameaça marítima turca para a Europa.” – E, segundo se diz, tal retumbante revés sobre os turcos, ter-se-ia ficado a dever às orações do próprio Pio V, que teriam provocado o  avistamento de Nª Srª do rosário, pelo menos foi este o nome pelo qual passou a ser conhecida a aparição  que alguns soldados tiveram durante a refrega e que teria assustado os “infiéis”. Pois é dito que,  no maior fragor da batalha, os soldados de Mafona tinham avistado acima dos mais altos mastros da esquadra católica, uma Senhora que os aterrava com seu aspecto majestoso e ameaçado”

Noutro estudo, ainda mais aprofundado, diz-se que “As perdas dos infiéis tinham sido enormes: 30 a 40 mil mortos, 8 ou 10 mil prisioneiros (entre os quais dois filhos de Ali-Pachá e quarenta outros membros das famílias principais do império), 120 galeras apresadas e cinqüenta postas a pique ou incendiadas, numerosas bandeiras e grande parte da artilharia em poder dos vencedores. Doze mil cristãos escravizados alcançaram a liberdade. A Liga perdeu doze galeras e teve menos de 8 mil mortos.  – Excerto de Salvem a Liturgia!: Batalha de Lepanto: a origem da festa


LISBOA – A CAPITAL MARCADA POR DOIS VIOLENTOS ABALOS - INEVITÁVEL QUE A OCORRÊNCIA DE UM PRÓXIMO VENHA ABALAR A SUA VIDA E TRANQUILIDADE. 

Há quem diga, que, Lisboa, antes da nacionalidade, já havia sido abalada por outros violentos sismos  – Mas dos que mais se fala é dos que ocorreram em 1531 e em 1775.
Referem estudos que O sismo de Lisboa de 1531 foi um violento terramoto  que atingiu a zona de Lisboa em  26 de Janeiro de 1531, do qual resultaram aproximadamente 30,000 mortes.

Acredita-se que a causa foi uma falha geológica na região do baixo Tejo,[ e foi precedido por um par de choques em 2 de janeiro e 7 de janeiro. Os danos causados, especialmente na parte baixa foram severos, aproximadamente um terço das edificações da cidade foram destruídas e mil vidas se perderam no choque inicial O Paço da Ribeira  e a  Igreja de São de Deus  foram ambos completamente destruídos

O Sismo de 1755 tendo apagado da memória o Sismo de Lisboa de 1531, não deixa de merecer que Joaquim José Moreira de Mendonça compare ambos na sua História Universal dos Terramotos (1758)[ :

Nem obsta dizer-se vulgarmente que o Terramoto presente foi maior que o de 1531, por se verem arruinadas a Torre da Basílica de Santa Maria, e muitas igrejas, que naquele não caíram. A isto respondo que também neste ainda ficou sem ruína a outra Torre da mesma antiga Sé; e que as igrejas que caíram agora naquele tempo eram muito novas e ressentiram da mesma forma que ao presente sucedeu às duas Igrejas de S. Bento, à de Nossa Senhora das Necessidades, à do Menino Deus, à dos Paulistas e outras, com alguns palácios, e casas novas, que não padeceram ruína considerável.” - Excerto de Sismo de Lisboa de 1531 –





Excerto do poema de Voltaire sobre o desastre de Lisboa


"O poema de Voltaire sobre o desastre de Lisboa
Ó míseros mortais! Ó terra deplorável!
De todos os mortais monturo inextricável!
Eterno sustentar de inútil dor também!
Filósofos que em vão gritais: "Tudo está bem";
Vinde pois, contemplai ruínas desoladas,
restos, farrapos só, cinzas desventuradas,
os meninos e as mães, os seus corpos em pilhas,
membros ao deus-dará no mármore em estilhas,
desgraçados cem mil que a terra já devora,
em sangue, a espedaçar-se, e a palpitar embora,
que soterrados são, nenhum socorro atinam
e em horrível tormento os tristes dias finam!
Aos gritos mudos já das vozes expirando,
à cena de pavor das cinzas fumegando,
direis: "Efeito tal de eternas leis se colha
que de um Deus livre e bom carecem de uma escolha?"
Direis do amontoar que as vítimas oprime:
"Deus vingou-se e a morte os faz pagar seu crime?"
As crianças que crime ou falta terão, qual?,
esmagadas sangrando em seio maternal?
Lisboa, que se foi, pois mais vícios a afogam
que a Londres ou Paris, que nas delícias vogam?
Lisboa é destruída e dança-se em Paris.
Tranquilos a assistir, espíritos viris,
vendo a vossos irmãos as vidas naufragadas,
vós procurais em paz as causas às trovoadas:
Mas se à sorte adversa os golpes aparais,
mais humanos então, vós como nós chorais.
Crede-me, quando a terra entreabre abismo ingente,
ais legítimos dou, lamento-me inocente.
Tendo a todo redor voltas cruéis da sorte,
e malvado furor, e armadilhada a morte,
dos elementos só sofrendo as investidas,
deixai, se estas conosco, as queixas ser ouvidas."

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