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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

ESCALADA VERTICAL DO PICO CÃO GRANDE EM SÃO TOMÉ - TRIBUTO AO BRUNO CARVALHO E AS RECORDAÇÕES DE UMA ILHA MARAVILHOSA E DE UM DESAFIO INESQUECÍVEL-





















"Quando Moisés desceu do Monte Sinai, trazendo nas mãos as duas tábuas do testemunho, sim, quando desceu do Monte, Moisés não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, por haver Deus falado com ele. Quando, pois, Abraão e todos os filhos de Israel olharam para Moisés, eis que a pele do seu rosto resplandecia, pelo que tiveram medo de aproximar-se dele".Êxodo 34:29-30.

"As montanhas e as grutas figuram constantemente nas citações bíblicas. O monte de Salomão eleva-se no monte Moriah, num dos dois cumes da montanha do Sião"(..) "Jesus subiu ao monte Tabor na companhia dos discípulos Pedro, Joaquim e João.(...) "Todas as montanhas chinesas eram habitadas por um génio, o que quer dizer que, desde tempos imemoriais , os camponeses chineses vinham celebrar festas e fazer sacrifícios no cume das montanhas"

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Lá ao fundo, o abismo: nos últimos 100 ou 50 metros, mais das vezes, as cerradas névoas, davam-nos uma ajudinha: permitindo-nos um isolamento total com a rocha. Porém, quando surgiam as abertas, a visão debaixo dos nossos pés, quase sempre era aquela sensação de espanto e de arrepio.


"
Sempre o homem primitivo procurou pelos deuses nos cumes das montanhas. Lá em cima queria estar mais próximo das suas divindades, lá queria observá-las. assistir à sua chegada e à sua partida para o céu. Lá onde nas planícies não havia montanhas, os nossos antepassados ergueram elevações artificiais. O que seria a Torre de Babel , senão um posto de observação? E também as pirâmides, não seriam apenas degraus que levam para mais perto dos céus?



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O INÍCIO DA GRANDE AVENTURA FOI EM MEADOS DE 197O - DOIS ANOS SOZINHO, TENDO COMO GUIA, ATÉ AO SOPÉ DO PICO, O SEBASTIÃO DA ALDEIA DOS ANGOLARES, NA PRAIA GRANDE - DEPOIS NA COMPANHIA DOS SANTOMENSES PIRES DOS SANTOS E CONSTANTINO BRAGANÇA

FORAM QUATRO ANOS DE VÁRIAS TENTATIVAS - É QUE SÓ  NOS TRÊS MESES DA GRAVANA, ALI NÃO CHOVIA  - UMA CONQUISTA PALMO A PALMO E COM OS MEIOS MAIS ARTESANAIS - Cada tentativa ao Pico Cão Grande, eram sempre três dias e três noites de escalada vertical - Era o recomeçar de novo pelas mesmas paredes rochosas e escarpadas arestas, apoiar os pés nas mesmas cavilhas e ter por baixo dos olhos, a vertigem do abismo abrupto. E foram dezenas de idas e vindas - de persistentes e perigosas escaladas - Mas o pior eram as noites - as longas noites de 12 horas equatoriais - Quando, não podendo pernoitar no abrigo, ali ficávamos quase dependurados, sob uma escuridão saturada de névoas e de humidade. A ida e o regresso, por uma floresta cerrada e infestada de cobras venenosas - a terrível cobra preta. O Cão Grande, visto da estrada, aparece como que ali à frente dos nossos olhos - de resto, ele vê-se de todo o sul da Ilha - , mas ainda são algumas horas - com o machim sempre abrir caminho


Diz Eric Shinpton. no livro " A Conquista do Evarest": "Ouvia-se, com frequência, a afirmação de que, infelizmente, após a conquista do Evarest, não restaria qualquer ponto da superfície da terra que o homem não tivesse pisado. Nenhum explorador concordou jamais com tal afirmação; e, para um montanhista, ela constitui um disparate" (...) "Parte dos que foram vencidos pertencem ao grupo dos que menos dificuldades oferecem. Muitos, de tantos que restam, exigirão muito mais trabalho e perícia." (...) Há milhares de outros. A grande maioria não tem nome. Nem se lhe conhece a altitude.(...) Alguns deles são bem mais difíceis de qualquer dos gigantes."

 s


O MEU TRIBUTO À CORAGEM DO ALPINISTA BRUNO CARVALHO - A QUEM DEDICO A ESCALADA AO PICO CÃO GRANDE NA ILHA DE SÃO TOMÉ : Não para enaltecer façanhas (porque elas valem o que valem) mas para demonstrar que o alpinismo é um desporto altamente arriscado, só possível de quem ama verdadeiramente a Natureza e com ela gosta de estabelecer os mais profundos laços e desafios , que exige de quem o pratica, um grande espírito de equipa e o mais solidário e fraterno companheirismo - E foi o que, Bruno Carvalho, não terá tido de Garcia e Rosado.

POIS O PIOR QUE PODE ACONTECER A UM ALPINISTA É VER SURGIR A NOITE E FICAR FORA DO SEU ABRIGO, EM LUGAR INSEGURO E ISOLADO, SEM PODER MEXER UM PÉ E EXPOSTO À MERCÊ E ADVERSIDADE DOS ELEMENTOS - ACONTECEU-ME A MIM ... ESTAVA SOZINHO! - FELIZMENTE, LÁ ME MANTIVE TODA A NOITE ABRAÇADO À ROCHA - CERTAMENTE TERÁ SIDO A SITUAÇÃO POR QUE PASSOU BRUNO CARVALHO E QUE LHE TERÁ PROVOCADO A MORTE, DEPOIS DOS SEUS COMPANHEIROS, LHE VOLTAREM AS COSTAS - À SUBIDA E À DESCIDA - O TEREM ABANDONADO À SUA SORTE


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O Pico Cão Grande - também conhecido por Caué - emerge do coração da floresta virgem Pico do Cão Grande (foto ao lado )- Fica relativamente sobranceiro à linha do equador - onde a queda pluviométrica oscila, entre os 4500 mm a 5000 mm anuais. No período da Gravana, que corresponde aqui ao Verão no Hemisfério Norte, é que chove um pouco menos. E, tal como em toda a ilha, não há praticamente crepúsculo. Logo que o disco solar se esconde no oceano, rapidamente anoitece; o mesmo acontece ao alvorecer; passa-se rapidamente da noite mais espessa à claridade mais radiosa. Quem anda na floresta ou faz uma escalada, já sabe que não se pode descuidar - E eu naquele dia, descuidei-me.


Enquanto me aproximava do exíguo abrigo, uma trovoada tornou repentinamente a parede basáltica de quase seiscentos metros na vertical, numa gigantesca garrafa de vidro - fiquei praticamente pendurado, e, nessa altura, estava sozinho sobre o abismo e fora do lugar de segurança - Foi uma noite horrível! A bem dizer, também não estava só: do fundo do arvoredo, ouviam-se muitos sons.E aquilo que eu, hoje, ainda mais recordo, é o cheiro do musgo húmido e da pedra (aquela pedra parece que ainda tem o cheiro da incandescência dos magmas) e os perfumes inebriantes que vinham lá das copas e da folhagem. Onde os macacos faziam sempre uma enorme algazarra e, quando por lá se passava (com o Sebastião abrir caminho com o machim, a zagaia e as suas matilhas para capturar os porcos bravos) por entre fetos gigantes e lianas, não havia vez alguma que não deparássemos com as temíveis cobras pretas!

A escalada ocupava-nos sempre três dias: houve um dia em que fui apanhado pela noite na floresta. Pois nem sempre o Pires dos Santos, estava disponível. E o Sebastião, levava-me lá mas depois ia-se embora. Comecei andar por um ribeiro abaixo, como um tolo, mas desisti, pois escorregava e caía a cada passo. Queria era fugir aos mosquitos, que os apanhava na cara às mãos cheias. Mas lá os tive que suportar até que amanheceu. Bom , mas lá em cima, onde eu agora estava pendurado, a 400 metros, não havia serpentes venenosas nem mosquitos. Chovia intensamente e havia muita humidade, que quase me sufocava! - E eu, nessa noite, não preguei olho; não dormi um minuto. A fotografia, acima e ao lado da do Pico, foi onde eu assim me aconcheguei: como que abraçado àquele negro penedo e pedindo-lhe protecção. O que me valeu foi que havia uns esporões debaixo dos meus pés que me impediram de escorregar. A rocha estava escorregadia como óleo sobre mármore.


Quando era garoto eu adorava ir para a ladeira do nosso Lavor do Ferro, lá para os lados do Côa e correr por ali abaixo, abrir os braços e ter a sensação de voar. Às tantas da noite, pensei mesmo nisso; nalgumas dessas recordações e apetecia-me ser um homem pássaro, ter asas e voar ou ser o falcão que persegue os papagaios -Mas dei muitos berros.. À índio ou à gabão do mato. Cada ascensão mais difícil conquistada, era encher pulmões e extravasar a alegria! - A macacada no obó da capoeira, dava logo sinal e ficava em alvoroço! - Era uma coisa que eu fazia muitas vezes... De dia e de noite, sobretudo nas minhas escaladas solitárias. De noite era mais para espantar fantasmas ou comunicar com os meus companheiros ermitas. Naquela altura, havia trabalhadores que fugiam das roças(devido aos maus tratos - sobretudo moçambicanos e cabo-verdianos) que se refugiavam no mato - chamavam-lhe os gabões; viviam da caça, que trocavam com outros bens alimentares nas aldeias. Eu imitava o grito deles. E, por vezes, eles correspondiam: dos arredores e do fundo do arvoredo do
Pico do Cão Grande. Oh! sim, mas ali no meio daquela escuridão alagada de chuva, se despegasse os braços da rocha e os abrisse, a queda era fulminante como o chumbo. Mais tarde pedi ao meu grande amigo Pires dos Santos para me tirar ali uma foto. Queria recordar aquela noite que poderia ter sido a última da minha vida - bem pior das 38 que passei sozinho numa canoa ODISSEIAS NOS MARES Pois o problema maior era a tremenda insegurança: não poder apoiar-me e descansar. E a queda aprumo, fatal! - Tudo era escuro e viscoso. Mas eu tinha que zelar pela minha vida: não queria morrer, claro está.



Na imagem ao lado, o Pires dos Santos, na dificílima dobra do cotovelo - Veja-se como a corda se afasta para a perpendicular- Na foto, em cima, subindo os degraus da escada (já além dos 400m), o Constantino Bragança, empreendendo mais um lanço,em que a vida de cada um dependia dos arames que prendiam os 20 metros de cantoneiras ao basalto.


SUBIR APRUMO E SOB O FIO DA NAVALHA

Uma cavilha que nos soltasse das mãos, não mais a víamos O equipamento era rudimentar e todo improvisado. Cada um dispunha de uma verga de ferro de dois metros de comprimento ( das que são usadas no betão da construção civil), recurvada num dos extremos e pontiaguda, com que, por vezes, nos elevávamos para escalar ou transpor faces das rochas ou outros obstáculos onde não nos era possível fixar cavilhas ou estribos de corda. Aliás, era com essas vergas que também fazíamos alguma das cavilhas, mas tudo isso era frágil; até as cordas. Não nos davam muita confiança. O risco era permanente: mas tínhamos que nos habituar a conviver com ele.


Falando, por mim, houve momentos em que cheguei a recear que não ia aguentar: que podia ter alguma câimbra . Eu já as havia tido no degrau de uma escada, de 20 metros, com secções de cantoneiras de 3m em alumínio, que lá montámos, para vencermos uma rocha maciça sem fendas regulares onde não conseguíamos meter uma cavilha. Os degraus eram bocados de cantoneiras muito finas. Com uns arames e uns pedaços do mesmo material, lá a fixamos acima dos quatrocentos metros, presa a uns arbustos. Sim, havia ali sítios onde a humidade favorecia o seu aparecimento. Mas de vez em quando desmembravam-se com as chuvas. Os últimos cinco metros eram inclinados, o que impelia a escada a dessoltar-se a cada instante, sempre que pisávamos esses degraus cimeiros e nos desviávamos da vertical.

Eu preferia a ascensão livre (a verguita a aferroar a pedra), a içar-me e a táctica infalível da agilidade do macaco do óbó a trepar nos troncos e pernadas da luxuriante selva com os seus estridentes e alarmantes gritos de guerra - sim, a ter os dedos das mãos bem fincados e os dos pés(quando descalço), igualmente entranhados nas ranhuras da pedra, tão firmes e maleáveis como as unhas afiadas dos simpáticos beduínos nas suas constantes trepadas e saltos acrobáticos) a ter que me arriscar à maldita e frágil escada . De facto, muitas vezes hesitei; quis subir por ali acima - mas não havia outra alternativa se queríamos vencer este lanço.

A pedra basáltica é tão dura como o ferro e, em vertente vertical, rugosa mas sem fendas contínuas), ainda pior! - Pois não dispúnhamos de meios técnicos para a perfurarmos.. E o raio da escada, ainda por cima, ameaçava resvalar para o precipício ou vergar-se e projectar-nos a todo o instante, como uma catapulta, no espaço; muito para lá da parede vertical do Pico .



Nunca subíamos ao mesmo tempo, receando que desprendesse. Enquanto, um subia, o outro ficava a segurá-la na base. Depois do primeiro subir, este aguardava lá em cima, com uma corda pronta para qualquer emergência. A nossa sorte é que, a partir dali, havia quase sempre nuvens ou nevoeiro e não víamos nada lá para baixo. Mas era sempre uma sensação estranha de abismo e de vazio. Era preciso ter muita serenidade e presença de espírito. Nada de pressas!...Era a nossa vida que estava em risco...

Cada movimento era feito com muita calma. Requisitos que fomos adquirindo com o tempo e à medida que nos íamos adaptando à convivência com as alturas. Porém, só Deus sabe!... O risco era constante e exigia-nos muita agilidade, paciência e um enorme esforço. Os nossos olhos só viam o cume... e parecia-nos sempre tão perto!... Até parecia que nos desafiava: vinde, amigos, a ter comigo! Eu sou a ponte do meio do Mundo entre a Terra e o Céu!... E Deus vos abençoará!... Eu fazia desse desafio um desígnio, uma missão (e também uma bofetada, sem dor, a quem me tinha humilhado ali na Roça) e incuti esse entusiasmo e essa vontade aos meus companheiros.

O Pires dos Santos, trabalhara ali na Ribeira Peixe e sabia o castigo que me haviam dado por eu me ter recusado a tratar os trabalhadores por tu e segundo os velhos hábitos coloniais: mandaram-me com um trabalhador cabo-verdiano (e ele também de castigo) a contar cacaueiros velhos e abandonados, junto à Roça Novo Brasil, numa área que há muito não era cultivada e que estava infestadíssima de serpentes. Não havia dia algum que não tivéssemos de fazer uso do machim para não sermos mordidos.

O CONSTANTINO BRAGANÇA VEIO PARA LISBOA (JÁ NOS TEMOS ENCONTRADO) E, TU, PIRES DOS SANTOS, ONDE TENS ANDADO E COMO TEM SIDO A TUA VIDA?

Nunca mais soube nada de ti, amigo!... Já lá vão muitos anos.. Espero que estejas bem e que recordes como eu as aventuras que partilhámos juntos. E tu sabes quão difícil nos foi transportar as cantoneiras pela floresta e depois puxá-las uma a uma lá para cima. E também quanto nos custou montá-la naquele sítio!... Claro com a preciosa ajuda do teu conterrâneo, Constantino Bragança. Óptimo amigo e companheiro. Acompanhou-nos até à dobra do cotovelo: ali, hesitou; foi pena.

Como te recordarás, houve dois grandes obstáculos: o da primeira escada e um outro (lá junto à crista) em que tivemos que dobrar aquela perigosa saliência!... Meu Deus!... Como conseguimos!... Mas este também não ficava atrás... a escada era realmente muito vulnerável.!... A superfície das travessas magoava. Mas tu ali eras mais ágil do que eu e subias a escada como se estivesses a trepar a uma palmeira.... Lembras-te daquela vez.... quando me viste atrapalhado?!... E tu insistias: Jorge!... Sobe!... Tem calma!... Tem calma! ...Não olhes para baixo!... Olha para mim... Jorge!...Olha para mim!... Mas... dessa vez... não sei como... comecei a tremer a tremer... Um dos meus pés começou a tremer-me cada vez mais... E, enquanto tu não me lanças-te a corda... eu tive que enfiar os braços nos degraus e apertá-los contra o peito. Obrigado, companheiro! ... Lá me vales-te!... Estava a ver que dessa vez não me controlava. Mas, se raras eram as noites ali bem passadas, aquela, de facto ( sim, nesse dia eu estava sozinho) afigurava-se ser de todas a mais dramática. A mente teve que funcionar a duzentos por cento. Impondo ao meu corpo a firmeza e a robustez de uma estátua. Envolto em espessas neblinas, chuva diluviana tropical e densas trevas, era impossível arredar pé. Naturalmente que não passei frio. Estava no Equador. O Ilhéu das Rolas, ficava ao largo, não muito longe, lá para Porto Alegre.

“MAR DO SAL DA VIDA E DAS SEPULTURAS POR ABRIR, MAS SEMPRE PRONTAS"PORQUE ME ACEITASTE NAS TUAS ONDAS SE NASCI MAIS PERTO DOS RIOS E TÃO LONGE DE TI?!


Depois que deixei são Tomé senti-me sempre como que um náufrago e um prisioneiro. num país desconhecido - e, todavia, este , onde estou, é o país onde eu nasci. Só naquela linda ilha equatorial pude conhecer o que era o mais genuíno e verdadeiro prazer da aventura com a natureza. Fui para lá muito jovem - talvez, em parte, isso explique o meu grande afecto por aquelas ilhas. Pese as várias adversidades com que me defrontei com a, então, ainda reinante mentalidade colonial. Mas é de lá, da extensão daqueles mares azuis e do coração ubérrimo daquelas florestas, ricas em variedade e de multicolores luxuriantes, que eu guardo as melhores memórias. A dificílima conquista do Cão Grande, faz parte desse extraordinário acervo. Sim, foi lá: naqueles mares do sul, naquelas longínquas ilhas verdejantes, que eu vivi a emoção da aventura plena. Quer navegando através de mares de bonança e de tempestades. Quer escalando picos nunca dantes escalados. Sim, amo o mar solitário pleno de azul e de luz e a vertigem de trepar pelas mais íngremes escaladas. Creio que não há maior prazer que o da conquista de um pico ou de uma montanha nunca dantes pisada - Eu já tivesse esse privilégio. E foi num tempo em que não havia os meios técnicos que há hoje: tudo era feito quase a pulso e à força da vontade. Os anos passam.... Agora é tempo de começar a dar lugar à memória. Não é que me sinta diminuído ou velho ..mas temos que reconhecer que o tempo não volta atrás - Na vida há um tempo para tudo...



Dedico esta postagem ao valoroso Bruno Carvalho. Não tive o prazer de o conhecer pessoalmente mas conheço o pai, de quem sou amigo. E sei que ele era realmente um verdadeiro amante da natureza. Um perfeccionista na sua vida pessoal e nas escaladas em que se envolvia. É certo que agora está do outro lado . Sim, mas que importa se o seu espírito se mantêm ainda muito vivo! - E não apenas no coração dos pais e irmãos ou no daqueles que o conheceram, mas na atmosfera e na espiritualidade que transparece ou emana no éter, que é, no fundo, o rasto deixado pelos valorosos que tão cedo desta vida partiram.Sabes, Bruno: a tua má sorte foi a falta de companheirismo e de solidariedade que te foi negada; sim, eu tive essa impressão, logo que foi noticiada a tua morte e continua tê-la. Tive-a através dos vídeos e imagens, a que tive oportunidade de ao mesmo tempo poder conhecer a riqueza da tua personalidade e a miséria daqueles que fazem da vaidade , o principal objectivo da conduta das suas aventuras. Constatei que, mesmo sozinho e abandonado pelos teus companheiros, nem assim deixaste de conquistar o cume da montanha do teu lindo sonho. Bravo Bruno! - A morte é que, às vezes, nos prega partidas, quando menos se espera. Mas, deixa lá: os deuses chamam cedo para sua companhia, aqueles que verdadeiramente amam. E eu tenho a certeza que estás em boa companhia.

Além da singela homenagem que te prestamos no Monte dos Tambores, junto aos Templos do Sol, eu também já te dediquei uns singelos poemas. Foi naqueles dias em que sentia profundamente a dor do teu pai. Um grande companheirão e um bom amigo, acredita. Antes de terminar, gostaria de confessar-te uma coisa: tu perdestes o direito à vida terrena, é certo e muito jovem. Mas já vistes qual é o vazio de alguém, que, nesta vida, viva muitos anos e nunca seja capaz de dar sentido à vida? .- E tu deste um nobre exemplo e um extraordinário sentido! Escalaste uma das maiores e mais belas montanhas da Terra! - Mas que extraordinária aventura!.. Quem me dera ter desfrutado dessa oportunidade. Não me importava de não viver mais. No entanto, e para te ser franco, confesso que não sinto uma grande atracção pelas montanhas geladas. Não gosto do frio. Desabituei-me dele em São Tomé: doze anos na Ilha Verde, fizeram-me perder resistências. Claro, que, hoje, em dia, os fatos suportam temperaturas baixíssimas. Mesmo assim (a escalada nocturna) é um tremendo risco: ou essa não teria sido a situação causadora da tua morte?... Sabes: é para onde aponta o meu sexto sentido. 




Estou convicto de que, se não tivesses ficado sozinho (o que te obrigou a enfrentar maiores dificuldades de um lugar que desconhecias completamente: afinal, o Sherpa, foi apenas para servir de companhia ao Garcia. Eu tenho pelo menos essa convicção. Que foi da mais reles hipocrisia e egoísmo. Fez tábua rasa dos mais nobres sentimentos que devem prevalecer na alta montanha - nunca abandonar um amigo, um companheiro. Eu escrevi, numa das reportagens que fiz das minhas próprias escaladas para a revista angolana - Semana Ilustrada - o seguinte: "a maioria dos desportos, quaisquer que sejam, implicam competição. No caso do alpinismo, os princípios são bem diferentes: numa escalada, a segurança de um, depende a do companheiro ou de todos que compõem a expedição. Porque a prática do alpinismo é forçosamente perigosa e todo cuidado que se põe é pouco"

- Estou-me agora a lembrar(era apenas para escrever umas linhas mas vejo que já me estou a espalhar) sim, daquela tarde em que, o Pires dos Santos, uns metros mais acima, grita: "pedra"!!! e eu só tive tempo de encostar a cabeça à rocha, passou-me a arrasar o cabelo: tinha acabado de ultrapassar um cotovelo, e por pouco não me desequilibrei e me fui despedaçar nas copas e nas rochas vulcânicas que existem à volta do pico. Mais das vezes escalávamos de meias para melhor aderência à pedra. Porém, nas partes mais altas e expostas à chuvas e ao vento, devido à permanente erosão, a pedra era laminada e fazia-nos sangrar os pés - - Sim, o alpinismo é algo que se ama - a vertigem é a nossa adrenalina- mas em que não pode haver nenhum tipo de competição. O Pires dos Santos, um santomense, nascido na Vila da Trindade, era mais de que um amigo, era um irmão: e eu chegava a recear muito a vida dele, porque ele era pai. E a filha era ainda uma menina. No caso de João Garcia , ele parece-me que aquilo que mais pretende, é dar nas vistas; é mostrar currículo

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Grupo de naturais da aldeia de Chãs, em noite de convívio e de fados, em Sintra e em Lisboa, vivida com muita alegria e entusiasmo, abrilhantada pelo fadista-cancionista, Jorge Fernando.



Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista 

NOITE DE FADO A CONDIZER COM A NOSTALGIA ROMÂNTICA DO  CAIR DA FOLHA OUTONAL  - ABRILHANTADA POR UM ARTISTA,  QUE SÓ A VOZ E A SIMPATIA QUE DISTRIBUI,  FAZEM A FESTA.

O Novembro já vai a meio, o Outono adiantado, as árvores despem-se,  é o cair da folha mas não é o do fado, que, também canta a nostalgia das chuvas que caem ou da solidão dos corações  tristes e amargurados, mas que, em cada ciclo, se renova e nunca envelhece. 

Foram precisamente emoções essas, que pude reviver, neste último domingo, à noite – Sim, a bem dizer, há  muito que não conhecia uma noite assim: um jantar-convívio, promovido pelos meus  conterrâneos, da aldeia de Chãs, do concelho de Vila Nova de  Foz Côa,  no restaurante da  Adega típica de Tala, Algueirão Martins, para os lados de Sintra, e,  depois da meia-noite, no Pub Távola,  coroado por  alguns dos mais afamados  fados.

Cantados e tocados à guitarra por  Fernando Jorge, um dos antigos meninos do Bairro da Bica. Um fadista de gema, que despertou para o fado aos sete anos de idade com cinco amigos  de infância que também gostavam de música e aos 10, tendo formado  o conjunto  musical “Os 5 Estrelas da Bica” – Usando Tambor. Maracas, Viola, Ferrinhos,  Pandeireta e Reco-Reco – “Nenhum sabia tocar, mas eram grandes fazedores de uns ruídos  a que chamavam de ritmo - Recorda, Fernando Jorge, num breve opúsculo, que junta a  uma coletânea de fados, editados em dois CDs, com que pretendeu assinalar os  50 anos de cantigas, sublinhando,  porém, que, na “verdade cantavam tudo o que era moda na altura e não desafinavam. Por graça, eram convidados  a subir aos palcos  nos santos populares  e outras ocasiões, por alguns adultos."

E assim começava a brilhante carreira de Fernando Jorge, que, tocado pelo bichinho dos sons, nunca mais conheceria outra vida senão a da música – Desde sempre  ligado a conjunto musicais,  que o levariam às sete partidas do mundo, como fadista—cancionista,  mas sobretudo na pátria lusitana, ilhas e continente, quer como intérprete,  mas também como compositor, ator de cinema, teatro de revista, rádio e televisão,  a ser o One Man Show, uma presença, constantemente solicitada, em bares e pubs.




Fado da Meia Laranja  -Letra de José Luis Gordo / Música de Joaquim Campos 
Fado Vitória – Interpretado por Fernando Jorge



Foi guitarra de ouro, dez anos e microfone de oiro, 12 anos, nos concursos radiofónicos  . A VOZ  DO ANO,  (17 anos) Na votação pública  ao programa realizado no Cinema Éden. Tomou parte do Show de 1 hora  na estreia  da TVA (Televisão de Angola) - Cantou contracenou com o nomes mais populares do teatro, do cinema e música. Autor de vários trabalhos editados em cassetes de cartuchos, normais, vinil, vídeo e CDs. Realizador/Locutor durante mais de uma década na antiga RS (Rádio Seixal), atual RDS, além de colaboração na Rádio de Sintra, nomeadamente, na divulgação de poetas, dos artistas e da música portuguesa. Atualmente, é o artista que  regularmente dá brilho e alegria  no Pub Távola, do Alberto, também ele um excelente fadista, tal com ficou demonstrado pela interpretação do Fado Meia Laranja,  acompanhado à guitarra por Jorge Fernando, que também ia dando voz a algumas estrofe

  
Neste vídeo, excertos de uma colectânea dos mais afamados fados, interpretados por Jorge Fernando - Registo breve de cada um mas  creio que o bastante  para encantarem  e matarem algumas das saudades das  letras e sons que mais tocam ao sentimento,  encantam ou arrebatam o coração dos fadistas e dos apaixonados pela mais popular canção nacional -  A feliz oportunidade deste apontamento, fico a devê-lo ao popular artista, mas também  graças à iniciativa do jantar-convívio, de um simpático punhado de chanenses, num encontro que é também como que a dar já o cheirinho fraterno à quadra natalícia, que se avizinha. 
 


Os meus parabéns, ao Daniel Ferreira, um dos principais entusiastas e organizadores do convívio dos chanenses –  Oportunidade para um reencontro fraterno e amigo, sobretudo  daqueles que, estando longe da sua santa-terrinha, não a esquecem e desejam manter viva a chama do chão que os viu nascer, numa pequena mas ridente aldeia, sob os mesmos largos horizontes que lhe haveriam de moldar o caráter e o sonho de viver.

Há, pois, que manter viva esta iniciativa, que, desde há alguns anos,  já vai ganhando foros de tradição, não apenas para  não deixar perder   tão amistosa como saudável confraternização, mas também para lembrar de que, não serão as sombras das desertificação que  vão despovoando a passos largos a nossa aldeia, tal como tantas outras, que hão-de apagar as boas recordações do nosso torrão natal ou cercear os laços fraternais, que a todos nos unem - Pois que é senão, no seu já reduzido número de lares,  praticamente a mesma família.

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Minha Mãe nasceu há 100 anos, no dia de S. Martinho - Mas partiu aos 52 - Estava em S. Tomé, era militar - A premonição de sua morte e algumas das recordações inesquecíveis da aldeia da minha adolescência - Hoje em acelerada desertificação- Em vias de ter mais velhos no lar de que gente ativa.

Eu sou o chorão -  Dos seis, só dois: eu e o do colo

Partira para S. Tomé,  em meados de Novembro de 1963, a bordo do paquete Uíge para concluir um estágio da Escola Agrícola de Santo Tirso, na Roça Uba-Budo, mas onde não encontraria o mínimo de condições, devido à rudeza e prepotência colonialista, a raiar o esclavagismo,  com que ali me confrontei  – Tinha  então 18 anos, era jovem e alimentava um mundo de sonhos mas o que fui ali conhecer, naqueles primeiros anos, na beleza paradisíaca de uma Ilha equatorial, foram desilusões e humilhações, umas atrás das outras   – Só 12 anos mais tarde voltaria à minha aldeia mas já não ia encontrar a minha mãe viva, que falecera, ao fim de um penoso calvário de doença prolongada,  quando eu prestava serviço militar nesta antiga colónia portuguesa.

 Completaria hoje, dia de S. Martinho 100 anos, mas partiu para a eternidade com 52 - Cumpria então parte do serviço militar - visto a recruta tê-la ido fazer a Angola;  seis meses no curso de sargentos milicianos, na ex-Nova Lisboa e, depois, mais seis meses no curso dos  Comandos, em Luanda.

 Sabendo da gravidade da doença que então minha mãe padecia, fiz todos os esforços, junto a instituição militar para a poder visitar mas não fui autorizado: pois a mentalidade da tropa colonial não se compadecia com sentimentos pessoais - Deixara a minha aldeia aos 18 anos e nunca mais a voltaria a ver.

Dizia-me ela no momento da despedia, em que me dava o último beijo: adeus meu filho, que já não te volto a ver - E, de facto,  não se enganou, tal como a  premonição, que eu tive,  no dia da sua morte, antes mesmo de receber o telegrama a dar-me a triste notícia.

FENÓMENO DE PREMONIÇÃO  NÃO É ADIVINHAÇÃO 

A minha aldeia com as giestas floridas
Como se explica que, estando eu a alguns milhares quilómetros de distância da minha aldeia, tivesse a perceção, ou antes, pudesse visionar, tal como estando em presença do mesmo cenário real, com a mesma nitidez  e pormenor  de quem assiste a um acontecimento televisivo em direto?  O meu caso, é senão mais um entre milhares, nomeadamente, em pessoas, cuja sensibilidade ´ (que, por esta ou por aquela razão ou fator especial da sua mente) se presta à transmissão ou captação de tais fenómenos

Dizem estudiosos, nestas questões, que, experiências reais de premonição mostram que as capacidades de nossa mente podem transcender os limites do espaço e do tempo como os conhecemos . Tendo havido, “muitos cientistas proeminentes, que se  têm percebido destes factos  tais como “o renomeado físico David Bohm, por exemplo, disse: “Cada indivíduo envolve algo do espírito do outro em sua consciência”. O físico e Prêmio Nobel Erwin Schrödinger acreditava que as mentes não interagem umas com as outras como bolas de bilhar separadas, mas são, em certo sentido, unidas e uma só. “Para dividir ou multiplicar, a consciência é algo sem sentido”, disse ele. “Há, obviamente, apenas uma alternativa, ou seja, a unificação das mentes ou das consciências... na verdade, existe apenas uma mente.” O poder da premonição:

VI O FUNERAL DA MINHA MÃE, COMO SE ESTIVESSE A ACOMPANHAR O CORTEJO FÚNEBRE ATRÁS DA SUA URNA  ATÉ AO CEMITÉRIO

Foi num Domingo. E, como havia estado de serviço de véspera, após almoço resolvi deitar-me e descansar um pouco Adormeci e, uma hora e meia ou duas depois, acordei a chorar - E porquê?  Acabava de assistir, com os olhos rasos de lágrimas,  ao funeral de minha mãe a dirigir-se para o cemitério - Com  tal evidência e clareza, com tal pormenor, que era como se eu próprio estivesse incorporado no cortejo fúnebre atrás da urna. Via os olhos chorosos do  meu pai e dos meus irmãos,  Ouvia os sons dos sinos e a sineta a finados e via os seus rostos, todos  exprimindo a sua inconformável dor. De tal modo que eu próprio,  também sentia a mesma emoção.  Acordei a chorar. - Já um dia fiz este relato num jornal.

Residia, nessa altura, em casa de uma família portuguesa. Pois o filho, o Francisco, andava comigo na tropa: era furriel miliciano como eu. Compartilhávamos o mesmo quarto. - um bonito espaço, que se situava próximo do Mercado Municipal. Mas ele, na tarde desse domingo, estava fora de casa. Porém, ao regressar, vendo-me sentado sobre a cama e a chorar, perguntou-me: “O que é que tens, Jorge?!…” - Eu respondi-lhe: “a minha mãe morreu!…” E, mal pronunciei estas palavras, volto a cair em mim em lágrimas.... “Mas quem te disse?!…” - insiste ele. E eu digo-lhe: “Ninguém me disse nada!….. Mas eu sei que a minha mãe morreu porque eu vi o funeral dela!… Vi tudo como se estivesse acompanhá-la ao cemitério

Ele mostra-se surpreendido com o que eu lhe acabo de revelar, pois já trazia consigo um telegrama onde me ia ser dada a notícia. No entanto, mesmo assim, ainda procurou contornar o seu conteúdo, tendo acrescentado, ao mesmo tempo que se aproximava de mim - já pronto para me dar um abraço e me confortar: “Olha, Jorge: de facto, a tua mãe está muito mal, está muito doente e eu até trago aqui um telegrama para te informar da gravidade da saúde dela!… Mas eu vi logo que eram apenas palavras amigas de conforto e retorqui: Obrigado, Francisco! Obrigado pelo teu cuidado mas esse telegrama só pode dizer que a minha morreu! - E era verdade. A minha mãe que fazia agora anos no dia de São Martinho, faleceu aos 50 anos, num Sábado e foi a enterrar, justamente naquele domingo, para mim tão triste - Mesmo antes de me ser dada a notícia.

Este foi o primeiro caso que me despertou para os fenómenos da mediunidade. A partir daí passei a prestar mais atenção aos chamados flagrantes de iluminação e tenho-me apercebido de outros episódios relevantes - Bom, mas do que hoje aqui venho falar é sobretudo  de algumas das recordações da minha adolescência - Pois sei que, ao fazê-lo, não estou apenas a singularizar  o meu caso mas a dar-lhe a dimensão de que o pessoal é também, de algum modo, a expressão do universal, neste caso do microcosmos ou do pequeno mundo da minha aldeia, que, no fundo, não passa também de um pequeno grão de areia à luz do sol. 

 MEMÓRIAS DA MINHA ADOLESCÊNCIA

Com o meu irmão José
Se há recordações, que jamais esquecem, a quem nasceu no meu torrão natal, são os momentos de solenidade e de alegria da festa religiosa de 15 e 16 de Agosto., num misto de profano e religioso:  digamos,  os dias que quebram, verdadeiramente, a rotina da vida rural da aldeia.  O mesmo se passa na maioria das aldeias do interior, onde a vida não conhece grandes contrates, senão os ditados pelos ciclos das estações e o curso natural da Natureza.  – Hoje, qualquer festividade, tende mais a ser de carácter profano de que propriamente de culto ao sagrado – Tanto mais que a dessacralização dos valores intemporais, é uma das marcas dos tempos que correm, da chamada era do vazio, de uma globalização desumana e dominada pelos tentáculos perversos do capitalismo, insaciável, avaro e selvagem, sem rosto e sem fronteiras.   –  O que conta são as aparências, os jogos da hipocrisia, da ganância e do cinismo e não as virtudes .  

A prima infância 

Como é sabido, não há como o mês de Agosto – E até as noites de Luar são mais luminosas, serenas e diferentes. Num clima temperado, como é o de Portugal, menos frio que o Norte da Europa, mas, mesmo assim, só no mês de Agosto, se aprecia o verdadeiro gosto do Verão, das férias e da sensação dos dias intermináveis, que têm o brilho do sol escaldante, do azul límpido do céu, o colorido e  o sabor dos frutos. Não há   outro mês, tão  sedutor e apelativo. Daí que, a maior parte das festas populares – de cunho religioso e  diversão – decorram ao longo deste mês, e, nomeadamente, no feriado do dia 15 .

Muita coisa já mudou, mas durante os anos da minha infância e adolescência, a festa de Nª Srª de Assunção, de 15 e 16 de Agosto,  pouco mais mudava de ano para ano que a origem da banda, do nome do pregador, do fogueteiro ou da lista dos mordomos - Agora, festa religiosa, sem a componente do espectáculo de variedades, não é festa.

Por isso, se seguir o itinerário, que aqui vou procurar evocar, nomeadamente naqueles dias, longos e quentes de Agosto, talvez consiga reconstituir um pouco do ambiente de desse tempo,  dos anos mais verdes da  minha vida minha.


Martins - último ferrador - também já nos deixou 
Tenho oito anos: sou ainda garoto –  É tempo de férias, a escola primária só reabrirá em Outubro. Ao longo da semana, trabalha-se no campo: a maior parte das ceifas, já  foram feitas e os molhos do centeio, da cevada e do trigo, ficaram nos rolheiros, mas é tempo das malhas nas eiras, de se transportar o cereal e ali se trilhar ou malhar – E também é tempo dos meloais, de se comerem as primeiras uvas maduras  e de se começarem apanhar os figos, pêssegos e maçãs.  Não falta trabalho. E, nesse tempo, não há subsídios para lombeirões, deficientes ou candidatos  a indigentes disfarçados de  inválidos.


Debulhadoras nas eiras, zoando desde o raiar da manhã, até ao crepúsculo. Malhadeiras, debulhando o trigo e o centeio, ante a torreira escaldante do sol, que cega, exalta, deslumbra e sufoca – Dias da minha adolescência, que já lá vão e não voltam mais.




A casa onde nasci 
Antigo forno comunitário 
Aos domingos, os adultos, jogam ao cântaro ou ao ferro. Aos garotos, é vedada a permanência nas tabernas: - também se vende petróleo para iluminação e fósforos, mas só ali se vai  para entrar e sair. No seu interior, sobretudo à noite ou à tarde de domingo,  o que ali se vê e ouve é a habitual barulheira dos copos de vinho e as discussões ao trivial jogo de cartas. Se a curiosidade de um miúdo se prender por mais de que a trivial compra, recebe logo o raspanete:”Vai-te embora, que o teu pai está-te a chamar!”   






Havia a taberna do Timóteo e do Vale da Terra, no cabeço,  ao meio da aldeia, a do Borrego, junto às duas fontes da Figueira, que secavam no Verão); a taberna do Ferrador, na Rua do Cruzeiro
.

Na casa do Sr. Antoninho “Sapateiro”, ou da Srª Teresa “Sapateira”, quando o marido morreu. – Esta a casa, emblemática, que mais tempo se conservou, com as mesmas prateleiras e o balcão. Mistura de mercearia e tasca, mas também de casa do correio e do único telefone, enquanto não foi inaugurado o edifício da estação dos CTT, aí sim, havia alguma contemporização -  Quando chegava o carteiro de Foz Côa, eram lidos os nomes dos destinatários nos envelopes e procedia-se à sua distribuição, toda a gente ali ia e podia assistir.



Na casa que herdámos dos meus avós mateternos 
Ainda está como minha mãe a deixou
À noite, tal como outros miúdos da minha idade, costumávamos jogar às escondidas e ao tiroliro, e, durante o dia, sempre que  possível,  ao jogo do descanso ou dar uns pontapés na pelota – Este não era o meu veraneio predileto mas a fuga para a Ribeira dos Piscos e no Rio Côa, para ali dar uns  mergulhos. 

Porém, o que mais me fascinava era sobretudo, perder-me pela penedia dos Tambores, escalar  os seus rochedos e procurar decifrar os  seus mistérios, onde, curiosamente, anos mais tarde, haveria de descobrir os maravilhosos calendários pré-históricos, que batizei de Templos do Sol. Sim, e era no alto de alguns desses penedos, que eu edificava os meus presépios de imagens de barro, que eu próprio moldava. Crente de que, prostrando-me de joelhos e tendo tido  a experiência de ajudante de pastor, quando os meus pais eram caseiros, na Quinta do Muro, sobranceira ao Vale dos Areais, Ribeira da Centeeira, também ali poderia experimentar o mesmo fenómeno de aparição, que tiveram os  pastorinhos de Fátima.

Treinos na canoa, S. Tomé-Príncipe
Ideia peregrina esta que me haveria de acompanhar ao longo da  vida, num misto de paganismo e de sacra religiosidade  – Quer nas dificílimas escaladas ao Pico Cão Grande, em S. Tomé, confiante de que, no alto do seu cume, pudesse tocar a mão de Deus, sentir a sua presença, mais palpável ou mesmo nas várias aventuras marítimas, perdido por entre a grande solidão e vastidão oceânica, em frágeis pirogas, sem outros meios de orientação que o instinto,  o sol, as estrelas e a lua – E uma pequena bússola, que me indicava os pontos cardeais, mas nunca a posição em que me encontrava.

É FESTA DA ALDEIA










Festa na aldeia!... Mais alegre, mais  solene  e participativa,  de que hoje.  Tanto na parte religiosa como na diversão. Eram os dias mais esperados do ano. Dias longos, flamejantes e belos! – E, numa altura em que todos os centavos valiam dinheiro,  também não contratavam, como agora, artistas como atrações.  Eram apenas os sons  da banda filarmónica a tocar no adro, a acompanhar a mais linda procissão ou para abrilhantar o  desfile do cortejo das oferendas pelas ruas da aldeia.  Que saudades desses maravilhosos dias!   O arraial, os cânticos, o repicar dos sinos, os acordes,  as orações!...  Tudo assumia o caráter de uma profunda religiosidade – O profano e o sagrado, coexistiam em perfeita harmonia.

Minha Tia Ana 
Ah, então a missa nesse dia!...Igreja abarrotar de fiéis. Homens enchendo a sacristia e junto ao altar ou pelo coro, e as mulheres enchendo o restante espaço, até ao fundo da igreja, à entrada principal. Andores, lá dentro da igreja,  alinhados, lado a  lado, em duas fileiras. Brilham! Reluzem!...Estão lindamente enfeitados!...  Cores vivas , garridas! Reluzindo por entre fitas , primorosamente enroladas e o brilho de bolas de cristal.

Filhos do irmão do meu pai   - E da  minha geração 
Já todos partiram
Meio-dia, sol a pino a devorar o ar e a transparência dos espaços: calor sufocante, de abrasar. Tocar uma pedra de xisto ou num seixo do Vale do Bar, Vale das Boiças, Trecadas, Sumagrais, encostas dos Piscos ou pisar o chão descalço pelos caminhos, é tocar no fogo, quase o mesmo que agarrar uma brasa pelas mãos  – Mesmo assim, nós, a garotada, não nos importamos desses escaldanços  e das  tupadelas  nos dedos dos pés, o queríamos era gozar a liberdade plenamente, andarmos livremente e o mais leves, nas nossas correrias – Bem nos basta o peso e o desconforto dos  tamancos no Inverno.

Vale da Ribeira Centieira ou dos Areais
A aldeia estende-se de alto a  baixo  na quebrada de um vasto planto, num dos extremos da meseta ibérica,  onde acaba o granito e começa o reino xisto – O limite do horizonte, fica sempre longe. Pela hora mais alta do dia, o sol aquece e esbraseia, perpassa na atmosfera em lufadas de ar  quente, em torreira de escaldar: - Tudo crepita de luz, ao perto e em redor: a terra que se pisa, as fragas que se veem pelos cerros e quebradas, nas colinas, nas canadas e montes – Então para as ladeiras do xisto do  Côa, aí é mesmo  de torrar.. Há frescura no magnifico  Vale da Ribeira, que corre de Sul para Norte, mas dista a 4Km e fica ao fundo da margem  do planalto e a oeste

TRABALHOS  E SACRIFÍCIOS NÃO LHE FALTAVAM... 

Dia da primeira comunhão na atual igreja 
Estou a vê-la, a pegar na rédea do macho e a sair com ele da corte, carregado de palhiço, lenço preto na cabeça, caminhando meia curvada, por via dos muitos sacrifícios no campo e nas lides domésticas( ir ao fundo da Ribeira dos  Piscos,  a lavar a roupa com o cesto à cabeça ou proceder da mesma maneira com o cântaro à fonte, envergando roupa muito simples, ,  blusa e saias escuras, a que não faltava também o tradicional avental, peça que não dispensava, e que só não lhe via usar quando punha o xaile preto, pelos ombros, ia à missa ou noutra cerimónia religiosa, como numa procissão  ou num enterro ou mesmo num casamento e em dia festivo – Sim, vestida de negro,  a cor  que os vários lutos, foram  transformando  em hábito: de seus irmãos e pais  - dos avós maternos, que eu não cheguei a conhecer, tal como muitos dos meus tios,  ao todo onze, que morreram  muito novos, - Palmilhando  caminhos ou atalhos a pé. . Além disso, mesmo quando se dava a possibilidade  da besta ir livre- lembro-me que a mãe preferia dar a vez ao pai ou a nós, aos filhos, que foram paridos em casa  e criados, também com muito esforço.

Irmã Conceição, com uma das filhas
Meu primo Joaquim Trabulo
Mesmo assim, nunca lhe faltando trabalhos e canseiras, de sol a sol, nem por isso deixava de ser uma pessoa bem disposta .  Pois a imagem que retenho é a de um rosto sorridente, tal como na fotografia que lhe tirei com o pai, no dia do casamento da  minha irmã Conceição   - Obtida com um caixotezito que me fora emprestado, durante as féria, por um fotógrafo de  Santo Tirso, onde, aos 14 anos, fui frequentar  a Escola Agrícola. 

Antiga igreja demolida 
Existe, ainda, numa estante da nossa casa, lá da aldeia, num dos cantos inferiores de uma estante religiosa, a fotografia de família, em que estamos todos. 
Foi tirada no adro da igreja, por um daqueles antigos fotógrafos à lá minute, na festa da Padroeira, no 15 de Agosto e no dia da primeira comunhão da Conceição. É uma pequena imagem, que a todos nos era muito querida – Eu sou o choramingão, boca aberta, agarrado com uma das mãos à saía da minha mãe, que tem o Fernando ao colo –o mais novo.  De todos, somos os dois, os únicos vivos, dos seis na foto.

Havia duas bandas formadas nos anos 90  - Ambas acabaram
Geração finais anos 80
Devia ter, talvez, aí uns dois anitos. Por mais que busque ao fundo da memória, esse passado longínquo, nem o mais leve traço me é dado descortinar. O negrilho ao centro do adro é que já não existe, tal como a antiga igreja, com o seu campanário, mas um edifício incaracterístico e uma torre, igualmente de cimento armado, que de modo algum fazem esquecer a construção de granito. Contudo, constato que a parede,  junto à qual foi tirada a fotografia - E, também -  embora não sendo desse dia - muitas   são ainda  as minhas recordações dos dias  festivos de Nª Srª de Assunção

A foto, única recordação, tão longínqua da minha adolescência e da minha vida, é feita em pequeno formato, quase não chegando ao tamanho de um postal, mas dá para me dar a impressão  que devia estar contente

As fontes da Figueira 
Meus pais 
A mãe, esboçando aquele sorriso, com que a vi sorrir muitas vezes, e cuja imagem penso que guardarei para sempre. - Ou seja, aquela graça, àquele jeito, àquela pontinha de bonomia e de otimismo, que fazia com que esquecesse as vicissitudes e os sofrimentos, humor  que parecia ter herdado do lado paterno, de  seu pai, o Joaquim Trabulo, ou Joaquim Perdido, tal a alcunha que lhe puseram no povo - Disse a mãe que foi por ele ter-se perdido, devido ao nevoeiro,  num dia  em que foi à caça.. Penso que a mãe nunca se esqueceu que ele  pertencera à banda filarmónica de Foz Côa e que, devido a esse facto, é que veio a enamorar-se  da avó materna, num dia em que a banda veio tocar às Chã - Foi nessa altura que conheceu a avó, sua mãe e o namoro começou. Veja esta casualidade: se não tivesse ali ido, nem eu nem a mãe, por certo teríamos nascido. 

 A CAMINHO DA SERRA - DO NOSSO VALE CARDOSO

Pastor Miguel que morreu com as ovelhas
Ao centro meu  primo José Marques
Das muitas vezes que fui ao prédio do nosso Vale Cardoso, não posso esquecer-me de quando passávamos pelo altinho, lá em cima onde terminava a vinha do Tio Antoninho Anjo: quer estivéssemos a começar a descer o caminho, quer a acabar de o subir, sempre que passávamos pelo sítio do veio dos seixos, que atravessa o caminho, e onde apareciam - e aparecem aliás ainda hoje - uns bocados de mica a esfarelar-se: umas películas laminosas e brilhantes a desfazerem-se por entre cascalho, areia e terra, que, além de pegar num desses bocadinhos e o levar geralmente aos dentes, aos lábios, á boca, pois, se calhava a mãe estar presente, lá vinha, também, geralmente à baila, a sua velha recomendação de que aquelas laminazinhas minerais, serviam para curar as dores de dentes·- facto que dizia já ser comprovado, pela avó e por outras pessoas antigas, e também pela mãe, quando lhe apareciam às vezes essas dores.

Mãe, compreenderá que foi aí que comecei a acreditar em certos efeitos ou mistérios das pedras, e creio que mesmo a aprender a gostar delas

O Pastor Júlio ainda vai resistindo 
E há quantos anos ali deixou de passar?!.... 

Como sabe, eu nunca fiquei a saber quando foi essa vez, pois fui para S.Tomé. - Mas recordo-me porém do seguinte:
Sabia que estava muito mal, que o seu estado se ia agravando, com o alastrar da maldita doença - aquela doença de que nem gosto de pensar nela, quando mais de a escrever pelo nome ( Pois não se lembra, de nos benzermos, sempre que se pronunciava tal palavra, quando alguém da aldeia ali morria vitima dela?  -  Um dia recebi uma carta a mandarem-me dizer que a mãe estava muito ansiosa por me ver - ou seja, para sermos mais claros: não queria morrer sem me ver. Bom, e como da minha parte as saudades também já eram imensas, decidi apresentar um pedido no Quartel para me autorizarem ir à Metrópole, alegando exatamente o estado em que a mãe se encontrava. Debalde. Eu era na altura Furriel Miliciano, monitor de uma recruta, e responderam que enquanto durasse a fase da instrução ,não podia gozar qualquer tipo de dispensa.

Em Lisboa - anos 80 
E assim lá ficou aquele abraço por repetir, o abraço choroso, de uma despedida vertida de lágrimas, quando me beijou e me abraçou à porta do postigo da nossa casa.

Olhe, mãe, se há coisas que não me esquecem, aquele momento é um deles: "Adeus meu filho que nunca mais te volto a ver!" - Foi exatamente assim - naquela sua voz repassada Já de dor e de saudade, e ainda estava a abalar: ainda mal dava os passos do adeus.

Vi-a, depois, limpar as lágrimas ao avental, mas, claro ,longe de acreditar no que te ouvia. Simplesmente lágrimas, sofrimento, dor de mãe, pensava eu. Como foi possível que adivinhasse?

Será que às mães é dado esse dom - esse terrível dom de poderem futurar dolorosas separações? De pressagiarem os maus destinos, entrar nos desígnios da morte e da vida, antever a  de vínculos que as possam desligar das coisas que mais queridas lhes são - os filhos?

A Casa e o Poço do Vale Cardoso - já emparedado 
A Bisavó  Amélia e o seu neto Tiago 
Bom, isso não sei explicar. Uma coisa porém me é fácil - e apesar de tantos anos volvidos – Sim, já lá não vou  há muitos anos .Mesmo depois de ter vindo de  S. Tomé, que não voltava lá àquele nosso prédio da serra,

Tudo em família num dia de Festa
Estou a imaginar-te, vergada, com a enxada na mão a escavar as videiras, a  enxofrá-las, as esmamoá-las e depois, com a chegada, de Setembro, o tempo das vindima ,tu, muito sorridente, a colher os cachos - os gachos, como ali se diz -,a andares a cortá-los com auxilio da faca ou da tesoura da poda, e depois, naquele ritual, que se iniciava, logo cedinho, pela manhã e se ia repetindo ao longo da tarde,  mesmo nas horas de sol a pino - ,a soergueres-te para os deitares na cesta - a cestas que, depois de cheias, eu ajudei a acarretar para os cestos, e nalgumas corridas para que as belas uvas - pretas e brancas – não caíssem das mãos.

Chanenses numa excursão a Lisboa, anos 80
O último albardeiro 
Que alegria em tudo isso' Que colorido e azáfama. Ver então  aquela vinha povoada de gente: a colher, a acarretar, a dizer chalaças - Ás  vezes a ouvir uns berros do pai que me agastavam, mas também isso agora  me parece muito humano, perfeitamente tolerável - Enfim, quando chegava o tempo de as uvas estarem maduras, lá andávamos todos, na companhia, também de alguns homens e mulheres que trazíamos à jeira.

Era uma festa, vindimar a  “nossa serra" , não  achas?'

A nossa casa - desde os seis anos
da " nossa casa da serra" , não gostavas? – Se imaginasses, como agora está!...

 E aquele magnífico  nascer do sol! O sol, resplandecente, que ali víamos nascer, mal assomava, lá longe, para lá do Côa, entre Almendra e a Serra da Marofa, sem quaisquer obstáculos a oporem-se aos seus radiosos raios'

Também já todos partiram
Não era bonito ver  o sol beijar-nos de tão longe, vir logo bem direitinho a nós! … Mal abríamos a porta da casa, quando ali ficávamos

Não  achas que, depois de ali passarmos a noite, apenas assentes com o corpo sobre uns bocados de palha a atenuar a dureza do châo ,com um toldo por baixo e mais uns dois por cima a servirem-nos de cobertores, que não era reconfortante, abrirmos a porta, aspirarmos aquele orvalho doirado da manhã, com  todos aqueles cheiros a campo, a silvas, a giestas, sei lá a que flores, a que frutos, e a que infinita gama de fragâncias silvestres, e também, nesse preciso instante, 1ogo se ouvir o chilrear dos passarinhos e, ainda por cima, podermos deparar com aquele tão bonito nascer do sol!...

Meus primos António e José Pacheco , ao lado do Fausto
Repórter da Rádio Comercial-RDP
Mãe!... Não valeu a pena ter tido esse prazer?..  Sei que nada pode pagar o preço de uma vida - e tu que tanta vida ainda tinhas pela frente!...

Mas, como deves saber, há momentos que são eternos. Por isso mesmo, ao menos guardes no silêncio tumular do teu perpétuo descanso, a memória desses fugazes momentos


Jorge Trabulo Marques