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segunda-feira, 2 de novembro de 2015

“Em Teu Ventre” – Livro de José Luis Peixoto – Sobre as aparições de Fátima –“Eis o teu rosto iluminado por esta hora de Maio”. - E a minha carta à Irmã Lúcia, que lhe dirigi no ano da sua morte

Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista


Fátima 1917
13 de Julho -2014 -  Stº António
“Eis o teu rosto iluminado por esta hora de Maio”. “Ao filho autêntico basta fechar os olhos para encontrar o rosto de sua mãe” “ Não criei palavras  que expliquem porque é no mistério que reside a verdade” – Estas palavras, entre outras, e que mais lembram breves orações ou expressões de um profundo misticismo, propiciadoras de fazer  pensar e refletir de que a discorrer a mente pela linear escrita de um romance, lêem-se em “Teu Ventre “, título do mais recente livro de José Luis Peixoto, que aborda o fenómeno de Fátima, tendo como principal protagonista a irmã Lúcia – Nomeadamente, as aparições no período de Maio a Outubro de 1917 


"LÚCIA LEVANTA-SE EM SILÊNCIO, GRAVE, PONDERADA. Logo a seguir, Jacinta dá um salto. Francisco ergue-se com mais moleza. Nas costas das três crianças, há vozes avulsas que, no meio da expectativa, gritam que ainda veem Nossa Senhora, ainda a escutam. Essas vozes aventadas ao ar não chegam para desmanchar a solenidade deste momento. Há uma paz de campo de batalha no momento exato em que acaba a batalha, paisagem de feridos e de mortos, de vivos que conferem a unidade do corpo, que ainda não têm a certeza de ter sobrevivido". 



Muito se tem escrito acerca do fenómeno de Fátima e sob as mais diversas formas:–   

Umas vezes , com o instituto de agradar exclusivamente aos crentes, outras para ir unicamente de encontro ao gáudio do ceticismo dos descrentes. Desde “Os Milagres de Fátima” a “Fátima Desmascarada” – Em ambos os casos, talvez pese mais a paixão de que o rigor, a razão e a verdade histórica – Mas este é um dos tais livros que, estou certo, vai agradar, tanto a uns como a outros,  a um leque variadíssimo de leitores, justamente porque, usando uma  linguagem simples mas atraente, nem descura o mistério nem a verdade dos acontecimentos, tão marcantes na sociedade portuguesa do século XX, com enorme eco além fronteiras, mas, sobretudo,  acabando por  moldar   a matriz do pais profundo, constituindo a conhecida trilogia: Fátima, Futebol e Fados – Mas, seja como como for,  esta é realidade – Ou não serão estas as  palavras que  traduzem a verdadeira idiossincrasia peculiar do nosso povo? – A sabedoria popular, têm os seus gosto mas também as suas razões.





 LANÇADO PELA QUETZAL - NA FNAC DO CHIADO, EM LISBOA

Tomei conhecimento da sua publicação, por um fortuito acaso, mas ainda bem que é dos tais acasos ou felizes momentos  – 

Foi no passado dia 27 de Outubro: ao regressar da Casa da Imprensa, e depois de descer do Chiado, resolvi dar uma olhadela aos livros da FNAC,  e apercebo-me, então, que, ali, na sala do bar e das exposições, completamente cheia, decorre o lançamento e apresentação do livro "Em Teu Ventre”, de José Luis Peixoto, já na fase da sessão de autógrafos.  – Não trago a máquina fotográfica e sinto pena mas vou ficar mesmo até ao último autógrafo. Isto, porque, ali mesmo na fila da frente, vou encontrar o escritor Francisco José Viegas,  meu ilustre conterrâneo, natural do Pocinho, de Vila Nova de Foz Côa,  atual responsável pela direção editorial da Quetzal, a editora da referida obra, que veio  acompanhar o autor  -E, obviamente, em vez de estar na fila e com o livro na mão  - e era extensa –  pude juntar a um excelente diálogo, o da  expectativa de vir a ler um bom livro, aliás, dois, pois também acabei por ir comprar uma das obras de Francisco José Viegas, que teve a gentileza de mo autografar.  

 JOSÉ LUIS PEIXOTO - UM BRILHANTE ESCRITOR - COM UMA LARGA EXPERIÊNCIA NO JORNALISMO 

“ MORRESTE-ME” – O livro que  me fez conhecer e gostar da obra de José Luis Peixoto – E que também foi o primeiro livro  que revelou o talento de um extraordinário escritor que opta por usar o romance, não para meramente  ficcionar  e divagar mas para contar factos verídicos, por si presenciados ou profundamente pesquisados - Foi o que se passou com esta tão espantosa obra, que descreve a caminhada final do pai doente, vitima de câncer, cuja leitura me comoveu até às lágrimas: isto, porque, se a perda de um pai é profunda, a dor de mãe, não é menos: e eu também perdi a minha mãe, ainda muito nova, pelos mesmos motivos, e, alguns anos depois, por outra doença, a perda de meu pai - 

E, agora, perguntar-se-á: o que distingue este livro de tantos escritos, até hoje publicados,  sobre o fenómeno Fátima?... Penso que se deve ao facto  do escritor estar  também vocacionado  para o jornalismo (colaborador de diversas publicações nacionais e estrangeiras (Time Out, Jornal de Letras, Visão, DN),que o faz ir ao detalhe. a não usar apenas a liberdade da  ficção, mas a aprofundar a investigar a questionar. 

 Tal é também  o  livro “Em Teu Ventre”, sobre os episódios que rodearam a  vida das três crianças, num período particularmente conturbado para a sua inocência – Tendo como figura central a irmã Lúcia e “também a sua mãe biológica e Nossa Senhora”
“Cruzando o rigor da sua dimensão com a galeria de uma riqueza  de personagens”, propondo “uma reflexão acerca de Portugal, naquilo que tem de mais subtil e profundo” - Diz-se na contracapa de "Em Teu Ventre"

O QUE SEDUZ NO FENÓMENO  DE FÁTIMA

Eu penso que não será tanto por via dos  ditos milagres, uns inexplicáveis, mais do domínio  dos mistérios da  fé, outros, certamente,  devido a fatores psicológicos, que a ciência até poderá explicar, mas, sobretudo,  pela profunda reflexão, que provoca,  sobre o destino da vida humana, o que espera o ser humano após a morte: esse é realmente o  grande enigma da humanidade e que, no meu ponto de vista,  faz levar  multidões de crentes ou simples   curiosos a Fátima,

Mas atente-se na explicação dada por José Luis Peixoto, numa entrevista à Rádio Renascença, sobre as razões que o levaram a escrever sobre as aparições de Fátima: 

"É um tema tão impressionante e sedutor para quem escreva e para quem se interessa por História que sinto a vontade de fazer a pergunta ao contrário. “Como não escrever sobre este assunto?”. Trata-se de uma história que em Portugal, de um modo geral, toda a gente conhece, mas que me surpreendeu bastante enquanto a aprofundava. Apercebi-me o quanto esse conhecimento que tinha era superficial. Quanto mais detalhe e mais circunstâncias eu conhecia mais impressionante a considerava e mais a sentia como simbólica de muitas coisas que nos dizem muito como povo e que me dizem bastante enquanto português. 


Houve todo um trabalho de investigação? 


Sim, tentei fazer um trabalho de investigação, mas a partir de certa altura quis limitar as bases porque trata-se de um momento sobre o qual há muitas fontes. Acabei por me cingir a duas fontes. São as memórias da irmã Lúcia e o livro do padre João Marchi, “Era uma Senhora mais Brilhante do que o Sol” – um livro com idoneidade – e que achei que eram suficientes para contar aquela história que queria contar. Não é tudo aquilo que há para dizer sobre este assunto, até porque o período a que a narrativa se cinge é de Maio a Outubro de 1917, justamente o período das aparições. Cingi-me a aspectos históricos, relativos à irmã Lúcia que é a protagonista do livro e também à questão das aparições da Virgem Maria..- Excerto de José Luís Peixoto: "Transformou-se bastante a minha visão ...

IRMÃ LÚCIA - O ENIGMA E ESTOICISMO DE UMA VIDA DE CLAUSURA -  ESCREVI-LHE UMA CARTA POUCO ANTES DA SUA MORTE 


Embora imbuído por convicções profundamente místicas, não me considero propriamente o católico apostólico no sentido tradicional do termo, já que sou mais induzido a devaneios  espirituais por força de sentimentos de circunstância e ocasionais (que me esforço de poder ter) de que por rígidos conceitos teológicos ou doutrinários, se bem que os respeite e admire tal como  a mítica figura de Cristo, maravilhoso exemplo de entrega e de virtudes. Mas, a bem dizer, muitas vezes. nem sei o que sou: ou haverá alguém que seja sempre inteiramente  igual e não tenha os seus heterónimos, as  suas hesitações e divagações?

 Bom, isto vem a propósito do fascínio que o  fenómeno  de Fátima, exerceu em mim desde criança. Mas talvez melhor de que estas minhas palavras introdutórias seja preferível ler a carta que dirigi à Imã Lúcia pouco antes da sua morte - a que já me em neste site, há sete anos   - Mas que de novo aqui volto a transcrever uma vez que tive oportunidade de narrar este episódio ao escritor José Luis Peixoto justamente quando me concedia o autógrafo.
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Lúcia de Jesus Rosa dos Santos, mais conhecida por Irmã Lúcia , nasceu em  Aljustrel, Fátima, Ourém, em 28 de Março de 1907 e faleceu no Convento das Carmelitas, Coimbra, em 13 de Fevereiro de 2005 – Pouco antes da sua morte, telefonei para este Convento a perguntar se ela podia receber correspondência, já que as visitas eram extremamente condicionadas, responderam-me que sim, pelo que tomei a liberdade de lhe enviar, por correio  registado, uma pequena carta em 18 de Outubro de 2004, cujo conteúdo publiquei no jornal OFOZCOENSE

Sei que a missiva lhe foi entregue, que a recebeu. Guardo a cópia do manuscrito e o impresso do registo, com muito carinho. As razões estão expressas nessa breve missiva que aqui transcrevo seja-se ou não crente, há que admirar uma vida de clausura, de fé e despojamento, completamente entregue à meditação e oração. Eu não sou propriamente católico apostólico mas identifico-me com muitos dos seus valores: gosto das suas orações, cânticos religiosos e liturgia sagrada - Há outros aspectos em que a minha aproximação com o divino, se faz de forma diferente - Mas, no fundo, o caminho e os objectivos são os mesmos.
Editada neste site em 15/11/2008

Jorge T Marques . Finais dos anos 50
“Lisboa, 18 de Outubro de 2004.
À vidente Irmã Lúcia:
Tomo a liberdade de lhe enviar esta minha simples carta, acompanhada do relato e fotos de uma odisseia, por mim vivida nos agitados mares do grande Golfo, tendo apenas por companhia uma simples bússola para me orientar.
Sim, dirijo-lhe estas linhas e a descrição dessa aventura, como preito da minha homenagem e a expressão da minha mais profunda admiração, porque vejo em si a representação de um espírito abençoado, pelo que só peço a Deus que lhe dê muita saúde e ainda muitos anos de vida.


A minha saudosa irmã Conceição, que Deus levou muito nova, deixando então duas filhinhas, tinha uma grande devoção em Nossa Senhora de Fátima. E o episódio que lhe vou recordar , ilustra ,justamente, esse facto, quando eu tinha onze anos e ela 15 .Foi a um domingo, dia 13 de Maio. Regávamos a nossa horta no Vale Cardoso. Ela retirava a água do poço com ajuda do picanço; eu estava uns metros mais abaixo para afastar a vara e o caldeiro de uma pedra. 


Anos 80 - O poço já emparedado
Nisto, o picanço rebenta, ela cai e arrasta-me consigo para o fundo do poço. Este era fundo e com margens barrentas. A nossa aflição, como deverá calcular, era enorme. Nenhum de nós sabia nadar. Quando vinha ao decima, ela gritava por Nossa Senhora de Fátima; eu gatinhava junto à margem, estava aterrorizado e apenas cerrava a boca para evitar engolir mais água. O meu irmão Fernando, então com nove anos, que encaminhava a água, apercebendo-se, corre em nosso auxílio. A minha imã grita-lhe para ir buscar uma cana e para descer até um tufo de juncos que havia na margem, e é o que faz sem perda de tempo. Estende-lhe a cana, ela agarra-se à mesma e consegue gatinhar pela íngreme vareda. Depois, estende-me a mão e salva-me também.


Creia, já passaram muitos anos, mas a imagem está ainda muito presente na minha memória. E, sempre que me ocorre, a primeira coisa que me vem à ideia, são os apelos à Nossa Senhora de Fátima, pois não tenho a menor dúvida de que ela, nesse dia, nos protegeu.
(....) Aceite, pois, muito humildemente, o preito da minha mais profunda admiração” - Publicada em  irmã lúcia - a minha singela homenagem pouco antes da .


O RETORNO AO SAGRADO" -  Para ler e refletir

Diz Vergilio Ferreira “Fala-se tanto nele, como aliás, estava previsto. Mas não no que dele mais importa e não passa pelos deuses e muito menos pelas sacristias. O retorno do sagrado deve ter que ver fundamentalmente com a recuperação da sacralidade do homem, da vida, da palavra, do mundo. A sacralidade está no que suspeitamos de mistério nas coisas, a força “original de tudo o que nos espera o nosso olhar limpo, a nossa atenção humilde, a divindade está em nós. O grande acontecimento do nosso tempo, que é o sinal do nosso desastre, é a profanação de tudo, a dessacralização do que abusivamente foi invadido pelos deuses. Os deuses morreram e quiseram arrastar consigo a morte do que era divino sem eles” in Pensar - de Virgílio Ferreira


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