expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Minha Mãe nasceu há 100 anos, no dia de S. Martinho - Mas partiu aos 52 - Estava em S. Tomé, era militar - A premonição de sua morte e algumas das recordações inesquecíveis da aldeia da minha adolescência - Hoje em acelerada desertificação- Em vias de ter mais velhos no lar de que gente ativa.

Eu sou o chorão -  Dos seis, só dois: eu e o do colo

Partira para S. Tomé,  em meados de Novembro de 1963, a bordo do paquete Uíge para concluir um estágio da Escola Agrícola de Santo Tirso, na Roça Uba-Budo, mas onde não encontraria o mínimo de condições, devido à rudeza e prepotência colonialista, a raiar o esclavagismo,  com que ali me confrontei  – Tinha  então 18 anos, era jovem e alimentava um mundo de sonhos mas o que fui ali conhecer, naqueles primeiros anos, na beleza paradisíaca de uma Ilha equatorial, foram desilusões e humilhações, umas atrás das outras   – Só 12 anos mais tarde voltaria à minha aldeia mas já não ia encontrar a minha mãe viva, que falecera, ao fim de um penoso calvário de doença prolongada,  quando eu prestava serviço militar nesta antiga colónia portuguesa.

 Completaria hoje, dia de S. Martinho 100 anos, mas partiu para a eternidade com 52 - Cumpria então parte do serviço militar - visto a recruta tê-la ido fazer a Angola;  seis meses no curso de sargentos milicianos, na ex-Nova Lisboa e, depois, mais seis meses no curso dos  Comandos, em Luanda.

 Sabendo da gravidade da doença que então minha mãe padecia, fiz todos os esforços, junto a instituição militar para a poder visitar mas não fui autorizado: pois a mentalidade da tropa colonial não se compadecia com sentimentos pessoais - Deixara a minha aldeia aos 18 anos e nunca mais a voltaria a ver.

Dizia-me ela no momento da despedia, em que me dava o último beijo: adeus meu filho, que já não te volto a ver - E, de facto,  não se enganou, tal como a  premonição, que eu tive,  no dia da sua morte, antes mesmo de receber o telegrama a dar-me a triste notícia.

FENÓMENO DE PREMONIÇÃO  NÃO É ADIVINHAÇÃO 

A minha aldeia com as giestas floridas
Como se explica que, estando eu a alguns milhares quilómetros de distância da minha aldeia, tivesse a perceção, ou antes, pudesse visionar, tal como estando em presença do mesmo cenário real, com a mesma nitidez  e pormenor  de quem assiste a um acontecimento televisivo em direto?  O meu caso, é senão mais um entre milhares, nomeadamente, em pessoas, cuja sensibilidade ´ (que, por esta ou por aquela razão ou fator especial da sua mente) se presta à transmissão ou captação de tais fenómenos

Dizem estudiosos, nestas questões, que, experiências reais de premonição mostram que as capacidades de nossa mente podem transcender os limites do espaço e do tempo como os conhecemos . Tendo havido, “muitos cientistas proeminentes, que se  têm percebido destes factos  tais como “o renomeado físico David Bohm, por exemplo, disse: “Cada indivíduo envolve algo do espírito do outro em sua consciência”. O físico e Prêmio Nobel Erwin Schrödinger acreditava que as mentes não interagem umas com as outras como bolas de bilhar separadas, mas são, em certo sentido, unidas e uma só. “Para dividir ou multiplicar, a consciência é algo sem sentido”, disse ele. “Há, obviamente, apenas uma alternativa, ou seja, a unificação das mentes ou das consciências... na verdade, existe apenas uma mente.” O poder da premonição:

VI O FUNERAL DA MINHA MÃE, COMO SE ESTIVESSE A ACOMPANHAR O CORTEJO FÚNEBRE ATRÁS DA SUA URNA  ATÉ AO CEMITÉRIO

Foi num Domingo. E, como havia estado de serviço de véspera, após almoço resolvi deitar-me e descansar um pouco Adormeci e, uma hora e meia ou duas depois, acordei a chorar - E porquê?  Acabava de assistir, com os olhos rasos de lágrimas,  ao funeral de minha mãe a dirigir-se para o cemitério - Com  tal evidência e clareza, com tal pormenor, que era como se eu próprio estivesse incorporado no cortejo fúnebre atrás da urna. Via os olhos chorosos do  meu pai e dos meus irmãos,  Ouvia os sons dos sinos e a sineta a finados e via os seus rostos, todos  exprimindo a sua inconformável dor. De tal modo que eu próprio,  também sentia a mesma emoção.  Acordei a chorar. - Já um dia fiz este relato num jornal.

Residia, nessa altura, em casa de uma família portuguesa. Pois o filho, o Francisco, andava comigo na tropa: era furriel miliciano como eu. Compartilhávamos o mesmo quarto. - um bonito espaço, que se situava próximo do Mercado Municipal. Mas ele, na tarde desse domingo, estava fora de casa. Porém, ao regressar, vendo-me sentado sobre a cama e a chorar, perguntou-me: “O que é que tens, Jorge?!…” - Eu respondi-lhe: “a minha mãe morreu!…” E, mal pronunciei estas palavras, volto a cair em mim em lágrimas.... “Mas quem te disse?!…” - insiste ele. E eu digo-lhe: “Ninguém me disse nada!….. Mas eu sei que a minha mãe morreu porque eu vi o funeral dela!… Vi tudo como se estivesse acompanhá-la ao cemitério

Ele mostra-se surpreendido com o que eu lhe acabo de revelar, pois já trazia consigo um telegrama onde me ia ser dada a notícia. No entanto, mesmo assim, ainda procurou contornar o seu conteúdo, tendo acrescentado, ao mesmo tempo que se aproximava de mim - já pronto para me dar um abraço e me confortar: “Olha, Jorge: de facto, a tua mãe está muito mal, está muito doente e eu até trago aqui um telegrama para te informar da gravidade da saúde dela!… Mas eu vi logo que eram apenas palavras amigas de conforto e retorqui: Obrigado, Francisco! Obrigado pelo teu cuidado mas esse telegrama só pode dizer que a minha morreu! - E era verdade. A minha mãe que fazia agora anos no dia de São Martinho, faleceu aos 50 anos, num Sábado e foi a enterrar, justamente naquele domingo, para mim tão triste - Mesmo antes de me ser dada a notícia.

Este foi o primeiro caso que me despertou para os fenómenos da mediunidade. A partir daí passei a prestar mais atenção aos chamados flagrantes de iluminação e tenho-me apercebido de outros episódios relevantes - Bom, mas do que hoje aqui venho falar é sobretudo  de algumas das recordações da minha adolescência - Pois sei que, ao fazê-lo, não estou apenas a singularizar  o meu caso mas a dar-lhe a dimensão de que o pessoal é também, de algum modo, a expressão do universal, neste caso do microcosmos ou do pequeno mundo da minha aldeia, que, no fundo, não passa também de um pequeno grão de areia à luz do sol. 

 MEMÓRIAS DA MINHA ADOLESCÊNCIA

Com o meu irmão José
Se há recordações, que jamais esquecem, a quem nasceu no meu torrão natal, são os momentos de solenidade e de alegria da festa religiosa de 15 e 16 de Agosto., num misto de profano e religioso:  digamos,  os dias que quebram, verdadeiramente, a rotina da vida rural da aldeia.  O mesmo se passa na maioria das aldeias do interior, onde a vida não conhece grandes contrates, senão os ditados pelos ciclos das estações e o curso natural da Natureza.  – Hoje, qualquer festividade, tende mais a ser de carácter profano de que propriamente de culto ao sagrado – Tanto mais que a dessacralização dos valores intemporais, é uma das marcas dos tempos que correm, da chamada era do vazio, de uma globalização desumana e dominada pelos tentáculos perversos do capitalismo, insaciável, avaro e selvagem, sem rosto e sem fronteiras.   –  O que conta são as aparências, os jogos da hipocrisia, da ganância e do cinismo e não as virtudes .  

A prima infância 

Como é sabido, não há como o mês de Agosto – E até as noites de Luar são mais luminosas, serenas e diferentes. Num clima temperado, como é o de Portugal, menos frio que o Norte da Europa, mas, mesmo assim, só no mês de Agosto, se aprecia o verdadeiro gosto do Verão, das férias e da sensação dos dias intermináveis, que têm o brilho do sol escaldante, do azul límpido do céu, o colorido e  o sabor dos frutos. Não há   outro mês, tão  sedutor e apelativo. Daí que, a maior parte das festas populares – de cunho religioso e  diversão – decorram ao longo deste mês, e, nomeadamente, no feriado do dia 15 .

Muita coisa já mudou, mas durante os anos da minha infância e adolescência, a festa de Nª Srª de Assunção, de 15 e 16 de Agosto,  pouco mais mudava de ano para ano que a origem da banda, do nome do pregador, do fogueteiro ou da lista dos mordomos - Agora, festa religiosa, sem a componente do espectáculo de variedades, não é festa.

Por isso, se seguir o itinerário, que aqui vou procurar evocar, nomeadamente naqueles dias, longos e quentes de Agosto, talvez consiga reconstituir um pouco do ambiente de desse tempo,  dos anos mais verdes da  minha vida minha.


Martins - último ferrador - também já nos deixou 
Tenho oito anos: sou ainda garoto –  É tempo de férias, a escola primária só reabrirá em Outubro. Ao longo da semana, trabalha-se no campo: a maior parte das ceifas, já  foram feitas e os molhos do centeio, da cevada e do trigo, ficaram nos rolheiros, mas é tempo das malhas nas eiras, de se transportar o cereal e ali se trilhar ou malhar – E também é tempo dos meloais, de se comerem as primeiras uvas maduras  e de se começarem apanhar os figos, pêssegos e maçãs.  Não falta trabalho. E, nesse tempo, não há subsídios para lombeirões, deficientes ou candidatos  a indigentes disfarçados de  inválidos.


Debulhadoras nas eiras, zoando desde o raiar da manhã, até ao crepúsculo. Malhadeiras, debulhando o trigo e o centeio, ante a torreira escaldante do sol, que cega, exalta, deslumbra e sufoca – Dias da minha adolescência, que já lá vão e não voltam mais.




A casa onde nasci 
Antigo forno comunitário 
Aos domingos, os adultos, jogam ao cântaro ou ao ferro. Aos garotos, é vedada a permanência nas tabernas: - também se vende petróleo para iluminação e fósforos, mas só ali se vai  para entrar e sair. No seu interior, sobretudo à noite ou à tarde de domingo,  o que ali se vê e ouve é a habitual barulheira dos copos de vinho e as discussões ao trivial jogo de cartas. Se a curiosidade de um miúdo se prender por mais de que a trivial compra, recebe logo o raspanete:”Vai-te embora, que o teu pai está-te a chamar!”   






Havia a taberna do Timóteo e do Vale da Terra, no cabeço,  ao meio da aldeia, a do Borrego, junto às duas fontes da Figueira, que secavam no Verão); a taberna do Ferrador, na Rua do Cruzeiro
.

Na casa do Sr. Antoninho “Sapateiro”, ou da Srª Teresa “Sapateira”, quando o marido morreu. – Esta a casa, emblemática, que mais tempo se conservou, com as mesmas prateleiras e o balcão. Mistura de mercearia e tasca, mas também de casa do correio e do único telefone, enquanto não foi inaugurado o edifício da estação dos CTT, aí sim, havia alguma contemporização -  Quando chegava o carteiro de Foz Côa, eram lidos os nomes dos destinatários nos envelopes e procedia-se à sua distribuição, toda a gente ali ia e podia assistir.



Na casa que herdámos dos meus avós mateternos 
Ainda está como minha mãe a deixou
À noite, tal como outros miúdos da minha idade, costumávamos jogar às escondidas e ao tiroliro, e, durante o dia, sempre que  possível,  ao jogo do descanso ou dar uns pontapés na pelota – Este não era o meu veraneio predileto mas a fuga para a Ribeira dos Piscos e no Rio Côa, para ali dar uns  mergulhos. 

Porém, o que mais me fascinava era sobretudo, perder-me pela penedia dos Tambores, escalar  os seus rochedos e procurar decifrar os  seus mistérios, onde, curiosamente, anos mais tarde, haveria de descobrir os maravilhosos calendários pré-históricos, que batizei de Templos do Sol. Sim, e era no alto de alguns desses penedos, que eu edificava os meus presépios de imagens de barro, que eu próprio moldava. Crente de que, prostrando-me de joelhos e tendo tido  a experiência de ajudante de pastor, quando os meus pais eram caseiros, na Quinta do Muro, sobranceira ao Vale dos Areais, Ribeira da Centeeira, também ali poderia experimentar o mesmo fenómeno de aparição, que tiveram os  pastorinhos de Fátima.

Treinos na canoa, S. Tomé-Príncipe
Ideia peregrina esta que me haveria de acompanhar ao longo da  vida, num misto de paganismo e de sacra religiosidade  – Quer nas dificílimas escaladas ao Pico Cão Grande, em S. Tomé, confiante de que, no alto do seu cume, pudesse tocar a mão de Deus, sentir a sua presença, mais palpável ou mesmo nas várias aventuras marítimas, perdido por entre a grande solidão e vastidão oceânica, em frágeis pirogas, sem outros meios de orientação que o instinto,  o sol, as estrelas e a lua – E uma pequena bússola, que me indicava os pontos cardeais, mas nunca a posição em que me encontrava.

É FESTA DA ALDEIA










Festa na aldeia!... Mais alegre, mais  solene  e participativa,  de que hoje.  Tanto na parte religiosa como na diversão. Eram os dias mais esperados do ano. Dias longos, flamejantes e belos! – E, numa altura em que todos os centavos valiam dinheiro,  também não contratavam, como agora, artistas como atrações.  Eram apenas os sons  da banda filarmónica a tocar no adro, a acompanhar a mais linda procissão ou para abrilhantar o  desfile do cortejo das oferendas pelas ruas da aldeia.  Que saudades desses maravilhosos dias!   O arraial, os cânticos, o repicar dos sinos, os acordes,  as orações!...  Tudo assumia o caráter de uma profunda religiosidade – O profano e o sagrado, coexistiam em perfeita harmonia.

Minha Tia Ana 
Ah, então a missa nesse dia!...Igreja abarrotar de fiéis. Homens enchendo a sacristia e junto ao altar ou pelo coro, e as mulheres enchendo o restante espaço, até ao fundo da igreja, à entrada principal. Andores, lá dentro da igreja,  alinhados, lado a  lado, em duas fileiras. Brilham! Reluzem!...Estão lindamente enfeitados!...  Cores vivas , garridas! Reluzindo por entre fitas , primorosamente enroladas e o brilho de bolas de cristal.

Filhos do irmão do meu pai   - E da  minha geração 
Já todos partiram
Meio-dia, sol a pino a devorar o ar e a transparência dos espaços: calor sufocante, de abrasar. Tocar uma pedra de xisto ou num seixo do Vale do Bar, Vale das Boiças, Trecadas, Sumagrais, encostas dos Piscos ou pisar o chão descalço pelos caminhos, é tocar no fogo, quase o mesmo que agarrar uma brasa pelas mãos  – Mesmo assim, nós, a garotada, não nos importamos desses escaldanços  e das  tupadelas  nos dedos dos pés, o queríamos era gozar a liberdade plenamente, andarmos livremente e o mais leves, nas nossas correrias – Bem nos basta o peso e o desconforto dos  tamancos no Inverno.

Vale da Ribeira Centieira ou dos Areais
A aldeia estende-se de alto a  baixo  na quebrada de um vasto planto, num dos extremos da meseta ibérica,  onde acaba o granito e começa o reino xisto – O limite do horizonte, fica sempre longe. Pela hora mais alta do dia, o sol aquece e esbraseia, perpassa na atmosfera em lufadas de ar  quente, em torreira de escaldar: - Tudo crepita de luz, ao perto e em redor: a terra que se pisa, as fragas que se veem pelos cerros e quebradas, nas colinas, nas canadas e montes – Então para as ladeiras do xisto do  Côa, aí é mesmo  de torrar.. Há frescura no magnifico  Vale da Ribeira, que corre de Sul para Norte, mas dista a 4Km e fica ao fundo da margem  do planalto e a oeste

TRABALHOS  E SACRIFÍCIOS NÃO LHE FALTAVAM... 

Dia da primeira comunhão na atual igreja 
Estou a vê-la, a pegar na rédea do macho e a sair com ele da corte, carregado de palhiço, lenço preto na cabeça, caminhando meia curvada, por via dos muitos sacrifícios no campo e nas lides domésticas( ir ao fundo da Ribeira dos  Piscos,  a lavar a roupa com o cesto à cabeça ou proceder da mesma maneira com o cântaro à fonte, envergando roupa muito simples, ,  blusa e saias escuras, a que não faltava também o tradicional avental, peça que não dispensava, e que só não lhe via usar quando punha o xaile preto, pelos ombros, ia à missa ou noutra cerimónia religiosa, como numa procissão  ou num enterro ou mesmo num casamento e em dia festivo – Sim, vestida de negro,  a cor  que os vários lutos, foram  transformando  em hábito: de seus irmãos e pais  - dos avós maternos, que eu não cheguei a conhecer, tal como muitos dos meus tios,  ao todo onze, que morreram  muito novos, - Palmilhando  caminhos ou atalhos a pé. . Além disso, mesmo quando se dava a possibilidade  da besta ir livre- lembro-me que a mãe preferia dar a vez ao pai ou a nós, aos filhos, que foram paridos em casa  e criados, também com muito esforço.

Irmã Conceição, com uma das filhas
Meu primo Joaquim Trabulo
Mesmo assim, nunca lhe faltando trabalhos e canseiras, de sol a sol, nem por isso deixava de ser uma pessoa bem disposta .  Pois a imagem que retenho é a de um rosto sorridente, tal como na fotografia que lhe tirei com o pai, no dia do casamento da  minha irmã Conceição   - Obtida com um caixotezito que me fora emprestado, durante as féria, por um fotógrafo de  Santo Tirso, onde, aos 14 anos, fui frequentar  a Escola Agrícola. 

Antiga igreja demolida 
Existe, ainda, numa estante da nossa casa, lá da aldeia, num dos cantos inferiores de uma estante religiosa, a fotografia de família, em que estamos todos. 
Foi tirada no adro da igreja, por um daqueles antigos fotógrafos à lá minute, na festa da Padroeira, no 15 de Agosto e no dia da primeira comunhão da Conceição. É uma pequena imagem, que a todos nos era muito querida – Eu sou o choramingão, boca aberta, agarrado com uma das mãos à saía da minha mãe, que tem o Fernando ao colo –o mais novo.  De todos, somos os dois, os únicos vivos, dos seis na foto.

Havia duas bandas formadas nos anos 90  - Ambas acabaram
Geração finais anos 80
Devia ter, talvez, aí uns dois anitos. Por mais que busque ao fundo da memória, esse passado longínquo, nem o mais leve traço me é dado descortinar. O negrilho ao centro do adro é que já não existe, tal como a antiga igreja, com o seu campanário, mas um edifício incaracterístico e uma torre, igualmente de cimento armado, que de modo algum fazem esquecer a construção de granito. Contudo, constato que a parede,  junto à qual foi tirada a fotografia - E, também -  embora não sendo desse dia - muitas   são ainda  as minhas recordações dos dias  festivos de Nª Srª de Assunção

A foto, única recordação, tão longínqua da minha adolescência e da minha vida, é feita em pequeno formato, quase não chegando ao tamanho de um postal, mas dá para me dar a impressão  que devia estar contente

As fontes da Figueira 
Meus pais 
A mãe, esboçando aquele sorriso, com que a vi sorrir muitas vezes, e cuja imagem penso que guardarei para sempre. - Ou seja, aquela graça, àquele jeito, àquela pontinha de bonomia e de otimismo, que fazia com que esquecesse as vicissitudes e os sofrimentos, humor  que parecia ter herdado do lado paterno, de  seu pai, o Joaquim Trabulo, ou Joaquim Perdido, tal a alcunha que lhe puseram no povo - Disse a mãe que foi por ele ter-se perdido, devido ao nevoeiro,  num dia  em que foi à caça.. Penso que a mãe nunca se esqueceu que ele  pertencera à banda filarmónica de Foz Côa e que, devido a esse facto, é que veio a enamorar-se  da avó materna, num dia em que a banda veio tocar às Chã - Foi nessa altura que conheceu a avó, sua mãe e o namoro começou. Veja esta casualidade: se não tivesse ali ido, nem eu nem a mãe, por certo teríamos nascido. 

 A CAMINHO DA SERRA - DO NOSSO VALE CARDOSO

Pastor Miguel que morreu com as ovelhas
Ao centro meu  primo José Marques
Das muitas vezes que fui ao prédio do nosso Vale Cardoso, não posso esquecer-me de quando passávamos pelo altinho, lá em cima onde terminava a vinha do Tio Antoninho Anjo: quer estivéssemos a começar a descer o caminho, quer a acabar de o subir, sempre que passávamos pelo sítio do veio dos seixos, que atravessa o caminho, e onde apareciam - e aparecem aliás ainda hoje - uns bocados de mica a esfarelar-se: umas películas laminosas e brilhantes a desfazerem-se por entre cascalho, areia e terra, que, além de pegar num desses bocadinhos e o levar geralmente aos dentes, aos lábios, á boca, pois, se calhava a mãe estar presente, lá vinha, também, geralmente à baila, a sua velha recomendação de que aquelas laminazinhas minerais, serviam para curar as dores de dentes·- facto que dizia já ser comprovado, pela avó e por outras pessoas antigas, e também pela mãe, quando lhe apareciam às vezes essas dores.

Mãe, compreenderá que foi aí que comecei a acreditar em certos efeitos ou mistérios das pedras, e creio que mesmo a aprender a gostar delas

O Pastor Júlio ainda vai resistindo 
E há quantos anos ali deixou de passar?!.... 

Como sabe, eu nunca fiquei a saber quando foi essa vez, pois fui para S.Tomé. - Mas recordo-me porém do seguinte:
Sabia que estava muito mal, que o seu estado se ia agravando, com o alastrar da maldita doença - aquela doença de que nem gosto de pensar nela, quando mais de a escrever pelo nome ( Pois não se lembra, de nos benzermos, sempre que se pronunciava tal palavra, quando alguém da aldeia ali morria vitima dela?  -  Um dia recebi uma carta a mandarem-me dizer que a mãe estava muito ansiosa por me ver - ou seja, para sermos mais claros: não queria morrer sem me ver. Bom, e como da minha parte as saudades também já eram imensas, decidi apresentar um pedido no Quartel para me autorizarem ir à Metrópole, alegando exatamente o estado em que a mãe se encontrava. Debalde. Eu era na altura Furriel Miliciano, monitor de uma recruta, e responderam que enquanto durasse a fase da instrução ,não podia gozar qualquer tipo de dispensa.

Em Lisboa - anos 80 
E assim lá ficou aquele abraço por repetir, o abraço choroso, de uma despedida vertida de lágrimas, quando me beijou e me abraçou à porta do postigo da nossa casa.

Olhe, mãe, se há coisas que não me esquecem, aquele momento é um deles: "Adeus meu filho que nunca mais te volto a ver!" - Foi exatamente assim - naquela sua voz repassada Já de dor e de saudade, e ainda estava a abalar: ainda mal dava os passos do adeus.

Vi-a, depois, limpar as lágrimas ao avental, mas, claro ,longe de acreditar no que te ouvia. Simplesmente lágrimas, sofrimento, dor de mãe, pensava eu. Como foi possível que adivinhasse?

Será que às mães é dado esse dom - esse terrível dom de poderem futurar dolorosas separações? De pressagiarem os maus destinos, entrar nos desígnios da morte e da vida, antever a  de vínculos que as possam desligar das coisas que mais queridas lhes são - os filhos?

A Casa e o Poço do Vale Cardoso - já emparedado 
A Bisavó  Amélia e o seu neto Tiago 
Bom, isso não sei explicar. Uma coisa porém me é fácil - e apesar de tantos anos volvidos – Sim, já lá não vou  há muitos anos .Mesmo depois de ter vindo de  S. Tomé, que não voltava lá àquele nosso prédio da serra,

Tudo em família num dia de Festa
Estou a imaginar-te, vergada, com a enxada na mão a escavar as videiras, a  enxofrá-las, as esmamoá-las e depois, com a chegada, de Setembro, o tempo das vindima ,tu, muito sorridente, a colher os cachos - os gachos, como ali se diz -,a andares a cortá-los com auxilio da faca ou da tesoura da poda, e depois, naquele ritual, que se iniciava, logo cedinho, pela manhã e se ia repetindo ao longo da tarde,  mesmo nas horas de sol a pino - ,a soergueres-te para os deitares na cesta - a cestas que, depois de cheias, eu ajudei a acarretar para os cestos, e nalgumas corridas para que as belas uvas - pretas e brancas – não caíssem das mãos.

Chanenses numa excursão a Lisboa, anos 80
O último albardeiro 
Que alegria em tudo isso' Que colorido e azáfama. Ver então  aquela vinha povoada de gente: a colher, a acarretar, a dizer chalaças - Ás  vezes a ouvir uns berros do pai que me agastavam, mas também isso agora  me parece muito humano, perfeitamente tolerável - Enfim, quando chegava o tempo de as uvas estarem maduras, lá andávamos todos, na companhia, também de alguns homens e mulheres que trazíamos à jeira.

Era uma festa, vindimar a  “nossa serra" , não  achas?'

A nossa casa - desde os seis anos
da " nossa casa da serra" , não gostavas? – Se imaginasses, como agora está!...

 E aquele magnífico  nascer do sol! O sol, resplandecente, que ali víamos nascer, mal assomava, lá longe, para lá do Côa, entre Almendra e a Serra da Marofa, sem quaisquer obstáculos a oporem-se aos seus radiosos raios'

Também já todos partiram
Não era bonito ver  o sol beijar-nos de tão longe, vir logo bem direitinho a nós! … Mal abríamos a porta da casa, quando ali ficávamos

Não  achas que, depois de ali passarmos a noite, apenas assentes com o corpo sobre uns bocados de palha a atenuar a dureza do châo ,com um toldo por baixo e mais uns dois por cima a servirem-nos de cobertores, que não era reconfortante, abrirmos a porta, aspirarmos aquele orvalho doirado da manhã, com  todos aqueles cheiros a campo, a silvas, a giestas, sei lá a que flores, a que frutos, e a que infinita gama de fragâncias silvestres, e também, nesse preciso instante, 1ogo se ouvir o chilrear dos passarinhos e, ainda por cima, podermos deparar com aquele tão bonito nascer do sol!...

Meus primos António e José Pacheco , ao lado do Fausto
Repórter da Rádio Comercial-RDP
Mãe!... Não valeu a pena ter tido esse prazer?..  Sei que nada pode pagar o preço de uma vida - e tu que tanta vida ainda tinhas pela frente!...

Mas, como deves saber, há momentos que são eternos. Por isso mesmo, ao menos guardes no silêncio tumular do teu perpétuo descanso, a memória desses fugazes momentos


Jorge Trabulo Marques 

Nenhum comentário: