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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Escritor Vergílio Ferreira, nasceu em 28 de Janeiro, 1916 - 01-03-1996 – “Depois da morte não há nada... Já estive à beira da morte duas vezes (…)o facto de me eu preocupar com a morte, não significa que a morte me assuste!... Uma coisa é o medo da morte, outra coisa é a intriga que a morte nos causa!.- Autor do “Espaço do Invisível”, “Cântico Final", “Manhã Submersa” “Para Sempre” – Entre mais de meia centenas de obras: ficção, ensaio e diários – Recebeu-me várias vezes em sua casa.


Jorge Trabulo Marques - Jornalista e investigador

Dizer que não me importava de morrer!... Ou que nunca me importei de morrer?... Não é verdade... Importo-me tanto como as outras pessoas... Não é que a coisa me apavore!..... E cada vez me importo menos à medida que o fim se chega
   
 

Numa das entrevistas, que me concedeu, perguntei-lhe o que pensava da vida para além da morte, e da morte em si, visto ser um tema muito recorrente na sua obra,,
Eu já pensei que a morte era a passagem para o além, para uma vida que se seguiria a esta…Aliás, quando pensei, tinha toda a aparelhagem para isso, nesse mesmo além… Haveria um céu, haveria um inferno, haveria um purgatório, etc

O facto de me eu preocupar com a morte, não significa que a morte me assuste!... As pessoas tendem a confundir essas duas coisas: uma coisa é o medo da morte, outra coisa é a intriga que a norte nos causa!.. - -   Ouça a entrevista no vídeo, mais à frente

Vergílio Ferreira nasceu em Melo, aldeia do concelho de Gouveia, na Beira Alta, a meio da tarde do dia 28 de janeiro de 1916, tendo como fundo a Serra da Estrela, ambiente e paisagem que iria moldar a sua personalidade e influenciar a sua vasta obra - Faleceu na sua casa de campo, em Fontanelas, no dia  1 de Março de 1966, pouco depois da hora do lanche. Quando a sua esposa (Regina Kasprzykowski) entrou na sala para ir buscar a chávena e bule, encontrou-o estendido de costas sobre o tapete no chão e com rosto voltado para a janela. Ele, que tanto interrogara a morte, pelos vistos, respondeu ao seu apelo da forma mais pacífica e tranquila.



  Recordando um dos maiores vultos da literatura portuguesa, que me deu a honra e o prazer de me receber várias vezes em sua casa e de me conceder várias entrevistas -  A que a hoje aqui recordo, teve como tema principal a questão da morte 

JTM - Acredita que há vida para além da morte?

V.F. - "Eu já pensei, evidentemente, que a morte era a passagem para o além, para uma vida que se seguiria a esta…Aliás, quando pensei, tinha toda a aparelhagem para isso, nesse mesmo além… Haveria um céu, haveria um inferno, haveria um purgatório, etc... Hoje estou convencido que a morte é um fim de tudo... Se não estivesse convencido,naturalmente, que a vida,  no seu absurdo, não se me imporia tanto...

Evidentemente que estas certezas não se baseiam em nada... Baseiam-se num equilíbrio interior que diz que é assim ou não é assim... Aliás, é em função desse equilibro interior que nós aderimos ou não aderimos  a muita coisa na vida: desde  a mulher que se ama,  a política que se segue, o clube de futebol a que se adere, etc. 

  Portanto, eu não tenho razão absolutamente nenhuma para afirmar que depois desta vida não há mais nada.... A única razão é esse tal equilíbrio interior... Portanto, não vou discutir com ninguém que acredito no além...Não vou discutir com ele para lhe demonstrar que ele não tem razão e quem tem razão sou eu.. Essas coisas vivem-se no íntimo de nós   sem que, no fim de contas para aí metamos entrego ou estopa, como se consuma dizer...
É naturalmente um fruto de mil acidentes, que nós vamos tendo na vida!... Mil encontros!... Mil livros que se leram, ideias que se tiveram, etc. Desse magma, desse conjunto de circunstâncias, resulta, naturalmente, uma determinada orientação, um determinado sentido... Essa orientação, impõem-se-nos!...  Não somos nós que a deliberamos... E é o que se passa, comigo,  nesse aspeto

JM - A morte transparece muito na sua literatura. Porquê?


V.F. - Porque a vida é realmente incompreensível em função do nada da morte... É a morte que põe em destaque essa mesma vida, como, digamos, no escuro da noite se destaca um fósforo que se acenda...Uma luz que se acenda... 
Portanto,  justamente porque eu vejo na morte o nada total da vida e um milagre espantoso, naturalmente que a morte impõe-se-me como motivo de meditação!.. Aliás, devo dizer, que, impôs-me mais do que se me impõe hoje  houve outros problemas que se foram sobrepondo a esse... Porque, no fim de contas,  um problemas pode resolver-se pelo seu desgaste... Não é porque tenha encontrado definitivamente uma solução  para essa intriga que se impunha ou se me impôs, durante muito tempo., não é porque tenha encontrado uma solução dessas que, de facto, o problema já me não impõe tão agudidamente... É porque, de facto, seja o que for,  porque, desde que nós nisso insistamos, acaba por se desgastar, por nos fatigar, um pouco.

JTM -  Nunca se viu à beira da morte?

...procuro algo que esteja  além de mim...
V.F. - Já estive à beira da morte duas vezes: uma vez porque fui atropelado e estive inconsciente durante seis horas!... E outra vez foi quando tive um enfarte cardíaco e quase!... quase!... passei para o lado de lá!... Estive mesmo numa situação em que a minha mulher pensou que eu ia morrer, porque eu já não tinha consciência também... Estava a abrir e a fechar a bica, como um peixe fora da água...(sorrindo)

Mas devo dizer que, nesse momento, nesses momentos  - aliás quando fui atropelado -, não tive tempo de pensar porque... esse pensar apagou-se-me, porque, quando há perda de consciência (eu não sabia mas verifiquei por mim) a memória apaga-se-nos até uma hora ou duas horas antes do acidente!... Não assim, quando tive o enfarte, porque, nessa altura, eu vi a coisa progredir... justamente para o nada da morte!...

Não tinha tempo de pensar na morte, sentia-me apenas aflito!... Com um mal-estar tremendo!... E era só que me preocupava.

JTM - Portanto, não ficou assustado! Não teve consciência para ficar assustado?

V.F- - Não. O problema da morte, o facto de  me eu  preocupar com a morte, não significa que a morte me assuste!... As pessoas tendem a confundir essas duas coisas: uma coisa é o medo da morte, outra coisa é a intriga que a morte nos causa!...A mim a morte!....Dizer que não me importava de morrer!... Ou que nunca me importei de morrer?... Não é verdade... Importo-me tanto como as outras pessoas... Não é que a coisa me apavore!... E cada vez me importo menos à medida que o fim se chega: simplesmente uma coisa é isto, outra coisa é nós querermos encontrar uma resposta para esta oposição para duas realidades que se opõem flagrantemente: de um lado a vida com todo o seu milagre! e por outro  lado a morte com todo o seu martírio!... Portanto, a intriga deste problema é que sempre se me colocou!... Não é o problema do medo da morte...

Vejamos, por absurdo, que eu depois da morte eu me encontrava, de facto, a viver no além, com a minha autoconsciência, etc,etc... Também eu ficava surpreendido. ..
Agora, isso, de maneira nenhuma se me impõe: o que se impõe é que isto acabou definitivamente!... Mas, como não tenho razões nenhumas, exceto a vida interior  - a que há pouco disse - pois naturalmente não posso ter argumento nenhum para provar isso!... Mas, se por absurdo eu me encontrasse vivo depois da morte, não sei!... Ficava um bocado intrigado!... Mas não ficaria assim muito admirado disso!...
(...) Sabe que eu não acredito na sobrevivência para além da morte, não acredito nisso... O problema, intriga-me!... Outros acreditam que sobreviverão... Pois, não tenho argumento nenhum contra eles!... Eles não têm nenhum argumento a opor-me a mim!... 

O problema é assim: toda a condução da minha vida; tudo aquilo que eu tenha que pensar em função da vida e da morte, centra-se nesta certeza:  de que, realmente, depois da morte não há nada. 

Ao autor " Espaço do Invisível - Entre o espaço visível o mistério do além

Há uma voz obscura no homem, mas essa voz é a sua. Há um apelo ao máximo, mas vem do máximo que ele é. Há o limite impossível, mas é do excesso que é o próprio homem.” Vergílio Ferreira (Espaço do Invisível 1)

“Homem de diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística. Vergílio Ferreira

Deu-me o prazer de me receber várias vezes em sua casa – Algumas das quais no próprio dia do seu aniversário. É uma data que dificilmente me pode passar despercebida. 

Eis o que escreveu no dia em que completava 64 anos, publicado na Conta-Corrente 1980-1981, após ter tido um acidente vascular:

28 Janeiro (segunda). Aqui estou, pois, no gueto, até se cumprir um mês sobre o acidente. E para não haver grandes intervalos de escrita, aqui estou a entrever. Dá-se o caso, aliás, de cumprir hoje 64 anos . Sem cometários. Perdi no dia 4 uma boa oportunidade de não ter de fazer mais contas. Como é nova e viva está sensação de que tudo está feito, de que é perfeitamente aceitável que a vida, os outros, nos excluam. Mas fiz 64. É curioso. E já agora talvez que venha a refletir um pouco no que fui nesses 64. E a ideia mais forte que se me impõe (qual a que se impõe aos outros?) é a de que fui uma espécie de «falso», como se diz dos «falsos>> da pintura. De um lado está o nosso ser que é normalmente bons deuses, péssimo; e do outro o parecer, que já não  é mau de todo. Entre os dois nos corre mais ou menos a vida. Ela é assim quase sempre velhacóide. Quanto a mim, deu-me pouco; e o pouco que me deu foi extremamente regateado. Oh, que a comédia acabe depressa, quero lá saber. Mas sem muita maçada, se não é muita maçada. São os votos que me faço no dia do aniversário.

Entretanto, o mundo, que é um pouco maior do que nós (será?), vive numa tensão pavorosa. A URSS invadiu o ,Afeganistão. O imperialismo que vive nela e ela tem  tentado disfarçar, desta vez veio ao de cima sem disfarce. Mas não há inconveniente para a fé dos correligionários. Contei na Alegria Breve a história (real) de uma rapariga que negava estar grávida, mesmo quando o medico lhe fez saltar o leite do perco. Bom. E como sobremesa da invasão, a prisão deSakarov, A Tarde pediu-me um depoimento. Lá o dei. Outros «intelectuais» o deram também. Cito o da Agustina: depois de nos dar a extraordinária notícia de que os governos estáveis são normalmente «maquiavélicos», acha que «não há sínteses felizes para definir a política das persuasões» .. Não sejamos ambiciosos. Há à que é para entender e o que é só para admirar"


"Vergílio Ferreira iniciou a sua actividade literária na década de quarenta do século XX.  - Seduzido pela força do neorealismo, sofrerá uma sensível mudança que o tornou marginal à ideologia marxista, mas que o afastará também do catolicismo. O que essencialmente o fez mudar, como ele próprio escreveu, não foi a aspiração ao humanismo e à justiça, mas um conceito prático de justiça e de humanismo, pois que se os modos de concretização de um sonho podem sofrer correcção, não o sofreu neste caso, a aspiração que visava concretizar. Transparecia seguramente nesta mudança. - Mais pormenores em http://cvc.instituto-camoes.pt/filosofia/1910j.html


 (atualização) – 28-01-2017) "Bailarina" nas comemorações do centenário do nascimento de Vergilio Ferreira Rodrigo Leão inspira-se em "Cântico final" para homenagear o escritor Vergílio Ferreira. "Bailarina" nas comemorações do centenário do nascimento de Vergilio Ferreira.. Presidente da República assinala centenário do nascimento de Vergílio Ferreira - Cultura

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