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quinta-feira, 31 de março de 2016

Natália Correia – “Quando estou estou a escrever um poema é um ato de comunhão com o Universo!... um ato cósmico!... “ – Diz a autora do poema “Creio nos Anjos que andam pelo Mundo” – 1990 – Botequim – Por ocasião do Prémio da APE - pelo seu livro “Sonetos Românticos”




Por Jorge Trabulo Marques - Fotos da WEB - Excepto as imagens das pinturas extraídas do Livro Erros Meus Má Fortuna Ardente  

A 13 de Setembro de 1923 nascia nos Açores, na ilha de São Miguel, a escritora e mulher que viria a dar um dos maiores contributos para a cultura portuguesa do século XX, Natália Correia. Autora de extensa e variada obra, com predominância no ensaio, teatro e   poesia. Deputada à AR;  (1980-1999 – Faleceu em Lisboa, a 23 de Março de 1993



“Os meus livros são profundamente espiritualistas!.. Porque o materialismo já deu cabo do comunismo, vai dar cabo  do capitalismo e ainda vai dar cabo de muita coisa!... Dar cabo do homem é que não pode dar!.... O erro foi este: socialismo, sim, mas nunca esquecendo a dimensão existencial e espiritual do ser  humano!... Não estou a falar de igrejas, que são todas iguais!" .

Estas algumas das palavras, que me concedeu, na entrevista, que hoje aqui transcrevo e reproduzo em som (mais à frente) e que,  vistas à luz dos dias de hoje, mas pronunciadas, em 1990, no mítico Botequim, situado no Largo da Graça, sim, para quem não conhecesse a personalidade de Natália, mas soubesse que fora deputada do PPD (atual PSD/PPD, ficaria um tanto ou quanto confuso – De certo modo, é verdade, isto porque, a bem dizer, a personalidade de Natália, por ser tão  complexa, culta, ousada e visionária, sim,  estava acima de qualquer rótulo politico ou definição social - Era uma personagem de um mundo, ainda por surgir.




Foi deputada na AR, por um partido liberal, como podia ter sido do PS ou de outro partido, dentro do  quadro parlamentar e democrático, pois, no fundo, o que pretendia, com o surgimento da democracia, era ter uma tribuna, um auditório mais vasto,  para fazer soar mais alto a sua voz livre, corajosa e independente, além da que já expressava em poesia (a mesma que já lhe havia trazido grandes dissabores no tempo do fascismo)  ou mesmo  expandir a outros níveis o seu grito de ousadia, de extrema lucidez e  inconformismo,  além de conferências ou do  espaço confinado  às famosas tertúlias do Botequim  – Mas, também, o fez  por pouco tempo,  pois não tardou a que, as suas palavras, começassem a ferir os tímpanos  de muita gente - dentro e fora do hemiciclo - ,  onde calorosa e energicamente, esgrimia os seus argumentos

Restava-lhe, pois, voltar à tranquilidade da  sua escrita (se é que alguma vez a abandonara) e ser a condutora-mor  do  «IATE DE LUXO » – No qual  segundo refere, Fernando Dacosta, em  "O Botequim da Liberdade"  - "Navegava-se delirantemente  em demanda de continentes venturosos (ilhas e amores) que nunca se encontravam"

«o importante não era alcançá-los, mas procurá-los», sobre ondas de fantasia e desmesura»

«As tertúlias proporcionavam  a "comunhão com pessoas de espírito e de ousadia. vingará ela, «por isso, são fundamentais para se evitar  a cultura desvivenciada, pois  só quando se está muito na vida se pode transmiti-la aos outro. As reverberações das músicas, das luzes, dos vinhos, dos fumos, tudo faziam possível, apetecível." - Refere o mesmo autor, que a define como:

TOCADA PELO SAGRADO - "Não se tornava fácil compreende-la, nem amá-la. Fazê-lo, exigia sentimentos, disponibilidades especiais. Era um ser tocado pelo sagrado, um desses seres que não cabem no espaço que lhes foi destinado, nem no corpo, nem nas normas, nem nos modelos, nem nos sentimentos. Chegava a assustar."

"Os que não a aguentavam combatiam-na não pelas suas ideias, mas pelos seus tiques, não pela sua criação, mas pela sua distração, tentando reduzi-la a anedotários de efeitos fáceis e falsos."

"Ao mesmo tempo forte e desprotegida, imponente e indefesa, egoísta e generosa, arguta e ingénua, dissimulada e frontal, sentia-se, ante as coisas rasteiras (e as pessoas, e as acções), perdida; só as grandes a tocavam, galvanizando-a. Então, toda ela era golpe de asa, vertigem"

TAMBÉM NAVEGUEI NA MESMA NAU  - ANCORADA A UM CANTO DO CASARIO DO LARGO DA GRAÇA

Sim, tal como já referi noutro post deste site, Tive o prazer de ser um habitual frequentador do Botequim  - De ser um participante das acaloradas tertúlias – Do qual guardo as mais  inesquecíveis memórias:  naquele espaço, tão único e tão singular das noites lisboetas, ao  mesmo tempo poético e político, social, sociável e cultural, esotérico, intimista,   amistoso, confessional e familiar. 

Pequeno mas, que, em certas noites, parecia ser a grande aeronave espacial que nos levava nunca se sabia bem a que parte - tanto ao  perto, como bem ao longe: aos enredos e  intrigas de Belém, de S. Bento, no cotejo desta ou daquela figura,  em  conciliábulos conspiratórios, acaloradas discussões ou inesperados debates, mostras de pintura, lançamento  de livros, récitas de poesia, música e canto, fazendo-nos divagar, sabe-se lá por onde e por que confins, e a falar de alguém, morto ou vivo,  indo ao fundo da história e da literatura, levando-nos por oceanos a fora, não só ao Brasil, como a Cabo Verde, S. Tomé, Angola, Moçambique, a Macau e a Timor, aos vários pontos do Mundo. Temas não faltavam:  falava-se de tudo, frontalmente  e não em surdina ou de forma brejeira - Falava-se, sem  preconceitos mas sempre de modo vivo, curioso  e interessante, mas com a reverência de que havia ali uma rainha  que exigia vassalagem, culta, multifacetada  e carinhosa, que  adorava o convívio, que encantava e provocava a  curiosidade,   o diálogo, a ousadia, a imaginação,   conquanto não raiasse o palavrão ou o insulto

-Tal como na sua escrita (desde a poesia, narrativa ao teatro) e na suas intervenções públicas,  Natália Correia, era a mulher da insubmissão, que criticava e questionava, abrindo as portas à  indignação e  à rebeldia, num tom mesclado com a tónica do humor, do  sarcasmo. Tinha resposta imediata, tal como ao fingimento ou à sobranceria:

De tal modo incómoda foi, para certos espíritos mesquinhos, que, mesmo depois de ter falecido – diz Fernando Dacosta -  alguém na RTP" convida-me para fazer um programa para a rubrica "letras e Artes" sobre a sua vida. Dias volvidos, a mesma pessoa contacta-me, envergonhada: os responsáveis da estação opunham-se, Natália continuava-lhes (mesmo morta), insuportável.



Foto obtida pelo autor deste site à saída de uma festa de gala no Casino Estoril - Natália Correia e a sua corte - Na qual está também - no primeiro plano à direita, a minha grande amiga e dama, a Elizabeth; vemos Dórdio Guimarães, o fiel companheiro de todas as horas de Natália,  de costas voltadas para o fotógrafo; um pouco mais à esquerda, está  Fernando Grade, e,  quase a servirem de guarda-costas, Francisco Baptista Russo e Fernando Dacosta, agora de novo com mais uma bela surpresa literária  - Não me ocorre o nome das outras suas amigas.
Quando a crise não é geradora de grandes audácias, mais indicado é dar- lhe o nome de agonia. - Natália Correia 13 de Setembro - 90º aniversário nascimento de Natália Correia A última grande tertúlia de Lisboa - que marcou culturalmente, politicamente várias décadas portuguesas - teve lugar no Botequim, bar do Largo da Graça criado e projectado por Natália Correia.

Neste seu mais recente livro, Fernando Dacosta, diz que "No Botequim “fizeram-se e desfizeram-se revoluções, Governos, obras de arte, movimentos cívicos; por ele passaram Presidentes da República, governantes, embaixadores, militares, juízes, revolucionários, heróis, escritores, poetas, artistas, cientistas, assassinos, loucos, amantes em madrugadas de vertigem e de desmesura”



Se passou alguma vez pelo Botequim, é livro de culto e de romagem obrigatório. De todo o modo,  se é ou não admirador da personalidade e da obra de Natália, pouco importa, ficará a conhecer ou pelo menos a recordar-se -da última tertúlia do século XX lisboeta, e talvez no país,"onde se jantava ,cantava, dizia atoardas e recitava poesia até altas horas. Foi a última tertúlia animada por ela e pelo seu extraordinário talento" - Escreve o autor do Botequim da Liberdade, citando Baptista Bastos


O vídeo seguinte é de minha autoria - feito a partir de uma de  três centenas de gravações que guardo no meu arquivo, de registos com várias personalidades - e ambientes - E até em  casa de Amália, Fernando Namora, Vergílio Ferreira, Fernanda de Castro, José Gomes Ferreira, Azeredo Perdigão, Dorita Castelo Branco, Carlos Villaret, Costa Gomes, Franco Nogueira, Palma Carlos, Ary dos Santos, Moreira das Neves, entre tantos outros nomes da  nossa vida cultural, social e política. E até as grandes figuras do mundo do crime (Muleta Negra, Dragão, Zé da Tarada e Manuel Alentejano) excertos da entrevista e diário deste, passados a livro, a que o Fernando Dacosta  faz referência.  Pena ter de me repartir por outros domínios da escrita e ocupações. 




Algumas das entrevistas da minha atividade profissional,  foram congeminadas sob a inspiração de Natália Correia, nomeadamente as publicadas no Tal e Qual,  sobre "a primeira relação sexual" - A Graça Lobo; Afonso Moura Guedes; Carlos Botelho; Raul Solnado; Ivone Silva; Narana Coissoró; Ary dos Santos; Raul Calado; Simone de Oliveira; Vitorino de Almeida


E  uma entrevista à  própria  Amália, parte da qual ainda inédita, que teve como epílogo a fuga rocambolesca  de sua casa.  

Às tantas desistiu da entrevista, quis apanhar-me o gravador e a  cassete e eu tive que raspar-me, com ela e a Maluda  a correrem escadas abaixo até à rua atrás de mim e mais o Vicente, a irmã e duas amigas. Só descansei quando apanhei um táxi.  Mas a culpa também era dela, porque, quando ali cheguei, a conversa já era picante. E nem ela nem ninguém alterou a tónica dos episódios,  nem sequer ela deu mostras de ter pressa. Pelo contrário,  diverti-me com as  risadas, sentindo-me perfeitamente  integrado na tertúlia, como se fizesse parte das visitas habituais da casa. Aliás, já ali havia estado por duas vezes, para a entrevistar para a Rádio Comercial, e esta era a terceira. Pois  admirava muito a minha faceta de navegador solitário nas canoas pelo Golfo da Guiné.


Embora não tendo mostrado a gravação, respeitando pois o desejo de Amália,  o simples facto de ter narrado o episódio no Botequim, foi motivo de hilariantes chalaças e  de sonantes gargalhadas por Natália e outras amigas, que se divertiram com os  tabus da grande fadista - Até porque a entrevista também havia sido combinada diretamente pelo telefone do bar. Com a entrevista a Afonso Moura Guedes, então  Presidente   Parlamentar da bancada do PPD, também viria a passar-se algo inesperado, com a publicação agressiva e destemperada de Vera Lagoa, no jornal o Diabo, a cujo artigo, Natália Correia, soube dar resposta adequada, no Diário de Notícias.

“A POESIA É MÁGICA POR NATUREZA – E a via escolhida por  Natália Correia  - uma Anteriana convicta – foi a do soneto: do neo-romantismo.  

“Tal como Antero, foi fazer sonetos em plena época ultra-romântica, quando o soneto estava atirado para o caixote do lixo, ele foi busca-lo e pôs-lhe uma essência, uma mensagem completamente diferente! – E até aparece como pioneiro do existencialismo: pondo, precisamente, a questão da essência, da existência…
Portanto, eu fiz a mesma coisa: ao dizer que o conteúdo é o mesmo!  - embora eu me sinta muito Anteriana!... Mas, não é por acaso que o livro é só de sonetos.
JTM  - Mas esse livro de sonetos…
NC -  É!... Porque eu acho que nós já passamos essa da desconstrução!... Para entrar na época da construção!... E arte… o hermetístico!...  desintegrou todas as formas!... O  que correspondiam a uma atitude!...  A uma descrença humana!... Quer dizer… nos mitos! Nos ideais!... Nos paradigmas!...E hoje é preciso encontrar um novo paradigma!...
Portanto, nós temos que caminhar para uma unidade!... E o soneto é uma expressão de unidade!...  

Estas palavras, fazem parte da entrevista que, Natália Coreia me concedeu, a par da leitura de um dos seus belos poemas, no interior do próprio ambiente do Botequim, sobre a hora da ceia, no dia em que foi distinguida com o Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores, pelo seu livro “Sonetos Românticos, – Foram vários os registos que ali tive o prazer de gravar para a Rádio Comercial – Hoje vou aqui reproduzir  um desses muitos registos, em som (video editado um pouco atrás) e o seguinte texto:.


JTM  – Acredita-se que, Natália, vem cultivando a substância mágica da poesia!... Continua nessa linha?
NC – A poesia é mágica, por natureza!... A palavra mágica e a poesia, são consubstanciais!... Porque… vamos lá a ver… O que é a magia, em termos poéticos?!... É precisamente o encantatório!... Que chama!... Que arrebata!... E faz cair num êxtase!... Neste caso  o leitor… Ou o  auditor!...  Para uma mensagem, que, de outra maneira, não chegaria tão facilmente!... E aí é que está precisamente o lado estético-mágico!... E não só!... E não só!...

JTM -Por outro lado, diz-se que  o romantismo é uma corrente ultrapassada: a palavra romantismo!
NT – Quem é que disse que o romantismo está ultrapassado?..  Quem foi esse cretino?!..
JTM – São alguns críticos que o afirmam…
NT – Mas quem?!... Eu não conheço!...  Tudo o que é vanguarda diz que estamos numa época neo-romântica!... Bem, eu digo-o há dez e quinze anos!...
As pessoas já estão fartas!... Já estão fartas  dos pragmatismos!... Dos utilitarismos! De tudo isso!... As pessoas, querem sentimento!.. Emoção!... Amor!... Percebe?!...… Estamos numa época neo-romântica!.. Eu até tiro o neo!… Romântica!... Isso é a sociedade de consumo!...

JTM – Acha que a atribuição do Prémio da Associação Portuguesa de Escritores, é uma forma da sua poesia chegar ao grande público?
NC – Ora!… Muito bem! … Até que enfim que alguém faz uma pergunta a sério! … A pergunta é acertada!...  Eu penso que o prémio, os prémios como é o prémio do nível da  APE (estou a prestar a minha homenagem à APE) têm o mérito de tornar, de dar uma maior expansão à palavra poética!... Que eu considero, hoje, um agente importantíssimo na transformação das sociedades!... Não sou eu!... São os cientistas!... São os cientistas!... São os  filólogos, os filósofos, etc….
Portanto,   é o mérito que eu reconheço mais notório nesse prémio..  E neste prémio, particularmente, que é um prémio que se tem destacado no nosso panorama literário!... Que foi atribuído antes, a dois grandes poetas: ao Eugénio de Andrade e ao Ramos Rosa!... Coube-me agora a minha vez…(sorrindo)  
E também quero fazer notar uma coisa!... De forma nenhuma me parece ser despiciendo que o prémio seja atribuído a uma mulher !... Porque, a grande missão da mulher, é na cultura!... Não no campo da competitividade!... Não exercendo funções  no sentido de competir  com os padrões masculinos.
JTM – Daí o significado, a importância que este prémio tem!.. Por um lado é atribuído a uma poetiza…. E, por outro, vai contribuir para a divulgação da poesia  do grande público.
NC -  Eu não sei o que é o grande público, sabe!..
JTM – Há quem afirme que a Natália é elitista! … Que não tem essa preocupação…
NC – Já sei. Já sei!...  Eu quando tinha 15 anos e comecei a ler o Fernando Pessoa, toda a gente me dizia isso!... Hoje não há ninguém que não o leia… Isto é  o costume!...

JTM – Mas fica satisfeita que o grande público leia a sua poesia ou não tem essa preocupação!... Ou quando escreve…
NC – Ó meu Caro Senhor!... Eu quando faço um poema!... Quando estou a estou a escrever um poema... é   um ato de comunhão com o Universo!!... Percebe!... Se quiser… até é um ato cósmico!...
É um ato que implica o social! Que implica o pessoal!... Mas que exige realmente um envolvimento cósmico!...
A poesia, é integrante!... A poesia vai desde o social ao cósmico!... Incluindo o existencial, etc!...
JTM – Naturalmente que ficará satisfeita se  a sua poesia tiver um maior auditório!...Um maior público, não é?...
NC – Eu não sei… A Virgínia Woolf disse um dia uma coisa muito importante!... Disse que os autores – eu agora estou a colocar-me na posição de autor -  tinham um drama de ambiguidade!... Que ficam muito tristes senão eram conhecidos mas que também ficavam muitos tristes, se eram muito conhecidos! … Eu compreendo-a, muito bem!..
JTM – Naturalmente, que a Natália é uma pessoa conhecidíssima: a questão  é que a sua poesia não é lida pelo grande público!
NC – Como é que você sabe?!... Já fez inquéritos?!...  Sou mas lida pelo povo de que pelos falsos intelectuais!
JTM – Tem a palavra!... Acha que sim?
NC – Bem, pelo menos há gente do povo que chega ao pé de mim … Inclusivamente me entende  melhor de que os mistificadores da intelectualidade!.. …Esses é que não gostam nada de mim!!...
JTM – De Pessoa, diz-se que, tanto se falou que até enjoa!... Acha que o facto de divulgar excessivamente um poeta, também pode ser negativo?...
NC- Naturalmente que tudo o que tenda a vulgarizar ou a banalizar, excessivamente,  evidentemente que as pessoas cansam-se!... Mas isso não quer dizer que o poeta fique prejudicado por isso!... Porque, depois vem outra geração, que descobre!... Depois  encobre!... Depois ressurge!... Esta é a história da arte!...

NC - Os meus livros são profundamente espiritualistas!.. Porque o materialismo já deu cabo do comunismo, vai dar cabo  do capitalismo e ainda vai dar cabo de muita coisa!... Dar cabo do homem é que não pode dar!.... O erro foi este: socialismo, sim, mas nunca esquecendo a dimensão existencial e espiritual do ser  humano!... Não estou a falar de igrejas, que são todas iguais!


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. amém.

Natália Correia

MAIS DADOS BIOGRÁFICOS – 
    
(....)Em 1976, recebeu do Centre International de Poésie Néo-Latine e do Comité des Prix Petrarque de Poésie Néo-Latine o prémio literário La Fleur de Laure que anualmente consagrava uma poetisa de língua romântica.
    
Podemos ainda dizer que a obra de Natália está traduzida para várias línguas, o que prova o seu valor e reconhecimento também a nível internacional, e que obteve o Grande Prémio da Poesia de 1991 da Associação Portuguesa de Escritores. Foi ainda galardoada com a Grande Ordem de Santiago e a Grande Ordem da Liberdade.
   

A 16 de Março de 1993 morria Natália Correia, um dos grandes ícones portugueses Excerto . Natália Correia






quarta-feira, 30 de março de 2016

Centro Cultural de Belém - Polémicas – desde “o extraodinário espectáulo" da abertura, segundo palavras do então Primeiro-Ministro, Cavaco Silva, à audição de António Lamas, em Comissão Parlamentar - “Uma casa à deriva” – diz o Público


CCB – 1993 – Palavras de Cavaco Silva, então Primeiro-Ministro: no final do que ele ele considerou de um "extraordinário espectáculo" da abertura do Centro Cultural de Belém  - Declarações que então pude recolher para uma reportagem da Rádio Comercial

Imagem WEB
Numa altura, em que, o Centro Cultural de Belém, volta a ser manchete nos jornais, agora a propósito da audição de António Lamas  na comissão parlamentar de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto, na sequência do polémico afastamento do Centro Cultural de Belém pelo ministro João Soares, vou aqui recordar  as palavras, que então recolhi, do Primeiro-Ministro, Cavaco Silva, no final do espetáculo musical, com que foi assinalada a  sua abertura ao público

Dizia Cavaco Silva: Acho que foi um belo espetáculo musical, com  a nossa orquestra sinfónica nacional, que vi  pela primeira vez e que felicito, e, os Madre de Deus, que é de facto um caso especial na música portuguesa e que eu aprecio bastante. E a aprova, a prova da qualidade do espetáculo, está na adesão do público: eu acho que a abertura do Centro ficou de facto marcada por um extraordinário espetáculo  e com uma extraordinária adesão do público àquilo que aqui se passou




POLÉMICAS – O QUE SE TEM DITO

Foi iniciado em Setembro de 1988e concluído em Setembro de  1992. Na base da sua construção esteve a necessidade de um equipamento arquitectónico, que pudesse acolher, em 1992, a presidência portuguesa da União Europeia, e que, ao mesmo tempo, pudesse permanecer, como um pólo dinamizador de actividades culturais e de lazer. O seu projecto definitivo foi decidido no início de 1988. Após de acolher a presidencia da União Europeia, ele é transformado em um centro cultural e de conferências em 1993.

A sua polémica implantação, teve como fundamento, o facto de assinalar o ponto de partida dos descobrimentos marítimos, à semelhança da Torre de Belém e do Padrão dos Descobrimentos. O simbolismo associado a esta localização, é confirmado pela escolha na década de 40,  da grande Exposição do Mundo Português. O CCB veio ocupar mesmo espaço que foi destinado a instalar o Pavilhão "Portugueses no Mundo" e as "Aldeias Portuguesas". Centro Cultural de Belém

23 anos depois - Centro Cultural de Belém, uma casa à deriva

30/03/2016 - 08:00
Perdeu público e terreno como co-produtor e divulgador das artes em Portugal. Para uns, nunca teve um modelo de gestão adequado à sua ambição. Para outros, falta-lhe o fulgor da década de 1990. O seu ex-presidente, acusado de o afastar da sua missão artística, vai esta quarta-feira ao Parlamento.

No dia em que António Lamas vai à Assembleia da República responder aos deputados, depois de um braço-de-ferro com o Governo que levou ao seu afastamento da presidência do Centro Cultural de Belém (CCB), o PÚBLICO pediu a seis agentes culturais que olhassem para este equipamento e reflectissem sobre o papel que tem hoje na cidade e no país. E o retrato que fazem é, em parte, o de uma casa que, apesar das boas propostas de programação do passado, algumas das quais verdadeiras descobertas para o público português, nunca teve um modelo de funcionamento sólido, capaz de resistir a pressões políticas e às mudanças que outros teatros e festivais foram impondo nos últimos 20 anos. Uma casa à deriva no que à oferta de espectáculos diz respeito, mas com âncoras que importa proteger, como os Dias da Música, a Fábrica das Artes e a Box Nova. – Excerto Público - Centro Cultural de Belém, uma casa à deriva 


2013 – CCB: Vinte anos de eventos, polémicas e um projecto inacabado
O Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, inaugurado há vinte anos, acolheu milhares de eventos culturais, foi palco de algumas polémicas e o projecto arquitectónico continua a aguardar uma conjuntura económica favorável para ser concluído.
o projecto foi muito contestado ainda antes de acolher, em 1992, a sede da presidência portuguesa do conselho europeu, mas, ao longo dos anos, foi conquistando o reconhecimento entre os espaços culturais de referência no país.
este grande complexo arquitectónico - uma das maiores obras públicas do estado português do século xx - suscitou polémica logo no final dos anos de 1980, com a escolha da sua localização, junto ao mosteiro dos jerónimos, monumento do século xvi classificado património mundial pela unesco. CCB: Vinte anos de eventos, polémicas e um project


06/15/2007 CCB 1993 - a inauguração (2)

Para a história do CCB - 2  (ver nº 1) 
As 1ªas exposições  do CCB abriram a 10 de Junho de 1993: Sebastião Salgado e "Trabalho" no âmbito do Mês da Fotografia (EXPRESSO/Revista, de 19 Junho 1993, “O fim de século como epopeia”), "O Triunfo do Barroco", vindo da Europália'91, arquitecto Nuno Mateus - ARX Portugal e instalações de esculturas de Alberto Carneiro e Rui Chafes.
"Inaugurar sem rede", Expresso/1º caderno de 12-06-1993, pág. A19
"Apesar de a inauguração do CCB ter sido um êxito, sobram muitas interrogações. Sobretudo acerca dos meios financeiros que garantam o futuro"
"Não se desvaneceu  o escândalo do Centro Cultural de Belém com a abertura ao público do módulo de exposições, mesmo que globalmente deva ser considerado um êxito a sua inauguração com cinco mostras simultâneas. 
É um escândalo que, com ano e meio de atraso e com vários milhões de acréscimo em relação às datas e às verbas previstas, ainda decorram obras no Centro de Espectáculos e até no próprio Centro de Exposições, nas suas áreas de reservas, de actividades pedagógicas e de oficinas. 
Mas é sobretudo um escândalo que se mantenha em vigor o decreto-lei que criou a Fundação das Descobertas como entidade gestora do CCB, em especial no ponto em que se lhe atribui, mesmo que a prazo, o objectivo de atingir uma«plena independência financeira relativamente ao Orçamento do Estado».- Excerto Alexandre Pomar: CCB 1993 - a inauguração (2)


Hotel a caminho para apoiar cultura numa obra de regime inacabada
2013 – CCB – 20 anos depois

Os detractores apodaram-no de Centro Comercial de Belém. Mas o centro cultural inaugurado faz duas décadas continua à espera dos últimos dois módulos – um hotel e zona comercial –, capazes de lhe assegurar um complemento financeiro e  uma ponte com a malha urbana envolvente.

projecto de Vittorio Gregotti e Manuel Salgado, seleccionado de entre 57 a concurso, previa cinco módulos, dos quais apenas três estão construídos. A obra dos arquitectos italiano e português gerou acesa polémica, pela linguagem contemporânea do novo complexo junto ao Mosteiro dos Jerónimos. O monumento remonta ao século XVII e está classificado, com a Torre de Belém, como património mundial pela UNESCO.

Os custos da empreitada dos três módulos construídos até hoje também ampliaram o coro de críticas: os estimados 6,5 milhões de contos (32,5 milhões de euros) acabaram perto dos 38 milhões (190 milhões de euros). A construção do CCB foi lançada em 1988, era Cavaco Silva primeiro-ministro. Na sua génese, o equipamento cultural deveria servir para acolher, em 1992, a sede da presidência portuguesa do Conselho das Comunidades Europeias. O que veio a acontecer, antes da abertura ao público no ano seguinte. Em Março de 1993 abriram portas o centro de reuniões e o pequeno auditório, seguidos do centro de exposições, em Junho, e do grande auditório, em Setembro. A obra - CCB20 anos 



sábado, 26 de março de 2016

Histórias das noite no Bairro Alto - Confissões de uma lésbica e o crime da Travessa das Mercês: capela onde foi batizado o Marquês de Pombal, transformada em Esquadra da Polícia, entretanto transferida


Por Jorge Trabulo Marques - Jornalista - UM BAIRRO COM 500 ANOS DE HISTÓRIA




NO FIM-DE-SEMANA A SEGURANÇA DO BAIRRO  É SEMPRE IMPREVISÍVEL -  NAS OUTRAS NOITES É MAIS TRANQUILO – O POLICIAMENTO REFORÇADO, PODE ATENUAR, MAS NÃO RESOLVE COMPLETAMENTE O PROBLEMA

A  bem dizer, já deixamos de frequentar o Bairro Alto  - Na vida, há um tempo para tudo e entendemos que o nosso tempo, agora é outro. Mas conhecemos lá muitos episódios, sobretudo na nossa vida de repórter e quando ali trabalhámos, em criança, aos 11 anos, como marçano, numa das antigas mercearias, pelo que não nos falta matéria ou histórias para recordarmos - Além disso, temos  muitas imagens - embora a maior  parte delas tiradas com o telemóvel, pois é um risco andar ali com máquina fotográfica na mão ou ao tiracolo

UM BAIRRO ONDE SE CONVIVE A MEIAS COM O LIXO DA RUA, OS COPOS, O ENGATE, O BARULHO DAS VOZES E DA MÚSICA, A DROGA.


O Bairro Alto é a mais popular área de vida noturna, em Lisboa - Sim, o Bairro Alto, nos seus bons e maus aspectos - Único em todo o mundo no seu género - Sinónimo de libertinagem e engate - Onde, os traficantes de droga, que residem nos subúrbios e que  escolhiam o Bairro Alto  para vender a sua “merda”, sentindo-se mais vigiados, já têm que descer para o Largo Camões, Rua Garrett, ao Chiado ou manterem-se pelo Rossio, Praça da Figueira, Restauradores e Portas de Santo Antão, outros dos seus pousos preferidos 


E onde, surpreendentemente, tudo - mesmo tudo ! e até o lixo! - assume uma imagem surreal - Desde os copos às garrafas que se colocam vazias sobre as caixas de EDP ou sobre o capô de um carro (mesmo que seja um Mercedes em folha) os murais nas paredes (entretanto, já apagados) que espelhavam algo de fantasmagórico e fazendo esquecer certos vandalismos, até ao lixo que se aglomera e amontoa ao longo dos passeios 


RAPARIGAS DA “MOVIDA” DO BAIRRO ALTO VÃO CURTIR O RESTO DA BEBEZANA NA SOLEIRA DA PORTA DA ESQUADRA – DESCONHECENDO, PORÉM, QUE SE TRATA DE UM ESTABELECIMENTO POLICIAL.

São perto das três da madrugada – Os bares já encerram às duas mas – como a noite está quente - há quem não se tenha esquecido de ir bem aviado com umas cervejolas pela mão para continuar a saciar a sua sede. São portuguesas e ainda moçoilas. As ruas da diversão, àquela hora, vão ficando desertas. É a debandada geral, que deixa atrás de si o rasto do caos habitual: garrafas partidas pelo chão, sacos de lixo rebentados ou amontoados. É, pois, o ambiente da diversão, os sons da música dos bares à mistura com a vozearia que vão dando lugar a um certo silêncio, meio iluminado, meio ensonado e sombrio, em suma, a imagem de um cenário urbano, característico, mas já algo entristecido e desolado! – Passeios , esquinas e calçadas, pejadas de detritos, ficam como que irreconhecíveis, transfigurados. Ali o asseio e a higiene, nas noites de Quinta a Sábado, é muito difícil de se impor; mas no termo da invasão nocturna, os sinais e os amontoados da sujidade, tornam-se ainda mais desordenados e visíveis! 


"Não era ele que me interessava, era ela!... Aquela situação para mim era extremamente excitante, até porque eu sempre gostei muito dela; acho-a muito bonita e ela sempre teve um certo ascendente sobre mim"

Quando as pessoas se acotovelam naquelas estreitas vielas, verifica-se que há algo simultaneamente de promíscuo, de íntimo e de interessante, como se estivessem em confronto dois movimentos opostos: o de atração e fascínio e do repúdio ou de repulsão  - No entanto, há muito quem goste deste ambiente! De viver na corda bamba: as ruas enxameiam-se ao fim-de-semana , por alguma razão é – Do que talvez nem toda a agente se lembre é que, de um momento para o outro, pode ser o próximo alvo dos carteiristas ou dos larápios

Nas noites, mais movimentadas, não há ruas tranquilas. A diversão é enganadora. Estilhaçam-se montras para se fazer a limpeza do que lá está. Há agressões, assaltos a lojas e  a pessoas,.   

Não há policiamento nem segurança-privada ( a dos comerciantes) que possa resolver os problemas de instabilidade no Bairro Alto. É demasiada “movida” e  confusão para ali se impor plenamente a lei e a ordem. 


 Como é sabido, no Bairro Alto, pára lá todo o tipo de gente     muitos turistas,  vão lá uma noite, uma vez, mas já não voltam  lá na noite seguinte, nem sequer pensam lá voltar – Cuspir numa rua, em Londres, dá multa. Atirar uma garrafa ao chão, no Bairro Alto, é um acto banal! Pára lá muita gente, cujo pecado venial  é apenas querer divertir-se (beber uns copos, fumar uns charritos, conviver) engatar uma namorada ou um namorado;  é um facto, mas também vai lá gente muito perigosa: desde o carteirista, ao traficante e ao homicida, que acabou de sair numa precária ou cumpriu a sua pena. Vêem-se caras mas não se conhecem os corações

Aparentemente, há um ambiente de diversão, de convívio e  de festa: que corre e se solta  do interior dos bares até ao exterior; fixa-se por ali ou desliza pelas estreitas ruas e travessas em magotes de uma mole densa, multirracial, multicolorida e  etariamente e socialmente, muito variada. Porém, o  risco de se ser assalto é permanente. As megaoperações mais não servem senão para deixar o bairro em estado de sítio, em alvoroço e num aparato, quase prussiano, por todo o lado. Fazem-se detenções, Apanham-se alguns infractores , exercendo actividades sem  licença, larápios em flagrante; detenções a emigrantes indocumentados, surpreendem-se foragidos  e recapturam-se alguns criminosos.  Mas na noite seguinte volta tudo ao mesmo. Ninguém ali vai dar por nada. Nem todos lá estarão. Não  serão as mesmas pessoas. Mas as ruas voltam a estar cheias.



OS COSTUMES MUDARAM! O MAU E O BOM DO BAIRRO ALTO JÁ NÃO É O MESMO DESDE HÁ ANOS A ESTA PARTE. A DEGRADAÇÃO E A TRANSFIGURAÇÃO DA VIDA URBANA APRESENTA-SE, ALI, NOS SEUS TRAÇOS MAIS GALOPANTES!



Agora  são mais os ciganos de que os africanos a traficar. Estes optam mais pela droga dura mas também criam mais problemas. Os ciganos são mais pacíficos mas vem a  maior parte da droga que vendem é falsificada – ou antes, é uma mistela qualquer.

Há noites que, são de tal maneira escaldantes, sobretudo quando toca à debandada, que vai tudo pela frente! Nem os contentores do lixo escapam! É rolado aos pontapés – Distraído, que por ali fique, não tarda que lhe aliviem os bolsos de tudo! – E terá ainda muita sorte se depois  não o despacharem com um par de socos e pontapés. 

Além da barulheira infernal (aliada à insegurança), os desordeiros lançam garrafas para o chão com o à-vontade de um escarro. Despejam e rolam os caixotes do lixo com o maior desplante! - Obrigando a que, os seus utilizadores, todas as manhãs os andem a procurar - Se é que os encontram ou que estão ainda utilizáveis! - Mas agora a solução, parece ser a dos sacos em vez dos contentores.

Há quem lhe chame o bairro da moda - Mas o nome mais apropriado, talvez seja o Bairro da Grande Babilónia Marciana. Então, de Quinta a Sábado até às duas da madrugada, são das tais noites desaconselháveis. Nos restantes dias, é tolerável. E há noites ali até tranquilas.

Mas o velhinho Bairro Alto já não é o típico bairro de outros tempos – O casario mantém-se e o traçado das ruas também mas as lojas são outras e os restaurantes, que ocuparam, com as cadeiras uma grande fatia da vida pública, também são outros: mais vocacionados ao turista de que para fazer o gosto dos caprichos dos alfacinhas  

O COMANDO METROPOLITANOS DA PSP, DIZ QUE, COM O POLICIAMENTO DE PROXIMIDADE,  ANDAR NO BAIRRO É MAIS SEGURO EXISTE UM REFORÇO DE SEGURANÇA E UMA ALTERAÇÃO SIGNIFICATIVA DE TRÁFICO DE ESTUPEFACIENTES NA ÁREA.



Um dos antigos agentes da PSP, vive em pleno coração do Bairro Alto –  há mais de 30 anos e gosta de ali viver. Sentems-se perfeitamente integrado e familiarizado com as outras pessoas que lá vivem. Mesmo depois de passar à situação de reformado,  não quis regressar à Madeira nem outro local para morar, senão aquele. Sente-se ali feliz. Dá-se bem com os vizinhos, com os quais estabelecem laços recíprocos de amizade e confiança.

Numa das visitas que ali fizemos ao bairro, à noite, e querendo auscultar alguns moradores, chamou-nos atenção um homem, já na casa dos sessenta e tais, robusto, entroncado, altura media, vestindo uma camisolita branca, sem mangas, que , do lado interior do modesto rés-do-chão, apoiando os  braços sobre um pequeno janelo a meio da sua porta, discreto, mas atento, ali, dava ares de querer aproveitar-se daquela noite quente de Verão, para ali espairecer por alguns momentos.. Pese o facto das ruas (e a sua) ressoarem de vozes e andarem cheias  de bulício,  não se mostrava incomodado. – Depois de lhe darmos, as boas noites, vimos logo que era simpático. “Então o Senhor, não se incomoda com este ambiente, e com este barulho?!... - Ah! Eu não tenho problema! Gosto disto!.” E sente-se seguro?!... Nunca tive problemas!.. mas  vi muita coisa!..Já foi pior!… 

Depois de fecharem os bares, isto  acalma! Sou polícia! Estou aqui há mais de 30 anos! - confessou-nos. Lembrando-nos que, no tempo em que  havia por ali a prostituição, “era bem pior”. E justificava as razões:  “vinham para aí os embarcadiços, o pessoal da marinha ( portugueses e estrangeiros), e também muitos militares. Havia noites terríveis! Embebedavam-se e envolvia-se em zaragatas. Ou eram com os chulos ou uns os outros. Não havia noite que não houvesse desacatos e cenas de pancadaria”. 

Agora vê-se  mais gente . Há  muito barulho, é verdade. Mas,  naquela altura, embora não havendo  tanta gente como agora, nem por isso deixava de ser mais truculento e até mais perigoso.” O pessoal que  vem para aqui a divertir-se, o que quer é copos e convivo. Mas também é só de Quinta a Sábado. Nas noutras noites o Bairro é muito tranquilo! O maior problema do bairro, são os traficantes de droga. “ – E então e a polícia? – perguntamos não os reprime. “A policia anda por aí. É o que vai valendo. Mas é pouca. A esquadra já chegou a ter mais de uma centena de homens. E hoje está muito menos. Claro que o patrulhamento em viaturas, é bom, veio reduzir essa necessidade, e, como vê (naquele momento via-se um carro-patrulha a passar) eles andam por aí  e vão evitando os problemas.  Mas a esquadra devia ter mais efectivos! Eu conheço as dificuldades, com que o chefe se debate“ Dissemos-lhe que tínhamos conhecimento

Perguntamos-lhes  se a policia de intervenção (que costumámos ver com viaturas estacionadas na Praça de Camões) não vinha ali reforçar o patrulhamento. A sua resposta , surpreendeu-nos: "A policia de intervenção não gosta de vir fazer o patrulhamento ao Bairro Alto - Só ali vai em casos especiais

Fotografadas com telemóvel - Antes da mudança da 3ª Esquadra, na Rua das Mercês, para a Rua da Atalaia.




BAIRRO ALTO DE AGORA É CADA VEZ MAIS UM BAZAR ARTIFICIAL DE RESTAURANTES PARA TURISTA CÓMODO SE PLANTAR A UMA MESA  - INCAPAZ DE SE ENCOSTAR A UMA ESQUINA OU SENTAR O CU NO CHÃO.


Passou-se de zero a 80 Antes era um bico de obra conceder licenças para ocupação da via pública. Agora, pelos vistos, cada um faz o que quer. De um lado e de outro, bradem-se argumentos mas não impede que o caos se estabeleça. Depois de se abrirem os braços à rebaldaria,  a   CM de Lisboa vem dizer  quer impor ordem “às esplanadas anárquicas que ainda ocupam as ruas de Lisboa”: Por sua vez, os comerciantes acham que tudo se justifica em nome do “ consumidor que está disposto a pagar mais para se sentar numa esplanada exige conforto”, Lisboa aperta o cerco às esplanadas "feias e caóticas ...

A NOVA LEI DO ARRENDAMENTO URBANO FACILITOU OS DESPEJOS DOS IDOSOS DO BAIRRO E FEZ  DESAPARECER ALGUNS DOS MAIS POPULARES BARES - EM SEU LUGAR, REABRIRAM RESTAURANTES DE  LUXO - QUE OCUPAM AS RUAS COM ESPLANADAS, COMO SE FOSSE TUDO DELES.

MAIS LIMPINHO, AS RUAS MAIS ASSEADAS – MAS TIRARAM-LHE A ALMA – A NOVA LEI DO ARRENDAMENTO FOI A ESTOCADA FINAL 



Os bares mais populares e emblemáticos, encerraram as portas, outros estão condenados a fechá-las – Antes, atribuia-se a culpa  aos novos horários, que passaram a fechar mais cedo.. 
Bares do Bairro Alto passam a fechar às 02.00 - dn -



O BAIRRO ALTO DE HOJE É CADA VEZ MAIS UM BAZAR ARTIFICIAL DE RESTAURANTES PARA TURISTA CÓMODO SE SENTAR E MENOS O TÍPICO BAIRRO ALTO PARA VERANEAR -Sim, antes sujo e livre como estava de que agora aprisionado às etiquetas do colarinho engomado e engravatado.

 

ONDE O ORIENTE OPORTUNISTA E MERCADOR JÁ COMEÇOU TAMBÉM A OCUPAR E A PERVERTER - Compreende-se que assim seja: até porque,  a bem dizer, portugueses de origem, é uma espécie em vias de extinção – Onde está o crédito da banca para fazer face aos poderosos lóbis orientais ou a outros sobas  africanos?!...



                      



ATÉ O SÉTIMO CÉU  FECHOU AS PORTAS MAS JÁ POR LÁ ABRIRAM MUITOS CÉUS ORIENTAIS…



Lamenta-se um frequentador-“ó meu deus - o Sétimo Céu já fechou, já se chamou Bardot e já se voltou a chamar Sétimo Céu. Na original esquina gay do bairro, é um bar simpático e maiorzinho que os daquela zona, tendo o balcão numa primeira sala e uma segunda sala no caminho para a casa de banho. É decorado a divas e a linhas modernas, e uma boa aposta para sentar um bocado com os amigos. Sétimo Céu - Bairro Alto - Lisboa

E também lá se foram as populares noites das “Catacumbas

“Era "um sítio muito aberto a todo o tipo de músicos", mesmo os menos experientes, diz Petra Pais, com Catman uma das vozes de Nobody"s Bizness, banda que nasceu no Catacumbas. Muitos deram os primeiros passos naquele bar

(…)"As pessoas perguntam porquê, porquê", diz-nos Manuel Pais. Por tudo, responde: "A crise, uma certa insatisfação com aquilo que é o público do Bairro Alto, também algum cansaço da minha parte, querer parar um pouco."Acabaram-se as noites de música nas Catacumbas






As prostitutas de rua (anos 70 e 80), já estão reformadas. A profissão não acabou mas confunde-se agora com as legiões dos drogados e das drogadas. A velha alma bairrista foi profundamente agredida e afectada e é claramente já outra. Quem ali vive terá, hoje, certamente, mais a sensação de que a sua tranquilidade é um dado bem menor do que a confusão que prolifera por baixo das suas janelas e varandas – E que dizer de quem tem o azar de viver no rés-do-chão? – Só com as janelas muito trancadas. Mas o barulho que vai lá para o interior, deve ser insuportável.


500 anos do Bairro Alto  Primeiro, chegou a gente ligada ao mar, depois, os jesuítas e, atrás deles, a nobreza, nos seus coches. O Bairro Alto escapou ao terramoto e o fado encheu-lhe as ruas. Com os jornais, a boémia intelectualizou-se. O salazarismo levou o bairro a fechar-se e, só em finais dos anos 70, as novas gerações o descobriram como lugar de transgressão e fuga. Entrou na moda e dela nunca mais saiu". Bairro Alto, uma história concentrada

OS COSTUMES MUDARAM! O MAU E O BOM DO BAIRRO ALTO JÁ NÃO É O MESMO DESDE HÁ ANOS A ESTA PARTE. A DEGRADAÇÃO E A TRANSFIGURAÇÃO DA VIDA URBANA APRESENTA-SE, ALI, NOS SEUS TRAÇOS MAIS GALOPANTES!



LISBOA HISTÓRICA E RELIGIOSA PROFANADAS


“Todo o século XIX, acompanhou a ermida a sorte da família Pombal”(…) Na capela vazia, se encontrava o caixão com os restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo, morto na Casa de Pombal, em 1782”





O TRIBUNAL CRIMINAL DA BOA HORA PASSOU A FUNCIONAR NUM ANTIGO CONVENTO - E, MESMO QUANDO, FOI DESATIVADO, em vez do acontecimento merecer o aplauso geral, pelo contrário: a iniciativa foi marcada pela desaprovação e o desagrado por parte de vários juízes e magistrados.



A CAPELA ONDE BAPTIZARAM POMBAL( E, TAMBÉM, ONDE MAIS TARDE O SEU CORPO FOI VELADO E SEPULTADO ATÉ À TRASLADAÇÃO), BEM COMO A CASA SETECENTISTA QUE A INTEGRAVAM. – CONSTITUEM OUTRO EXEMPLO DE INSENSIBILIDADE E INSENSATEZ CULTURAL.

Todo esse singular conjunto arquitectónico, acabou por ser atraiçoado e profanado na sua essência - num verdadeiro crime de lesa património), culminando por ter os usos mais estranhos àqueles para os quais foram concebidos – designadamente, esquadra de repressão policial – Quais os culpados?! – Quem somos nós para o julgarmos?!.. As mentalidades. Os egoísmos. Os interesses pessoais a sobreporem-se aos valores intemporais ou espirituais.Toda a parte interior do edifício, foi demolida e transformada. Houve obras clandestinas e foram acrescentados pisos para habitação. A esquadra ocupa o rés-do-chão.
O piso inferior (sobreloja) com entrada e face voltada para a Rua de “O Século”, já serviu de armazém industrial e também de depósito das sobras do jornal“A Capital”; actualmente é loja de um comerciante holandês. O 1º andar(onde chegou a estar instalada a sapataria da esquadra) é área de residência e de uma tipografia. Os restantes pisos, todos eles foram destinados a habitação.

Dessa antiga ermida, restam as paredes e uma lápide, inscrita num dos muros, que passa praticamente despercebida; e, lá no alto, ainda a estrutura da antiga torre sineira, onde as badaladas dos sinos chamavam pelos fiéis – Agora, o que soa, por ali, nalgumas noites silenciosas, mais do que as vozes soltas e agrestes, por vezes, são gritos que parecem denunciar alguma violência ou a quererem associar-se a algum coro de protestos (vindo do além) contra tanta ímpia tirania...Isto para já não falar do espírito dos mortos que foram sepultados no Cemitério das Mercês (sobre o qual se edificaram outros imóveis), que dava com as traseiras da antiga igreja, apenas separado pela Travessa dos Fiéis de Deus.
“O Marquês de Pombal morreu pacificamente na sua propriedade em 15 de Maio de 1782. Os seus últimos dias de vida foram vividos em Pombal e na Quinta da Gramela, propriedade que herdara de seu tio, o arcipreste Paulo de Carvalho e Ataíde, em 1713."

"Os restos mortais do Marquês de Pombal foram trasladados para Lisboa, onde chegaram a 1 de Junho de 1856, em honroso préstito. Celebraram-se solenes exéquias, sendo o cadáver depositado na capela das Mercês, pertencente aos marqueses de Pombal. Num mausoléu de mármore figurando um modesto caixão colocado sobre dois desengraçados elefantes, que se vê na capela-mor e no lado direito do altar, se encerra o que resta do grande e notável estadista. Em Maio de 1882 celebraram-se pomposas festas em comemoração do centenário da morte do marquês, tanto em Lisboa, como no Porto e na Universidade do Coimbra." 

OS ANTIGOS BAIRROS ALFACINHAS RESCENDEM DE MISTÉRIOS E ESTÃO CHEIOS DE HISTÓRIAS.

Se as calçadas das suas ruas ou as pedras dos seus edifícios, pudessem falar, oh quantas memórias não teriam para nos contar?! – Porém, mesmo não tendo a certeza que a sua voz não se faça ouvir, avance-se ao seu encontro - de dia ou de noite! Ouçam-se os seus moradores (o que mais ali os prende, fascina ou perturba); atente-se no seu dia-a-dia; nos ruídos que lhes roubam horas de sono ou perscrute-se o silêncio nas horas mais mortas – talvez por isso as mais sedutoras e poéticas! Se o fizer, creia, não se arrependerá: muitas serão as surpresas, com que se deparará, não lhe dando por perdido o seu tempo.

E cada vez mais nos apercebemos desse sentimento: à medida que nos debruçamos sobre as ruas velhinhas do Bairro Alto – nomeadamente, sobre a Travessa das Mercês -, não somos nós que vamos em demanda de um certo passado mas é ele que avança como que, inexoravelmente, ao nosso encontro – Como que clamando ainda por socorro pela ímpia destruição de um antigo templo religioso. 


DIÁRIO DE LISBOA – O EXTINTO VESPERTINO QUE, POR DUAS VEZES, PUBLICAMENTE, OUSOU AS PRIMEIRAS DENÚNCIAS – JÁ LÁ VÃO MAIS DE DUAS DÉCADAS. O ALARME PARECE JÁ TER CAÍDO NO ESQUECIMENTO - MAS NÃO DEVE SER IGNORADO


Não se compreende como toda essa profanação terá ocorrido, mas a verdade é que ocorreu. Mas damos voz a um dos mais prestigiados e combativos vespertinos - o Diário de Lisboa - que se publicou entre 1921 e 1990 - a cuja ignomínia se referiu em dois extensos artigos. O primeiro é de autoria de Raul Rego - Foi publicado em 19 de Julho de 1966. O segundo (não assinado e com alguns excertos daquele), em 17 de Fevereiro de 1971. E a que deu o seguinte título: - Uma casa setecentista destruída clandestinamente

"Ainda que pareça incrível, em Lisboa, continua a construir-se clandestinamente. E não apenas simples abarracamentos, mas construções de maior fundo: andares inteiros. Sem respeito pelo traçado conjunto arquitectónico, aumentam-se casas, abrem-se janelas, tapam-se frestas, desfazem-se documentos de pedra.

Até aqui, porém, a Câmara multava, é certo, mas pouco mais além disso ia. E, dono que se julgava ser só seu, o proprietário de verdadeiros patrimónios da cidade desfazia-lhe a história, o jeito, o gosto, a harmonia ao sabor dos seus privadíssimos interesses: a renda. Todavia, agora, o município, na medida do que pode fazer, ainda com extremas limitações, não se limita a multar: impõe um procedimento de reposição estabelecido na lei. E embora seja difícil refazer o que se desfez, no caso das obras clandestinas, a coisa passa a ser obrigatória, imposta, por aplicação da mesma lei, até aqui considerada pouco mais do que letra morta.

É o caso que nos foi confirmado por um porta-voz da C.M.L. – do proprietário do imóvel existente na Rua de “O Século”, esquina para a Travessa das Mercês (onde em tempos estava situada uma ermida que durante anos esteve aberta ao culto) ter sido intimado a repor tudo como estava primitivamente, em virtude de ter procedido a obras clandestinas.

O imóvel foi vendido em 1940 pela Casa Pombal ao Sr. Alberto Lourenço Lopes. Nele está instalada a 3ª esquadra da PSP, que igualmente recebeu obras de beneficiação. Tudo se fez sem que a C.M.L. tenha tido conhecimento do facto.

É curioso que já em tempos – mais concretamente em 19 de Julho de 1966 – o nosso jornal se referiu ao facto de andarem a fazer obras na capela fidalga da ermida das Mercês, onde foi baptizado o Marquês de Pombal. Sobre o perfil da edificação, Raul Rego, escreveu nessa altura: (ver texto integral de Raul Rego) (…) Pois foi esta casa do “museu da cidade” que as obras destruíram.

O mais curioso é que , clandestinamente, tudo se faz ali mesmo nas barbas da Polícia e exactamente por cima da esquadra das Mercês ( que ainda lá mora)ou se se quiser, 3ª esquadra da Polícia, na linguagem oficial."


MAS, JÁ ANTES, EM 19 DE JULHO DE 1966, O DIÁRIO DE LISBOA, SE PREOCUPAVA COM A SORTE DO REFERIDO EDIFÍCIO, ATRAVÉS DA PENA DE UM DOS SEUS MAIS PRESTIGIADOS JORNALISTAS – RAUL REGO, - , CUJO TEXTO AQUI TRANSCREVEMOS NA ÍNTEGRA, COM A DEVIDA VÉNIA:


CAPELA FIDALGA A ESQUADRA DE POLÍCIA OBRAS NA ERMIDA DAS MERCÊS ONDE POMBAL FOI BAPTIZADO 

Na Rua do “Século”, esquinando a frente para a travessa das Mercês e as traseiras viradas à Travessa dos Fiéis de Deus, ergue-se uma construção que foi ermida aberta ao culto e, de memória do homem, não é senão prédio de habitações, de comércio, de indústrias, onde se instalou, há muitos anos já, a esquadra das Mercês, a 3ª esquadra de Polícia, na linguagem oficial.


Está em obras o prédio, ainda com o seu ar de igreja, apesar de profanada há muito. É como se o santo tivesse virado ímpio, mas sempre por detrás de carinha seráfica. E o facto é que se continua a falar da ermida das Mercês, mas devoção onde vais tu!
Foi erguida no século XXVII, tendo passado por diversas transformações e aguentado muitas ondas e movimentos de terra, das ruas e das gentes. Revoltaram-se as terras de Lisboa em 1755 e a casa e a ermida permaneceram intactas, não lhes mexeu também o caramatelo municipal que andou por ali muitas vezes, e, desde que a esquadra lá está, serena nas suas paredes.

Calada, toda sossego, muito metida consigo mesmo essa casa virada a três ruas, muito teria que contar se um dia alguém se resolvesse a escrever suas memórias, indo arrancá-las aos arquivos municipais e à lembrança das gerações e gerações de moradores ou passantes desde que os Carvalhos enfatuados da Rua Formosa a ergueram. Quantas carruagens ali viraram para ir impetrar, mais adiante, os favores ou a misericórdia dum senhor omnipotente e que tinha pêlos no coração. O silêncio recatado da ermida até parecia encapuchá-la, de forma que ninguém soubesse que o vira menino de dias, a chorar magoado quando o sacerdote lhe derramou a água lustral e lhe meteu na boca o salda fortaleza cristã. Que ninguém o soubesse!

Bem perto, um pouco mais abaixo, nessa Travessa André Valente, em cotovelo, morou um poeta valdevinos e lá morreu.

Chamava-se Manuel Maria Barbosa du Bocage e foi sepultado em cemitério bem próximo onde apodreceu também outro vate chamado Nicolau Tolentino. Há setenta anos os ossos foram removidos a monte para os campos santos de então e sobre as covas de cultores das musas cresceram prédios

Distinguir mais vizinhos ilustres? Onde está hoje o “Século” era o palácio dos viscondes de Lançada, com o salão famoso de D. Maria Krus por onde passou tudo quanto tinha nome na política, nas letras e na sociedade de há cem anos: Garrett; José Estêvão, que morava mais acima, Rodrigo da Fonseca, Fontes e tantos outros. Em frente da porta clássica da capela, na Travessa das Mercês, foi a redacção da “Revolução de Setembro” de António Rodrigo Sampaio, o homem temível do “Espectro”.Dão para essa frente as traseiras do enorme palácio dos Castro Marim e Olhão, de formosa arquitectura e grande pesporrência mas deixado em meio por a vaidade e os olhos dos edificadores serem maiores do que as suas bolsas. É um dos formigueiros de Lisboa com dezenas e dezenas de inquilinos e entre os mais célebres, além da “Revolução de Setembro” já citada, lembremos o Correio Geral, durante muitos anos, a Confederação Geral do Trabalho, o jornal “Batalha” e, paredes meias, as Juventudes Monárquicas.

A Rua do “Século”, a Calçada do Combro, a Travessa das Mercês, essas permaneceram durante séculos quase tão imóveis nas suas vestimentas como a ermida dos Carvalhos. Mas para Norte houve transformações de tomo, como a daquele convento dos Teatinos onde viveram Rafael Bluteau, D. José Barbosa, Tomás Caetano do Bem e D. António Caetano de Sousa que ali escreveu os monumentais 22 volumes da “História Genealógica”.Acha-se transformado em Conservatório Nacional. Todos esses investigadores, nos seus hábitos negros, de olhos no chão, foram gente familiar à ermida e ali terão celebrado ofícios divinos ou por ali terão passado a caminho de algum tríduo, de um arquivo ou a acorrer a moribundo nas vacas da agonia.

A capela dos Carvalhos

Há três séculos que foi construída essa capelinha pequena, anexa a um prédio simples e os dois se interpenetrando e ocupando a parte poente do quarteirão que começava na Rua do Carvalho, hoje de luz Soriano, com o cemitério das Mercês. Edificação simples, sem adornos supérfluos, com uma torre sineira à esquerda do frontão que tem simplicidade e elegância. As costuras, todas em boa cantaria , corriam o pano do lado do Evangelho pela Rua do “Século” fora até à Travessa dos Fiéis de Deus, a cornija lavrada aguentando, na parte traseira, na excrescência posterior, quadrangular, espécie de nova e larga torre. O cunhal que vira à Travessa dos Fiéis de Deus foi cavado, na parte fundeira, torneado, para dar passagem cabonde a essa via.

O que terá levado os Carvalhos e Ataídes, moradores no seu palácio vasto, onde se encontra desde há anos, a Casa da Madeira, a levantar a ermida, não se sabe. Ela servira de culto e era mostra na sua grandeza. Nos panejamentos e paramentos , como nas pedras de armas, dominava sempre a estrela de oito pontas. Amos e criados, vizinhos e relações assistiam aos ofícios nessa capela.

Lá foi baptizado o futuro Conde de Oeiras e Marquês de Pombal, em 6 de Junho de 1699. Nascera em 13 de Maio desse ano no Palácio da Rua Formosa, filho de Manuel de Carvalho e Ataíde, capitão de cavalaria e fidalgo da Casa Real e de sua mulher . D. Teresa Luísa de Mendonça e Melo

Na capela terão oficiado muitas vezes o irmão do marquês, beneficiado da Sé, Paulo de Carvalho e Mendonça, e seu tio Paulo de Carvalho, lente da Universidade e arcipreste da patriarcal. O primeiro foi inquisidor-geral.

Todo o século XIX, acompanhou a ermida a sorte da família Pombal, que alugou a diversas famílias o prédio da Travessa das Mercês. Na capela vazia, se encontrava o caixão com os restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo, morto na Casa de Pombal, em 1782.

Esteve lá dezenas e dezenas de anos, esquecido. Da porta ao lado, resvés do cunhal poente da capela, se entrava e entra ainda hoje para a esquadra de Polícia que era um dos inquilinos, e cujas instalações tomavam o segundo piso da capela já profanada. Só o caixão, a meio do piso térreo, e a solidão pesada, enchiam o ambiente em que outrora houvera esplendores, orgulho, luzes de velas e cânticos religiosos.

Em 1923, os ossos dos marquês saíram finalmente da capela onde fora baptizado para a igreja da Memória, em Belém, no sítio onde em noite tenebrosa o Rei D. José escapara por milagre a uma espera de pistolas e bacamartes. Foi o atentado que deu azo ao marquês para aniquilar a nobreza e lhe britar os ossos e o orgulho.

Saiu o caixão do marquês e a casa Pombal alugou o piso térreo da capela á Companhia Aciática, com ferros e aços, e que depois se consagrou também a produtos químicos. Ainda agora o recinto se acha completamente cheio de bidões e ferros. Quando lá entrámos sobre um acervo de caixotes, um galaroz entoou hino de guerra, a chamar o gerente que se achava fora, junto das obras .

Outros inquilinos vieram e se substituíram no resto das instalações. Sobre a esquadra encontra-se ainda a sapataria da Polícia e, ao lado, instalaram-se a fotogravura União e mais quatro inquilinos além do actual proprietário sr. Alberto Lourenço Lopes que comprou o prédio, em 1940, à Casa Pombal.

A esquadra vai ter entrada pela Rua do “Século”

Vai grande a movimentação no pequeno mundo que os Carvalhos da Rua Formosa ergueram há três séculos. A construção é estalada a todo o comprimento e a meia altura da Rua do “Século” para lhe meterem forte viga de cimento. Outras vigas e pilares vão sendo incrustadas e erguidos para sustentarem a esquadra, o armazém de produtos químicos e os demais inquilinos.
O armazém de piso rebaixado irá até mais de meio do prédio. Muitas terras têm sido levadas para descer a construção dando altura para, no conjunto, ser introduzido mais uma sobreloja para a esquadra, cuja entrada ficará a fazer-se pela Rua do “Século”. Presentemente, só vemos vigas e pilares, paredes ancoradas, novas portas que se abrem no pano de muro virado a poente e janelas que se rasgam a meia altura. Mais de quinhentas sacas de cimento foram atiradas para lá. A estrutura do edifício ficará , todavia, a ser a mesma que lhe deram os arquitectos da família Carvalho, e a frontaria da ermida das Mercês permanecerá a mesma, naquele seu ar calmo, sonso, todo religião, quando nem réstias de lausperene ou de missa cantada, nem um altar, nem uma simples vela de cera, por lá passam há mais de meio século. Onde se afundou já o tempo do grande Marquês, dos frades, dos inquisidores dos poetas! Por detrás da face da igreja estão o armazém do comerciante e as instalações da Polícia" - A entrada para a esquadra continuou a fazer-se pela Travessa das Mercês.