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sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Maria Madalena de Azeredo Perdigão – Memória e Voz de um Rosto: - Criativo, Dinamizador, Tutelar e Mítico da Fundação Gulbenkian: Decisivo a nível da sua expansão e do meio artístico português e internacional (Figueira da Foz, 28 de Abril de 1923 – Lisboa, 5 de Dezembro de 1989) “Tenho uma grande satisfação do trabalho que faço!...Dá-me uma grande alegria e é com o maior entusiasmo, que eu o realizo!.. – Declarou-me, um ano antes da sua morte, a propósito da 3ª edição dos ENCONTROS ACARTE -

Registo sonoro e em texto

Jorge Trabulo Marques - Jornalista - Antigo repórter da RDP - Rádio Comercial 

Entrevistei-a, no Centro de Arte Moderna, nos finais de Julho ou princípios de Agosto, de 1988, a poucos dias da estreia dos ENCONTROS ACARTE –  A entrevista, que conservo nos meu vasto arquivo de memórias de um repórter, destinava-se à 24ª Hora da ex-RDP-Rádio Comercial: - Já lá vão quase três décadas, mas é-me difícil esquecer-me desse honroso e gratificante momento, nomeadamente do seu rosto: pois, ao copiar a cassete de um gravador para a digitalizar em vídeo (sim, e  tenho pena da parte que se perdeu), até me parece que esse diálogo, foi registado ontem: revejo a sua espontaneidade, a naturalidade dos seus  sorrisos, a força interior do seu ânimo e  afabilidade, a prontidão e sinceridade nas suas respostas  e até o ambiente das vozes que havia em redor.

Na verdade, dialogar, com Maria Madalena Perdigão, é algo inesquecível, que só poderá ser verdadeiramente compreendido, por quem com ela privou: até porque, tal como seu marido, José de Azeredo Perdigão , que também entrevistei noutra oportunidade, cujo registo também consta neste mesmo site (Azeredo Perdigão, o que me revelou quem seguisse, com atenção, os seus percursos, na Fundação Gulbenkian, creio que ficaria, igualmente, com a singular impressão de  como se o destino os houvesse superiormente  talhado, um para o outro,   nas suas intrínsecas virtualidades e complementaridades,  pois, tanto  ele,  no papel de Presidente Vitalício da Administração, como  ela, a primeira diretora do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian, na suas várias vertentes (cargo que exerceu até Outubro de 1974. (curiosamente, quando casaram, em 1960, ambos estavam viúvos) , continuam ainda a ser  hoje a  imagem  das traves mestras da mais importante, da emblemática  fundação Calouste Gulbenkian 

Referindo-me à ação especifica de Maria Manuela Perdigão,  tal como é publicamente reconhecido,  “ a sua ação foi decisiva para a integração e consequente afirmação da atividade musical da Fundação no meio musical português e internacional, o que se manifestou quer na criação de agrupamentos artísticos permanentes Orquestra Gulbenkian em 1962, Coro Gulbenkian em 1964, e Grupo Gulbenkian de Bailado, mais tarde Ballet Gulbenkian, em 1965 – quer na produção de concertos de primeiro plano artístico – Festival Gulbenkian de Música entre 1958 e 1970 e Temporada de Música e Dança a partir de 1971, quer ainda num vasto programa de bolsas de estudo, apoios à criação e à produção artística, encomendas a compositores nacionais e estrangeiros, apoio à investigação musicológica, edição de livros e discos e realização de cursos intensivos e master classes."

"Entre 1971 e 1974, presidiu à Comissão Orientadora da Reforma do Conservatório Nacional External Link de Lisboa e, entre 1971 e 1984, ao Grupo de Trabalho para a Restruturação do Ensino Artístico. A sua passagem pelo Ministério da Educação no final da década de 70, em posição de especial responsabilidade, viria a levar à adoção definitiva do princípio da integração transversal do ensino musical no sistema educativo a todos os seus níveis. Em 1977, foi eleita Presidente da Direção da Associação Portuguesa de Educação Musical. Em 1983 regressou à Fundação Calouste Gulbenkian para assumir as funções de diretora do recém-criado Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte – ACARTE, no Centro de Arte Moderna. A sua direção do ACARTE impulsionou uma abertura inovadora às tendências estéticas da vanguarda da década de 80 no domínio das artes performativas, incluindo as de natureza multidisciplinar e multimédia.
Maria Madalena de Azeredo Perdigão foi uma personalidade marcante no âmbito da modernização e internacionalização da vida musical portuguesa da segunda metade do séc. XX, manifestando uma preocupação de acompanhamento e promoção de repertórios e tendências inovadoras em domínios como a música antiga, a música contemporânea, a musicologia e as pedagogias artísticas modernas” – Excerto de. https://gulbenkian.pt/musica/biography/maria-madalena-de-azeredo-perdigao/
"Madalena Perdigão desenvolveu um diversificado trabalho em prol da cultura portuguesa durante o período do Estado Novo e de entrada na democracia e na Comunidade Económica Europeia, tendo sido criadora e Directora do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian durante 17 anos (entre 1958 e 1974), local onde fundou a Orquestra, o Coro e o Ballet Gulbenkian, bem como os prestigiados Festivais Gulbenkian de Música. Ao seu currículo juntam-se a presidência da Comissão Orientadora da Reforma do Conservatório Nacional, entre 1971 e 1974, a direcção do Gabinete Coordenador do Ensino Artístico do Ministério da Educação, de 1978 a 1984, a criação e direcção do Serviço ACARTE, de 1984 a 1989, e a criação do Centro Artístico Infantil da Fundação Gulbenkian, entre outros projectos de relevo.  https://run.unl.pt/handle/10362/14576



"A ENTREVISTA  - "Tenho uma grande satisfação ao trabalho que faço! O trabalho que  faço dá-me uma grande alegria e é com o maior entusiasmo, que eu o realizo!.

O repórter  Jorge Trabulo Marques 
OBJECTIVO DOS ENCONTROS ACARTE

MMP -O objetivo principal é contribuir para a integração de Portugal no contexto europeu. Portanto, é uma iniciativa de cariz europeizaste, tendente a definir o ideal europeu, e, como disse, para consolidar a integração de Portugal no contexto de Portugal da Europa
JTM – Várias iniciativas vão ter lugar: teatro, dança, música: começando pelo teatro: peças de autores portugueses e teatro da Europa. No caso português, temos uma peça de Mário Cláudio. Gostaria que se referisse e essa peça.
MMP – É uma peça com relações aos descobrimentos portugueses, baseada na personagem de Vasco da Gama - Leonardo. Tem a ver com o Oriente: chama-se mesmo a Ilha do Oriente, que vai ser levada à cena, produzida pelo Filipe Lá Féria, com uma estética, que ele pretende que seja indiana!... Portanto, deve ser bastante inovadora e muito interessante.

JTM – Inserida no contexto das comemorações dos descobrimentos, naturalmente…Qual é o objetivo?
MMP – O objetivo é esse  mas não temos nenhum apoio da respetiva Comissão,
JTM – É apenas uma iniciativa da Fundação.
MMP – Sim.

JTM – Em relação ao teatro europeu, digamos: várias iniciativas vão ter lugar: pelo teatro de vanguarda? Pelo teatro experimentalista?... Gostaria que se referisse a isso.

MMP – Bem, a estrela vai ser Tadeusz Kantor, da Polónia! A companhia do Tadeusz Kantor vai ser a estrela do festival; realmente é uma companhia que já trabalha há 20 anos e que nunca se tinha apresentado no nosso país e cuja presença  nos custou bastante a assegurar: - É uma companhia muito solicitada por todo o mundo!.. E, como digo, foi muito difícil trazê-la aqui a Portugal. Estou muito satisfeita por isso....Temos também uma companhia...
JTM – Mas ainda em relação a essa companhia: é um teatro poético, visionário!… místico?!... Alguns pormenores sobre esse teatro.
MMP – O  Tadeuz Kantor rompeu com as convenções teatrais existentes!.. Faz um teatro muito próprio!... Diferente!... E um teatro muito baseado no artista plástico, que ele também é: ele pinta, desenha!... Nós temos a esperança de poder apresentar uma série de desenhos de Tadeusz Kantor… E, portanto, o aspeto visual é muito importante  nas encenações deste artista.

JTM – A Drªa queria referir-se a outras peças…
MMP - Por exemplo,   La Partana: é o teatro de uma companhia espanhola- este ano, por exemplo, conseguimos assegurar a presença espanhola nos encontros - é uma companhia espanhola, que tem como espetáculo (de que tenho as melhores referências)  com peças de Heiner Müller !... E há também outras companhias, cujo teatro se situa numa área multidisciplinar! Que utilizam técnicas de outras disciplinas: uma delas, por exemplo, Need Campaign, que apresenta uma peça "Sává", em que nós somos co-produtores....Eu gostava de salientar este aspeto das coproduções internacionais, que atualmente estão num caminho muito importante!... Porque, montar um espetáculo pela primeira vez,  é caríssimo! Tem custos elevadíssimos!... E, portanto, os teatros e os festivais europeus associam-se a poderem apresentar uma determinada peça: ora, nós associámo-nos  (… ) para apresentarmos esta peça, garantindo à partida que a peça seria incluída no programa dos ENCONTROS

Portanto, contribuímos para a produção. Com uma verba x, mas não temos  que pagar os honorários para a apresentação, aqui em Portugal, dessa mesma peça!... Que tem tido muito sucesso na Europa (… ) em que os bonecos de S. Lourenço, figurarão também como luminotécnica!... Eu tenho muita esperança que seja um espetáculo sensacional!...E, depois, na segunda parte, haverá  os retábulos do Mestre Pedro, de Manuel de Falha, pelos  Bonecos de São Lourenço.

JTM – Sra. Dr: - Sabemos que é a grande impulsionadora dos ENCONTROS ACARTE: isso naturalmente que lhe rouba muitas horas, muito trabalho!.. É um grande esforço!...  Mas, sente-se compensada, sente-se estimulada, por levar a cabo estas iniciativas?...

MMP – Ah, com certeza!... O mais possível!... Tenho uma grande satisfação ao trabalho que faço!.. O trabalho que  faço dá-me uma enorme alegria e é com o maior entusiasmo, que eu o realizo!...
JTM – Gostaria de ir mais longe!... Gostaria que eles ainda tivessem  uma expressão maior?... Há algumas dificuldades que impeçam, digamos, que eles não tenham uma outra expressão?...

MMP – O programa, deste ano, eu acho que me satisfaz!... É claro que é sempre possível fazer melhor … Mas, o programa, deste ano, eu acho que é realmente satisfatório… E,  eu ter conseguido essas duas companhias, a que eu me referi, Tadeusz Kantor e Pina Bausch, dão realmente um relevo muito particular ao programa!... É sempre possível fazer melhor, e claro… E eu perspetivarei, nos próximos anos, melhorar ainda o programa, sobretudo na parte portuguesa… Eu gostaria de desenvolver a participação portuguesa, nos ENCONTROS, mas é muito difícil!... Estabeleci vários contatos e realmente não resultaram… É muito difícil!... O teatro português, está, de certa maneira, em crise, não é… E portanto, é muito difícil conseguir a colaboração portuguesa.

JTM – Ainda há pouco falava das condições humanas, em que vivem certos autores e a que fundação tem dado realmente o seu apoio.
MMP – Sim, nós temo-nos esforçado, contribuído, o mais possível, para desenvolver o teatro, mas , é claro, os ACARTE têm uma vocação multidisciplinar! Não pode ser só teatro, não é…  Tem de ser teatro!...Dança!... Marionetas!... Colóquios!... Tudo isso!... Não podemos só estar a apresentar peças de teatro mas quando as apresentamos, fazemos o possível que as representações tenham qualidade!... Fazemos o possível por pagar, condignamente, aos atores!… Enfim, dentro das nossas disponibilidades orçamentais.

JTM – Sra Drª: os ENCONTROS ACARTE, surgiram há quanto tempo?
MMP – Esta é a terceira edição.
JTM – Se tivesse que fazer um breve balanço, como última pergunta, o que é que diria, digamos, assim...

MMP – Eu tenho a impressão de que os primeiros encontros... como é que eu hei-de dizer... foram uma novidade!... Tiveram um impacto extraordinário!... O Povo Português estava longe de saber o que é que se passava de novo no domínio do teatro e da dança na Europa,!...e tiveram um impacto extraordinário!... Assim, como uma bomba que estalou!... E que repercutiu! …  e que as pessoas apreciaram muito!... Os segundos, foram ligeiramente menos inovadores!...Estes terceiros, acho que vão ser muito bons!.
..
JTM – Estamos em presença de uma bola de neve, digamos, que irá aumentando de volume e que irá ganhando força, sucessivamente…
MMP – Não sei dizer… Também não é aconselhável ir para além  desses limites!… Depois as pessoas também não conseguem absorver, não é…. Quer dizer, eu acho que está bem o Festival, com dez, onze  ou doze dias, está bem!... porque, o que interessa é que as pessoas, venham! Que convivam!... Que apreciem!... Que estabeleçam contactos com os artistas! E entre si.. Há seminários!.. Há sessões de vídeo!... Quer dizer, o que interessa, é criar um clima!...Eu acho que não se aguenta, se...
JTM – ... Sim, como estamos, em férias!
MMP – E as pessoas também querem repartir o tempo por outros lazeres….
JTM –Por outros lazeres e por outras iniciativas… Olhe, tivemos muito gosto.
MMP – Muito obrigada pelo seu interesse.

OPINIÕES “SER PÓS-MODERNO ENTRE O FRÁGIL E O ACARTE.”


"Entre “Ser Pós-Moderno Entre o Frágil e o Acarte” : a proposta identitária que a afirmação que dá nome a este painel alberga "Ser pós moderno"  coloca dois lugares da cidade de Lisboa em relação e fá-lo por via de uma circulação, de um entre. Os lugares são a discoteca Frágil, no Bairro Alto, aberta por Manuel Reis em 1982 e o Serviço ACARTE, Serviço de Animação, Criação Artística e Educação pela Arte da Fundação Calouste Gulbenkian fundado por Maria Madalena de Azeredo Perdigão em 1984, um ano depois do Centro de Arte Moderna abrir, e nele sediado. 

(..) Como refere Nuno Grande (GRANDE 2009), a década de 80 em Portugal, aparece como que cortada ao meio: por um lado, o pedido de auxílio financeiro ao FMI em 1983 e um crescente afastamento dos resquícios do pós-revolução; e, por outro, a eufórica adesão à União Europeia em 1985-1986 com as pressões de construção de uma “portugalidade” capaz de figurar numa mitificada Europa.
Mais do que procurarmos aqui uma definição estável de que ser pós-moderno possa ser esse que se é ou se quer ser, ou mesmo uma caracterização sociológica dos seus sujeitos (esses, que seriam pós-modernos), gostaríamos de tentar olhar para estes lugares, debruçando-nos em particular sobre o segundo, o ACARTE, enquanto espaços activos numa produção de processos de subjectivação em curso [3], reparando que parece haver características que os unem.  http://www.revistapunkto.com/2014/09/ser-pos-moderno-entre-o-fragil-e-o_45.html


Revista da Dança “DUAS DÉCADAS SEM MADALENA PERDIGÃO (1923-1989)  - Por António Laginha

(…) A sua figura parece ter surgido no momento certo (para a Dança e para a Música) na vida da jovem Fundação e, aparentemente, também na do seu Presidente do Conselho de Administração.
A Dr.ª Madalena era vista essencialmente como uma figura tutelar e, em simultâneo, uma mulher elegante, requintada, de fina inteligência e muito poderosa, que marcava presença, frequentemente, ao lado do seu marido, nos eventos da Fundação.

Em relação aos artistas do Ballet Gulbenkian, ainda antes de se ter retirado da direcção do Serviço de Música, era tida como uma figura semi-invisível. Mesmo quando administrava a companhia raramente descia aos estúdios e espaços ocupados pela dança. Quanto muito, espreitava com extrema discrição, algum ensaio de palco do camarote presidencial atrás das cortinas e aparecia nas estreias com o marido. Pode-se, mesmo, dizer que havia um certo mistério à sua volta. Após a sua saída da Fundação a sua influência nos destinos do Ballet Gulbenkian não era nada clara. Nos anos a seguir ao 25 de Abril, em que a companhia começou a renovar-se devido a uma política artística que parecia passar pelo fomento de uma geração de bailarinos portugueses – enérgicos e muito empenhados no seu trabalho – e alguns coreógrafos de uma nova safra, ela continuava (fora) a ser a mulher do presidente vitalício e (dentro), a ter pessoas da sua confiança a trabalhar na instituição. Para os artistas mais maduros do elenco, a sua “sombra” nunca abandonou o grupo de dança. Referiam, amiúde, que os problemas que se verificavam no quotidiano do BG, primeiro gerido por sucessivas Comissões Artísticas, após a saída de Sparemblek, e, posteriormente, por Jorge Salavisa, ‘seriam resolvidos de imediato pela mão sábia da Dr.ª Madalena, não tivesse ela sido saneada’ ! Havia, pois, todo um capital de confiança e uma aura de competência e eficiência que se não desvaneceu. Ao contrário das “novas caras” que se apoderaram do BG que pareciam ter uma atitude mais mercantilista e menos emocional em relação aos artistas!

Após dez anos de uma condição que a própria afirmava ter sido uma espécie de ‘interregno’ na sua carreira mas que se dizia ter sido forçada a tal – apesar de Madalena Perdigão nunca ter deixado de ser a omnipresente mulher do Presidente de Administração da FCG – a “demitida” directora do Serviço de Música recupera a acção directa e o brilho. Reaparece com uma posição que fazia crer (ou pretendia) ser algo ‘marginal’ dentro da própria Fundação, sem grande alarido e com um novo tipo de estatuto. E logo, justamente, com um trabalho que foi, a todos os níveis, notável e reconhecido dentro, mas sobretudo fora, das paredes da FCG. Esse longo período de ‘reflexão’ a que, voluntaria ou involuntariamente se obrigou, sobre as artes no Mundo, fê-la, depois, trazer a Lisboa alguns homens ligados às ‘novas tendências europeias’ com os quais gizou a criação de um novo ‘filho gulbenkiano’, o chamado ACARTE. Esse outro impulso imprimido às artes performativas em Portugal, foi testemunhado por toda a Lisboa quando, durante anos e anos, se passava junto do edifício da Praça de Espanha e os consumidores de uma “nova vaga de espectáculos vanguardistas” davam  a volta ao quarteirão para assistir – fora do edifício principal – ao que de melhor e mais expressivo, então, se fazia na Europa e no resto do Mundo. (…)

Até fim da sua vida o casal Perdigão sempre exibiu uma postura a que habituou todos os que frequentavam os eventos da Fundação. Por ironia do destino, algumas vezes dava a impressão (muito positiva, aliás) que Madalena Perdigão quase ‘arrastava’ o marido – já de uma provecta idade – para os espectáculos do Ballet Gulbenkian. Mostrava, assim, o seu amor pela dança e a sua admiração pelos bons profissionais – os melhores do País – a que a Fundação dava trabalho. Mas já na recta final, muito afectada pela doença que a vitimaria, aparecia nos eventos do ACARTE, com o mesmo brilho nos olhos mas amparada pelo fiel marido

Habituei-me, desde jovem, a associar o nome de Madalena Perdigão a uma das principais referências na área da Cultura em Portugal. Foi ela que me proporcionou o acesso aos eventos culturais que a Fundação oferecia na década de 60 e 70, incluindo as temporadas do Grupo Gulbenkian de Bailado – no Grande Auditório – e as digressões ao Sul do país, para além dos concertos de música erudita.

Também devido a ela aprendi a gostar de Dança e a ver toda a espécie de exposições, desde pintura até à escultura, passando pela fotografia e arquitectura, quando frequentava a Escola Superior de Belas Artes, de Lisboa.

Foi com ela que o nosso País, nesses anos de grande isolamento, apesar de tudo, foi podendo ver alguns dos maiores vultos mundiais no campo da música e da dança. A criação do Ballet Gulbenkian, da Orquestra e do Coro e, duas décadas depois, do Serviço ACARTE, com os espectáculos de vanguarda na Sala Polivalente do CAM, conferência e oficinas artísticas, concertos à hora de almoço e toda uma panóplia de eventos avulsos e ciclos de programas culturais (dos quais, naturalmente, se destacavam os estivais Encontros ACARTE) só podiam ter partido de uma mulher multifacetada cuja formação académica estava ligada às ciências exactas mas que, inteligentemente, soube alargar os seus horizontes para uma área que igualmente dominava na perfeição: a Música.
Tanto ela como o marido, faziam a diferença, quer na qualidade artística com que agigantaram a Gulbenkian, quer na postura de abertura de portas que sempre demonstraram enquanto estiveram à frente da instituição.- António Laginha  - Lisboa, Dezembro de 2009 Excerto de  http://www.revistadadanca.com/?p=1454

Emílio  Rui Vilar - Em FACES DE EVA - ESTUDOS SOBRE A MULHER (...) Conheci Madalena em Coimbra, logo no meu primeiro ano da Universidade, quando fui escrever-me como sócio do Círculo de Cultura Musical, que ela dirigia. Não esqueço a beleza e a inteligência que irradiava. 

Como já referi noutra ocasião, "as instituições, mesmo as mais austeras, são também feitas dos sentimentos pessoais'", e a Fundação Calouste Gulbenkian acabou por ser o palco de um dos romances mais inesperados de figuras públicas do século XX português. Ainda a Fundação estava instalada no seu primeiro domicílio provisório, em 1957, quando Madalena visita aquele que viria a ser o seu segundo marido, José de Azeredo . Perdigão, o primeiro presidente da Fundação, num encontro que seria o início do que Eduardo Lourenço chamou de "o romance dentro do romance" ou de "tão romanesco como romântico''3. .


Madalena, recentemente enviuvada de um dos primeiros bolseiros da Fundação, o Assistente da Faculdade de Ciências de Coimbra João Farinha, vai, acompanhada pelo pai, agradecer pessoalmente a atenção especial com que a Fundação tinha tratado o seu marido. José de Azeredo Perdigão, também ele viúvo, recomenda a Madalena o recurso ao trabalho como uma das formas mais eficazes para ultrapassar a dor. Seguramente por um impulso, mas também pela intuição que o caracterizava, de acordo com o registo da própria Madalena Perdigão, José de Azeredo Perdigão convida-a imediatamente para trabalhar na Fundação: "Não tenho aqui na Fundação Calouste Gulbenkian, que acaba de ser criada, lugar para uma matemática. Porém, na música, está ainda tudo por fazer e terei o maior gosto na sua colaboração'". 

Madalena, embora fosse licenciada em Matemática, com distinção, pela Universidade de Coimbra, manteve sempre um interesse paralelo, desde muito nova, pela música, pela expressão artística e pela divulgação cultural, para o que terá contribuído a educação que recebeu de seus pais, Lídia Maria de Jesus Bagão da Silva Biscaia e Severo da Silva Biscaia. Da mãe terá recebido a paixão pelo piano e pela música, enquanto do pai, herdara o interesse pelo teatro. Tudo isto fez com que passasse pela aprendizagem e interpretação de piano, tendo concluído o Curso Superior de Piano pelo Conservatório Nacional de Lisboa, pela representação teatral, pelo ensino informal de história da música ou até pela responsabilidade por um programa radiofónico, na Emissora Nacional, designado "A música e os seus sortilégios"5. O nome deste programa foi porventura profético e, em Fevereiro de 1958, Madalena Perdigão aceitou o desafio do primeiro Presidente da Fundação com quem passou a colaborar directamente na elaboração da estratégia de intervenção da Fundação no domínio da Música, tendo sido· Directora do Serviço de Música desde a sua criação, em 1958, até 1974. Madalena casou com José de Azeredo Perdigão, em 6 de Novembro de 1960, tendo adaptado o apelido do seu marido a partir de então. 

Não é possível escrever, por isso, a história da acção da Fundação no domínio da Arte sem Madalena Perdigão, responsável pela redacção do primeiro plano de actividades para o que viria a ser o Serviço de Música e que assentava em quatro eixos prioritários: 1) acção para o desenvolvimento da acção musical, através da atribuição de subsídios a escolas de música, a concessão anual de bolsas de estudo, tanto a alunos dos conservatórios e escolas de música oficializadas, corno a jovens músicos em início de carreira, e a organização de actividades destinadas a profissionais; 2) preservação e divulgação do património musical português do passado, através da inventariação e catalogação dos fundos musicais existentes, da edição de partituras e gravação de discos com algumas dessas obras, da publicação de estudos musicológicos e do restauro de órgãos antigos; 3) incentivo à criação musical, através de um plano de encomendas a compositores portugueses e estrangeiros de maior prestígio, da realização de concursos de composição e a apresentação de obras contemporâneas, em primeira audição mundial ou portuguesa; 4) atribuição habitual de subsídios a outras entidades, para as mais diversas finalidades de educação e cultura musical". 

Este foi o projecto de acção delineado por Madalena Perdigão para a Fundação Calouste Gulbenkian - um "autêntico programa de política cultural para a música"? - e que transformou o panorama cultural português da época mediante a concretização de iniciativas tão marcantes como os "Festivais Gulbenkian de Música", cuja primeira edição, logo em 1956, foi devida a uma iniciativa da marquesa de Cadaval, mas cuja continuação, desde 1958 até 1970, resultou do impulso e organização de Madalena Perdigão, com indicadores que impressionam, sobretudo se considerarmos o período da história de Portugal em que se inseriram: por exemplo, de 4 espectáculos realizados, apenas em Lisboa, em 1957, passou-se para 85 espectáculos, em 19 localidades. em 1970, numa clara demonstração de uma tendência para .a descentralização. Se os espectáculos e os concertos seriam porventura a face mais visível da intervenção da Fundação nesta área, a par da orquestra, do coro e da companhia de bailado, outras foram igualmente estruturantes para a materialização de um tecido musical sustentável de que ainda hoje sentimos os resultados. Na área da investigação e edição museológicas, destaca-se a colecção Portugaliae Musica, que pela primeira vez cataloga os arquivos públicos de música e disponibiliza os cancioneiros do século XVI, os polifonistas do século XVII, a música concertante  e as peças musicais do século XVIIII, com a Fundação a promover igualmente ~ gravação de essas obras, algumas das quais premiadas internacionalmente ª. 

O programa de bolsas de estudo e de formação, em Portugal e no estrangeiro, como nos afirma a própria Madalena Perdigão, "foi determinante para a formação de muitos estudantes portugueses de música, como os compositores Maria de Lourdes Martins e Jorge Peixinho, os pianistas Sequeira Costa e Maria João Pires, ou o violinista Gerardo Ribeiro. 

A política de encomendas a compositores foi igualmente um veículo privilegiado da intervenção da Fundação que permitiu que nomes tão consagrados como Darius Milhaud (Musique pour Lisbonne), Iannis Xena-· kis (Nuits, Cendrées), Olivier Messiaen (La Transfiguration de Notre Seigneur Jésus Christ10), Luciano Berio (Recital, Ofanim, Sequenza XIV, Recital for Cathy) ou Karleinz Stockhausen (Evas Zauber) fossem convidados a compôr obras musicais originais, algumas com estreia absoluta mundial em Portugal, o que despertou o interesse de muitos críticos internacionais que visitavam a Fundação, como Bernard Cavoty, do Figaro, Maurice Fleuret, do Nouuel Obseruateur, Antoine Goléa ou Jacques Lonchampt, do Le Monde11• 

Esta preocupação com o cosmopolitismo e com o desenvolvimento progressivo da cultura musical portuguesa estiveram na base das propostas de criação da orquestra Gulbenkian, muito devido também às lacunas nacionais nessa altura. Em 1989, Madalena Perdigão afirmava retrospectivamente:

"Não fui nomeada Directora do Serviço de Música, no início da minha entrada na Fundação  Caloute Gulbenkian, mas aprendi desde logo o plano de actividades o que viria a ser esse Serviço. Devo dizer-lhe que  de que a fundação da Orquestra,  do Coro e do Ballet não constavam desse esquema, pois a ideia da respectiva criação surgiu a pouco e pouco, à medida que fui verificando as lacunas do meio musical português. O recurso sistemático  à colaboração de agrupamentos estrangeiros parecia-me errado e nada gratificante para a cultura portuguesa. Nessa altura as disponibilidades orçamentais eram bastante amplas e não tive dificuldade em fazer aceitar  as propostas da criação  a Orquestra e do Coro Gulbenkian. Já quanto ao Ballet as dificuldades foram grandes, porque havia uma rejeição ao ingresso de bailarinos no Quadro de funcionários da Fundação. Lembro que a Orquestra Gulbenkian começou com onze elementos, que se apresentaram tocando de pé, sob a Direcção do Maestro Lamberto Baldi. Os meus objectivos eram ambiciosos, mas não a curto prazo. Foi pouco a pouco que os projectos se desenvolveram" - Excerto de FACE DE EVA - Revista de Estudos sobre a Mulher - Novembro 21 2009

Pedro Paulo Biscaia de Azeredo Perdigão: Em FACES DE EVA - ESTUDOS SOBRE A MULHER 

Lembro-me muitas vezes ao longo da vida - de a minha Mãe me contar que logo após o. meu nascimento esteve a morrer.

As enfermeiras colocaram-me então junto dela, para que o meu choro fosse de alguma forma um estímulo que a fizesse agarrar à vida que, naquele momento, estava a esvair-se ... De facto, assim aconteceu e esta ideia nunca mais me abandonou: o meu choro trouxera a minha Mãe de volta.

Nascida na Figueira da Foz em 28 de Abril de 1923 (é a mais velha de três irmãs), foi criada e educada entre dois focos aparentemente contraditórios: a república e o catolicismo.

Meu avô, Severo da Silva Biscaia, juntamente com seu irmão, António Biscaia, era republicano convicto e opositor de Salazar. Minha avó, Lídia Maria de Jesus Bagão da Silva Biscaia, católica praticante. Dos meus avós recebeu uma educação particularmente dura, quase espartana.

Evidenciando serenidade no rosto e nos gestos, tinha, porém, uma força interior e uma determinação desmedida. Perante as adversidades - que as teve e muitas durante os seus 66 anos de vida - crescia, agigantava-se, vencia, vencia-se.

Várias vezes me questionei: como é possível ter tanta força, resistir para além de todos os limites, lutar titanicamente nas mais variadas frentes, e sem nunca dar um simples sinal de fraqueza ou cansaço?

"Não tenho medo de nada", costumava dizer com um sorriso rasgado. A fé em Deus recebida pela via materna e a auto-disciplina e o rigor incu tidos pelo pai moldaram-lhe o carácter férreo que detinha.
 De entre as inúmeras histórias da sua infância, recordo uma que ilustra como desde muito cedo o seu espírito de liderança e a sua inteligência já se afirmavam.
 Frequentava uma escola particular, quando a certa altura os meus avós tiveram de a retirar por não lhes ser possível suportar as despesas que a mesma acarretava.
 Dias depois, a professora desloca-se a sua casa pedindo o regresso da aluna.
 A ausência de minha Mãe prejudicava a turma, já que o rendimento escolar da sala diminuíra. Perante isto, os pais das outras crianças quotizaram-se para custear as suas mensalidades.

 Este gesto permitiu-lhe continuar a estudar.
 Licenciou-se em Matemática com distinção, mas o seu grande amor era a música.
 Começou a aprender piano aos 7 anos de idade, e fazia-o apaixonadamente.
 Frequentou o Instituto de Música de Coimbra, e concluiu o Curso Superior de Piano pelo Conserva tório Nacional de Lisboa. Iniciou uma carreira de pianista que se avizinhava promissora. No entanto, um acidente de origem nervosa impediu-a de mover um dedo e, consequentemente, de voltar a tocar piano.
 Mas este facto não fez dela uma pessoa revoltada. Abandonou o piano, mas não a música.
 No entanto, era assunto que não gostava de abordar.
 Questionada numa entrevista se alguma vez voltaria a tocar piano, respondeu "talvez um dia quando for avó, e os meus netos me peçam para tocar, o faça!"1•

Não chegou a conhecer nenhum dos meus três filhos, mas tenho a certeza de que cumpriria a sua promessa. Soube, quinze dias antes de morrer, que iria ser avó, desejo que sempre acalentou. Hoje, junto de mim, cresce uma outra Madalena, que me ajuda a sublimar a perca sofrida, que a vida e o tempo se encarregam de esmorecer.

Directora do Serviço de Música da Fundação Calouste Gulbenkian desde 1958, é por sua iniciativa e sob o seu impulso que aquela instituição cria os 3 agrupamentos artísticos: Orquestra (1962), Coro (1964) e Ballet (1965/2005), que "tão decisiva e fundamentalmente têm contribuído para a animação e dinamismo da vida cultural em todo o país"•

Os aludidos agrupamentos artísticos não só catapultaram o prestígio e o reconhecimento da Fundação Calouste Gulbenkian a nível nacional, como também o fizeram a nível internacional. Pode mesmo dizer-se que os agrupamentos artísticos exerceram o papel de verdadeiros embaixada-res de Portugal além fronteiras, dignificando o país e a cultura lusa, assim como a instituição sob a égide da qual foram criados.

"Ao propor a criação da Orquestra, Coro e Ballet Gulbenkian, o meu principal objectivo foi o de criar estruturas para O desenvolvimento progressivo da cultura musical portuguesa. Vistos os resultados, creio que esses objectivos foram alcançados"3, refere Madalena Perdigão em 1989 numa entrevista conduzida por João de Freitas Branco.

Numa tomada de posição arrojada, Madalena expõe as suas ideias (nem sempre consensuais, diga-se em abono da verdade) e questiona-se sobre o que seja, afinal, a Fundação Calouste Gulbenkian:

"A Fundação é, em primeiro lugar a colecção de Arte constituída pelo Senhor Calouste Gulbenkian. Em segundo lugar, a Fundação é o Museu construído para abrigar a colecção e para a oferecer aos olhos do público. Em terceiro lugar, a Fundação é a distribuidora de benesses repartidas pelos seus quatro fins estatutários. Enunciado assim o problema, parece indiscutível que, por fidelidade às tendências manifestadas pelo fundador, e dentro dos seus fins estatutários, a Fundação deverá ser em primeiro lugar «Arte», com prioridade para as Artes Visuais ( ... ). Este pensamento norteou, obviamente, a elaboração do programa de construção dos edifícios da Sede e Museu".

E depois conclui de um modo que me parece sobremaneira consistente:

"( ... ) fazer viver os Auditórios implica organizar concertos, recitais, espectáculos de ópera e de ballet, promover conferências e encontros - debate sobre assuntos de música e bailado. Estes programas podem realizar-se, quer recorrendo a artistas e a agrupamentos convidados, quer através da actuação de agrupamentos próprios. Tem o Serviço de Música adoptado uma solução de compromisso que corresponde àquilo que julgou mais adequado às realidades e às necessidades do meio cultural português".

Esta dicotomia entre actividades directas e indirectas acompanhou a vida da Fundação Calouste Gulbenkian desde o início, ao ponto de Emílio Rui Vilar considerar que esta "natureza mista faz parte do código genético da Fundação"

(...)"A medida que os festivais se sucedem, sobe a fasquia da qualidade e da exigência da sua programação. Assim se explica a presença das grandes orquestras e figuras da música da época, entre as quais destacamos, as Orquestras Filarmónicas de Berlim, de Filadélfia e de Viena, a New Philharmonia de Londres e a Orchestre de Paris; grupos corais como o Coro da RIAS de Berlim e o Bach Choir de Londres; companhias .de dança contemporânea, como o Ballet du xxeme Siécle, dirigido por Maurice Béjart, o Alvin Ailey American Dance Theater e o Nederlands Dans Theater", sendo certo que "os principais intérpretes portugueses de música erudita, com destaque para as Orquestras Sinfónicas da Emissora Nacional e do Porto, e para os Maestros Pedro de Freitas Branco e Silva Pereira, foram também programados numa lógica de inclusão de artistas portugueses nas plataformas internacionais, absolutamente pioneira na programação em Portugal'".

Por outro lado, "houve cada vez mais a preocupação de incluir, nos respectivos programas, estreias mundiais de obras de compositores nacionais e estrangeiros, na maior parte das vezes encomendadas pela própria Fundação", e bem assim o escopo "de definir temas para cada um dos Festivais, com autores que cobrissem diferentes épocas, desde a música antiga à contemporânea'".

Nesta sede, não resisto a relatar um episódio que ocorreu em plena primavera marcelista e que o meu Pai, José de Azeredo Perdigão, amiúde fazia questão de contar. Já tendo sido substituído pelo Prof. Marcelo Caetano, Salazar pede a meu Pai que o vá visitar. A visado para nunca deixar transparecer que o Presidente do Conselho de Ministros já era Marcelo Caetano, meu Pai fala ininterruptamente com Salazar durante cerca de vinte minutos, sobre petróleos, política internacional e outros assuntos, evitando, assim, ser alvo de alguma pergunta comprometedora. Salazar ouve atentamente e nada diz.

Já nas despedidas e quando meu Pai se preparava para sair, Salazar diz-lhe o seguinte: "Ó Senhor Doutor, gostei muito de o ouvir, como sempre, aliás, mas eu chamei-o cá para que o Senhor me explicasse uma coisa: porque é que a Fundação decidiu acabar com os Festivais Gulbenkian de Música?".

Era assim minha Mãe, criava, inovava, agitava, e incomodava.

Diz o adágio popular que "por detrás de um grande Homem há sempre uma grande Mulher". Não sei se tal sábia frase encontra agasalho no caso dos meus pais. Com o subjectivismo e a falta da isenção que a um filho penso ser permitido, eu diria que o vocábulo, "por detrás", parece aqui não ter grande razão de ser. Aquilo que eu tive o prazer e a honra de presenciar é que os dois se completavam, se entreajudavam, e se auxiliavam mutuamente, numa união quase perfeita e só nao totalmente perfeita pela própria finitude das coisas terrenas

Como bem salienta nestas páginas, o actual Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, Emílio Rui Vilar "as instituições, mesmo as mais austeras, são também feitas dos sentimentos pessoais, e a Fundação Calouste Gulbenkian acabou por ser O palco de um dos romances mais inesperados de figuras públicas do século XX português'<".

O espírito aberto e destemido à procura do diferente, fez-me perceber por várias vezes e em diversos momentos, que as suas ideias incomodavam, sobretudo os espíritos mais conservadores e acomodatícios.

 Um dia, ousou pô-las em prática. E criou o ACARTE.
 Acreditou que "a arte é essencial à vida" uma "forma imperativa da educação", e "fonte de progresso individual e social".

Aceitou "correr riscos e cometer erros". E mais: "Permitir que outros corram riscos, e cometam erros".
 Defendeu a criação de "um espaço vivo, em que se passa de uma exposição a um espectáculo de teatro ou de dança, em que se assiste a um concerto e se fica para a projecção de. um filme ou para a leitura de um poema, em que se participa num espectáculo em que tudo isso acontece, ou em tudo pode acontecer".
 Afirmou "não querer ser, nem fazer coisas", como: ''preferenciar escolas ou correntes estéticas"; "Não adoptar conceitos estritos de nacionalismo estéril", "nem ter preconceitos quanto a géneros artísticos, nem quanto a formas de expressão consideradas mais ou menos nobres".


Não pretendeu "competir com iniciativas de outras entidades, de dentro ou de fora da Fundação Calouste Gulbenkian, mas sim preencher lacunas eventualmente existentes".
 Criou assim "um local de encontro de artistas, aberto à inovação e experimentação.
 Abarcando o teatro, a dança, o cinema, a música, a literatura, as Artes Plásticas, a Arquítectura, o Vídeo, a Fotografia, a Mímica, o Circo, as Marionetas, o Acarte preencheu um espaço vazio no plano cultural, pondo em verdadeiro diálogo jovens criadores com talento, com novos públicos.
Originariamente o ACARTE surge como um complemento do Centro de Arte Moderna, que deveria
animar do ponto de vista artístico. Fez isso e fez muito mais. Em· pouco tempo e com orçamentos exíguos, o ACARTE ganha vida e identidade próprias, e torna-se rapidamente numa referência graças ao dinamismo e à energia criativa de Madalena - Excerto de FACE DE EVA - Revista de Estudos sobre a Mulher - Novembro 21 2009

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