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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

Navegar no Douro Maravilhoso – Rio acima e rio abaixo, com partida do Pocinho, a bordo do Barco Rebelo de Nª Srª da Veiga


Jorge Trabulo Marques - Jornalista, natural desta região

Viajar por Foz-Côa, Pocinho, é viajar por dois Patrimónios da Humanidade - É vogando à flor da tranquilidade do Douro telúrico e primevo, sob o côncavo dos grandes ou confinados espaços da singular tipologia da sua geológica monumentalidade, que ora ascendem ora mergulham em vales profundos, que os olhos se pasmam e maravilham. Que o coração se apazigua de todas as suas máculas, a alma se purifica e engrandece




É no Douro monumental, suave, alcantilado e agreste, que os mais nobres sentimentos casam com a espiritualidade enérgica e rejuvenescedora - Este é o “Doiro sublimado de Miguel Torga: o prodígio de uma paisagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso da natureza. (… )Um universo virginal, como se tivesse acabado de nascer, e já eterno pela harmonia, pela serenidade, pelo silêncio que nem o rio se atreve a quebrar, ora a sumir-se furtivo por detrás dos montes, ora pasmado lá no fundo a reflectir o seu próprio assombro. Um poema geológico. A beleza absoluta."  -  “é, no mapa da pequenez que nos coube, a única evidência incomensurável com que podemos assombrar o mundo”. Em 2001, a UNESCO concedeu-lhe a distinção de Património da Humanidade, como paisagem viva, evolutiva e cultural.

E é aqui que nos reencontrámos com a terra, com os ritmos da natureza, com a quietude e o sossego que dela emanam, sentindo o passo do dia e da noite, do sol, da lua e das estrelas, longe das luzes artificiais da cidade..

Viajar por Foz-Côa é viajar por dois Patrimónios da Humanidade, é percorrer os trilhos da memória e contemplar as formas deslumbrantes da natureza, da história e da arte paleolítica. Mais que um lugar-comum, a luta e os confrontos épicos do passado com o presente fazem estas gentes resistentes, heróis e autênticos construtores de sonhos e de esperança. As oportunidades perdidas rapidamente se transformam em olhares cativos, e as paisagens das rudes encostas do Douro e do Côa, com os seus vinhedos, mais não foram, no passado, do que janelas abertas à imaginação e à criatividade. Se o Museu do Côa narra uma história com uma riqueza imaterial invulgar e os socalcos do Douro respiram uma civilização ancestral ímpar, então, podemos alavancar um caminho turístico sustentável idealizando a conjugação destes dois fatores".





A construção da embarcação “SENHORA DA VEIGA” propriedade do Município de Vila Nova de Foz Coa desde 2004, tem como objetivo desenvolver a oferta turística local. Este barco RABELO é uma réplica dos tradicionais barcos denominados “rabelos”, que transportavam as pipas de Vinho do Porto do Alto Douro, até às caves em Vila Nova de Gaia – Porto. Aqui, o vinho era armazenado e, posteriormente, comercializado e enviado para outros países. Fazer um cruzeiro de barco no Douro é viajar, segundo Torga, no “… reino maravilhoso já não existe. Existem – em seu lugar – paisagens, declives, montanhas, enseadas junto do rio mais belo que conheço, esconderijos pelas colinas, florestas que resistem ao granizo do tempo. E existe a luz, a luz fantástica do Douro, a luz misteriosa das suas águas e da poeira que vai de uma margem a outra (...).”

O Douro vem através dos séculos definindo o seu caminho, num caldeamento das margens, contribuindo para a ligação do Homem e da terra ao rio. Ao longo das escadarias dos socalcos, nestas montanhas desmesuradas, aparecem testemunhos de civilizações e culturas diversas.


Da ementa possível constam as tradicionais “migas de peixe à moleiro”, os “peixes do rio fritos em molho de escabeche com salada mista” e o “lombo assado com batata assada e arroz”. A Sobremesa é Fruta da época e os vinhos servidos são sempre do Concelho de Vila Nova de Foz Côa.


DOIRO - De Mguel Torga 


Suor, rio, doçura.
(No princípio era o homem ...)
De cachão em cachão,
O mosto vai correndo
No seu leito de pedra.
Correndo e reflectindo
A bifronte paisagem marginal.
Correndo como corre
Um doirado caudal
De sofrimento.
Correndo, sem saber
Se avança ou se recua.
Correndo, sem correr,
O desespero nunca desagua ...

.......

DOIRO
Corre, caudal sagrado,
Na dura gratidão dos homens e dos montes!
Vem de longe e vai longe a tua inquietação...
Corre, magoado,
De cachão em cachão,
A refractar olímpicos socalcos
De doçura
Quente.
E deixa na paisagem calcinada
A imagem desenhada
Dum verso de Frescura
Penitente


Miguel Torga




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