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domingo, 28 de janeiro de 2018

VERGÍLIO FERREIRA – “Para Sempre” - Em memória de um grande escritor e de um bom amigo – Se fosse vivo, hoje completaria 102 anos







159 (…) Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir, porque ele o revelou. E é tudo.
160 Vir a morte e levar-nos. E não fazermos falta a ninguém. Nem a nós. Que outra vida mais perfeita? - Do Livro “Pensar”

VERGÍLIO FERREIRA - EM MEMÓRIA DO ESCRITOR: “EM NOME DA TERRA”  E “PARA SEMPRE”

Foi justamente a sua paixão pelo mar que fez com que, entre o escritor e o jornalista, se estabelecesse o elo de um amistoso  e respeitável relacionamento, desde meados dos anos 80 até escassos dias da sua morte - Tal como o tenho feito em anos anteriores, também neste dia o não podia deixar de lembrar

179 - Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder intenso, um certo conluio com Deus – Do Livro “Pensar





Vergílio Ferreira não era apenas o grande escritor mas o existencialista, o pensador. Deu-me o prazer de me receber várias vezes em sua casa – Algumas das quais no próprio dia do seu aniversário. É uma data que dificilmente me pode passar despercebida. Nasceu em Melo, no dia 28 de Janeiro, tendo como fundo a Serra da Estrela, ambiente e paisagem que iria moldar a sua personalidade e influenciar a sua vasta obra -Faleceu na sua casa de campo, em Fontanelas, nos arredores de Sintra e muito próximo da Praia das Maças, igualmente ao fim da tarde,  . Se fosse vivo, faria hoje, 99 anos. Mas morreu aos 80. 

Foi dos autores  portugueses  - através da leitura do livro Manhã Submersa - que mais cedo despertou a minha curiosidade e com o qual viria a manter um relacionamento amistoso, desde o principio da década de 80, até a escassos dias antes da sua morte - Já que, nessa mesma semana, lhe tinha telefonado para o ir visitar a Fontanelas, onde acabaria por falecer.  

"Este homem reuniu em si diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística. Vergílio Ferreira



1980

28- Janeiro (segunda) Aqui estou, pois, no gueto, até se cumprir um mês sobre o acidente. E para não haver grandes intervalos de escrita, aqui estou eu a escrever, Dá-se o acaso, aliás, de cumprir hoje 64 anos. Sem comentários. Perdi no dia 4 uma boa oportunidade de não ter de fazer mais contas. Como é nova e vida esta sensação de que tudo está feito, de que é perfidamente aceitável que a vida, os outros, nos excluam. Mas fiz 64. É curioso. E já agora talvez que venha a reflectir um pouco que fui nesses 64. E a ideia mais forte que se me impõe (qual a que se impõe aos outros?) é a de que fui uma espécie de «falso», como se diz dos «falsos» da pintura. De um lado está o nosso ser que é normalmente, bons deuses, péssimo; e do outro o parecer, que já não é mau de todo. Entre os dois nos corre mais ou menos a vida. Ela é assim quase sempre velhacoide. Quanto a mim, deu-me pouco; e o pouco que me deu foi extremamente regateado. Oh, que a comédia acabe depressa, quero lá saber. Mas sem muita maçada, se não é muita maçada. São os votos que eu faço no dia do aniversário.


"Há dias a RDP passou-me à porta e um jovem subiu com uns aparelhos. Que é que pensava da carga que já me pesava?Ora. Que era uma «conta calada» e tão calada que já apelava em mim para o silêncio. Ouço o apelo e aqui me fico" In Conta-corrente Janeiro 1982


«Vergílio ferreira, autor de mais de meia centena livros (romance, contos, ensaio e diários) Nasceu em Melo, no concelho de Gouveia, em Janeiro de 1916, filho de António Augusto Ferreira e de Josefa Ferreira. A ausência dos pais, emigrados nos Estados Unidos, marcou toda a sua infância e juventude. Após uma peregrinação a Lourdes, e por sugestão dos familiares, frequenta o Seminário do Fundão durante seis anos. Daí sai para completar o Curso Liceal na cidade da Guarda. Ingressa em 1935 na Faculdade de Letras a Universidade de Coimbra, onde concluirá o Curso de Filologia Clássica em 1940. Dois anos depois, terminado o estágio no liceu D. João III, nesta mesma cidade, parte para Faro onde iniciará uma prolongada carreira como docente, que o levará a pontos tão distantes como Bragança, Évora ou Lisboa.
Este homem reuniu em si diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística.
Vergílio foi também um existencialista por natureza. A sua produção literária reflecte uma séria preocupação com a vida e a cultur
a – Excerto de 
Vergílio Ferreira: Biog


Já me referi a Vergílo Ferreira neste site - mas volto aqui a recordar a sua memória, com muito gosto - Tomando a liberdade de aqui transcrever algumas passagens dos seus diários.

Entretanto, o mundo, que é um pouco maior de que nós (será?), vive uma tensão pavorosa. A URSS invadiu o Afeganistão.O imperialismo que vive nela e tem tentado disfarçar, desta vez veio ao de cima sem disfarce. Mas não há inconveniente para a fé dos correlegionários. Contei na Alegria Breve a história (real) de uma rapariga que negava estar grávida, mesmo quando o médico lhe fez saltar o leite do peito. A Tarde pediu-me um depoimento.Lá o dei. Outros «intelectuais» o deram também. Cito o de Augustina: depois de nos dar a extraordinária notícia de que os governos estáveis são normalmente « maquiavélicos», acha que «não há sínteses felizes para definir as políticas das persuasões» Não sejamos ambiciosos. Há o que é para entender e o que e só para admirar.


1982 - 28 Janeiro (quinta) Pois. Cá fiz às três da tarde a sexta capicua. Quando imaginaria eu esta prenda do destino. Mas os favores pagam-se e eu não sou se estou em débito. Ah, mas que manhas a vida inteira para ir ficando de pé. De vez em quando a rasteira. Mas lá me endireitei. Agora, se ficar por terra, já ninguém dirá que. Amém. - Excerto

Foi justamente a sua paixão pelo mar que fez com que, entre o escritor e o jornalista, se estabelecesse o elo de um amistoso  e respeitável relacionamento, desde meados dos anos 80 até escassos dias da sua morte - Tal como o tenho feito em anos anteriores, também neste dia o não podia deixar de lembrar

179 - Ir ver o mar. Vê-lo de vez em quando e sempre com a mesma fascinação. Que é que vem dele para assim nos fascinar? A sua força imensa diante da nossa pequenez. O seu mistério visível e inquietante porque é o invisível da sua visibilidade. O irrisório da sua absurda convulsão e o aceno indistinto que vem de trás do horizonte e não sabemos o que é. O aroma a espaço, uma memória confusa de aventura, o sinal presente da sua infinitude ausente, a dilatação de nós a um poder intenso, um certo conluio com Deus – Do Livro “Pensar







(…) Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir, porque ele o revelou. E é tudo.
160 Vir a morte e levar-nos. E não fazermos falta a ninguém. Nem a nós. Que outra vida mais perfeita? - Do Livro “Pensar”




Vergílio Ferreira não era apenas o grande escritor mas o existencialista, o pensador. Deu-me o prazer de me receber várias vezes em sua casa – Algumas das quais no próprio dia do seu aniversário. É uma data que dificilmente me pode passar despercebida. Nasceu em Melo, no dia 28 de Janeiro, tendo como fundo a Serra da Estrela, ambiente e paisagem que iria moldar a sua personalidade e influenciar a sua vasta obra -Faleceu na sua casa de campo, em Fontanelas, nos arredores de Sintra e muito próximo da Praia das Maças, igualmente ao fim da tarde,  . Se fosse vivo, faria hoje, 99 anos. Mas morreu aos 80. 

Foi dos autores  portugueses  - através da leitura do livro Manhã Submersa - que mais cedo despertou a minha curiosidade e com o qual viria a manter um relacionamento amistoso, desde o principio da década de 80, até a escassos dias antes da sua morte - Já que, nessa mesma semana, lhe tinha telefonado para o ir visitar a Fontanelas, onde acabaria por falecer.  

"Este homem reuniu em si diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos. Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística. Vergílio Ferreira

Do seu livro – PENSAR

“Hoje fui ver o mar. Na realidade não ia vê-lo mas aproveitei. E à primeira impressão eu via-o mas não o via, porque via dele apenas a realidade imediata em ondas e espuma. Foi preciso que depois deixasse vir ao de cima o que oculto se me queria revelar. Abandonei-me a ele e deixei. 

Mas o que então se me revelou foi uma nebulosa confusa de emoções, memórias, associações indistintas, qualquer coisa que se anuncia como numa casa desabitada. O indizível. O flagrantemente presente e que se não acaba de esclarecer. O estranho que nos perturba e não sabemos donde vem.

A praia estava deserta e o mar convulsionava-se num mundo ainda por nascer. Mas havia sol e a alegria dele era gratuita, sem finalidade nenhuma, e isso agravava-lhe o absurdo de ser. As águas brilhavam até ao indeciso do seu limite. Um homem ocasional, eu, olhava o seu mistério inquietante, tentava entender a estranheza de tudo isso. Sentia a presença de uma realidade inexistente, porque ela não existia senão no que estava vendo e, no entanto, eu sabia, na minha inquietação, que estava lá. Eu podia enumerar todos os elementos do que presenciava, mas havia outra realidade que ficava intacta à minha enumeração. Essa, essa - dizê-la. Não é aí precisamente que começa o «escrever bem»? Por isso a escrita não tem que ver com o real mas com o outro real dele. Assim ela constrói outro mundo que aponta apenas para o primeiro mas se não parece nada com ele, mesmo quando se parece e todos os elementos se lhe ajustam. Porque aquilo com que se parece é o invisível dele, a outra coisa das coisas, o mistério que lá mora e se reconhece, depois, que lá mora e o reconstrói na sua invisibilidade para ser enfim o real como tal reconhecido. Há no homem o insondável da sua interrogação. Mas só o artista a conhece e a pode revelar aos outros para ela ser desses outros e a verdade do ser se lhes iluminar. Escrever bem. Ser sensível ao que se quer revelar e ser só a sua revelação. E o mundo existir, porque ele o revelou. E é tudo. 


"Conta-Corrente - 1982 - 26 - Março (sexta). E aqui estamos em Fontanelas. A Primavera já cá estava instalada em flores domésticas e bravias. Os caminhos bordam-se de florinhas brancas e amarelas, o portão do quintal tem uma coroa de glicínias. Queria colaborar com a festa, ir pelos campos, olhar a Natureza, ir talvez até à praia olhar o mar que já deve estar a acomodar-se para a época estival. Mas encafuei-me logo no escritório porque tenho o Beldemónio a esgalhar para uma palestra. Não conhecem Beldemónio? Não conhecem. Conheço eu, porque é da minha terra. Ou melhor: ele é de Gouveia, que é a cabeça do meu concelho, e eu sou de Melo, que fica a uns sete quilómetros. Terra produtiva em letras o meu concelho, como vêem. Ora corno há festa do concelho lá para Maio e me pediram oratória, lembrei-me de restaurar a glória deste esquecido. Viveu nos fins do século XIX, durou trinta e seis anos, e foi desgraçado. Com o talento que lhe coube, escreveu coisas. Mas como tenho de contar como isso foi, não me vou antecipar. Vou é acender o fogão da sala, porque ainda está frio. Fui buscar lenha, armei os paus por cima das pinhas e jornais, agora é só chegar um fósforo. Estou cansado, é bom repousar e olhar o lume. Talvez que olhando as chamas eu tenha boas ideias sobre o Beldernónio que é um nome infernal. Portanto, a condizer.



158 A enorme desproporção entre aquilo que fazemos e o que escolhemos ou alguém em nós escolheu ter sido. O destino da vida é o esquecimento. Mas nós lutamos desesperadamente por ser o lembrar. O sol atravessa a janela da sala, ilumina os cortinados suspensos. É um instante fugidio que em breve desaparecerá. Vivo-o ainda, agora que contemplo a janela iluminada, mas em breve virá a noite e tudo findará. Lembrá-lo-ei amanhã? Não o lembrarei dentro em breve, o seu milagre será inútil. Tento, todavia, segurá-lo, fazê-lo perdurar contra a morte que é sua. Mas quantos estratagemas de que nos servimos para ter razão contra a morte. (…) – In Pensar



Estás vivo. Não o estarás por muito tempo. Aspira a vida que tens ainda, vive-a intensamente, não a desperdices, em breve já o não poderás fazer. E essa vida que te coube e não pode durar muito é absolutamente irrepetível. Tiveste a oportunidade de viver - quantos biliões de homens possíveis a não tiveram? Plasma-te a ela com a múltipla modalidade de seres, absorve-a, sente-a milimetricamente para que nada dela se desperdice. Breve tudo será findo. E a rua oportunidade não mais se repetirá.  – 30 de Agosto 1982 -In Conta-Corrente


38 DIAS À DERIVA NUMA PIROGA NOS MARES DO GOLFO DA GUINÉ - AVENTURA QUE  IMPRESSIONARIA O AUTOR DE "A MANHÃ SUBMERSA"  E SERIA O PRINCIPIO DE  UM  AMISTOSO, RESPEITÁVEL  E DURADOURO  DIÁLOGO - De seguida alguns excertos do meu diário de bordo, publicado noutro site, que subscrevo


Diário de Bordo "Passei uma tarde calma. Agora a minha preocupação começa a estar precisamente no local  onde irei aportar...Não sei...Será um local habitado?!...Pode ser desabitado...Enfim, o que me interessa é que seja terra, fundamentalmente, é que seja terra! Local seguro..." 

 Ainda não fiz referência à noite passada: passei uma noite todo encharcado! Envolvido num plástico mas por fim até adormeci e sonhei..Sonhei e tive uns sonhos muito esquisitos, acordei a falar!...Supondo que tinha chegado realmente a terra. Tive assim  sonhos muito esquisitos."- Excertos do diário do 29º dia - Excerto do meu diário - 38 dias à deriva numa acanoa29ª dia - são tomé - odisseias nos mares dos tornados rafia



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