expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Odisseia no Golfo da Guiné - 31º Dia - Novo ataque de um gigantesco tubarão - " A canoa a meter água cada vez mais!.... Isso preocupa-me um bocado. A fraqueza a invadir-me o corpo... Tenho que ter calma. Muita calma! Mas, sinceramente!... Tudo tem limites..


Algures no Golfo da Guiné, 20 de Novembro de 1975 Há 44 anos


Diário de Bordo 1-  "Hoje é manhã do 31ª dia. Passei uma noite incómoda. Não consegui conciliar o sono. Fiquei praticamente sempre acordado. O mar muito cavado, fortemente cavado! Devido possivelmente a trovoadas vindas do sul ou de outras bandas...Próximo da canoa apenas choveu ao fim da tarde de ontem...  A noite pôs-se normal, até com aberturas de luar muito bonitas!... Eu é que não consegui dormir em toda a noite. A pensar na minha vida... Até agora tenho pensado no mar, nas dificuldades a vencer no mar...mas esta noite estive a pensar  em terra.... Porque, efetivamente, eu tenho de ter um destino...certo... Comecei a pensar o que é que eu irei fazer agora... Portanto, esta noite os meus pensamentos ocuparam-se no que vai a ser a minha vida em terra."


A ideia de que, dentro de pouco tempo, hei-de alcançar chão firme, já não é bem uma interrogação; a partir de agora é quase uma certeza. Talvez pelo facto de, quando em quando, se me depararem, aos meus olhos, no horizonte difuso, os seus  contornos. Claro que a vida a bordo não melhorou de maneira alguma. . Porém, o meu cérebro, que até agora tem vivido numa constante preocupação  com as dificuldades da minha sobrevivência no mar, estranhamente,  passou a ocupar-se mais no que será a minha vida quando chegar a terra. Havia-me esquecido de pensar em tais questões. Sinto-me mais na pele de    um vagabundo de que um náufrago e preocupa-me o meu futuro. 

De facto, tenho concluído que esta vida errante, não é nada boa.Terei que viver uma vida mais tranquila e menos sobressaltada. Mas como?!...O que é que eu irei fazer quando chegar a terra?!..Como irei ser recebido e que será depois a minha vida?!... .Estive quase 13 anos em São Tomé. Tudo quanto ganhei foi gasto nos meus caprichos aventureiros. Não trago um centavo comigo. De resto, eu já estou habituado a uma certa forma de vida incerta e cheia de dificuldades e vicissitudes. Parti para São Tomé, com a idade de 18 anos.


A princípio fui para ali trabalhar numa roça mas comecei por não me adaptar, lá muito bem. O administrador da roça queria que eu tratasse os trabalhadores  negros por tu. Dizia ele que era "a maneira de guardarem respeito ao branco" e de eles trabalharem". Evidentemente que não me adaptei... E o dinheiro que me pagavam ao fim do mês, comparado com as promessas que me fizeram,  depois de feitos os descontos para alimentação e pagamento da viagem, não me ficava quase nada.  Claro que não fui para São Tomé com o objetivo de fazer fortuna, mas esperava que ao menos me atribuíssem uma compensação humanamente digna. E então os pobres  trabalhadores ?!... Autênticos escravos!.. 

Por força dessa minha inadaptação, o meu passa-tempo predileto, era então o mar...Praticamente, desde que ali desembarquei, vi nele uma espécie de refúgio. Qualquer coisa onde me sentia livre de todos os aborrecimentos. Um horizonte sempre aberto e imenso, que me abria as portas a uma incontível ânsia de ir mais além na procura de uma felicidade imaginária  que naquele meio ambiente eu não encontrava. 



Por isso, sempre que podia, frequentava as belas praias de São Tomé. Comecei por manter estreitos contactos com os pescadores, homens corajosos e simpáticos. Aprendi a equilibrar-me nas suas canoas, começando primeiro por dar pequenos passeios de praia em praia., até que por fim veio a paixão - E, a par disso, também outras interrogações: perguntava-lhes se já tinham ido de canoa à Ilha do Príncipe, respondiam-me que "só canoa de gente de feitiço" é que o tornado a levava ao Príncipe ou ao Gabão; "outra, vem gandú (tubarão), vira a canoa e come-lhe a perna" . Achava que era uma superstição, sem fundamento e  havia que desfazer esse fantasma: concluía que, se o tornado arrastava para lá a canoa, involuntariamente, também lá se podia ir por vontade própria. Face a essas lucubrações, comecei a pensar que, um dia, eu devia fazer-lhe essa demonstração - A par disso, questionava-me também sobre o seu passado longínquo: se não teria sido através das canoas que os seus ancestrais não teriam vindo do continente africano.



Foi, pois, graças a esses contactos  com os pescadores santomenses, quando trabalhei na Roça Ribeira Peixe,  que  iniciei a minha aprendizagem sobre a técnica da arte de navegar nas suas frágeis pirogas e que o espírito de aventura marítimo, se me foi desenvolvendo. E, alguns anos depois, simultaneamente,   o desafio da escalada ao Pico Cão Grande, que ali se ergue, numa zona onde existem várias aldeias dos hábeis pescadores "angolares".-  Na verdade, não é pois  a riqueza material que mais me interessa. Mas também não é o desejo de me tornar famoso, a razão pela qual tenho arriscado a vida. Sim, porque,  excetuando   esta última viagem marítima, tenho partido clandestinamente, sem dar conhecimento para  onde vou e o que vou fazer. Sem o apoio, aprovação ou a reprovação de quem quer que seja. 

Não tenho meios de comunicar com ninguém. Disponho apenas da orientação de duas bússolas: uma que trago no pulso, como se fosse o meu relógio, outra fixada  junto à ponte da proa. Se morrer afogado no mar eu tenho a certeza que ninguém vai saber  o que me aconteceu ou chorar nesse momento a minha falta.  Mesmo a família, da qual tenho estado bastante ausente. A minha mãe faleceu, dois anos depois de eu ter chegado a São Tomé . Sei que o meu pai, os meus dois irmãos e a minha irmã me não  esquecem. Mas a vida deles e de todos os meu familiares, é como se fizesse parte de outro mundo...Quem é que poderá imaginar onde eu agora estou e a fome que me tortura e a solidão em que  me encontro? Amo a natureza e vejo no mar a mais íntima  forma da sua aproximação. Cada vez mais me sinto atraído pelo seu misterioso canto. O isolamento é uma forma de o encontrar, de mergulhar na sua indescritível magia. Sim, fisicamente, sou para aqui um farrapo humano. Uma criatura desprezível,  as forças vão-me  faltando. Sem nada com que matar a fome. No entanto, talvez por isso mesmo, mais purificado, mais sensível e fortalecido espiritualmente. Sim, porque o mar não é só esta imensa vastidão. O mar é vida. Umas vezes meigo, suave, dócil, belo e acariciador; outras vezes, cruel, impiedoso, impaciente e infernal

Agora, nesta manhã acinzentada, não será bom nem mau, nem triste nem alegre: ondula, freme, move-se numa turbulência que nem me agrada nem me desagrada. Não me encanta nem desencanta.. É realmente terrível o seu poder. Não é egocêntrico. Não vive apenas para dentro dele. Transmite e afeta todo o meu estado de alma. É pena vê-lo agora encrespado, tão sisudo e não tão comunicativo como costuma ser. Mesmo assim, faz-me sentir próximo dele. Embora, com outras palavras, é o que vou já transmitir  para o meu gravador - O fiel registo dos meus sentimentos, que guardo como se fosse o cálice de um sacrário no meu baú de plástico, um velho contendor do lixo, que o meu amigo Germano Castela, fez o favor de me dispensar.



Diário de Bordo 1 (continuação) Esta manhã  aparece com o mar relativamente cavado, com uma certa  carneirada. O céu nublado. Não totalmente mas com nuvens escuras que ameaçam chuva. ..Um pormenor curioso a que eu não fiz referência: na noite de ontem, eu tive oportunidade de observar um eclipse  total da lua.



18/Novembro/1975fonte de dadosOcorre um eclipse total da Lua, sendo observado em Fortaleza pelo Observatório Herschel Einstein, cio astrônomo Cláudio Pamplona.

 Portal da História do Ceará



A noite em que observei um eclipse total da Lua - Calculo que por volta  da meia-noite - - O céu e o mar ficaram mais negros que nem na mais negra noite de tempestade - Não se enxergava um palmo à frente do meus olhos - Nem sequer os contornos da piroga - Durante quase hora e meia foi como se o mundo não existisse. O mar e o céu pareciam unidos nas mesmas sombras e pela mesma  escuríssima cortina - Senti uma profunda solidão! - Tanto mais que havia mais nuvens que abertas, que por sua vez iam também eclipsando as estrelas   e tornando-as ainda mais longínquas  - Além de que o mar permaneceu toda a noite muito cavado. Mas não poderei dizer que fosse uma noite muito anormal - Pior teria sido se chovesse. Direi que a observação daquele Eclipse lunar foi apenas um episódio em mais uma longa noite de vigília e de reflexões na  minha vida.

Diário de Bordo Devo estar mais próximo do continente africano. Já parece impossível, não é ?!...Depois de tantos dias de ter largado e não ter atingido a costa africana!... Claro que  as trovoadas têm-me feito andar para aqui às aranhas de um lado para o outro!.... Vou pôr  a vela, já. A ver se atinjo, hoje, finalmente, terra!

Quando o mar está calmo a canoa não tem tanta velocidade. É natural que a noite passada tenha andado bastante.... devido à força que as vagas lhe imprimiram.

Diário de Bordo 2- É quase meio-dia e ainda não consegui navegar nada! Já por três vezes tentei pôr a vela.... e não há vento!.. Quer dizer, aqui, quando há trovoadas há vento demais e é impossível  navegar! Quando não há trovoadas, há calmarias e o mar é um lago!... Agora o mar não dá qualquer hipótese, visto não haver força de vento suficiente para impulsionar a vela. É irritante!...Sinceramente!... Esfomeado que estou!...

Encontro-me para aqui próximo, muito próximo!... A canoa a meter água cada vez mais!.... Isso preocupa-me um bocado. A fraqueza a invadir-me o corpo...Não tenho anzóis que deem para pescar os peixes que aqui há. Os anzóis que disponho são para peixes muito grandes e o nylon é fraco. A situação não é desanimadora mas também não é muito agradável. Tenho que ter calma. Muita calma! Mas, sinceramente... Tudo tem limites... 

 Diário de Bordo 3 Agora, neste preciso momento,  talvez quatro horas  da tarde, apareceu um enorme! um gigantesco tubarão! Mesmo gigantesco!! Estava deitado no fundo da canoa.... e senti roçar!... Depois vi logo que era um tubarão! Pois investiu várias vezes contra a canoa!... À proa! À popa! Até que eu agarrei no machim  e consegui dar-lhe umas machinadas na cabeça!  E então fugiu!...Não sei onde é que ele agora se encontra! Mas, efetivamente, é um monstro!!.. Uma coisa pavorosa!... Um monstro autêntico!... A acompanhá-lo havia uma série de peixinhos!...

Diário de Bordo 4-  Acabei agora de pescar um peixe  à mão!...Andava aqui... Consegui!...O gajo, mesmo cortado, estava a escapar-se! Era o que faltava!... Claro que estou a comê-lo  cru!... Sabe-me perfeitamente bem!...

Diário de Bordo  5 -  Estou satisfeito!...Já comi o peixe cru  e soube-me bem!...Estou a ver perfeitamente contornos da costa africana, que ainda é um bocado distante.... 

Finalmente consegui pôr a vela e parece que há um ventozinho que me vai tocar para lá...Veremos quando...



Diário de Bordo  6 Esta é uma melodia (melodia africana) que eu gosto imenso!...Aqui no mar sabe tão bem!... Realmente, há trechos musicais que, nestas circunstâncias, são mesmo muito apreciados...
.
Diário de Bordo  7   É pura e simplesmente irritante!... Não há vento absolutamente nenhum!... Quer dizer, não posso velejar e tenho a costa, tão próxima! ...É realmente muito aborrecido!

Diário de Bordo  8. Já se pôs o sol do 31º dia. O dia esteve praticamente de calmaria!... Ligeiras brisas... que não deram para navegar...

Voltei apanhar uma ave. Pousaram duas: uma à proa e outra à popa. A outra fugiu!... Tenho-a aqui para a comer amanhã.... 

 A costa africana. sei que não fica distante... É natural que esta noite tudo se modifique... Há uma formação de nuvens muito escuras a sueste, que devem trazer chuva, com certeza...Portanto, é isto apenas que tenho agora a dizer.. E que amanhã outras novidades melhores possam surgi



terça-feira, 19 de novembro de 2019

Odisseia no Golfo da Guiné - 30º Dia numa piroga - Não tenho comida!...Sinto uma grande dureza no estômago!... Todo o meu corpo me dói!...Há um fraqueza geral em mim!...De manhã, vi a chaminé de um barco, mas muito afastado


Algures no Golfo da Guiné, 19 de Novembro de 1975 - HÁ 44 ANOS

Diário de Bordo 11 - Não  comi nada. Quer dizer, limitei-me a comer  uma das barbatanas do tubarão que tenho aí, como troféus. Tentei pescar  e não consegui pescar, absolutamente nada. Hoje, digamos, é um jejum limitado a água e alguns comprimidos, umas vitaminas. De resto, não pude arranjar mais nada, visto ter estado ocupado, quase todo o dia, com o remo, para dar a direção à canoa.
 

Foto tirada com um dos braços   - Espelhando a imensa angústia e a  incerteza.
GOLFO DA GUINÉ - LABIRINTO DE CORRENTES E DE CONTRA-CORRENTES - AO LADO O MAPA REFERENTE AOS MESES DE OUT-NOV-DEZ  Click here for example plots of seasonal averages.

Além das tempestades, mais o labirinto de correntes
No náufrago há um pensamento que não o larga e se torna cada vez mais obsessivo: a sobrevivência e um ponto onde possa descobrir perfis da ansiada terra salvadora. Por isso mesmo, seus olhos, varrem, vezes sem  conta, o horizonte – e quantas  vezes confunde uma simples nuvem pousada nas distâncias, com o perfil de um monte – Oh! quantas  vezes meus olhos escrutinaram o imenso círculo à minha volta! E  quantas  vezes não se enganaram! 

Se me tem acompanhado, não estranhe que as observações, no meu diário, se repitam – O que não se repetia da mesma maneira., era a fome, a sede  e a fraqueza,  que recrudesciam e cada vez mais me atormentavam e debilitavam - Mas havia que acreditar! Nunca se pode perder a esperança. Há que se auto encorajar, mesmo que seja para se iludir e enganar - O próprio instinto de sobrevivência, encarrega-se de lançar esse apelo


ONDE EU FUI PARAR, DEUS MEU!....À  ZONA MAIS TURBULENTA DO GOLFO QUE O ÉPICO DOS LUSÍADAS  IMORTALIZOU
Sim, pensei nas frágeis caravelas e nos porões dos escravos
Canto V
"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
No grandíssimo gólfão nos metemos,
Deixando a serra aspérrima Leoa,
Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
O grande rio, onde batendo soa
O mar nas praias notas que ali temos,
Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
O nome dum que o lado a Deus tocou"
Camões 
QUANTOS NAUFRÁGIOS ESTAS ÁGUAS NÃO TERÃO SACRIFICADO?! - QUANTAS VIDAS NÃO TERÃO ENGOLIDO?!...
 
NÃO É FÁCIL A UMA CANOA SOLITÁRIA SEM REMOS APROPRIADOS OU BARCO DESGOVERNADO, APROAR A BOM PORTO

Umas correntes mais fundas, outras mais superficiais, fazem do Golfo da Guiné ,  das zonas mais pluviosas e turbulentas dos mares, mas de  baixa salinidade, devido aos efluentes de rios e chuvas elevadas ao longo da costa, das várias bacias hidrográficas que ali desembocam , à intensa pluviosidade registada ao longo do ano - Claro que não é o Mar das Caraíbas, com os seus temíveis furacões  meteorologically induced storm surge in the gulf of guinea Nestes mares equatoriais,  os tornados não atingem a violência dos tufões mas são mais frequentes 

Esta imensa vastidão oceânica  é atravessada por várias  correntes: predominando o braço da corrente do sul, que se ramifica  da Corrente de Benguela, junto às proximidades da linha do Equador e que dali conflui para oeste   onde toma parte da corrente rotativa do Giro oceânico; a outra corrente é a que deriva de um braço da Corrente das Canárias - Mas qualquer delas tem  a sua forte influência:  Subcorrente Equatorial;   Corrente de Guiné;  Corrente Equatorial Norte; Corrente Contrária Equatorial Norte;  Corrente ao Sul Equatorial;  Corrente Contrária ao Sul Equatorial; a Corrente de Benguela Costeira que se desdobra para oeste norte, a Benguela Corrente Oceânica. Mais informação em: As correntes marinhas - Monografias.com****The Guinea Current*


Acabei por acostar a Bococo -  oito dias depois
A zona assinalada  «» foi onde eu calculo ter andado perdido dezoito dias: umas vezes mais próximo de Bioko (ex-Fernando Pó), outras da costa camaronesa ou nigeriana - Até finalmente atingir a costa da maior Ilha da Guiné Equatorial  »» - De referir que a distância do canal entre esta ilha e os Camarões é de 30Km.  E o mais incrível é que, os barcos que passaram perto de mim (pelo menos duas vezes) não me viram ou ignoraram-me.

Algures no Golfo da Guiné, 18 de Novembro de 1975 -

Diário de Bordo  - 1 Faz esta manhã um mês que me encontro a navegar na minha canoa. Passei uma noite esplêndida. Não dormi, efetivamente... Como acontece,   estive  várias vezes acordado a observar o tempo... Esteve um belíssimo luar! O mar muito calmo, muito sereno!...Uma noite brilhante, cheia de luar!

Por detrás daqueles recortes horizontais de nuvens, escondiam-se perfis de terra






De Ano Bom a Bioko - 38 dias
Amanheceu  com uma certa ondulação e uma brisa a sentir-se. O céu ligeiramente ondulado, com tendência para chover...Olhando para a bússola...vejo nitidamente para oeste contornos de terra. Para norte e noroeste, ainda não vejo nada mas sei que estou próximo da costa de África. Se esta frieza, que agora está a fazer-se sentir, continuar,   espero chegar lá hoje. Para o que vou colocar a vela. Visto, só com as correntes, demorar muito tempo. Portanto, estou bem disposto... 
Passei uma noite muito melhor, que a outra! Esta não choveu!...Na outra, passei a noite alagadíssimo. Se o tempo continuar, como agora está, espero chegar lá hoje. A menos que surja alguma tempestade de tarde
Diário de Bordo  - 2 Há pouco disse ter visto a costa africana mas não é a costa africana; o que vi  foi a Ilha do Príncipe a sueste. Pareceu-me ter visto ao longe os cumes desta ilha. De qualquer forma, eu penso que esteja muito próximo...É difícil ver-se de manhã  a faixa africana...Aliás, parece que estou a ver agora para oeste, qualquer coisa parecido a contornos de terra... Mas tenho um pressentimento que me encontro muito próximo....

Diário de Bordo  - 3 São oito e tal da manhã. Estou a navegar com muitas dificuldades, evidentemente, quer devido ao desequilíbrio da canoa, quer  às vagas. O mar está agora bastante cavado! Não se pode largar o remo um minuto. Tenho a  nítida impressão que devo estar muito próximo. A água está a ter uma cor esverdeada, o que parece indicar a proximidade de terra.

Os tubarões martelos continuam a acompanhar-me, não me largam!... Ainda não comi qualquer coisa esta manhã mas só a ideia de  me estar a aproximar de terra me faz a esquecer a fome. Todavia, a costa africana, continua ainda misteriosa! Volta haver neblina...Não se vê qualquer contorno.


Como é agradável navegar assim!... Toda a fauna marinha me acompanha! Os peixes sempre a nadar ao lado da canoa, dando o máximo  da sua velocidade! Os tubarões, idem!...Parece que estão muito satisfeitos. Tudo neste momento é  vida, cor e movimento!

Navega canoa! Navega, navega!
Navega canoa! Não navegues à toa!
Navega para terra! Navega canoa! navega!
Que eu tenho lá boa gente à minha espera!


Diário de Bordo  - 4 E a minha canoa continua a navegar! Singrando velozmente o mar! As aves cantam! Os peixes acompanham o seu ritmo! Tudo neste instante se traduz, em alegria, serenidade e paz!

O sol vem quente esta manhã. Ah! quem me dera ser peixe! Poder nadar! Pescar! Estes belos peixes que aqui andam... Ali, aquela barracuda  que não me larga!...Ai que tão apetecíveis estão!...Se eu as pudesse pescar...Ah! como tão saborosas me eram! Mas não posso...Apenas me fazem companhia.

As douradas - sempre muito companheiras e curiosas
Diário de Bordo  - 5 É curioso realmente constatar! Neste momento, chega um tubarão, daqueles velozes e perigosos! daqueles enormes! E as douradas imediatamente lhe saltam em cima!...Aliás, como todos os peixinhos que aqui têm andado, vão junto dele e tentam-no afugentar!... É realmente, para mim, um pormenor curioso, nesta manhã do 30º dia. 

São cerca das 10 horas. Está a fazer já bastante calor! Há menos vento, e, com certeza,  que daqui a pouco, terei  de tirar a vela. O mar é que continua bastante ondulado... As douradas, não há dúvidas que portam-se como autênticas guardiãs.

Diário de Bordo  - 6 Devem ser neste momento duas de tarde. Continuo a velejar mas com uma certa dificuldade, pois o mar tem bastante carneirada, está muito agitado! ...Quer dizer, tem uma ondulação bastante desencontrada. E eu continuo a viver à custa de comprimidos e de água... Pois ainda não tive oportunidade de pescar; de resto, continuarei a velejar enquanto puder.
O sol incide com uma força causticante na minha cabeça, que cubro com uma toalha enrodilhada, mesmo assim, parece que sufoco. A sede  aperta e vejo-me na necessidade de ter o bidão de plástico, sempre à mão. Apesar de tudo, tenho bebido moderadamente. É certo que levo inúmeras vezes o copo de água aos lábios, porém, apenas para os ir molhando com reduzidos goles de cada vez.

Evidentemente, que se eu fosse a fazer a vontade ao organismo, eu teria de beber grandes porções da reserva da água das chuvas, mas não posso abusar, dado que também não tenho nenhuma comida no estômago. Além disso, mesmo que o encharcasse de água, estou convencido de que nem assim mataria a sede, porque, quanto mais bebesse, mais vontade teria de beber. Por isso, embora seja custoso, é conveniente usar alguma moderação.

Diário de Bordo  Vêem-se já nítidas silhuetas da costa de África!  Contornos esbatidos!... E a água está a ficar  também uma cor mais esverdeada, sinónimo  de que não é das grandes profundidades. Portanto, tudo indica que realmente me estou a aproximar a passos largos da costa africana. Pena é o calor que está a fazer sentir-se... É realmente, muito intenso! Mas tem que suportar-se com calma e paciência.

Diário de Bordo  - 7 Devem ser  nesta altura três da tarde.  A costa africana continua cada vez mais escondida!... Que segredos me aguardará?!.... Realmente, cada vez me parece mais escondida... Eu sei que estou mais próximo dela!... É curioso... Guardar-me-á algum segredo?!...

Popa da canoa - Numa tarde de calmaria
Há ocasiões em que até já não sei se é o perfil da terra ou alguma aglomeração de nuvens. O mar é um espelho encapelado e sussurrante de marulhos e redemoinhos. A vela espaneja contra o mastro e produz um ruído monótono, quebrado pelo baque baque da quilha da canoa a cortar e a galopar triunfalmente a opacidade esverdeada das águas.

Diário de Bordo  - 8 Devem ser neste momento, quatro da tarde. Sinto-me nitidamente cansado e cheio de fome!... Com uma grande fraqueza! A costa de África continua oculta, o mar bastante cavado!... Digamos, que muito perigoso até!....As correntes, estão-me a puxar para norte! E os ventos para nor-noroeste!.. É difícil realmente velejar nesta situação, mas estou dando tudo por tudo, a ver se atinjo hoje a costa africana. Mas estou a ver que ela continua ainda misteriosa...

 Imagem de um desses perigosos tubarões

Diário de Bordo - Hoje tive a presença  de um tubarão enorme, daqueles vorazes!  E a presença de dois peixes gigantescos, que não sei identificar.

Apesar de cansado, quase de hora a hora, vou dizendo umas palavras para o gravador. Se não fosse o velho caixote de lixo, de plástico, onde já estaria o gravador e as cassetes! Faz-me lembrar o atleta, que, nas provas de estafeta, passa a mensagem para outro companheiro. Eu aqui, como não tenho companheiros, sou o único a pensar na minha meta, e, após um determinado espaço-tempo, a transmitir a mensagem ao meu gravador, que neste caso funciona como uma espécie de fiscalizador-recetador.

Diário de Bordo  - 9 São quase cinco da tarde. Tenho a convicção de que andei bastante. Talvez represente uns dias à deriva, este bocado que hoje fiz durante o dia. Mas a verdade é que a costa de África, continua para mim misteriosa, oculta, escondida numa ténue neblina....Estou muito cansado... daqui a pouco, vou fazer uma pausa para ver se pesco  qualquer coisa... a fim de mitigar a fome.

Terei que me preparar para mais uma chuvada, que deve estar para aí aparecer, não tarda, visto o horizonte estar a anunciar chuva... Parece que não me livro de mais uma chuvada.

É um problema aborrecido, a mudança súbita do tempo. Agora, pela tardinha, as nuvens negras, acumularam-se a sul e a norte. Estou praticamente no meio de várias frentes cerradas. Não sei qual delas se irá precipitar primeiro sobre a zona onde estou. Por cima da minha cabeça, o céu ainda se mantém puro e limpo. Mas isso não impedirá que daqui a pouco eu esteja para aqui a ser regado que nem num chuveiro. Não há vento nenhum. Em contrapartida, o oceano está endiabrado de fúria.

Afinal, daqui a instantes, põe-se o sol e eu sem atingir ainda a minha ansiada meta. Realmente, a distância, tem-me parecido curta, mas pelos vistos, não passa de ilusão de ótica.


Diário de Bordo  - 10 Já é noite do 30º dia. Choveu, como eu previra, no fim da tarde! Por acaso, apenas foram alguns reflexos de uma chuvada que deve ter ocorrido, lá para longe, para sul...Apenas se sente a ressaca; o mar fortemente agitado, com vagas demasiado fortes!... Veio realmente dar um certo desequilíbrio à canoa, um mau estar... Há formações de nuvens negras também para Norte, noroeste... E, para sul, não sei se trarão chuva...Noutras bandas, vejo que algumas já estão a deitar chuva...Vê-se a escuridão.... Espero... só peço a Deus que a noite não seja chuvosa... 

De dia, ainda que chova, o tempo nunca é tão aborrecido ou desagradável como numa noite  chuvosa e fria. Depois do astro solar se despedir destas bandas –  sempre à mesma hora, ao nascer e ao pôr em qualquer altura do ano -  e ir oferecer a sua luz e o calor para outros quadrantes da terra, sim, logo que os azuis do céu e do mar, se toldam de penumbras e de sombras, todo o ambiente por cima de mim e à minha volta, se transforma num verdadeiro pesadelo de esquecimento e de tristeza.

A minha canoa – qual madeiro, ora balançando e cabriolando desordenadamente, sobre a crista das vagas - ora descaindo e rolando vertiginosamente pela vertente dos extensos montões líquidos por elas formados, até se despenhar nos abismos que sucessivamente se abrem pela cava das mesmas e de novo se erguer pela superfície abrupta e escorregadia das suas barreiras, como algo que desesperadamente se levanta ou tomba na vã tentativa de alcançar os céus, é, pois, já nesta hora de trevas e de solidão, um pontinho negro, perdido e ignorado do resto do mundo, vogando sem rumo, nem destino. Sem nada para comer, a minha vida agora não é mais de que uma torturante forma contemplativa de sobreviver. 

Anterior - S. Tomé- Nigéria 
Diário de Bordo 11 - Não  comi nada. Quer dizer, limitei-me a comer  uma das barbatanas do tubarão que tenho aí, como troféus. Tentei pescar  e não consegui pescar, absolutamente nada. Hoje, digamos, é um jejum limitado a água e alguns comprimidos, umas vitaminas. De resto, não pude arranjar mais nada, visto ter estado ocupado, quase todo o dia, com o remo, para dar a direção à canoa.

Já voltei a ver recortes da costa africana. Parece-me que  muito mais próximos. Portanto, espero que, amanhã,  finalmente consiga a minha aproximação. É isso que eu desejo.

Esta tarde falei  de que a água tinha uma cor mais clara, mais verde. De facto, nesta zona que eu ando, entre Fernando Pó e a Nigéria, as águas não são muito profundas. Por vezes a cor ilude, pois tanto está de um azul-escuro, como passa a um azul claro. Depende da claridade do sol. Portanto, eu devo ter sido iludido pela luminosidade solar.... A distância não é muita... De qualquer forma a cor, só mudará muito próximo de terra. Só as águas ribeirinhas. costeiras,  é que têm uma cor mais clara.
Está aqui uma ave ao meu lado... aí a um metro. Vou ver se lhe deito a mão... É um bocado difícil, porque ela é um bocado esperta...Vamos lá a ver se eu consigo apanhá-la.

SACRIFICANDO MAIS UMA AVEZINHA - QUE ERA SÓ ESQUELETO - TALVEZ DOENTE E CANSADA

Vinham pousar à proa e à popa
 Que Deus me perdoe! Mas a fome martiriza-me e torna-se-me numa avidez, quase selvagem, impossível de conter. Ainda se fossem muitas as aves, que pousassem na minha canoa, talvez até nem me importasse tanto, mas geralmente, apenas pernoitam umas duas ou três.Se calhar até são as mais doentes e cansadas do bando, que, por incapacidade física, procuram acolhimento na minha frágil embarcação, como último reduto. 

Este o fogareiro em que  assava as aves - Reduzidas a ossos
Travessia S. Tomé-Nigéria 13 dias
Quando fiz a viagem para a Nigéria, todas as noites pousavam perto de mim, algumas dezenas delas. De manhã, quando acordava, até parecia que viajava a bordo de um pombal ou gaiola de aves. Porque será que agora não pousam tantas?!... De certo, porque, contrariamente àquela viagem, me está faltando comida e,  elas, com o seu instinto de conservação, porventura ao aperceberem-se que as suas vidas, ao lado de uma criatura esfomeada, pudessem correr sério perigo, evitam-me. É capaz de ser por essa razão, sabe-se lá. Pois, ao fim da t

arde, eu bem as vejo passar por cima de mim, em grandes bandos Se calhar até são as mais doentes e cansadas do bando, que, por incapacidade física, procuram acolhimento na minha frágil embarcação, como último reduto.

Diário de Bordo  - 12 Tem piada que consegui apanhar a ave. Tenho-a aqui. Andava com a dar umas voltinhas e ainda apanhei em pleno voo... Ela está-me a morder, é brava!...Mas vai ser o meu jantar...Vou aproveitá-la imediatamente... Então!!...Estás chateada?!... Queres fugir?!...É gordinha, dá um jeitão...

Não havia maneira de pousar. Andava de um lado para o outro a sobrevoar a canoa e foi preciso deitar-lhe as mãos em pleno voo. Pelos vistos, estava a adivinhar  a sorte que a esperava. Coitadita!...Já está para ali morta e depenada a um canto, preparada para o dia de amanhã. Afinal, era magrita, tinha mais penas e ossos de que carne. Encheu-me todo cheio de piolhos. Pois, estas aves, são realmente muito piolhosas. Agora, andam-me aqui a incomodar pela barba e pelo cabelo. Era o que me faltava para me ajudar a passar melhor a noite...