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segunda-feira, 18 de novembro de 2019

O Poeta Manuel Daniel está hoje de parabéns! - Completa 85 anos

(contamos ainda editar  alguns vídeos)


MANUEL DANIEL! ESTÁ DE PARABÉNS! A VISTA JÁ NÃO LHE PERMITE VER A LUZ DO DIA, CAUSA-LHE PROFUNDAS LIMITAÇÕES MAS O CORAÇÃO DO POETA, CONTINUA INTENSO E ACORDADO, A REPARTIR AS SUAS RECORDAÇÕES, QUER PELA MEDA, SUA TERRA NATAL, QUER POR FOZ COA E POR OUTRAS TERRAS POR ONDE TEM PASSADO - Tal como me declarou na amável e honrosa entrevista que me concedeu, em Março de 201,  justamente no inicio da Primavera – Já editei alguns excertos de poemas, que nos leu mas hoje, neste dia tão especial,  não quisemos deixar de  divulgar outros dos comoventes palavras que lhe escutámos – Manuel Daniel, uma vida intensa e multifacetada: Advogado, Poeta, Escritor, Ensaísta, Dramaturgo e Jornalista: Um homem de cultura e de rara sensibilidade, muito querido e admirado, tendo dedicado muitos anos da sua vida à função pública e à vida autárquica.

Manuel J. Pires Daniel, nasceu em Vila de Meda (hoje cidade) em 18 de Novembro de 1934. Sem dúvida, um admirável exemplo de labor e de tenacidade, de apaixonado pelas letras e de sentido e dedicação ao bem comum – Nos seus livros, perpassam prefácios elogiosos, tanto pelo Presidente da Câmara de Meda, a sua terra, como de Vila Nova de Foz Côa, onde foi Presidente da Assembleia Geral, entre outras altas funções.
No texto de apoio ao 2º vídeo, que igualmente tencionámos divulgar, aproveitaremos para inserir as palavras do Presidente Eng Gustavo de Sousa Duarte, com que prefaciou o livro de poesia Chão de Areia, entretanto, deixamos-lhe aqui um excerto do elogio do Presente Dr. Anselmo de Sousa, escrito no prefácio do livro “Coração Acordado:
Manuel Daniel, ilustre medense. personalidade incontornável na história recente da Mêda, edita mais um livro intitulado de "Coração Acordado". Ainda recentemente, em Novembro do ano transacto, tinha lançado "Chão de Areia: poemas, texto e teatro", o que denota a sua polivalência e proximidade literária.
O Município de Mêda congratula-se com mais este projecto editorial, onde o autor expressa de modo inequívoco o seu profundo amor telúrico, as emoções que nutre pela terra que o viu nascer, considerando estigmatizado esse destino peta providência divina
Trata-se de mais um importante contributo de salvaguarda da nossa identidade e memória local. A sua voz, as suas palavras, congelam em livro a idiossincrasia e a peculiaridade do nosso concelho, valorizando o nosso fundo documental, enriquecendo a nossa história local.
Nos seus poemas faz a apologia da Mêda, não se coibindo de recorrer aos mais belos recursos e artifícios estilisticos, não se esquecendo de enaltecer e de homenagear personalidades que já não estão entre nós, salientando as suas virtudes e benfeitorias, o seu desempenho meritório em prole da sua Terra, no exercício da cidadania.
(...) Sem dúvida, que o autor nos deixa mais um valioso testemunho que será prorrogado pelas gerações vindouras. A sua benignidade, o seu altruísmo, a sua generosidade e a sua competência literária merece todo o nosso reconhecimento.
Dr. Anselmo de Sousa, Presidente da Câmara de Meda.

HOJE SEUS OLHOS JÁ NÃO PODEM CONTEMPLAR A LUZ DO DIA  - ESTÁ COMPLETAMENTE CEGO  -  Os seus belos versos fazem parte das tradicionais celebrações evocativas nos Templos do Sol   - São indispensáveis.

MANUEL DANIEL –  UMA VIDA INTENSA E MULTIFACETADA – ADVOGADO, POETA, ESCRITOR, DRAMATURGO E O HOMEM AO SERVIÇO DA CAUSA PÚBLICA

 A sua vida tem sido pautada pela dedicação mas também pela descrição. Atualmente, debatendo-se com extremas limitaçoes da sua vista, por via de ter ficado completamente cego, no entanto, pese tão dura limitação, nem por isso a verbe do poeta se esgota  e, dentro do que lhe é possível, com apoio amigo da família, lá vai compondo os seus versos e editando livros.  Em cujos poemas  perpassa o que de melhor têm a poesia portuguesa -  Domina com mestria os mais diversos géneros poéticos e neles se expressa, a par de um  profundo sentimento de religiosidade, o amor à terra, à natureza, aos espaços que lhe são queridos,  suas inquietações e interrogações, sobre a efemeridade da vida  e o destino do Homem - Em Manuel Pires Daniel, não há jogo de palavras mas palavas que vêm  do coração, que brotam  naturalmente, como água da  melhor fonte, que corre das entranhas  do xisto ou do granito da nossa terra.


Um coração de poeta, muito admirado e querido, onde a sua obra literária que é numerosa e perfeita, é reconhecidíssma, em todos os géneros literários em que se tem expressado, perfeitas maravilhas de naturalidade , de graça, finura e sensibilidade, que encanta, sorri e toca profundamente quem glosa a sua poesia ou a sua prosa.

O paisagista inspirado, por genuíno temperamento de artista, que soube conservar e realçar todo o encanto da graça virginal da alma campesina e do realismo forte destas terras; o panteísta nato que extasia e enche de ternura, de empolgante enlevo e emocionante saudade, o espírito de quem o lê, sulcado por emoções, lavradas por suave harmonia e o doce e inebriante perfume de terra virgem, plena de misticismo e de mistérios sedutores e fecundos

O autor dos maravilhosos espectáculos rurais e da natureza envolvente, que mais terão impressionado a retina dos seus olhos, enquanto a mesma não foi toldada pelas trevas do fatalismo cruel da cegueira, com a qual tem agora de conviver as 24 horas do dia, valendo-se da memória, mas que, mesmo assim, tão minuciosamente continua a descrever, entremeando-os de episódios encantadores e de uma saudável originalidades bem genuína

Solstício do Verão - Ainda seus olhos podiam ver a luz do sol


Em boa verdade, Manuel Daniel, conquanto não tenha almejado a notoriedade do filho mais ilustre de São Martinho de Anta, inveterado calcorreador e peregrino por vales profundos, montes de vertigem, de perfis e recortes alcantilados e xistosos ou de natureza rochosa, trepando por penedias graníticas deslavadas e cinzentas, sim, levado por irresistível curiosidade de descoberta, imbuída por irrecusáveis amores e tentadoras paixões cinegéticas, sim, embora mais dado a uma outra contemplação mais serena e menos aventurosa, do que a do inconformista e viajante por brasis e distantes paragens, há, no entanto, entre ambos os poetas, grandes afinidades humanistas e de inquietude sociais nos mesmos palcos agrestes das terras beirãs e transmontanas, na cosmologia geográfica e transcendental de um mundo rural de injustiça e dureza, mas também de encanto, de misticismo e sublimidade 





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Natural de Meda mas que tem passado grande parte da sua vida em Foz Côa- Actualmente, debatendo-se com problemas invisuais, que, desde há algum tempo, têm limitado a sua independência mas não a sua criatividade, visto ter já no prelo mais um novo livro - Que vem juntar-se a mais de dezena e meia de obras que publicou, nos vários géneros literários

Assim Deus o pensou. E assim marcado
 ficou o meu destino certo dia.
Neste recanto sobre tudo amado,
neste vale de lágrimas gerado,
a luz forte da vida me sorria.

E docemente os olhos se me abriram
 e amorosamente os mais sentidos,
de tudo se apossando, descobriram
as mesmas maravilhas que outros viram
nesta terra de heróis desconhecidos

Terra de homens da terra, de grandezas
feitas de mil virtudes amassadas,
vivem comigo as suas incertezas,
as suas alegrias e tristezas
e a beleza das suas madrugadas.

Vive nas minhas veias o seu mundo
 feito de luta a cada hora incerta
e pressinto o seu querer forte e profundo,
mar de vontade firme em que me fundo
numa nova e continua descoberta.

Gente feita de sangue e nervo e aço.
Alma feita de sonho e de luar.
A semente é um gesto do seu braço,
como o sonho é o germe do espaço
que se há-de possuir e cultivar.

Mais alto do que a dor sobe a esperança.
 Mais alto do que a Morte sobe a Vida.
É por isso que a alma se nos lança
na aventura maior e se abalança
à conquista da terra prometida.

Tinha que ser aqui. Tinha que ser.
A alma que possuo, grande e forte,
 tinha que se formar, que se fazer
à semelhança desta - de nascer
entre a força da Vida e a da Morte.


O Douro Maravilhoso e Agreste, que Miguel Torga poetizou e cantou, é também, a seu modo, o de Manuel Daniel, com quem tivemos o prazer de nos reencontrarmos, recentemente, no seu escritório em Foz Coa, no coração da cidade, junto ao largo do velho pelourinho, do edifício municipal e da igreja matriz, onde, durante vários anos exerceu o oficio de conceituado advogado, a par da sua devoção à causa pública, mas onde agora só vai, pela mão da esposa, filhos ou netos, mais por uma questão de quebrar a rotina e de não perder de todo os laços ou vínculos, com um espaço, onde deu o seu apoio jurídico a muitas pessoas, onde recebeu muitos amigos e onde, nos momentos mais disponíveis e inspirados, aproveitou para escrever alguns dos seus belos livros, sim, foi justamente a meio da tarde, dois dias depois de termos celebrado o equinócio da Primavera, nas tradicionais celebrações aos ciclos da natureza, nas quais também chegou a dar-nos o prazer de colaborar, sim, que amavelmente ali nos recebeu e nos recordou o fascínio que o Douro Maravilhoso, lhe transmitiu na sua vida e na sua poesia, da obra literária, que tem já no prelo, pestes a editar, assim como das recordações que guarda dos encontros que teve com Miguel Torga. -


MANUEL DANIEL - NUMA HOMENAGEM AO POETA FERNANDO ASSIS PACHECO - No Solstício do Verão de 2011 - Na Pedra dos Poetas - Nessa altura, seu olhos ainda podiam contemplar os  largos e belos espaços onde aqui ergueu a sua voz


O HOMEM PERANTE O UNIVERSO   - 23/06/2011 No fundo, com tudo isto, nós queremos interrogar o Universo para saber quem somos e o que fazemos aqui. Em todo este esforço à volta da contemplação do sol, do fenómeno da vida e dos movimentos dos astros, em tudo isto há uma interrogação latente: que é o homem que se está a perguntar a si mesmo, quem é ele e o que faz sobre a terra. Queremos saber através destas celebrações, ainda que o não pensemos, a nossa total identidade” Palavras do Dr. Manuel Daniel, pronunciadas, há dois anos, na abertura do colóquio “Os Templos do Sol “ – É justamente com o objetivo de refletirmos nestas mesmas interrogações, que hoje aqui estamos de novo a celebrar o Solstício deste Verão e prestarmos justíssimas homenagens a quatro figuras admiradas no nosso concelho e na  nossa região – Obviamente, que há outras que mereciam igual destaque – Mas, se Deus assim o permitir, não deixaremos de o fazer em próximas celebrações.

OS OLHOS JÁ  NADA VÊEM MAS O CORAÇÃO CONTINUA ACORDADO   --

Pese o facto dos seus olhos já não poderem contemplar a luz e a beleza que o inspiraram a escrever os mais belos poemas, tendo como temas os costumes da terra e das suas gentes, mas também os valores pátrios, religiosos   e  de pendor universal, sim,  pensámos que os demais sentidos, reforçados pela sua fé e determinação inabalável pela paixão da escrita e pelo gosto  da vida, continuarão, certamente, ainda mais sensíveis, para poder ir ao fundo do baú da sua memória e poder continuar a brindar-nos  com os seus excecionais dotes literários, desde o teatro, à  poesia e à ficção  - Obviamente que uma tal tarefa, além de só ser possível com o amparo da esposa, dos filhos e netos, que nunca lhe negaram o indispensável carinho e apoio, naturalmente que exige um esforço hercúleo a quem contraia a cegueira adulto: a vida espiritual, por certo, se intensificará mas as limitações físicas, vão-se tornando num calvário que só Deus e quem leva essa pesada cruz,   compreenderá o drama na sua verdadeira extensão.




Em "Cem Poemas Portugueses sobre Portugal e o Mar" - Aqui se juntam cem poemas sobre o Portugal e o Mar, entidades indissociáveis  ao longo de séculos de história  e de poesia. O melhor do que somos e do que fomos passa pelo nosso património poético  e não se deixa afogar em modas, crises ou tiques de ocasião. O  mar  e o Portugal de que estes poemas falam não  tem prazo de validade , Só prescrevem quando a nossa identidade prescrever, e talvez ainda falte um mar inteiro para que  isso aconteça. 
Este é e pretende ser um livro sobre o Portugal de hoje de sempre


Na Pedra dos Poetas - Em 2003 - Na altura em que ainda podia andar e ver


 
Manuel J. Pires Daniel, nasceu  em Vila de Meda (hoje cidade) em 18 de Novembro de 1934. Sem dúvida,  um admirável exemplo de labor e de tenacidade, de apaixonado pelas letras  e de sentido e dedicação ao bem comum. Mal concluiu a instrução primária, ei-lo a fazer-se à vida  -  Tinha então onze anos. Era ainda uma criança mas já tinha que começar a pensar no futuro. Tem sido uma vida intensa e preenchida.

A partir dos 20 anos de idade , propôs-se  e fez os exames do ensino secundário e frequentou, como voluntário, o curso de 1973-1978 da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, por onde veio a ser licenciado.

Advogado, escritor, poeta,  estudioso, um homem de cultura, tendo dedicado muitos anos da sua vida  à função pública e à  vida autárquica.  A par de vários livros de poesia,  colaborações de artigos e poemas na imprensa regional e nacional, bem  como em jornais brasileiros,  prefácios e a coordenação em várias obras, é também autor de 40 peças de teatro, nomeadamente para crianças, 20 das quais ainda inéditas. Muitos dos seus poemas foram lidos por Carmem Dolores e Manuel Lereno, aos microfones da extinta Emissora Nacional, em “ Música e Sonho”,  de autoria de Miguel Trigueiros – Considerado, na época, o programa radiofónico mais prestigiado  - Mesmo assim objeto de exame censório, tal como atestam os arquivos.

Mas  não menos relevantes são as letras que vêm a ser musicadas e gravadas  em discos e cassetes,  Interpretadas por  Ramiro Marques, em EP nas canções   “Amor de Mãe” e “Amor de Pai”, pela Imavox, em 1974 – E, também, anos mais tarde, as letras para um “Missa da Paz” e coletâneas temáticas sobre “Natal e Avós” E, com  música de Carlos Pedro, as “Bolas de Sabão”, “Ciganos”, “Silêncio” e outros pomas.

Manuel Daniel, depois de breves passagens por Pombal, S. João da Pesqueira e Reguengos de Monsaraz ,  em 1971, fixou-se na cidade de Vila Nova de Foz Côa, que adotou de alma e coração,  Grande devotado à vida municipal e ao estudo e divulgação do património cultural e histórico das nossas gentes, personalidade bem conhecida no nosso concelho e na região. Tendo o município fozcoense,  do qual foi Presidente da Assembleia Municipal, durante 12 anos,  e, durante 23, na qualidade de  provedor da Santa Casa da Misericórdia, lhe atribuído o  “ Diploma de Mérito”  - Distinção inteiramente merecida e aprovada por unanimidade.

Indubitavelmente, se há homens que dedicam a sua vida à causa pública, com total entrega, honestidade, inteligência e dedicação, Manuel Daniel, é um desses raros exemplos – Sim, então  num tempo em que vão escasseando exemplos dignos de referência: ele pode olhar para o seu passado, com orgulho e de cabeça erguida - Numa longa carreira, com desempenhos  nas tesourarias e repartições de Finanças da Meda, Pombal, S. João da Pesqueira, Reguengos de Monsaraz, Vila Nova de Foz Côa e Guarda, culminando como dirigente superior da Direção Geral do Tesouro, no Ministério das Finanças, onde foi responsável pelos serviços técnicos e financeiros das Tesourarias da fazenda Pública.

A par da sua vida profissional, foi ao mesmo tempo desenvolvendo o gosto pela literatura – Lendo as obras dos melhores autores, escrevendo poemas, contos e peças infantis e manifestando o seu apego ao jornalismo: iniciou a suas primeiras colaborações, em 1954, em “Luz da Beira”,  jornal de Meda, a sua terra natal, que ajudaria também a fundar,  colaboração que manteve durante 20 anos, creio que até à sua extinção.  Nesse recuados anos, estendeu ainda o seu contributo jornalístico aos jornais a ”Palavra”, de Reguengos de Monsaraz – 1964-1968. Em Moura, colabora com a “Planície”- 1961- 1962. Posteriormente, já com residência em Foz Côa, publica vários artigos na “Coavisão” edição do município. Foi colaborador da “Capital” e um dos mais considerados e ativos colaboradores do jornal “O Fozcoense”

Manuel Daniel, é casado com Alice Daniel, pai de dois filhos: do Dr. João Paulo Daniel,   o guitarrista do extinto grupo Requiem Pelos Vivos, bem como Eng.Pedro Daniel,   Eng.º Pedro Daniel, dinâmico  Coordenador e Técnico da empresa Fozcôactiva, ambos ligados de coração e alma por Foz Côa, à semelhança dos seus pais.


Odisseia no Golfo da Guiné - 29ª Dia - Acordei de noite a falar supondo que estava em terra


Algures no Golfo da Guiné, 18 de Novembro de 1975 - Há 44 anos


"Bem  sei que estou endoidecendo.
 Bem sei que falha em mim quem sou.
 Sim, mas, enquanto não me rendo.
Quero saber por onde vou"
 Fernando Pessoa - 15-9-1934








José Afonso - "Canção do Mar" do disco "Cantares de José Afonso" (1ª edição, EP 1964) 
 

"MAR PORTUGUÊS"

"Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
" -  Fernando Pessoa


MESMO QUE NÃO CHOVA A CANOA METE SEMPRE ÁGUA POR ALGUMAS FISSURAS E PELA CARLINGA, ALÉM DE ALGUMAS VAGAS QUE A TREPA- Diário de Bordo - 5  -Eu ainda não fiz referência à noite passada: passei uma noite todo encharcado! Envolvido num plástico mas por fim até adormeci e sonhei..Sonhei e tive uns sonhos muito esquisitos, acordei a falar!...Supondo que tinha chegado realmente a terra. Tive assim  sonhos muito esquisitos...


Diário de Bordo  - 1 É manhã  do 29ª dia. Ainda não tive tempo de comer qualquer coisa. A manhã amanheceu brusca. De noite não choveu. Não há sol. Está um tempo enevoado e há um vento  no sentido de oeste este. 

Coloquei a vela para tirar partido deste vento, que parece estar a dar resultado. Veremos como é que será o dia de hoje....Aliás, já avistei contornos de África, desde ontem e se não fosse o tornado, com certeza que estaria já muito próximo, pois o tornado é que veio desfavorecer a minha aproximação.

Diário de Bordo  - 2 Devem ser aí umas 9.30 a 10 horas da manhã do 29º dia. Já tive que enfrentar mais uma trovoada; não muito violenta mas que me deu bastante trabalho. Agora volta a estar mais calmo, volta haver calmaria. Não há muito vento. embora o mar se apresente com uma ligeira ressaca...Veremos até quando isto vai durar...

 Diário de Bordo  -3  É provavelmente meio-dia do 29º dia. A manhã esteve bastante trovejada, choveu! A canoa ficou toda alagada!...Agora está enxuta e já volta haver uma certa calmaria. Não há vento. O céu está nevoado... Sinto fome!... Comi um bocado de tubarão mas sinto fome!...O tubarão sabe-me mal... Sinto uma certa fraqueza...

Meu Baú - Caixote do lixo onde guardei o gravador e máq. fot.

Voltei a ver a Ilha de Fernando Pó no horizonte. O horizonte ficou descoberto depois da chuvada e avistei ligeiros contornos da costa de África.... 
Entretanto, depois da chuvada, estive a fazer uma limpeza da canoa. Deixei-a limpa, sem água  e pus a roupa a enxugar. A canoa, neste momento, está um estendal autêntico! Com tudo a enxugar!... A aguardar, com certeza, outra chuvada (sorrio), que entretanto é capaz de aparecer.

Âncora flutuante
Apesar de todos estes trabalhos. De todas estas dificuldades, sinto-me otimista neste momento. Embora fraco e cheio de fome... Não consigo pescar. tenho deitado o anzol mas não pesco nada. Quando não precisava, eu pescava; agora não consigo. Mas estou otimista. Espero chegar a terra...Hei-de chegar a terra! Pois sinto uma esperança em mim; não estou desiludido...Apesar dos perigos a que me tenho exposto serem muito grandes...

 Os meus tubarões martelo continuam a guardar a canoa...Os outros, por enquanto ainda não apareceram.



Diário de Bordo  - 4 Serão neste momento umas quatro horas da tarde do 29º dia. A tarde tem estado muito serena. O mar apresenta-se ligeiramente ondulado. O céu coberto com uma ligeira neblina. No horizonte há nuvens que o limitam mas onde posso vislumbrar outros contornos da costa africana...Não totalmente, mas já se vislumbram perfeitamente, quer para norte quer para noroeste. Vê-se também a Ilha de Fernando Pó. Claro que só a parte mais alta... A Ilha de Fernando Pó (Bioko, situada na Baía de Biafra ) é muito alta. Tem picos com mais de 2000 metros de altura (Pico Basilé – com 3011 m de altitude).

 Passei a tarde a ler...Claro que tenho fome, evidentemente, mas procuro esquecer esse aspeto, ouvindo rádio...Música africana... Estou a ouvir rádio, enfim... a divagar.

Diário de Bordo  - 5 É já o fim de tarde do 29º dia. Passei uma tarde calma. Agora a minha preocupação começa a estar precisamente no local  onde irei aportar...Não sei...Será um local habitado?!...Pode ser desabitado...Enfim, o que me interessa é que seja terra, fundamentalmente, é que seja terra! Local seguro... Porque, em terra, há sempre muitas possibilidades de sobrevivência...Aqui, estou exposto  às tempestades... O que realmente me põe a vida em grande perigo...Portanto, estou com a moral bastante elevada, apesar de não comer...Tenho ali um resto do tubarão mas já cheira mal...Não estou desmoralizado de maneira  alguma. Estou até bastante e otimista.

 Eu ainda não fiz referência à noite passada: passei uma noite todo encharcado! Envolvido num plástico mas por fim até adormeci e sonhei..Sonhei e tive uns sonhos muito esquisitos, acordei a falar!...Supondo que tinha chegado realmente a terra. Tive assim  sonhos muito esquisitos...

Neste momento olho para o mar...Vejo o olhar para o mar sereno. Calmo! A cor é uma cor bronzeada. Agora não o receio ...Ontem eu estava realmente muito preocupado! Dizia-lhe: ó mar ! Tu não me leves! Ó mar não me voltes a minha canoa!..Eu quase falava com o mar...Realmente, ontem, o mar estava pavoroso.

À medida que o tempo ia passando, as vagas fortes iam avançando contra a canoa!...Eu via que a canoa, apesar dessas impetuosidades não se virava! Eu ia ficando mais tranquilo!...Mas sempre à espera!... À espera que alguma vaga mais alterosa, com maior força, me pudesse voltar a canoa...Eu não tinha qualquer hipótese!...Vi um tubarão grande! Enorme! Ás voltas da canoa. parecia que estava adivinhar que a canoa se ia voltar!...Mas isso, felizmente, não sucedeu! Não sucedeu!... Porque, eu apesar de tudo,  também mantive a minha calma! Fiz tudo por tudo por enfrentar a situação...Sim, realmente, uma pessoa nestas condições, nunca pode cruzar braços!...O nosso cérebro tem que estar sempre a pensar! Sempre a pensar!...Sempre a pensar em novas coisas!... Em poder  dispor dos modestos recursos precários que tenhamos connosco.. Essa deve ser a preocupação dominante.


Diário de Bordo  -6 Já se pôs o sol, do 29º dia. Finalmente, estou muito satisfeito! Em dois ou três minutos, acabo de pescar dois peixes! aqui debaixo da canoa...Arranjei outro anzol e consegui, num ápice, pescá-los! Vou pois assá-los, com um bocadinho de álcool que disponho...Já não preciso do tubarão...O tubarão está estragado e já o posso deitar fora.É da maneira que já não vou passar dieta!...Ah! eu tinha aqui o estômago a bater horas!...

Diário de Bordo  -7  Neste momento é já noite. Aparece ali a lua-cheia à minha frente!...Mas, tenuemente, visto  fazer uma certa neblina... Confesso que estou satisfeitissímo! Os dois peixes souberam-me que nem um pato!...Comi a carne deles crua e gostei! Gostei realmente!...E cheguei à conclusão que é melhor crua de que assada em álcool. Os dois peixes deviam pesar aí 200gramas. A carne era saborosa! Tinham a pele muito dura e foi preciso esfolá-los primeiro. Portanto, o novo anzol resultou. Aliás, eu insisti várias vezes, pois os tipos, cada vez que lançava o anzol, iam à procura da isca, comiam-na e não fiavam lá... Finalmente caíram!

A noite apresenta-se plácida! Absolutamente serena! O mar é um mar chão! Não há vento nenhum. Mas também não há calor...Corre uma ténue aragem apenas..

.Eu devo estar muito próximo da costa de África...Estão a reluzir os contornos...Por este andar, amanhã devo estar muito próximo, a menos que apareça alguma trovoada a puxar para outro lado....Mas não deve haver esta noite ou amanhã, com certeza, porque hoje não fez sol. Hoje o dia esteve brusco...Portanto, não houve evaporação... É capaz de não haver nenhuma chuvada! E, se houver, é muito fraca...Normalmente as trovoadas seguem-se a quando há períodos  de sol... Aparece logo uma trovoada ou um tornado.

Daqui a pouco vou-me deitar no fundo da canoa... O estômago é que não ficou assim muito bem...Estou satisfeito mas o estômago, com esta dose de carne, que não estava habituado... 
Tenho ainda ali um bocado do tubarão, que já está estragado, mas só o guardo para iscas para apanhar outros peixes, porque já não presta; já não está muito bom....Estou mais animado, visto estar próximo de terra e também por poder dispor  de peixe aqui à volta de mim.
 Tinha  dado tantas voltas à cabeça...Tinha inventado tantos processos!... Pus um anzol num pau. Experimentei tanta coisa e não resultou...Finalmente, lá encontrei um outro anzol mais pequeno e a coisa com esse anzol deu mesmo efeito. E ainda bem!... E que o mar fosse sempre assim...Com esta calma, com esta aparência tranquila...Ah! era muito agradável!... Mas o mar de vez em quando mostra a sua face!...O mar tem muitas faces...Uma face serena!..Suave!...Ondulante!..Depois, grave!...Violenta! Tempestuosa! Essa é que é a face mais dura!...Escura!... Torrenciosa!... Agora a  noite no mar ... mantém-se  plácida... A canoa, claro,  desequilibrada, está sempre a tombalear, o que é bastante chato, visto ter esse defeito. Se não fosse isso a coisa era melhor.

Há um pormenor muito importante que ainda não registei: é  que eu tenho medicamentos a bordo..Tenho vitaminas... Claro que isso não dispensa a comida mas dá muito jeito. E isso graças à boa colaboração  do Dr. Epifâneo da Franca. Que me resolveu  realmente um grande problema...Até para a água doce...Quer dizer, eu apanhei água das chuvas.. Ele tinha-me arranjado um preparado químico, com o qual podia fazer água potável. E isso deu resultado. E ainda bem que contei com essa preciosa ajuda.

Cada um à sua maneira -  Os sonhadores chegam a ser revolucionários - Não é assim ó grande Che?...  - "Lutam melhor os que têm belos sonhos."- Tu com os teus, eu com os meus

Fui marinheiro mas também o poeta do sentir.
Quis sentir, com todos os meus sentidos e até à flor da pele
e à flor do oceano - olhos, língua, olfato, estômago, veias e tato,
na brisa marítima que respirei e na própria água salgada que bebi,
no deslumbramento das tardes serenas e noites plácidas de luar
ou mesmo no assombro da fúria das tempestades que vivi
- sustos, inquietações que o meu coração ainda hoje perpetua - 
 todas as emoções possíveis e imagináveis - E entendi
que só  nos horizontes esbatidos da imensidão do mar,
perdendo-me livremente à superfície  das suas vagas,
no contínuo enrolar das soltas ondas, sobre a crista
ou no fundo da sua cava, as poderia sentir e encontrar.



"Ah, quando nos fazemos ao mar

Quando largamos da terra a vamos perdendo de vista.

Quando tudo se vai enchendo de vento puramente marítimo,

Quando a costa se torna uma linha sombria,

Nessa linha cada vez mais vaga no anoitecer (pairam luzes) -

Ah então que alegria de liberdade para quem se sente.

Cessa de haver razão para existir socialmente.

Não há já razões para amar, odiar, dever.

Não há já leis, não há mágoas que tenham sabor humano...

Há só mar a Partida Abstracta, o movimento das águas.

O movimento do afastamento, o som

Das ondas arrulhando à proa,

É uma grande paz intranquila entrando suave no espírito."


Álvaro Campos (Fernando Pessoa)


"Sente-se palpitar o coração do Oceano

Que pela lua tem um coração humano.

(...)

E nas correntes d'ar que as ondas arrefecem

Vibram as sensações que os nervos estremecem
Teixeira de Pascoaes