expr:class='"loading" + data:blog.mobileClass'>

sábado, 2 de maio de 2020

Escura é a noite, escuros os caminhos dos mares e dos céus que se me abrem em todas as direcções....E também escuros serão certamente os caminhos que me conduzirão a Deus...


 Vou indo à deriva, sereno e grave, sem precisar de ninguém  Pois, mesmo que precisasse, ninguém me estenderia a mão!  Atento e indiferente - Vestido com as vestes da nocturna solidão 

Jorge Trabulo Marques
Não a receies a solidão!...Bem-vinda sejais!.. Recordando minha odisseia 38 dias à deriva numa canoa no Golfo da Guiné


 



(...)Escura é a noite, escuros os  caminhos dos mares e dos céus
que se me abrem em todas as direcções....E também  escuros
serão certamente os caminhos que  me conduzirão a Deus...
 Vou indo à deriva, sereno e grave, sem precisar de ninguém
Pois, mesmo que precisasse, ninguém me estenderia a mão!
Atento e indiferente - Vestido com as vestes da nocturna solidão.
Absorto com a crua verdade transfigurada do  assombro!
As trevas adensam-se na atmosfera e, por tão habituais,
quase  já não me impressionam, não me comovem.
Fazem o seu percurso. Eu  vou no seu seio mas não sei bem qual é o meu...
Sim, as sombras estão por todo o lado e também invadem o meu coração!
- Vagueio sem destino  com a coragem e o medo que ainda não sei vencer.
Não recuo a nada....Porque, enquanto tiver algum medo é sinal de que vivo....
Vou indo com o soooar do mar! Com o mar que soa! Com o mar que brâaame!..
Vou indo, derivando com o mar que voa!... Com o mar a bramaar!

 





Sou o cavaleiro andante sonhando acordado!... Sonhando cavalgando
este vasto largo, neste imenso mar!... Sonhando e cavalgando o mar..
porque, ao sonho, não há limites nem barreiras
e a noite acompanha-me nos meus sonhos,
os astros estão ocultos, longínquos e escondidos,
o silêncio foi submerso pelo rugido do vento e do mar,
só a roupagens da noite, as tenho por  únicas companheiras!..

Mas, ó  piedade impiedosa dos céus!..
Nenhum sinal de vida! Ninguém...Vivalma!
Só as vagas.... e atrás das vagas, outras vagas ainda!
O vento soluça e geme. Perpassa-me pelos ouvidos
como um fino acorde - Estou envolto nele.
Sonâmbulo abandono o meu, estranha vida!...
Onde irei numa noite de breu assim?!.. A que distância
haverá um porto de abrigo?!... As nuvens correm
sobre a minha cabeça, galopam enroladas e escuras!..
Quase me esmagam e sufocam!.. Em que ponto
do mar ou do céu poderei pousar o meu olhar?!..



Bravio deserto! espectral cenário! - Estranha e cruel beleza!
Quem se compadece de mim?!... Tão prolongado já vai
o sofrimento, a angústia que me aplaca e não se esvai,
que, de tanto penar neste deserto varrido e sombrio
e, dos céus cerrados, vir somente a indiferença e a frieza,
sim, tamanha já  é a minha dor, a amargura intensa que não se me apaga,
que, esta contínua incerteza, este permanente amargo sofrer,
este   resignado sentimento que me fustiga e perturba,
se transforma, simultaneamente, não só em persistente dor
mas também num misto de sereno e doce contentamento!
Como se eu fosse - mesmo diluído e  errante como as sombras-
O Deus de mim próprio e das escuras névoas, o meu próprio Criador!

É o vento, são as vagas!
Há um marulho que tumultua, se levanta e uiva.
Soergo-me ajoelhado, tímido levanto o húmido oleado
com que cubro a piroga, envergando ainda a capa com que durmo, debruço-me sobre a  frágil borda,
espreito por uma nesga o que vai lá fora,
olho a noite de olhar turvo e arregalado
para descortinar o que vai ao largo....
É o fuzilar de relâmpagos e mais relâmpagos
a rasgar negridão. Fico preocupado…
Além dos sinistros raios a incendiar o mar, além de mim,
nada mais  ouço que o uivar do vento e, nos confins, agora o trovão!
Nada mais enxergo que manchas difusas!
Vultos disformes! …Vultos montanhosos!
E, atrás desses vultos, alterosos e escuros, outros maiores se enrolam!
Ameaças fugidias sobre a imensa e negra vastidão!....
Em vão perscruto o denso horizonte,
a ondulante massa que  meus olhos cega e turva...
Em vão, neste  longo tormento, nem a lua
nem as estrelas, dão sinais da sua existência.
Só farrapos de penumbra!... Espessas névoas
que pairam à superfície  lívida e líquida!
Novelos fantasmagóricos, baixos e fugidios
que se movem como se fossem navios fantasmas!..
Nenhum raio de luz vem do alto!.. E, no entanto,
as águas enrolam-se e refletem um brilho baço!
 Não há uma aberta, um  assomo de claridade!..
Por isso, sinto-me agora mais triste, sozinho e abandonado!
Imerso numa paz podre e angustiante, tendo por cenário,
um quadro que tem tanto de sombrio, como de horrível e belo!
Traz nas pastosas vagas que se revolvem e quebram ao meu lado,
ameaça iminente de mais umas longas e atribuladas horas de vigília! 
De sono perdido, enfrentando as sucessivas investidas!
Que nunca se sabe donde vêm e donde partem!
O que eu sei é que o ambiente do mar
e da noite se altera, as vagas encrespam-se!
Quando é de dia, vê-se donde vêm as ameaças!
Porém, quando à escura  noite, sobrevém o tornado
ou a tempestade, tudo é medonho!...- Não há palavras!..

Excerto de SÓ O MAR A BRAMAR

Jorge Trabulo Marques

Nenhum comentário: